27 February 2021


(sequência daqui) "The Land of Cockayne is one of the oldest English utopias, even pre-dating Thomas More. For the feudal and downtrodden peasant class of the Middle Ages, troubadours singing of Cockayne offered a compensatory vision of unimaginable plenty without effort; where unending physical and gastronomical pleasure was on tap and no punishment was meted out for laziness. 'The Big Rock Candy Mountain', a song originally collected in the 1930s by John Lomax, updates Cockayne for the Great Depression's discontents. Fittingly, the song as recorded by Burl Ives in 1949, was one of the first singles in the new Americam 'folk guitar' idiom to hit the big time back in the Old Country. The hobo's paradise where 'there ain't no short-handed shovels, no axes, saws, or picks... where you sleep all day, where they hang the Turk that invented work' is a post-industrial iteration of utopia that sounded mighty fine to a grey, somber Britain licking its war wounds" (Rob Young - Electric Eden/Unearthing Britain's Visionary Music) (segue para aqui)

Harry McClintock - "Big Rock Candy Mountain" (de O Brother, Where Art Thou?, de Joel e Ethan Coen, 2000)


(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)
VINTAGE (DLIX)

Nico & Marc Almond - "Your Kisses Burn"

"Nico was a mysterious figure, enigmatic with that great musical and artistic connection to The Velvet Underground and Warhol, which were things I was obsessed about at school. And of course that wonderful intriguing voice, icy and remote yet warm at the same time. She made a sound I’d never heard before - maybe some sort of a gothic punk Marlene Dietrich. The first time i heard her music was with The Velvet Underground, but I bought Desertshore, The Marble Index and The End and liked them more. There was also her musical association with Brian Eno, which made her more intriguing" (aqui)

25 February 2021


(sequência daqui) "A comensalidade cocaniana é símbolo de relações sociais livres e igualitárias. Liberdade e igualitarismo que se manifestam também no plano sexual, estabelecendo uma certa identidade entre consumo de carne animal (alimentação) e de carne humana (sexo). (...) A comunicação entre os habitantes da Cocanha ocorre através da cumplicidade no excesso alimentar e sexual, através do parentesco entre os pecados da gula e da luxúria, denunciados pela teologia da época. (...) Realmente, na Cocanha, cada um, homem ou mulher, pode satisfazer seus desejos com quem lhe agrade e "Assim, uns fazem a felicidade dos outros". Quando (...) se fala que, na Cocanha, "todo o dia é belo como em Maio", reforça o clima de sensualidade do país, pois, para a cultura folclórica, aquele é o mês do amor. Para uma civilização agrária como a medieval, a Primavera estimula a alegria, revigora a sociabilidade. Redesperta a sensualidade. Coloca a excitação no ar. "No belo mês de Maio, cada galante muda de amante", afirmavam as canções trovadorescas" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 3; segue para aqui)

Cocanha en Barcelona (ver aqui e aqui)
O momento de glória (por proximidade) do pasquim direitolas online (ah e tal, foi sem querer)
VINTAGE (DLVIII)

Cocteau Twins - "Pearly Dewdrops' Drops"

24 February 2021


(sequência daqui) Tinha-a entrevisto num álbum dos Watersons mas encontrou-a junto do mestre Stanley Robertson – cigano de Aberdeen, sobrinho da lendária Jeannie Robertson de quem herdou o reportório tradicional – e da também cigana Freda Black (não espanta, pois, que, num episódio da extraordinária série Peaky Blinders, tenha aparecido como cantor num casamento cigano). De ambos, aprendeu “o que realmente significa habitar uma canção e como permitir que a música nos guie”. Exactamente o que acontece quando "Turtle Dove" e "Soul Cake" se deixam exaltar nas vagas orquestrais buckmasterianas do ex-Suede, Bernard Butler, quando Liz Fraser (Cocteau Twins), furtivamente, com "Wild Mountain Thyme", alimenta o crescendo de "The Moon Shines Bright", e quando, em todas, a voz de Sam Lee – algures entre os dois Buckley, Tim e Jeff, com Christy Moore na memória –, altiva mas reverente, declama o passado como quem inventa o futuro.
 
Cabane - "Wooden Home" (feat. Bonnie "Prince" Billy & Kate Stables)
 
 (daqui)
 
"O Thomas ocupou-se sozinho de tudo. Pôs todo o seu corpo e alma neste projecto. Não é o género de pessoa disposta a fazer cedências por isso, muitas vezes, passa abaixo dos radares. Foi um prazer trabalhar com ele, tem um talento enorme e é um grande amigo meu. Já agora, esteja atento: há-de ser publicado um outro álbum com versões de outros músicos das canções de Cabane" (Kate Stables, caída ao chão na sala de montagem)
A religião prejudica gravemente a sua saúde (VIII)

23 February 2021

E que tal um único brasão gigante em forma de guitarra portuguesa, concebido pela Vasconcelos como uma "assemblage" de grandes latas de sardinhas em conserva? Cada uma das latas poderia ser aberta e, lá dentro,  ler-se-ia um poeminha do vhm ou escutar-se-ia a ululante fadista Mariza em patrióticas hemorragias vocais
 
Uma coisa assim mas em bom
Fazi & Hiperson - "You Turn My Face to Another Day"

Ainda nem um mês depois, parece ser necessário voltar a recordar que o problema não é "as escolas" mas o aumento de circulação das pessoas, justamente naqueles níveis ("creches e pré-escolar já no início de Março, seguido do regresso faseado à escola dos alunos do 1.º e 2.º ciclo") mais numerosos e em que a maioria dos alunos não vai desacompanhada para a escola
A correcta abordagem científica
 
(via DT)

22 February 2021

Visões de luxúria (ou The Life and Death of an Espresso Shot in Slow Motion)

A ANTIGA RESSONÂNCIA
 

Cecil Sharp estava de visita ao amigo Charles Marson, em Somerset, quando se deu conta de uma voz que, ali perto, cantava. Era o jardineiro da casa paroquial (para tudo o que se seguiria, convenientemente chamado John England) que entoava uma melodia tradicional, "The Seeds Of Love". Sharp puxou imediatamente do bloco de notas e transcreveu a canção que, na mesma noite, a discípula Mattie Kay interpretaria, acompanhada por ele ao piano. Seria a partir desse momento, em 1903, que Sharp se transformaria na mais importante figura do "folk revival", enquanto recolector, divulgador e arquivista.

 
Muito justamente reintitulada "The Garden Of England (Seeds Of Love)" – John, o jardineiro, merecia a homenagem – é a canção que abre Old Wow, o terceiro e magnífico álbum do polivalente Sam Lee: ambientalista em inúmeras plataformas (ao lado da “Extinction Rebellion”, em Abril de 2019, inundou a Berkeley Square, de Londres, com o canto de rouxinóis), autor de programas de rádio na BBC, recolector, compositor e cantor folk, em demanda da “antiga ressonância, aquela vibração que se apossa das canções folk”. (daqui; segue para aqui)
O "Ur-Fascismo" (VI)

"7. Aos que estão privados de qualquer identidade social, o Ur-Fascismo diz que o seu único privilégio é o mais comum de todos, o de terem nascido no mesmo país. É esta a origem do 'nacionalismo'. Além disso, os únicos que podem fornecer uma identidade à nação são os inimigos. Assim, na raiz da psicologia Ur-Fascista está a obessão da conspiração, possivelmente internacional. Os partidários têm de se sentir assediados. O modo mais fácil de fazer emergir uma conspiração é o de fazer um apelo à xenofobia. Mas a conspiração também tem de vir de dentro: costumam ser os judeus o melhor bode expiatório, dado que apresentam a vantagem de estarem ao mesmo tempo dentro e fora" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

Dream Can - "Kill the Man"

(de Into Sparks - álbum integral aqui)

21 February 2021

Se, do passado, pode retirar-se alguma previsão do futuro, este projecto de superstição partilhada está destinado a um enorme sucesso
 
Bill Callahan & Bonnie Prince Billy (feat. Cassie Berman) - "The Wild Kindness" (David Berman)

"Continuing their covers series, Bill Callahan and Bonnie 'Prince' Billy have recruited Cassie Berman (David Berman’s former wife and bandmate) for a rendition of Silver Jews’ 'The Wild Kindness.' As Bonnie 'Prince' Billy notes, there were a ton of guest vocalists, too: Haley Fohr, David Pajo, Meg Baird, Bill MacKay, Cory Hanson, and Matt Sweeney are among the many singers" (sugerido nesta caixa de comentários)

19 February 2021


(ver aqui)
(álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Não é, pois, de estranhar que, de tão riquíssimo viveiro, possa ter surgido o fantástico Bildungsroman, dos Hiperson de Chengdu, oportunidade para, entre muitas outras belíssimas coisas, conhecer a sobrenatural Sijiang Chen, algo como uma Björk in excelsis, com poderes de – no decurso de uma linha narrativa de “coming of age” – provocar arrepios em "spoken word" (“You are floating and drifting, trying your best to imitate walking as if on the ground, you are shouting and crying out and hearing nothing but the disappearance of sounds”), e de acariciar ou rasgar melodias, elevando-se em incendiados espasmos eléctricos. Experimentem olhar os videos de "Spring Breeze" e "Our Ballad" sem ajoelhar imediatamente. Se forem capazes.
O presidente do Tribunal Constitucional (vénia, vénia, vénia), quarta figura na hierarquia do Estado, vê-se duplamente defendido (pêesse e corporativamente) pelo avô Cantigas, bravíssimo e façanhudo anti-"soixante-huitard"

18 February 2021

Portugal numa casca de noz (LVIII)
 
Segundos depois de o robot Perseverance ter pousado em Marte, na televisão, uma "cientista planetária" portuguesa confessa-nos que "nestes momentos, é sempre fazer figas e rezar pelo melhor"...
 

(sequência daqui) "Por detrás do elogio da ociosidade [no Fabliau de Coquaigne], há uma contestação do tempo, do tempo medido, do calendário. Todos os dias sem trabalho são ali multiplicados: cada ano tem quatro Páscoas, quatro São João, quatro Todos os Santos, quatro Natais, quatro Candelárias, e na verdade 'todos os dias são domingos e feriados'. No século XIII (...), o sistema de festas é um sistema de dias de descanso, de folgas não remuneradas criadas para contentar o empresário, que economiza salários, e o assalariado, que repousa ou dedica-se a ocupações não consideradas trabalho. Com muita perspicácia, Hilário Franco Júnior nota que na Cocanha não há festas. A Cocanha é uma festa. O tempo, isento de actividades, é imóvel: ali é sempre 'como se fosse Maio'". (do prefácio de Jacques Le Goff para Cocanha - A História de Um País Imaginário de Hilário Franco Júnior - 2; segue para aqui)

Cocanha - "M'an dit Martin" (ver aqui e aqui)

 
 
 
Le Mystère des Voix Bulgares Vols 1 - 4 (integral)
Cabane - "A document"

17 February 2021

VINTAGE (DLVII)

Inoyamaland - 1984 Pithecanthropus
TESOURO OCULTO
 
Hiperson - Bildungsroman (álbum integral aqui)
 
No Ocidente, nos últimos anos, não se publicou nem um só álbum melhor do que Shanghai Void, dos Stalin Gardens (descrito como “millions of crystal chandeliers crashing over Balinese ricefields at sunset"), Dong2, de 33EMYBW ("samples" distorcidos de cânticos da minoria Dong do sul da China em labirintos de electrónica iridescente), Walking in a Boundless Dream, de Guzz (timbres instrumentais de Myanmar, Índia e Japão digitalmente simulados, num luminoso puzzle sonoro), Idle Archipelago, dos Foster Parents (“math rock” cenograficamente detalhado), ou o imenso Utopian Daymare, de Hai Qing e Li Xing (o confronto entre rudes melodias de inspiração mongol, razias eléctricas de guitarra e "sheng" amplificado, curto-circuitos de trompete radicalmente "free" e cenários de um Morricone asiático).
Esses e outros não menores – Carsick Cars, Snapline, Joyside, SMZB, Chinese Football, Shanren, Gong Gong Gong, P.K. 14, Fazi –, oriundos de Pequim, Xangai, Cantão, ou Wuhan, publicados por editoras como Maybe Mars, SVBKVLT, Modern Sky, Merrie Records e apoiados por clubes, fãzines, distribuidoras de cassetes e uma activíssima rede DIY. Um tesouro que permanece inexplicavelmente oculto apesar de totalmente acessível em publicações online, blogs, no YouTube, Bandcamp e SoundCloud (segue)
Pablo Hasél - "Ni Felipe VI"

España, mañana, será republicana!

Ser o autor confesso de "textos graves e amargos, uns, ligeiros e tolos, outros” (na verdade, trogloditas e homofóbicos) que, "na maioria dos casos, voltaria a escrever" é, sem dúvida, o perfil ideal para presidente do Tribunal Constitucional
Não que a China seja um exemplo, mas...

16 February 2021


(sequência daqui) "O que realça ainda mais a abundância da Cocanha é o facto de ela não depender do trabalho humano. A ociosidade é ali a única actividade remunerada. O mais célebre verso do texto [Fabliau de Coquaigne] refere-se a isso: "Lá, quem mais dorme mais ganha". (...) A Idade Média não tinha o trabalho em bom conceito e, consequentemente, não havia uma palavra que o designasse de forma global e neutra. Até fins do século XII, a palavra latina labor estava associada a dolor e sudor. (...) Assim, labor (da qual derivaram em vernáculo, labeur, lavoro, labor, labour) significava esforço, pena, tribulação, contrição, doença, penitência. Mais expressivos ainda, os termos neo-latinos travail, travaglio, trebalh decorreram do latim popular tripalium que designava um instrumento de tortura. Travailler, surgido por volta de 1170 ou 1180, manteve até ao século XVI o seu sentido original de atormentar, penar, sofrer, referindo-se tanto ao esforço físico, como o de uma mulher que vai dar à luz, quanto ao esforço moral" (Hilário Franco Júnior - Cocanha - A História de Um País Imaginário - 1) (segue para aqui)

Cocanha - La Sovenença: corps-en-vie-exquis! Còs-viu-resquit! (ver aqui e aqui)

Os gloriosos feitos de um "herói da pátria" (que, no funeral, contou com a presença do Chefe Supremo das Forças Armadas e Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, do Chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas, e do Chefe de Estado-Maior do Exército):

"Entrámos na tabanca, deitamos granadas incendiárias para as palhotas, as pessoas fugiam para o centro da tabanca, matámos todos, homens, mulheres, crianças"

(ainda recentemente demonstrada no exterior da Vaticano S.A.)

15 February 2021

Portugueses de bem

Um era apenas um trabalhador; outro, antecipando o neo-facho, tinha pó a "subsídiodependentes"
 
(sequência daqui) O que, de tudo isso, se transportou para a obra da muito jovem Joni Mitchell fica, agora, pronto a ser escutado, passo a passo, entre o Half Beat, de Toronto, o 2nd Fret, de Filadélfia, e a Canterbury House, em Ann Arbor, na cassete oferecida no aniversário da mãe, e nas emissões televisivas de “Let’s Sing Out” e rádios várias. Da aprendizagem dos rudimentos folk (“A folk era muito fácil de imitar. Era um bom ponto de partida”) à descoberta da individualidade criativa: ’Day After Day’ foi a minha primogénita. Não fazia ideia se era uma canção boa ou má. Foi a primeira que saiu cá para fora. ‘Urge For Going’ (“I awoke today and found the frost perched on the town, it hovered in a frozen sky, then it gobbled summer down, when the sun turns traitor cold and all trees are shivering in a naked row, I get the urge for going but I never seem to go”) deve ter sido aquela que, finalmente, me pareceu realmente bem escrita”. No prelo, estavam já "Eastern Rain", "The Circle Game", "Both Sides Now", "I Don’t Know Where I Stand", "Michael From Mountains" ou, assinalando, enfim, a chegada a Nova Iorque, "Chelsea Morning": “Do outro lado da minha rua, a West 16th Street, havia uma igreja enorme, a igreja de São Francisco Xavier. Fui lá um sábado para jogar bingo. Não ganhei um cêntimo. A igreja é como a Mafia: está tudo montado para serem eles a ganhar”.
 

  "German Nuns Sold Orphaned Children to Sexual Predators"

"Let Nature Sing"
"The nightingale played a role in the Extinction Rebellion (XR) protests, which ended with an emotional mass singalong of Sam’ Lee's new version of 'A Nightingale Sang in Berkeley Square', performed (with nightingale accompaniment) in Berkeley Square itself. And it has also helped a very different conservationist pressure group, the Royal Society for the Protection of Birds. The song of the nightingale, and those of other endangered birds, is now a hit, thanks to that delightfully unlikely single 'Let Nature Sing', which Sam co-produced for the RSPB, and which reached No 18 in the charts this month. 'The RSPB are delighted. It’s hard to get to No 1 against Taylor Swift'" (daqui)
(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)

14 February 2021

(sequência daqui) Para o produzir, escolheram o catalão Raül Refree, o mesmo que, temperado nas colaborações com Lee Ranaldo (Sonic Youth), Josh Rouse, Sílvia Pérez Cruz e Rosalia, no ano passado, ao lado de Lina, reimaginou o fado como nunca antes o ouvíramos. Aqui, sem cerimónias, vira do avesso estes “cants polifonics a dançar” (“rondèus” gascões, “sauts” e “branles” do Béarn, “borrèias” de Rouergue, “escòtishas”, mazurkas, e valsas), como quem, em idioma occitano – exuberantemente reescrito, retalhado, inventado –, fantasia um micro-mistério das vozes búlgaras, vergastadas por "tambourins à cordes" e percussões corporais, em intrincada roda livre. Uma espécie de detalhado minimalismo vocal-instrumental avassalador, banda sonora para o que, de agora em diante, ficará obrigatoriamente conhecido como o País das Cocanha. (segue para aqui)
... mas embora, de vez em quando, aconteçam recaidas tipo Aliança Povo/MFA, há coisas que convém nunca esquecer
O "Ur-Fascismo" (V)

"4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar a crítica. O espírito crítico faz distinções, e distinguir é um sinal de modernidade. Na cultura moderna, a comunidade científica entende o desacordo como instrumento de avanço do conhecimento. Para o Ur-Fascismo, o desacordo é traição

5. O desacordo é também um sinal de diversidade. O Ur-Fascismo cresce e procura o consenso explorando e exacerbando o natural medo da diferença. O primeiro apelo de um movimento fascista ou prematuramente fascista é contra os intrusos. O Ur-Fascista é, portanto, racista por definição.

6. O Ur-Fascismo nasce da frustração individual ou social. Tal explica  porque uma das características típicas dos fascismos históricos foi o apelo às classes médias frustradas, sentindo mal-estar por qualquer crise económica ou humilhação política, assustadas pela pressão dos grupos sociais subalternos. No nosso tempo, em que os velhos 'proletários' estão a transformar-se em pequena burguesia (e os 'lumpen' se auto-excluem da cena política), o fascismo irá encontrar nesta nova maioria a sua audiência" (Umberto Eco, Como Reconhecer o Fascismo/Da Diferença Entre Migrações e Emigrações, 1997)

12 February 2021

PRIMEIRO DIA DO (11º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (CLIV)

Bootsy com Joni Mitchell (daqui; ver aqui)
All 80 Issues of the Influential Zine Punk Planet Are Now Online & Ready for Download at the Internet Archive

O PAÍS DAS COCANHA
É nos Carmina Burana – essa gloriosa colecção de poemas e canções de Goliardos, libérrimos monges devassos da Idade Média – que surge a primeira referência ao País de Cocanha: uma terra imaginária de liberdade e abundância, onde se prestava culto ao prazer e ao ócio, e o trabalho e a velhice eram desconhecidos. Algo como um jardim do paraíso pagão, livre da fome e das guerras, atravessado por rios de vinho e leite. Foi cartografado, em 1250, no Fabliau de Coquaigne e, em 1567, Pieter Bruegel pintou-o: um padre, um cavaleiro e um camponês – iguais no langor e na opulência – dormem à sombra de uma árvore envolvida por uma mesa repleta de iguarias.

 
Os Flamengos chamavam-lhe “o país das doces guloseimas” e, hoje, no Sul de França, o Pays de Cocagne reune três comunas na região da Occitânia. Em occitano – herdeiro da "langue d’oc" medieval cujo parente actual mais próximo é o catalão –, “puput” é o nome dado à poupa, um passaroco de longo bico e penacho eréctil, que as Cocanha (Lila Fraysse, Maud Herrera e Caroline Dufau, occitanas de Toulouse) promoveram enquanto símbolo e estandarte contra a misoginia e a indiferença social, oferecendo-lhe a capa e o título do seu segundo álbum. (daqui; segue para aqui)

Esta noveleta dos brasõesestá muito fora de prazo

... a estes e outros, acrescente-se, agora, o FIL (Foco Infeccioso do Lapo), lugar onde (ao som de "Grândola", como camuflagem) a Idade Média se entrincheira  e, em cujo Facebook, se lêem pérolazinhas como esta, mesmo a pedir tratamento igual ao da outra harpia negacionista
  


Como é que, sobre um assassino de guerra, se consegue escrever meia dúzia de linhas vergonhosamente "objectivas" e cobardemente neutras?

09 February 2021

VINTAGE (DLIII)
 
It's Immaterial - "New Moon"


 
(sequência daqui) Porém, coincidindo a publicação com o processo de encerramento da editora Siren – uma subsidiária da Virgin que Richard Branson, por esses dias mais interessado em projectos de aviação comercial, não hesitou em sacrificar –, seria por ela praticamente ignorado, e muito poucos o ouviriam. Voltaram ao estúdio de Malcolm para iniciar a gravação do que viria a ser House For Sale até ao dia em que à companheira de John Campbell foi diagnosticado cancro e tudo parou. Durante três décadas. John foi dando aulas de arte, em Liverpool, e Jarvis fundou uma escola de música. Há cerca de 6 anos, descobertas as fitas originais, reiniciaram o trabalho interrompido. Por pouco tempo: chegaria a vez de, desgraçadamente, Campbell ter também de enfrentar o demónio oncológico. Felizmente recuperado, House For Sale ficaria, enfim, concluído, financiado através de uma plataforma de "crowdfunding"... que, na pior altura, faliu. Transposto mais esse obstáculo, no início deste ano, o lendário “lost album” estava pronto a sair para a rua. Foi, então, que a pandemia surgiu. A vida tinha sido dura mas eles continuavam vivos. E, quando já se tornava difícil acreditar que alguma vez poderíamos chegsr a escutá-lo, ei-lo disponível na admirável Burning Shed (“run by artists for artists”)! Nunca seria caso para defender que o martírio é sempre recompensado mas valeu toda a pena esperar por esta magnífica continuação das atmosferas verdadeiramente imateriais de Song, laboriosamente depurada até à essência e feita de melodias de vidro finíssimo sobre aguarelas de céu, chuva e névoa. 
Em 2 dias de atraso, perderam-se quase 500

Rimbaud por Henri Fantin-Latour, pormenor de Un Coin de Table, 1872

(sequência daqui) De Benjamin Britten a Léo Ferré ou ao belíssimo Sahara Blue, de Hector Zazou, a escrita do adolescente provocador cujo alvo era “tornar-se visionário através de um longo, imenso e ponderado desregramento de todos os sentidos” já a muitos assombrara. Em particular, Bob Dylan (o retrato do miúdo de Charleville pintado por Henri Fantin-Latour bem poderia figurar na capa de Blonde On Blonde) a quem quatro palavras – “Je est un autre” viraram a vida do avesso. (segue aqui)

 
Capa de Blonde On Blonde, fotografia de Jerry Schatzberg, 1966

08 February 2021

This Is The Kit - "Coming To Get You Nowhere"

Chuck Berry With Bruce Springsteen & The E Street Band - "Johnny B. Goode"
 
(sequência daqui) Mas, no topo do seu panteão privado, encontra-se, se calhar, surpreendentemente, Chuck Berry: “Ele era o meu preferido. Um grande documentarista da sua época. As canções eram sempre cheias de colorido local. Eram fantásticas. Coloquiais. E rítmicas. Era um escritor de canções magnífico”. Colorido local (e individualizado) é o que não falta nas memórias que vai partilhando com Cameron Crowe que atribuem ao "booklet", pelo menos, metade do valor do "box-set". Justamente, acerca do seu primeiro (e único) encontro com Chuck Berry, conta como ela e Graham Nash que tinham ido ao Miami Pop Festival, em consequência de trapalhadas várias do serviço de reservas do hotel onde ficaram, se viram obrigados a aceitar um quarto na zona do pessoal, com casa de banho partilhada. Foi aí que, a certa altura, uma porta se abriu e entrou... Chuck Berry. “Saí rapidamente, voltei para o quarto e gritei: 'Graham, o Chuck Berry está na nossa casa de banho!' Respondeu-me: 'Olha, vamos enrolar-lhe um charro'. Enrolámos o charro, batemos à porta da casa de banho, e ali estava ele com uma rapariga. Virou-se para nós e disse: 'Nesta cidade, não há nada de jeito para fazer a não ser ver televisão e dar quecas. É o que vamos fazer agora mesmo'. Despedimo-nos e voltámos para o quarto. Foi assim o meu encontro com o Chuck”. (segue para aqui)

Joni Mitchell (Crosby, Stills, Nash) - "Get Together"
O talhante do ME continua a desmentir o patrão e, estrangulando os números, jura que o encerramento das escolas teve pouco a ver com a diminuição dos contágios; só encostado à parede, reconhece o óbvio essencial: "A pausa lectiva causou uma diminuição da circulação das pessoas", mas, apesar dos alertas ("Não nos podemos sujeitar a uma nova vaga que introduza uma nova onda de entradas de internamentos nos hospitais. (...) Só podemos desconfinar quando tivermos um valor extremamente baixo do ponto de vista epidemiológico" avisa Carlos Antunes), prepara-se para nova asneira  capaz de, mais outra vez, fazer voltar tudo ao início: "As escolas foram as últimas a fechar têm de ser das primeiras infraestruturas a abrir" - ou Cabrita, Van Dunen e Brandão, a luta (rumo ao desastre) continua!

06 February 2021

P.K. 14 - "Bad Timing"

Lá dizia o Orwelll...

 
(sequência daqui) Terá de haver algum motivo insondável para que a quase fadista Cristina Branco tenha escolhido incluir no seu reportório "A Case Of You" e "Cherokee Louise". Porque, do que a autora de ambas revela na preciosa conversa com Cameron Crowe – fã reverente, jornalista, cineasta, argumentista, produtor, actor – reproduzida nas 36 páginas do "booklet", dir-se-ia que só no “quase” se poderá encontrar, talvez, a explicação: interrogada sobre se, no trajecto da folk para o "songwriting" e, daí, para o jazz, para a colaboração com Charlie Mingus e para os trabalhos de orquestração, não poderia ver-se o dedo do destino, Mitchell responde sem hesitar “Não, não ligo nenhuma ao destino. Nem compreendo, de todo, o conceito de destino”. Não é a única vez que, ao longo da troca de ideias, ela é assim tão afirmativa. Pronta a reconhecer Buffy Sainte-Marie, Woody Guthrie, Tom Rush, o Kingston Trio, Judy Collins, Peter, Paul & Mary, Dave Van Ronk e Lambert, Hendricks & Ross (um trio de jazz vocal) como músicos que admirava e a influenciaram (“Tudo o que aprendi foi por admiração e osmose”), quando o nome de Joan Baez é pronunciado, e reacção é instantânea: “Não fui, de modo nenhum, influenciada por Joan Baez. Que isso fique bem claro”. Já a propósito de Leonard Cohen, tudo é bem diferente: “Ouvi-o no Newport Folk Festival. 'Suzanne’ foi uma canção que me impressionou muito. Foi o primeiro que, verdadeiramente, admirei. Deixou-me com a impressão de quão imaturas as minhas canções eram. Ele era um adulto. Era assim que os adultos escreviam”.
 

05 February 2021

A enxurrada de publicidade televisiva a apostas e casinos "online", em tempo de miséria presente e futura, não é revoltantemente obscena?



(Post republicado e acrescentado do link para o "Journal of Addiction Medicine")
VINTAGE (DLII)

Phew - Our Likeness
O princípio de uma forma inteligente de roubar o chão aos neo-fachos
A JOKE A DAY KEEPS THE DOCTOR AWAY (LXXXI)


"(...) O aclamado e vilipendiado autor de Animal Farm sempre aconselhou que se tivesse como modelo a prosa limpa de Swift, onde não há uma palavra desperdiçada: uma prosa lúcida, bela na sua simplicidade, escorreita, directa, certeira, não rendilhada nem enredada, em suma, um potente veículo para transportar ideias. Gonçalo M. Tavares, pelo contrário, serve-se de uma prosa arrebicada, contorcida, pretensiosamente oracular, própria de uma pitonisa em elevado grau de intoxicação. (...) A prosa oracular, pretensiosa, indigesta e, por fim, provinciana, de Tavares, parece ser muito apreciada em certos meios lusíadas. Mau sinal, acho eu, para o estado mental da nossa grei. Por detrás de muita prosa pomposa, esconde-se muitas vezes uma enorme trapalhada. Bertrand Russell, grande lógico/matemático, denunciava, na aclamadíssima filosofia de Sartre, um mero e patético acervo de 'extravagâncias linguísticas'. Tavares cultiva muito este universo de puras extravagâncias linguísticas. E, por favor, não me respondam com argumentos de autoridade, do género: ele é muito traduzido. Paulo Coelho e Barbara Cartland também o são. Qualquer bom oficial de relações públicas consegue milagres. (...)" (Eugénio Lisboa, aqui)