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27 February 2014

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (XIV)


Suzanne Vega - Beauty & Crime

Seis anos depois de Songs In Red And Gray, Beauty & Crime é o primeiro álbum de Suzanne Vega (vão desculpar-me, mas – fã é fã – não sou capaz de distanciamento crítico para enterrar a lâmina mais fundo...) não exactamente transcendente. É verdade que, às primeiras audições, aparenta não ser tão sedutor quanto, após um pouco mais de intimidade, acaba por se revelar. Mas – coloquemos o problema deste modo –, é francamente possível que, no conjunto da discografia da Vega que muito amamos, quase todos os álbuns incluam uma percentagem daquelas canções que fazem o planeta oscilar na sua órbita um bocadinho superior a este.



Claro que “New York Is A Woman”, “Pornographer’s Dream” (pode alguém ficar indiferente a tal gesto de oblíqua devoção perante Bettie Page?: “Who’s to know what she’ll show of herself, in what measure? If what she reveals or what she conceals is the key to our pleasure?”), “Edith Wharton’s Figurines” e “As You Are Now” (a superiormente difícil manifestação de amor maternal sem pisar o risco do embaraço: “I will take up all your tears, salty tissues through the years, spread them in the sun, to dry diamonds from each time you cry”) entram direitinhas para o cânone. Mas não há muitas mais. (2007)

11 February 2014

VINTAGE (CLXXX)

Suzanne Vega - "Pornographer's Dream"



She's a pornographer's dream, he said.
I knew what he meant.
But it made me imagine: what kind of a dream
He would have, that hadn't been spent?


Would he still dream of the thigh? of the flesh upon high?
What he saw so much of?
Wouldn't he dream of the thing that he never
Could quite get the touch of?


It's out of his hands, over his head
Out of his reach, under this real life
Hidden in veils, covered in silk
He's dreaming of what might be


Out of his hands, over his head
Out of his reach, under this real life
Hidden in veils,
He's dreaming of mystery.


Bettie Page is still the rage
With her legs and leather;
She turns to tease the camera, and please us at home,
And we let her.


Who's to know what she'll show of herself,
In what measure?
If what she reveals, or what she conceals,
Is the key to our pleasure?


It's out of our hands, over our heads...

27 October 2009

O ESPÍRITO DE BING CROSBY


Bob Dylan - Christmas In The Heart

A cinco dias do Natal de 2006, a edição número 34 da Theme Time Radio Hour, de Bob Dylan, abria com Ellen Barkin – a voz "oficial" do genérico inicial - anunciando: “It's nighttime in the Big City, a department store Santa sneaks a sip of gin, mistletoe makes an old man sad, eight reindeer land on the roof of the Abernathy Building”. A grande noite urbana, espaços comerciais, um assalariado mascarado e bêbedo, melancolia, solidão e criaturas da mitologia popular num cenário de ficção cinematográfica. É o que a maioria das festas do calendário religioso tem de melhor: porque primordialmente pagãs, o finíssimo (e, afinal, tão recente) revestimento cristão, resiste mal à erosão do tempo e circunstâncias bem mais materiais e terrenas tendem a ressurgir e ocupar o primeiro plano. Durante uma década (a de 80), Dylan poderá ter-se imaginado "born again", mas americano, contemporâneo e atento à História nunca deixou de ser.


Até no persistente prazer da efabulação que o conduziu a situar a realíssima Sirius XM Radio num inexistente Abernathy Building (dotado de pista de aterragem para renas) rodeado dos igualmente imaginários Studio B, Samson's Diner, Elmo's e Carl's Barber Shop, recorrentes no universo do DJ Bob Dylan. E poderá não ser ainda saber adquirido mas é importante que se vá dizendo como os 103 episódios das três temporadas da TTRH são já parte fundamental da sua obra. Não tanto pela (obviamente importante) missão divulgadora da mais ou menos obscura memória musical americana, mas, principalmente, pelo modo como, entre canções, intervenções de convidados, farrapos de poesia, comentários irónicos, seriíssimos ou meramente informativos, alusões históricas, conversas com ouvintes e outros tantos “themes, dreams, schemes and things of that nature”, o puzzle cultural, mental, social e mítico da nação americana vai emergindo. A dedicatória final do Natal de há três anos era “We wish you a Merry Christmas and a Happy New Year, a pocket full of money and a cellar full of beer”.

















Para o Natal deste ano – e enquanto a possibilidade de uma quarta temporada permanece em suspenso –, Dylan optou, até certo ponto, por repetir a mesma estratégia que deu origem ao último álbum, Together Through Life: se esse era uma potencial emissão da TTRH constituída apenas por criações originais de Bob Dylan, Christmas In The Heart apresenta-o como intérprete de quinze "Christmas songs" clássicas sobre as quais paira muito menos o espírito dos blues e da country do que o de... Bing Crosby. Acerca do qual, convém recordar, em 1985, Dylan afirmou tratar-se de um mestre do fraseado vocal cujas canções ainda, um dia, gostaria de gravar. Delas, estão aqui três – “I’ll Be Home for Christmas”, “Silver Bells” e “Do You Hear What I Hear?” – num reportório essencialmente recolhido nas reminiscências dos Natais do jovem Zimmerman, nas décadas de 40 e 50, no gelado Minnesota. Com um pé no kitsch (dos coros à la Ray Conniff, cortesia das Ditty Bops, à fotografia “Mãe Natal” da pin-up, Bettie Page, no booklet) e outro, inevitável, na América lendária (o lamento da pedal-steel guitar em “Winter Wonderland”, a desbragada polca Tex-Mex de “Must Be Santa”, a quase waitsiana “Silver Bells”), “Christmas In The Heart” é um belo divertimento sazonal por uma boa causa: todos os lucros reverterão para as organizações de combate à fome Feeding America, World Food Programme e Crisis. Woody Guthrie aprovaria.

(2009)

05 July 2009

PERDIDAS & ACHADAS


Bettie Page

Deviam ser um exemplo para todos nós. Meninas e senhoras transviadas do caminho da Salvação que, um dia, reencontraram o trilho que conduz ao Bem. De Bettie Page ("all that changed in 1959 when she converted to Christianity after attending the Key West Temple Baptist Church. She then went on to work for evangelist Billy Graham, and left the world of being naked with cheetahs behind her"), a Houston ("she too went to work for the Lord, which, surprisingly, didn’t involve anything close to marathon f**k fests") ou Samantha Fox ("But then God kicked in and ruined everything for everybody after Samantha left the adult industry to pursue more Christian endeavors"), todas viram a Luz e não desligaram o interruptor nem se deixaram iludir pela propaganda do Maligno. (aqui)

(2009)

08 March 2009

BICÓZE DIZE ECT IZAECT DETUIDU (IV)



Pequeno glossário de "Português Técnico" segundo o Magalhães:

Gravar-lo; Continuar-lo; Dirije; Copía; Acabas-te; Attentamente; Encontra-las; Encontras-te; Contar-los; Caêm; Contéem; Fês; (um disco de cada) vês; Historia; Sitio; Agua; Básicamente; Fácilmente; Á direita; Saír; Puxando-las.

Exemplos muito úteis para aplicação prática:

"Neste processador podes escrever o texto que quiseres, gravar-lo e continuar-lo mais tarde";

"Dirije o guindaste e copía o modelo";

"Quando acabas-te, carrega no botão OK";

"Cada automóvel só pode mover horizontalmente ou verticalmente. Tu deves ganhar espaço para permitir ao carro vermelho de sair pelo portão à direita";

"O Tux escondeu algumas coisas. Encontra-las na boa ordem";

"Carrega nos elementos até pensares que encontras-te a boa resposta. (...) Nos níveis mais baixos, o Tux indica-te onde encontras-te uma boa cor marcando o elemento com um ponto preto. Podes utilizar o botão direito do rato para mudar as cores no sentido contrario";



"Abaixo da grua, vai achar quatro setas que te permitem de mexer os elementos";

"O objectivo do quebra-cabeças é de entrar cifres entre 1 e 9 em cada quadrado da grelha, frequentemente grelhas de 9x9 que contéem grelhas de 3x3 (chamadas 'zonas'), começando com alguns números já metidos (os 'dados'). Cada linha, coluna, e zona só pode ter uma vez um símbolo ou cifre igual";

"Carrega em qualquer elemento que tem uma zona livre ao lado dele. Ele vai ir para ela";

"Enfia a bola no buraco preto á direita";

"Com o teclado, escreve o número de pontos que vês nos dados que caêm."

"O objectivo do jogo é de capturar mais sementes do que o adversário. (...) Se os jogadores se acordam no facto que o jogo está num ciclo sem fim, cada jogador captura as sementes do seu lado";


"J. Sócrates - No princípio do jogo 4 sementes são metidas em cada casa. O jogadores movem as sementes por vês. A cada torno, um jogador escolhe uma das 6 casas que controla. (...) Se a última semente também fês um total de 2 ou 3 numa casa do adversário, as sementes também são capturadas, e assim de seguida. No entanto, se um movimento permite de capturar todas as sementes do adversário, a captura é anulada (...). Este interdito é ligado a uma ideia mais geral, os jogadores devem sempre permitir ao adversário de continuar a jogar.
H. Chavez - Los jugadores... qué, coño?!!!...";


"Aceder ás actividades de descoberta";

"Pega as imagens na esquerda e mete-las nos pontos vermelhos";

"Carrega e puxa os elementos para organizar a historia";

"Saber contar básicamente";

"Move os elementos da esquerda para o bom sitio na tabela de entrada dupla";

"Puxa e Larga as peças no bom sitio";

"Com o teclado, escreve o número de pontos que vês nos dados que caêm";

"Primeiro, organiza bem os elementos para poder contar-los (...)";

"Carrega no chapéu para o abrires ou fechares. Debaixo do chapéu, quantas estrelas consegues ver a moverem? Conta attentamente. Carrega na zona em baixo à direita para meter a tua resposta";

"Treina a subtracção com um jogo giro. Saber mover o rato, ler números e subtrair-los até 10 para o primeiro nível";



"Quando acabas-te, carrega no botão OK ou na tecla Entrada";

"Conta quantos elementos estão debaixo do chapéu mágico depois que alguns tenham saído";

"Olha para o mágico, ele indica quantas estrelas estão debaixo do seu chapéu mágico. Depois, carrega no chapéu para o abrir. Algumas estrelas fogem. Carrega outra vês no chapéu para o fechares. Deves contar quantas ainda estão debaixo do chapéu";

"Lê as instruções que te dão a zona em que está o número a adivinhar. Escreve o número na caixa azul em cima. Tux diz-te se o número é maior ou mais pequeno. Escreve então outro número. A distância entre o Tux e a saída à direita representa quanto longe estás do bom número. Se o Tux estiver acima ou abaixo da saída, quer dizer que o teu número é superior ou inferior ao bom número";

"Tens a certeza que queres saír?";

"Aprende a escrever texto num processador. Este processador é especial em que obriga o uso de estilos";

"Neste processador podes escrever o texto que quiseres, gravar-lo e continuar-lo mais tarde. Podes estilizar o teu texto utilizando os botões à esquerda. Os quatro primeiros permitem a escolha do estilo da linha em que está o cursor. Os 2 outros com múltiplas escolhas permitem de escolher tipos de documentos e temas coloridos pré-definidos";

"Envia a bola nas redes";

"É preciso saber manipular e carregar nos botões do rato fácilmente";



"O objectivo é só de descobrir como se podem criar desenhos bonitos com formas básicas";

"O objectivo é de fabricar um forma dada com sete peças";

"Quando o tangram for dito frequentemente ser antigo, sua existência foi somente verificada em 1800";

"Mexe as peças puxando-las. Carrega o botão direito nelas para as virar. Selecciona uma peça e roda à volta dela para a rodar. Quando a peça pedida estiver feita, o computador vai reconhecer-la";

"Reproduz na zona vazia a mesma torre que a que está na direita";

"Reproduzir a torre na direita no espaço vazio na esquerda";

"Puxa e Larga uma peça por vês, de uma pilha a outra, para reproduzir a torre na direita no espaço vazio na esquerda";

"Move a pilha inteira para o bico direito, um disco de cada vês";

"Torno dos brancos";

"Joga o joga de estratégia Oware contra o Tux". ("Expresso")


...e com as "novas oportunidades" e os "cursos profissionais" isto ainda vai melhorar muito!...

(2009)

13 December 2008

FROM PORN TO BORN (AGAIN)



"Bettie Page was taken to church as a young girl, but it wasn't until she ended her modeling career that she seriously turned to religion. In Key West, Florida, on a lonely New Year's Eve in 1958 Miss Page was drawn to a service in what is now The Key West Temple Baptist Church. Reverend Morris O. Wright was the pastor then, and he led Betty to Christ that night. Pastor Wright is still active in the church, preaching against homosexuality, and writing occasionally for The Flaming Torch, an independent Baptist publication. Wright became a pastor while spending a year in jail for killing a man in an automobile accident". (aqui)












(2008)
BETTIE PAGE
22 de Abril, 1923 – 11 de Dezembro, 2008














(2008)

25 November 2008

TATUAGENS E PIN-UPS

(departamento THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN (VIII), segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")



Gretschen Hofner - Maria Callous

"Once I would make love to the mirror in the hall, till I found my ego wanting and my looks began to pall, I sought solace in my comfort pills, romanced the kitchen knife, with my Frances Farmer smile and my Judy Garland life". Estas são as palavras de abertura do quase épico "My Judy Garland Life", cartão de visita dos Gretschen Hofner. E não se inicia assim uma canção por acaso. Chamam-lhes "camp rockers" de "neo-vaudeville" mas eles garantem que quem apreciam mesmo é gente como Bertolt Brecht, Kurt Weill e Tchaikovski e grupos como os X-Ray Spex e os Birthday Party. Depois, há quem lhes associe imagens de encontros de Elvis Presley, John Barry e os Cramps em sórdidos bares do Soho londrino, por entre surradas cortinas de veludo, tatuagens de marinheiros e cantoras decadentes de cetim vermelho. Aí, eles confessam que têm influências, sim senhor, mas que elas são mais do género iconográfico: figuras trágicas como Judy Garland, a pin-up S & M dos anos 50, Bettie Page, evangelistas televisivos alucinados e outros que tais.



Pelo meio de tudo isto, existe ainda um peculiar fetichismo por sapatos ("Shoes are what you wear that's important and you extend from what you walk in", confessam em "Crow In Heels"), mas aquilo a que convém verdadeiramente prestar atenção é Maria Callous, o seu primeiro álbum, cujo título é um jogo fonético entre o apelido da célebre Maria Callas e a palavra "callous" ("insensível"). O elenco dos Gretschen Hofner é a impossível reunião de Justine Armitage (professora de piano que também toca violino), Paul Hofner (renascentista perverso e executante de "guitarra psicodramática"), Kieron Hunter (baixista e gentleman de cabaret) e Pinball Geoff (ex-assistente social em psiquiatria e actual baterista e reparador de "flippers"). Para trás ficaram ignoradas atribulações em bandas de travestis como a Brendan Duffy Bissexual Adventure e outras ilustres desconhecidas, dando, desta vez, lugar a nova personagem colectiva condenada a habitar aquele universo paralelo também já colonizado por Nick Cave ou pelos Gallon Drunk. Aqui, a coisa traduz-se numa espécie de surf meets-rockabilly operático e em cinemascópio, com enfáticas orquestrações de cordas a condizer e uma pose de dandyismo trágico meticulosamente simulado, em contraponto. Cenograficamente, resulta em pleno sendo que a música, em si mesma, deverá ser considerada apenas como uma componente da encenação total. A derradeira e gloriosa bizarria de 1996.

(1996)