31 May 2017

Jesca Hoop 
(live from Old Granada Studios) 

Dia a dia, confirma-se quão certo 
era o diagnóstico de Aimee Mann


Há posts (ainda que sobre estratégia e táctica no ludopédio) que têm mesmo uma banda sonora à sua espera

The Young Tradition (c/ David Munrow) - "The Agincourt Carol"
"Sgt Pepper is called the first concept album, but it doesn't go anywhere. All my contributions to the album have absolutely nothing to do with the idea of Sgt Pepper and his band; but it works 'cause we said it worked, and that's how the album appeared. But it was not as put together as it sounds, except for Sgt Pepper introducing Billy Shears and the so-called reprise. Every other song could have been on any other album" (John Lennon)
... covfefe...


Nota: já registado no "Urban Dictionary"

30 May 2017



O PAÍS DOS ZEZÉS (XLVIII)

BE: Implantes de dedos por cirurgiões que sabem dar gargalhadas
HIPPIE 


Radieux Radio é uma misteriosa personagem que, mesmo que exaustivamente procurada nos labirintos do Google, teima em apenas surgir quando associada ao nome de Thurston Moore. Nem uma imagem, nem uma referência exclusivamente em nome próprio. E nunca ficamos a saber muito mais do que “Radieux Radio is a London-based activist, poet and artist”, colaborador de Moore em eventos de poesia, música e residências artísticas ou, pela boca do próprio Thurston, que se trata de “um poeta transgénero meu amigo que me envia ‘sweet lines’ para as minhas canções. Noutro dia, estava à procura de um título e ele enviou-me uma mensagem só com uma palavra: ‘telepatia’. Era o título perfeito”. Hum... Debrucemo-nos, pois, sobre Rock’n’Roll Consciousness, o ultimo álbum de Thurston Moore e inspeccionemos à lupa as contribuições de Radieux. Por exemplo, logo a abrir, "Exalted": “Peyote walker, sweet talker, soul stalker, spell weaver, receiver, herb-stink shaman, morphine woman, my opium girl, the free grass world, (…) I name her Arethrean”. Algures na net, alguém a descreve como “a drug-infused visit from sacred womyn (sic), sibyls, prophetesses, oracles, and goddesses reclaiming consciousness”… Experimentemos "Cusp": “Our consolations, they finish, when world karma heart is yours, (…) my divine source of love, the talisman under crescent sphere”



O caso complica-se… e, perigosamente, muito mais ainda quando, em entrevista ao “Sidney Morning Herald”, Moore revela que o título do álbum lhe surgiu durante um curso de escrita criativa que orientou na Naropa University, em Boulder, no Colorado. Sim, Naropa, “a primeira universidade contemplativa dos EUA”, berço do “mindfulness movement” onde os “naropians” (é verdade, juro!) podem licenciar-se em “contemplative art therapy”, “contemplative psychology” ou “buddhist psychology”. Não há outra forma de o dizer: Thurston Moore, aos 50 e tal anos, virou hippie e receia-se seriamente que não haja caminho de regresso. Consolemo-nos, então, com o facto de, musicalmente, Rock’n’Roll Consciousness ser o seu melhor álbum desde o fim dos Sonic Youth: com Debbie Googe (My Bloody Valentine), Steve Shelley e James Sedwards – a mesma equipa do anterior The Best Day (2014) –, é uma poderosa descarga eléctrica no ponto de encontro entre SY, Feelies, Television e Crazy Horse como há muito apetecia escutar.

29 May 2017

A Skin Too Few - The Days of Nick Drake (2000)

O PAÍS DOS ZEZÉS (XLVII)

Carla Leitão: "Mude de partido mas não mude de vestido!"
UTOPIAS

(post convidado no Delito de Opinião)

Adão dá nomes aos animais - Theophanes de Creta, sec. XVI
 
Ia jurar ter lido algures que, acerca de Marx – Karl, não Groucho –, alguém terá dito que fez todas as perguntas certas e deu todas as respostas erradas. Procurei o autor mas não fui capaz de descobri-lo. Caso o consigam, agradeço. Se não, podem sempre atribuir-me a citação. Até porque, com autor devidamente identificado (Voltaire), há outra pelo menos tão eloquente: “Devemos julgar um homem pelas perguntas que faz mais do que pelas respostas que dá”. Em Janeiro deste ano, “Le Monde”, numa das suas publicações “hors-série”, actualizava L’Atlas des Utopies, lançado pela primeira vez em 2012. Quase 200 páginas, outros tantos mapas e 25 séculos de História repletos de perguntas e respostas. Mas, naturalmente, num inventário que vai da propriamente dita Utopia – acerca de cuja autoria os académicos hesitam: se muitos pensam ter sido Thomas More, outros, adeptos das “teses de Boliqueime” de um doutor honoris causa em Letras pelas universidades de Goa e Heriot-Watt, de Edimburgo, juram tratar-se de Thomas Mann – à República, de Platão, ao esperanto (designação anterior daquilo a que, hoje, chamamos “inglês”), às comunas owenianas, fourieristas, comunistas, socialistas e anarquistas (para cima de uma centena de covis de bisavós hippies), ou às profecias de Marx – Karl, não Groucho –, a utopia primordial é, sem dúvida, o Paraíso bíblico (ou Jardim do Éden), sobre o qual, mais do que exigir respostas, há imensas perguntas a fazer.

Lilith - Kenyon Cox, 1892
 
Umberto Eco, por exemplo, em Serendipities: Language and Lunacy, interrogava-se a propósito de um perturbante mistério: se, em Génesis 2:20, Adão teve por missão dar nome “a todos os animais: os rebanhos domésticos, as aves do céu e a todas as feras”, quem (sim, quem?) nomeou os peixes? Aliás, logo a seguir, surge outra dilacerante dúvida: se, em Génesis 1:27, lemos “E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”, por que divino raio, em inexplicável "raccord" com o episódio da bicharada, somos testemunhas de um Jeová que, verificando que "Não é bom que o homem esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda”, não apenas pratica o primeiro acto cirúrgico precedido de anestesia – “Então o Senhor Deus fez o homem cair em profundo sono e, enquanto este dormia, tirou-lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne” – como realiza uma pioneiríssima clonagem transgénero: “com a costela que havia tirado do homem, o Senhor Deus fez uma mulher e a trouxe a ele” (Génesis 2:21, 22)!... Onde pára, então, a miúda que nos tinha sido apresentada em Génesis 1:27?

Lilith (Suméria)

Poderá não ser a melhor resposta mas, algures entre os séculos VIII e XI, alguém arriscou dá-la, no Alfabeto de Ben Sirach. Afinal, no original, deveria ler-se assim: “Depois de ter criado Adão, Deus disse: não é bom que o homem esteja só. Criou, então, da terra, uma mulher para Adão, tal como o havia criado a ele e chamou-lhe Lilith. Adão e Lilith começaram imediatamente a desentender-se. Ela disse, ‘Não me deitarei por baixo de ti’, e ele disse ‘Não me deitarei por baixo de ti, apenas por cima. Foste feita para ficar por baixo e eu por cima’. Lilith respondeu ‘Somos iguais porque fomos ambos criados da terra’. Mas não chegaram a acordo e, quando Lilith se apercebeu disso, pronunciou o nome inefável e voou pelos ares”. Ou seja, tudo terá tido origem numa inconciliável diferença de preferências sobre posições coitais: enquanto Adão era adepto da que – por boas razões – viria a ser conhecida como “do missionário”, Lilith era, decididamente, uma “cowgirl”.

Fellatio Interruptus - Miguel Ângelo, sec. XVI 

Os sarilhos de Adão com mulheres continuariam com a segunda concubina, Eva. Por um motivo, aliás, teologicamente peculiar: em Génesis 2:16, Jeová, para autorizar o casal a viver no Eden Condominium, obrigara-o contratualmente a uma condição “De toda a árvore do jardim comerás livremente, Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás”. Traduzindo: uma vez que “o conhecimento do bem e do mal” é aquilo a que chamamos moral, se pretendiam permanecer eternamente felizes, não deveriam preocupar-se sequer com tais ninharias. E, a fazer fé (pois é disso que se trata) na maravilhosa representação do fellatio interruptus no qual Miguel Ângelo os apanha no tecto da Capela Sistina, cumpriam à risca o acordo. Momento dramático, porém: é justamente nesse instante que, enroscada na árvore, a serpente oferece o fruto proibido (como vimos antes, a moral) à compreensivelmente distraída Eva. E nova perplexidade surge: de cabeça perdida, Jeová vira-se para o surpreendido réptil e amaldiçoa-o: “Rastejarás sobre o teu próprio ventre!” (Génesis 3:14). Seguramente, mais tarde ou mais cedo, a paleontologia criacionista haverá de descobrir provas da existência de serpentes bípedes ou quadrúpedes contemporâneas de Adão e Eva. Mas, numa história que começou tão problemática e só pode ter prosseguido com um reprovável festival de incesto, é capaz de ser optimismo demasiado pensar em utopias.

28 May 2017

O PAÍS DOS ZEZÉS (XLVI)

... desde que não me chames João Baptista...
"I'll see you again in 25 years"


... e recomeça a maravilhosa série...

O PAÍS DOS ZEZÉS (XLV)

A raça pura (capturado aqui)
Às vezes, um rabanete pode ser apenas um rabanete

O Capelão Magistral, sem vacilar, explica tudo acerca da rival da Fatinha, em Medjugorge, que alguns "defendem com unhas e dentes" e sobre a qual foi chamado a opinar "o conhecido psicanalista Tony Anatrella", sábio criador da inovadora tese "O nazismo, o marxismo e o fascismo são ideologias de natureza homossexual" que, injustissimamente, lhe valeu a inveja de certos funcionários da Vaticano S.A.
The Magnetic Fields - "Quotes"

25 May 2017

NA MONTANHA, SEM MAPA 


Ryuichi Sakamoto nasceu precisamente no ano – 1952 – em que, com 4’53”, John Cage criou, instantaneamente, um antes e um depois na história da música do século XX. E não há-de ser uma coincidência que, hoje, lhe seja absolutamente natural confessar como acertar e errar são as duas faces da mesma indispensável moeda: “Quando estou a compor, toco, inadvertidamente, notas erradas. Mas isso não é um problema, pelo contrário: os erros são bem-vindos, encara-os como uma dádiva. Descobrir um som inesperado ou uma harmonia em que não tinha pensado que transformam por completo o carácter de uma música é o melhor que me pode acontecer”. E chega a ser até um pouco intrigante que nunca tenha sido comparado com Ennio Morricone: ambos músicos de formação clássica com interesse pelas práticas experimentais e de vanguarda, incursões pela pop e adjacências e contribuição importante para a música no cinema. Não será, por isso, realmente inesperado que Sakamoto – autor das bandas sonoras de Merry Christmas Mr. Lawrence (Nagisa Oshima, 1983), O Último Imperador (Bertolucci, 1987), Saltos Altos (Almodovar, 1991), Olhos de Serpente (Brian de Palma, 1998) ou O Renascido (Iñarritu, 2015) – declare, agora, a propósito do último álbum, async, que o imaginou como banda sonora para um filme inexistente de Andrei Tarkovski: “A experiência ensinou-me que o processo de compor, seja para cinema ou não, é, essencialmente idêntico. Os objectivos é que são diferentes. Se componho para mim, só tenho de me satisfazer a mim mesmo. Se o estou a fazer para um filme, sou obrigado a responder aos desejos e aos prazos – por vezes, pouco razoáveis – do realizador, do produtor, do público... é um trabalho esgotante. Por isso, escrever para um filme imaginário permitiu-me juntar o melhor dos dois mundos, embora também não fosse uma tarefa fácil ser simultaneamente compositor, realizador, produtor e público. Conheço bem o cinema de Tarkovski, gosto de todos os filmes dele mas, para este álbum, inspirei-me, especialmente, em determinadas imagens de Solaris, O Espelho e Sacrifício.



Na origem, havia um programa: “jogar com as ideias de a-sincronismo, caos, física quântica, os números primos, as fronteiras difusas entre natural e artificial, ruído e música”. Mas como traduzir tudo isso musicalmente? “Já não é a primeira vez que experimento aproximar-me desse tipo de música, ‘async music’, já em álbuns anteriores tinha procurado ir por aí. Todos os géneros musicais – world, clássica, jazz, rock – se constroem em torno de uma pulsação central. Queria fazer algo completamente diferente e não existem muitos exemplos disso. Não é fácil imaginar música com múltiplas pulsações. A questão da inspiração recolhida no estudo dos números primos ou da física quântica decorre de serem assuntos que tenho estudado e tentado compreender e que acho extraordinariamente estimulantes. Mas os meus interesses têm vindo a deslocar-se em direcção à utilização simultânea de ‘som e música’ e não apenas de ‘música’. Tenho feito muitas gravações de campo e coleccionado uma grande quantidade de sons estranhos”. async acaba, então, por ser o ponto onde coincidem sonoridades e instrumentos tradicionais – ainda que abordadas sob uma perspectiva não convencional – e fontes sonoras diversas, numa espécie de “musique concrète” requintadamente domesticada? “É esse mesmo o conceito de async. Sempre fiz questão de manter os ouvidos bem abertos, não escutar apenas música mas todo o tipo de ruídos e, neles, tentar identificar o que contêm de música em potência. Já quando andava no liceu e tinha de ir de comboio para a escola, ocupava o tempo da viagem a escutar todos os inúmeros sons no interior do comboio. Tudo isto, claro, aprendi com John Cage”




O plano, então, era: “Todas as manhãs, assim que acordava, recriar todos sons que me povoavam a cabeça, usando o sintetizador analógico; pegar num coral de Bach e rearranjá-lo como se escutado no meio do nevoeiro, para revelar uma lógica austera no interior de uma núvem informe; recolher os sons de coisas e lugares – ruínas, multidões, mercados, chuva; compor música cujas componentes tenham todas uma pulsação diferente”. Mas surgiram igualmente as vozes de David Sylvian recitando um poema de Arseny Tarkovsky, pai de Andrei (“I dreamed this dream and I still dream of it and I will dream of it sometime again, everything repeats itself and everything will be reincarnated, and my dreams will be your dreams (…) wave after wave breaks on the shore: there's a star on the wave, and a man, and a bird, reality and dreams and death - wave after wave, life is a wonder of wonders, and to wonder, I dedicate myself, on my knees, like an orphan, alone among mirrors, fenced in by reflections: cities and seas, iridescent, intensified”) e a de Paul Bowles gravada há quase trinta anos quando Sakamoto trabalhava na banda sonora de Um Chá no Deserto, de Bertolucci (“Because we don’t know when we will die, we get to think of life as an inexhaustible well. How many more times will you watch the full moon rise? Perhaps 20. And yet it all seems limitless”). 



Mas não apenas essa: “Porque, realmente, adoro o Tarkovski, apeteceu-me ouvir aquele texto de Paul Bowles em russo. Gosto também muito de filmes chineses, porque não também em chinês? No final, acabou por ser lido igualmente em alemão, iraniano, farsi, espanhol, islandês e italiano... pelo próprio Bernardo Bertolucci”. Não ficou, porém, por aí. Chamadas a contribuir foram também as esculturas sonoras dos irmãos Baschet (que, num dia quente de Verão, gravou, por entre corais de cigarras, na universidade de Kioto) bem como as do italo-americano Harry Bertoia que desencantou num pequeno museu de Manhattan. Na verdade, não se trata de uma estratégia omnívora inteiramente inédita na música de Sakamoto. Já em Discord (1998) - num gesto de reacção emocional às tragédias humanitárias que, na altura, tinham lugar no Ruanda e no Zaire – ele recorrera a estilos musicais diversos e diferentes media. Mas, quando o interrogo acerca da existência de alguma afinidade entre essas duas obras, praticamente reafirma aquilo que, há quase vinte anos me respondera (“A música não é um utensílio nem uma máquina capaz de interpretar o mundo real. Tem o seu próprio universo mas contém também uma gramática e uma sintaxe das emoções. De qualquer modo, em geral, não gosto de usar a música como veículo de propaganda política”): “Na altura de Discord, senti a necessidade de reagir a esses acontecimentos mundiais. Não é o tipo de atitude que, habitualmente, pense que deva tomar através da música. Mas é evidente que não posso fugir à influência que aquilo que se vai passando no mundo tem, inevitavelmente, sobre mim. Todos os dias. Não de uma forma clara e explícita mas a um nível mais profundo”



No fundo, na raiz de async, encontrava-se algo de mais intensamente pessoal e dramático: há três anos, foi-lhe diagnosticado um cancro na garganta, actualmente em remissão (embora lhe tenha bloqueado a possibilidade de salivar) mas que, ainda assim, permanece como uma ameaça latente. As palavras do texto de Paul Bowles adquirem toda uma outra ressonância quando ele afirma “Estava convencido de que este álbum poderia ser o último que iria gravar. E não é ainda impossível que o venha a ser. Ninguém sabe quando vai morrer”. Imediatamente a sombra de Blackstar, de David Bowie, paira sobre a conversa. Mas Ryuichi Sakamoto, colocado perante a hipótese de encaramos async como um testamento final, tranquilamente, afasta-a: “Nunca pensaria na minha música como um testamento final. Gravar este álbum foi como trepar a uma montanha sem um mapa na mão. Uma vez atingido um cume, descobrimos logo outro mais à frente e não temos o fim à vista. Mas, na verdade, cada trabalho meu representa sempre a minha última vontade. Claro que o facto de ter tido o problema do cancro na garganta acentuou bastante mais essa ideia. E fez-me tomar consciência de que, na verdade, a atitude de encarar cada álbum como sendo, potencialmente, o último é, de facto, a mais correcta. Não sei se terei um ano ou dez ainda à minha frente mas claro que continuo a ter sonhos, esperanças e planos para o futuro”.
"Trump is an idiot"

My Place: Stephin Merritt

A bófia do Trampas é um cano roto

24 May 2017


... e não se esqueçam da bóia, das barbatanas e de uma barcaça catita

Tindersticks - "Johnny Guitar" (Peggy Lee/Victor Young) & "Into the night"  
(D. Lynch/A. Badalamenti)


“O olhar [de Richard Thompson] sobre o mundo e as criaturas não capta senão micro-infernos como Salford, que já dera origem à 'Dirty Old Town', de Ewan MacColl ('Salford sunday and I'm dreaming, and it's all in black and white')"



23 May 2017

The Magnetic Fields - "Why I Am Not a Teenager"

RUGAS


Aparentemente, tudo teria ficado definitivamente resolvido em 09.09.09, quando a totalidade da discografia dos Beatles, digitalmente remasterizada segundo os mais excelsos padrões tecnológicos "state of the art", foi apresentada ao universo. Allan Rouse, Sean Magee e Steve Rooke – druídas sonoros da EMI de serviço – asseguravam a quem os visitava no nº 3 de Abbey Road que tudo ficara “o mais fiel possível à forma como a banda soava nas ‘masters’ originais nunca usadas nas reedições em CD”, correspondia exactamente “ao modo como os próprios Beatles se escutavam em estúdio” e que “a autenticidade e integridade das gravações analógicas tinham sido religiosamente respeitadas”. Em suma, “dificilmente se poderia ter ido mais longe”. Já na altura, porém, havia quem colocasse reticências, particularmente em relação a Sgt. Pepper’s. Geoff Emerick, engenheiro de som dos Beatles, desde Revolver (1966) até Abbey Road (1969) – não convidado para participar no processo de remasterização –, jurava que as conversões de “mono” para “stereo” eram quase uma falsificação: “O ‘mono’ era a verdade. Durante as três semanas que durou o processo de mistura em ‘mono’ de Sgt. Pepper’s, os Beatles estiveram sempre presentes. Era dessa forma que eles pretendiam que o álbum fosse escutado, em ‘mono’. Quando começámos as misturas em ‘stereo’, eles já tinham ido para férias. As versões ‘stereo’ eram só um acrescento”. E foi, então, recordada a célebre declaração de George Martin: “Se nunca o ouviram em ‘mono’, nunca ouviram Sgt. Pepper’s



Era pouco provável, contudo, que o 50º aniversário da banda do sargento pudesse passar sem que se aproveitasse a oportunidade para dele espremer mais algum rendimentozinho. A argumentação de Giles Martin (filho de George) responsável pela nova remistura “stereo” é que, francamente, se dispensava: as versões originais “soam velhas” e era indispensável que “os nossos filhos e netos possuissem uma versão do álbum que ‘funcione’ bem neste novo milénio”. Tratar-se-á, agora, de saber, qual o prazo de validade da presente reciclagem até que comece a exibir rugas embaraçosas. Mas, ao mesmo tempo, reconheça-se que todo um imenso campo de possibilidades se abre de par em par: “os nossos filhos e netos” não preferirão Os Pássaros, de Hitchcock, com música do princípio ao fim? E que tal o tecto da Capela Sistina em 3D? E, já agora, porque não reconstruir como deve ser o Templo Romano, de Évora, que até dói ver assim em cacos?...
Ariana Grande, praticante 

20 May 2017

Harry Bertoia - Sound Sculptures

"A Pátria está mais uma vez a atravessar um espasmo nacionalista por causa da vitória dos irmãos Sobral na Eurovisão. Isto é por surtos, agora vai haver 15 dias de celebrações, cheias de grandes frases, cheias de peito feito, por parte de quase toda a gente que nem sabia que Salvador Sobral existia. (...) Subitamente tudo parece possível, o interesse pelo português sobe em flecha, o lirismo passa a receita universal, Portugal é o maior, e duas pessoas, os irmãos Sobral, passam do anonimato para heróis nacionais. (...) Ninguém o disse melhor que o senhor Presidente da República, que afirmou que 'a vitória na Eurovisão deu mais 20 centímetros aos portugueses' (cito o PÚBLICO). Sim, excelente, andamos todos com mais 20 centímetros, mas onde é que está o metro e meio que perdemos como nação há 20 anos para cá, com a perda de poderes do Parlamento português, com a assinatura de tratados como o Orçamental, com a subjugação a um modelo de crescimento medíocre em nome das 'regras europeias', com acordos como o Acordo Ortográfico, que fez proliferar as normas da ortografia do português, em vez de as unificar, ficando nós com a mais pobre, com os cortes no ensino da língua e da projecção da cultura, com a ênfase na diplomacia económica e o definhar das instituições como o Instituto Camões?" (JPP)
"Se calhar, podemos fazer parte da mudança. E fazer com que o Festival da Eurovisão possa ser como quando os nossos pais eram pequeninos" (Salvador Sobral à Revista "E"/"Expresso")

... mas, moço, quando os vossos pais eram pequeninos, o Eurocoiso já era a merdunça que sempre foi... (excepto se observado pelo ângulo mais favorável... também ele já desaparecido)

19 May 2017

Gozaram com o homem e, afinal, havia mesmo fantasmas

Oficialmente confirmado: les portugais sont toujours gais (LXVIII)


.... e, reassumindo o papel de "sit-down comedian" (agora em modo "stand-up"), candidata-se a um lugarzinho como "entertainer/baby sitter" de universitários croatas (mas não se escusando a proferir afirmações de densíssimo conteúdo como aquela em que defende que os portugueses são um "povo realista mas romântico" e "os azulejos e o fado são exemplo disso mesmo")
... sendo assim, encaixotava-os juntamente com os santinhos Jacinta e Francisco e despachava-os rapidamente para o Pantelhão (proposta já, noutra ocasião, ignorada, mas que se lixe)
Hurray For The Riff Raff at American Songbook 

18 May 2017

... e então?... não é menos do que o Relvas e o "bicoze dize ect izaect detuidu"...

O Mestre
Les portugais sont toujours gais (LXVII)


Isto ainda vai dar para umas semanitas... (mas, pelo menos,
o Augie "Mad Dog" SS é um "especialista")
Brian Eno: "Don't get a job"




16 May 2017

... é mais ou menos isto, sim...

E, de repente (seguindo o exemplo pioneiro do mestre-de-obras), não pode levantar-se uma pedra que não salte de lá um crítico de música 

 
... é afadunchada na choraminguice atrofiada, sim senhor, mas, se reparar bem, na realidade, é só uma valsinha carunchosa de tias velhas, capaz de fazer o Cat Stevens parecer o Bob Dylan
"O que a regressão aos três FFF do tempo de Salazar mostra é que o baixo nível de instrução que perdura em Portugal só pode amplificar o lastro da (in)cultura salazarenta que o país transporta consigo" (MVC)
C-WORD 



Os linguistas dividem-se quanto à etimologia da palavra inglesa “cunt”. Se alguns lhe atribuem uma origem latina (cunnus), outros situam-na em formas arcaicas das línguas nórdicas, germânicas e proto-germânicas. Mas todos parecem concordar quanto ao facto de o primeiro registo escrito datar de cerca de 1230 e ser referente a uma ruela mal afamada de Londres, Gropecuntlane. Embora, na literatura médica, até ao século XV, fosse usada como equivalente de “female genitalia”, cem anos depois já era evitada no convívio social e, a partir do século XVII, seria considerada obscena. Mais modernamente, o natural processo de enriquecimento semântico teve como consequência que, sem abdicar do significado inicial, o dicionário Merriam Webster hoje informe que “cunt” poderá designar “uma pessoa imbecil, idiota, desagradável, inútil”, acerca do que, por exemplo, em "Plaistow Patricia" (de New Boots And Panties, 1977), Ian Dury oferecia uma muito útil e condensada lista de sinónimos: “Arseholes, bastards, fucking cunts and pricks"



Jason Williamson, metade dos Sleaford Mods, que, por vários motivos, aos 46 anos, bem poderia ser filho de Dury (teria agora 75), é igualmente versado no vernáculo britânico e, como ele, ágil nos jogos de sentidos que as palavras estimulam. No EP de 2014, Tiswas, incluía uma amável injúria dirigida à espécie humana em geral, "Bunch Of Cunts". Tirando partido da proximidade fonética entre “cunts” (pronunciada com sotaque de Nottingham) e “kunst” (em alemão: “arte”), foi fácil encontrar o título – Bunch Of Kunst – para o documentário que Christine Franz realizou sobre a banda de Williamson e Andrew Fearn. Na realidade, uma extraordinária singularidade cósmica: um par de quarentões desmazelados, acumulando, no século XXI, o papel dos Sex Pistols, The Fall e Suicide, num “post-punk stream-of-rap-consciousness” musicalmente rudimentar (voz e batidas "low cost)", proletariamente irado (“Camouflage. Humpty Dumpty. Crusades. Blood on the hands of working class rage”), politicamente feroz (“This is the human race, UKIP and your disgrace, chopped heads on London streets, all you zombies tweet, tweet, tweet”) e generosamente utilizador do "c-word": “The cunt with the gut and the Buzz Lightyear haircut, callin’ all the workers plebs, you better think about your future, you better think about your neck”.

14 May 2017


"(...) O efeito vai do futebol para 'Fátima', porque a banalização de um fenómeno complexo, como é a fé de milhões, no contexto histórico da visita do Papa, é feito pelo mecanismo do espectáculo que o transforma em algo de semelhante a uma vitória desportiva. Com se verá, se for hoje, mesmo muito do vocabulário usado pelos locutores e jornalistas será substancialmente muito parecido. (...) A história concreta de Fátima no século XX, é a história da Igreja católica em Portugal, e diga-se a verdade, não é uma história muito dignificante. Foi a Igreja que mudou a “mensagem” inicial das aparições, muito ligada ao contexto da participação portuguesa na I Guerra Mundial, para o anticomunismo nos anos trinta sob o espectro da guerra civil espanhola. Foi a Igreja, na sua ligação íntima com o salazarismo, que envolveu Fátima (e por arrastamento Nossa Senhora) nos 'agradecimentos' a Salazar por ter colocado Portugal fora da II Guerra Mundial, e que, voltou nos anos cinquenta, já não apenas ao anticomunismo da mensagem da 'conversão da Rússia', mas na transformação do santuário no palco organizacional de grupos anticomunistas internacionais. (...) A ironia da história faz com que o Papa Francisco tenha sido recebido pela multidão com uma palavra de ordem simbólica do 25 de Abril, 'Francisco amigo, o povo está contigo' (...)" (JPP)

Nota 1) - I beg to differ: não prefiro o CEO da Vaticano S.A. ao Trampas; 
Nota 2) - A primeira página da edição "online" do "Público", neste momento, é a exacta representação da vitória final dos "três éfes"
Nota 3) - Já repararam como, no contexto global da encenação FFF, até o nome do xoninhas eurovisivo é perfeito: Salvador!
2017 - Prémio "Profeta do Ano"


13 May 2017

Laibach - "Eurovision"

VINTAGE (CCCXXXVII)



Não há nada como uma boa teoria da conspiração (e esta é quase uma obra-prima dadaísta)

  
Illuminati mock Fatima's 100th anniversary with 'miracles'
These include the portuguese football league

The script:
May 13, hours after the end of the 'Pope''s tetra in Portugal (Francis No Number is the FOURTH 'pope' to visit Fatima, after 'popes' Paul VI, John Paul II and Benedict XVI):
- in case of a victory of Benfica (the most popular portuguese team) it will for the first time in its 100+ years History win the title FOUR times in a row (tetra champion),
- this as Benfica is coached by Victory (Rui Vitoria) while the coaches of the two other main teams (Sporting and Porto) are Jesus (Jorge Jesus) and Holy Spirit (Nuno Espirito Santo).
Note this previous act: two years earlier Benfica got its 33th title (the second as part of the eventual first tetra ever) while coached by Jesus.

Also a candidate for a miracle:
Illuminati set the Eurovision song 'contest' for May 13, where Portugal does not normally qualify for the final, unlike this year, when it's represented by a song with a deliberately grotesque twist.

Context notes: 
- same as any other votes counted by the illuminati, 'results' are always scripted.
- in this case human cattle actually voluntarily pays (60 cts for each phone call) to 'vote', what perfectly fulfills the illuminati religion commandment of endless deception.

12 May 2017

HERDAR A FESTA


A Ian Hamilton Finlay (1925–2006), pastor, jardineiro, poeta e artista plástico, devemos os “poemas-objecto” em pedra que implantou no jardim de Little Sparta, perto de Edimburgo – “cada área receberá um pequeno artefacto que reinará como uma pequena divindade ou espírito do lugar” –, a redução drástica do monóstico (poema de um só verso) a uma única palavra e a poesia visual/concreta, publicada na revista que editou, Poor.Old.Tired.Horse, o que lhe assegurou, em exclusivo, o título de "avant-gardener" da cultura britânica. A sua primeira recolha de poesia foi The Dancers Inherit the Party (1960) onde, logo a abrir, se lê: “When I have talked for an hour I feel lousy, not so when I have danced for an hour: the dancers inherit the party while the talkers wear themselves out and sit in corners alone, and glower”. Não é, obviamente, um acaso que o ultimo álbum dos British Sea Power se intitule Let The Dancers Inherit The Party e que, em "Praise For Whatever" se escute Yan Scott Wilkinson cantar “It's such a convoluted hour to play amongst the flowers, when we're counting all the missiles down from three to one to none, and in a world of extremities we all are accessories so let the dancers inherit the party”



E também não é, de todo, inesperado: se a banda originária do paradisíaco Lake District e transplantada para Brighton já incluía no currículo o magnífico Machineries Of Joy (2013), inspirado em Ray Bradbury, e, em "Georgie Ray" (de Valhalla Dancehall, 2011), fundia Bradbury com George Orwell, invocar, agora, Ian Hamilton Finlay e recorrer a uma biografia de Jaroslav Hašek (The Bad Bohemian) para dar nome a uma canção (e correspondente videoclip de inspiração dada-surrealista via-Kurt Schwitters), é apenas uma muito natural sequência. Confessadamente concebido sobre um pano de fundo de “políticos aperfeiçoando a arte da mentira descarada, das câmaras de eco das redes sociais, dos iscos publicitárion online e dos brinquedos electrónicos que pretendem manter-nos distraídos e atordoados”, o que inquieta esta descendência – tardia mas vibrantemente reconfigurada – dos Echo & The Bunnymen e New Order é, afinal, a resposta urgente a uma pergunta: “Punk prayers, city riots, demagogues and fading lights (…) Mr psychedelic, you're a loveable relic, Mr DIY, are you no longer asking why?”
Reprise dos 62 posts do inesquecível "label"


Com o Rottweiler de deus no protagonista
Os piores dos piores: ateus que elogiam o papa
A Fatinha: um exemplo de civilidade para meninas (como diria o Pierre Louys)

Olhó peluche do papa Chico!




... e muito mais coisinhas boas: I, II, III, IV, V, VI, VII!!!

11 May 2017

Laico, my ass!

Muito bem, SIC: "milagre" (com aspas)

... ó prá Drª mana Angelita, ali à esquerda, a espreitar (se calhar, a recordar-se de quando um bravo cavaleiro de Cristo a entrevistou)...
Bem-vindos ao Planeta Espadinha, aliás, a Oxbridge dos pobrezinhos
(nem mediterrânicos nem prussianos
mas cheios de bons modinhos)
Código de vestuário

"Todos os colaboradores permanentes do IEP adoptam um código de vestuário com a decência e formalidade adequada às responsabilidades que detêm, o que inclui, para os homens, casaco e gravata, e, para as senhoras, decência correspondente. Na sala Sir Winston Churchill e nos gabinetes de trabalho é esperado que os homens possam tirar o casaco, mas não a gravata. Na sala D. Henrique é esperado o uso de casaco e gravata.

Em todo o espaço do IEP, não é autorizado o uso de shorts, T-shirts ou chinelos, sapatos de ténis ou blue-jeans. Estas regras aplicam-se apenas aos colaboradores permanentes do IEP e não aos alunos ou a visitantes, cuja eventual vulgaridade não deve, em princípio, merecer reparo.

Em contrapartida, trajes nacionais, regionais, locais ou específicos de instituições, por mais excêntricos, serão sempre respeitados e bem vindos. Todos os docentes do IEP, incluindo docentes convidados, são enfaticamente encorajados a usarem casaco e gravata nas suas aulas e tutorias, podendo tirar o casaco, mas não a gravata. Os docentes que tenham contratos com o IEP devem encarar o código de vestuário como parte do seu contrato voluntário com o Instituto.

Pauliteiros de Miranda - traje regional, excêntrico, mas respeitado e bem-vindo  

Gentlemanship

As regras acima expostas deverão ser aplicadas sem rigidez prussiana e sem laxismo mediterrânico. Portugal é um país atlântico (e não mediterrânico), fundador da mais velha aliança do mundo, bem como do mais velho tratado de comércio livre, e pioneiro dos Descobrimentos. No nosso pequeno IEP da UCP, apreciamos tentar cumprir o dever de honrar as nossas nobres tradições". (preciosidade descoberta em Da Direita à Esquerda - Cultura e Sociedade em Portugal, dos Anos 80 à Actualidade, de António Araújo)

10 May 2017


Antes de se rirem, talvez seja de reparar que é uma história tão verosímil como a da
 Great Fatima Swindle
 



Não serão ainda exactamente os três "f" (apesar da pelintrice xoninhas concorrente ao Eurocoiso não andar longe do faduncho) mas a imprensa "de referência" está a um passinho de lá chegar...


... e este entusiasmo por uma cantigueta delicodoce num festival que já nem "kitsch" consegue ser é tão, tão, tão pateticamente "qualquer coisinha de português" (LX)...
Hurray For The Riff Raff: 
Live At SXSW 2017

"Como era a senhora?"... Mas não é 
mistério nenhum, era uma catraia 

09 May 2017

Muita droga, méne...

Sair do armário

REVOLUÇÕES 



Em fundo negro, lê-se: “Toda a arte é sujeita a manipulação política. Excepto aquela que se exprime no idioma dessa mesma manipulação”. Corte: em câmara lenta, um baterista ergue as baquetas e fá-las descer sobre o instrumento. Mas, no preciso momento em que percute as peles, o que se escuta é a sonoridade de um piano e, segundos depois, uma voz que, de modo solene e enfático, desenhará a melodia e as palavras de "The Sound Of Music", em contraponto com imagens de guerra, explosões nucleares, manifestações de massas, desfiles militares e um "pot-pourri" iconográfico de propaganda comunista norte-coreana, intercalada com "inserts" dos anos da Beatlemania, de Bill Haley, Bowie e Michael Jackson. É a porta de acesso a Liberation Day, documentário de Morten Traavik e Ugis Olte, que dá conta do concerto dos eslovenos Laibach, a 15 de Agosto de 2015, em Pyongyang, capital da República Popular Democrática da Coreia, por ocasião do 70º aniversário da vitória sobre o Japão.



Mais exactamente, o primeiro concerto de uma banda de rock ocidental no que um dos elementos do grupo definirá como “literalmente, outro planeta”: um país submetido a um cruel despotismo tragicómico no qual os media oficiais (e únicos) anunciam sem escândalo que foram encontrados vestígios do unicórnio do rei Tongmyong e que a ciência local descobriu uma vacina única contra o Ébola, HIV, Sars e Mers; uma distopia alucinada onde o “amado líder”, Kim Jong-un, é livre de assassinar um tio por este ter “ousado sonhar sonhos diferentes” e, aquando da morte de Kim Jong-Il (pai de Kim Jong-un e filho de Kim Il-sung), a Korean Central News Agency noticiou que, nesse dia, os pássaros choraram, nos lagos, o gelo estalou, as tempestades cessaram, os grous persignaram-se e as montanhas cobriram-se, sobrenaturalmente, de escritos do falecido timoneiro. Porquê, então, abrir as portas da República Popular aos Laibach, sobejamente conhecidos pelo escorregadio jogo de ambiguidades com a estética nazi? 



No documentário, Slavoj Žižek explica: “Todos os movimentos dissidentes da Jugoslávia de Tito criticavam o regime mas aceitavam as suas premissas fundamentais. Com os Laibach – fundados em 1980, um mês após a morte de Tito –, é como se eles devolvessem ao regime a própria mensagem sob a forma mais nua e crua. A atitude realmente subversiva não é a da crítica violenta nem a do distanciamento irónico mas a da sobre-identificação: tomar os valores do sistema muito mais a sério do que ele proprio o faz e expô-los à luz do dia”. Na verdade, a "Gesamtkunstwerk" dos Laibach, nas suas encenações brutalmente estentóricas capazes de transformar "The Sound Of Music" ou "Life Is Life", dos infames austríacos Opus, em empolgados hinos pagãos exacerbadamente riefenstahlianos (mas um ínfimo passo ao lado e facilmente seria realismo-socialista...), como a certa altura diz Traavik, “contém bastantes elementos familiares ao publico norte-coreano”, assaz habituado a digerir portentos de "kitsch" musical como a Moranbong Band, a Chongbong Band ou o Pochonbo Electronic Ensemble.



Nos preparativos e ensaios para o concerto, os choques políticos e culturais vão sendo diplomaticamente limados e o que disso tudo ficou registado em Liberation Day basta para o tornar o mais interessante documentário a exibir na secção Indie-Music, do IndieLisboa. Mas preste-se também atenção a Bunch Of Kunst (o punk-hop abrasivamente proletário dos Sleaford Mods), Revolution Of Sound – Tangerine Dream (a história da banda de Edgar Froese) e Eat That Question – Frank Zappa In His Own Words (autoexplicativo).