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30 April 2023

RYUICHI SAKAMOTO (1952-2023) 

(sequência daqui)

“Nunca desejei ser músico nem famoso. Comecei a estudar música em criança e frequentei um curso superior de música mas nunca imaginei vir a pratica-la profissionalmente. Juntei-me à Yellow Magic Orchestra porque me apeteceu trabalhar com aqueles dois músicos (Haruomi Hosono e Yukihiro Takahashi) imensamente talentosos. A banda, de súbito, tornou-se muito conhecida. Por isso, para mim, foi um acidente, não era um objectivo que tivesse. A música está sempre presente e sempre esteve ao meu lado, mas também gosto de literatura, de cinema e de outras áreas. Pensava ser capaz de escrever romances ou de realizar filmes”, confessou Ryuichi Sakamoto à “Criterion”, em 2017. 

 "Fechar-me num único género, a longo prazo, deveria ser bastante aborrecido... Não era capaz. Gosto de vários estilos porque gosto da música em geral e ela comporta diversos, da música antiga à contemporânea, da África ao Japão, através do tempo e do espaço"

Por essa altura, estava convalescente do cancro oro-faríngeo que lhe fora diagnosticado três anos antes e acabara de publicar async o álbum no qual desejou “incorporar os sons ‘naturais’ na música de um modo simultaneamente caótico e unificado”, extensão do que, há mais de 30 anos, declarara: “Não digo que devamos regressar à natureza mas interessa-me a erosão da tecnologia, os seus erros, falhas e ruídos”. Entre um e outro momentos, publicara duas dezenas de álbuns a solo, 11 ao vivo, cerca de meia centena de bandas sonoras para cinema e televisão, e incontáveis colaborações com músicos como Fennesz, Alva Noto, Bill Laswell, Rodrigo Leão, Arto Lindsay, Massive Attack, Caetano Veloso, Hector Zazou, Iggy Pop, David Sylvian, Virginia Astley, Japan, Aztec Camera, Marisa Monte e DJ Spooky. Conquistaria um Oscar, um Golden Globe e um Grammy para a BSO de O Último Imperador (1987), de Bernardo Bertolucci, e seria nomeado para (ou ganharia) outros 12 prémios internacionais. O tema musical de Merry Christmas Mr Lawrence, de Nagisa Ōshima (1983) – regravado como "Forbidden Colours", com a voz de David Sylvian –, não apenas venceria o BAFTA (British Academy of Film and Television Arts) para Melhor Música para Cinema como – justa ou injustamente – se transformaria numa espécie de documento de identidade de Sakamoto. 

Em Janeiro de 2021, anunciaria que a maldição oncológica progredira para uma recidiva de grau 4 (o mais avançado). exigindo cirurgia e hospitalização. Dois meses depois, “voltaria, ocasionalmente, a tocar no teclado e a gravar pequenos esboços sonoros, como quem escreve um diário. Apenas desejava banhar-me num chuveiro sonoro. Parecia-me que poderia ter um pequeno efeito curativo no meu corpo e espírito arruinados”. O álbum que daí resultaria chamou-se 12. “Até que o meu corpo ceda de vez, irei, provavelmente, manter esta espécie de diário. Espero poder fazer música durante algum tempo mais”. Fê-la até ao passado dia 28 de Março.

16 February 2023

"20211130"
 
(sequência daqui) Agora, seis anos depois, essa “gramática e sintaxe das emoções”, uma vez mais – mas discretissimamente, como sempre –, é obrigada a reflectir a influência que “o mundo real” sobre ele (e sobre nós), inexoravelmente, exerce: na sequência de uma recidiva de grau 4 (o mais avançado) exigindo cirurgia e hospitalização, Sakamoto conta que “por volta do final de Março de 2021, à medida que fui sentindo o corpo um pouco mais leve, dei por mim a procurar o sintetizador. Não tinha nenhuma intenção de compor. Apenas desejava banhar-me num chuveiro sonoro. Parecia-me que poderia ter um pequeno efeito curativo no meu corpo e espírito arruinadoss. Até aí, mal tinha energia sequer para ouvir música, muito menos para tocar alguma coisa. Mas, depois desse dia, comecei, ocasionalmente, a tocar no teclado e a gravar pequenos esboços sonoros, como quem escreve um diário. Tentei escolher 12 dos meus esboços preferidos para este álbum. Sem adornos – publico-os exactamente como ficaram. De agora em diante, irei ter de conviver com o cancro. Mas, até que o meu corpo ceda de vez, irei, provavelmente, manter esta espécie de diário. Espero poder fazer música durante algum tempo mais”.
(álbum integral aqui)
 
12 é, assim, tanto uma recolha das entradas desse diário – os títulos das faixas, começando em "20210310" correspondem tão só às datas em que foram registadas – como uma terapêutica em doses homeopáticas de essências sonoras finamente decantadas, das quais Sakamoto extrai apenas as moléculas estritamente necessárias para que seja possível dar o salto que permite passar dos meros conceitos de altura, duração, volume e timbre para o de música. Um documento da persistência da vida feito de reflexos infinitesimais de Debussy, Bach ou Chopin, em contagem decrescente para o silêncio derradeiro.

14 February 2023

CONTAGEM DECRESCENTE 

A propósito de Discord (1998), uma peça orquestral escrita de impulso em reacção às notícias sobre a fome em África e às tragédias humanitárias que, então, ocorriam no Ruanda e no Zaire, Ryuichi Sakamoto, em entrevista ao “Expresso”, sentiu a necessidade de se explicar: “A música não é um utensílio nem uma máquina capaz de interpretar o mundo real. Tem o seu próprio universo mas contém também uma gramática e uma sintaxe das emoções. Nesta altura, porém, senti a necessidade de tomar posição relativamente a esses acontecimentos. Não é o tipo de atitude que, habitualmente, pense dever assumir através da música. Mas é evidente que não posso fugir à influência que aquilo que se vai passando no mundo tem, inevitavelmente, sobre mim. Todos os dias. Não de uma forma clara e explícita mas a um nível mais profundo”.

"20210310"

A esse mesmo “nível mais profundo” situar-se-ia também async (2017) gravado três anos após lhe ter sido diagnosticado um cancro da laringe. Por essa altura, dir-me-ia: “Nunca pensaria na minha música como um testamento final. Gravar este álbum foi como trepar uma montanha sem um mapa na mão. Uma vez atingido um cume, descobrimos logo outro mais à frente e não temos o fim à vista. Mas, na verdade, cada trabalho meu representa sempre a minha última vontade. Claro que o problema do cancro acentuou bastante mais essa ideia. E fez-me tomar consciência de que a atitude de encarar cada álbum como sendo, potencialmente, o último é, de facto, a mais correcta. Não sei se terei um ano ou dez ainda à minha frente mas claro que continuo a ter sonhos, esperanças e planos para o futuro”. (daqui; segue para aqui)

04 December 2018

VENTO, TERRA, FOGO, ÁGUA


Em Double Trouble: Bill Clinton and Elvis Presley In a Land of No Alternatives (2001), Greil Marcus conta como o plano inicial de David Thomas para os Pere Ubu era ’gravar um artefacto’ que ‘lhes desse acesso à Fraternidade dos Desconhecidos que se ia constituindo por todo o lado, nas lojas de discos em segunda mão’. A ideia era actuar e depois desaparecer, ser esquecido, e, algures no futuro, talvez mesmo depois de morto, ser descoberto e, só então, começar a transformar o mundo”. Praticamente as mesmas palavras poderiam ser aplicadas a um outro “artefacto” gravado em 2001: The Opiates, assinado Anywhen, na realidade, apenas um "nom de plume" para o sueco Thomas Feiner acompanhado pela Orquestra Sinfónica de Varsóvia. Literalmente esmagado e não poupando as palavras, na altura, descrevi-o como “O melhor disco de Jeff Buckley. O melhor disco de David Sylvian. O melhor disco de John Cale. O melhor disco dos Tindersticks. O melhor disco de Scott Walker. O melhor disco dos Blue Nile. O melhor disco dos Divine Comedy”. Não me arrependo de nenhuma dessas comparações (arrependo-me só de não lhes ter acrescentado os Triffids).



Simplesmente, enquanto imaginava que, inevitavelmente, pelo menos uma parcela do mundo civilizado iria ajoelhar perante tanta grandeza... nada aconteceu. Intimidadas pelas implacáveis proclamações (“Here come greetings from the fires of dusk, from all the places you never dared to walk, you never saw the silent battle zones beneath your towers and beneath your gardens") as gentes passaram de lado e Feiner, sem o saber, acabara de ser iniciado na Brotherhood of the Unknown. Em 2008, The Opiates seria remasterizado para a Samadhisound, de David Sylvian (Thomas Feiner & Anywhen: The Opiates – Revised), houve notícias avulsas de publicações em mp3, um website lacónico que, relutantemente, deixava escapar parca informação sobre colaborações com Steve Jansen e vagas bandas sonoras. Na Wikipedia, uma única página. Em português. Até que, de súbito, há semanas, sob a designação Exit North (Feiner, Jansen, Charles Storm e Ulf Jansson), surge Book Of Romance And Dust. Apetece repetir, sílaba por sílaba, tudo o que foi dito sobre The Opiates. Podendo talvez acrescentar-se – errando – que, agora, Ryuichi Sakamoto teria sido convocado para o deslumbre onde um translúcido impressionismo electrónico se infiltra por entre as palavras e as dissolve, “to hear the world, the void, the sound it makes, the wind, the earth, the fire, high water”.

26 April 2018

DISCO, PUNK E OS SONS DO MUNDO 




“Cada pessoa que ali entrava era uma estrela”. Na verdade, isto não significava que, qualquer um que transpusesse a porta do Studio 54 se transformava, intantaneamente, num astro cintilante mas sim que a ultra-restritiva política de acesso ao clube da West 54th Street, entre a 8ª Avenida e a Broadway, apenas autorizava a admissão à "beautiful people" e a um número controlado de acompanhantes e espécimes decorativos vários que não lhe beliscassem a imagem de Jardim do Éden ou, segundo outros, de Sodoma e Gomorra contemporâneas. Como alguém, às tantas, no documentário de Matt Tyrnauer, Studio 54, explica, “Mick Jagger e Keith Richards podiam entrar à vontade. Mas os outros Rolling Stones teriam de pagar”. Fundado em 1977 por Ian Schrager e Steve Rubell, seria, simultaneamente, um símbolo da idade de ouro do disco sound, um local – luxuoso e reservadíssimo – de celebração delirante de todas as tribos, géneros e fetiches, e um teatral marco histórico do início do culto das celebridades-durante-quinze-minutos. Acabaria por ser encerrado em 1980, após a condenação de Schrager e Rubell a três anos e meio de prisão (devido a evasão fiscal) de que só se livrariam por meio de uma sucessão de golpes baixos, traições e delações muito pouco edificantes.


Na programação da secção musical do “IndieLisboa” deste ano há, pelo menos, outros dois documentários francamente recomendáveis: Here To Be Heard: The Story Of The Slits, de William E. Badgley, e Ryuichi Sakamoto: Coda, de Stephen Nomura Schible. Em Here To Be Heard, apresenta-se a trajectória da banda – no princípio, integralmente feminina – que “fazia os Sex Pistols parecerem meninos de coro”. Tomando por guião o "scrapbook" onde Tessa Pollitt (a baixista que se juntou às Slits duas semanas antes do primeiro concerto com os Clash, Buzzcocks e Subway Sect, e permaneceu até ao fim) coleccionou todos os recortes de imprensa, abre também espaço para os testemunhos das outras Slits sobreviventes, Palmolive e Viv Albertine – a maravilhosamente alucinada Ari Up morreu em 2010 –, posteriores elementos do grupo, e fãs vários: das origens no casulo do Roxy, de Covent Garden, numa Londres ainda dominada por “homens de chapéu de coco e fatos às riscas”, aos manifestos (“O derradeiro teste de criatividade e talento é o modo através do qual um artista consegue transmitir ideias originais transcendendo os limites técnicos”) e à concretização de um feminismo punk selvagem e anárquico, feito de ruído, reggae e dub, batidas tribais e transviadas memórias soul. Cruzar-se-iam com o Pop Group e Neneh Cherry, aproximar-se-iam de um afro-jazz imaginário, e, nessa magnética e imperfeitíssima colisão de géneros e estéticas, virariam do avesso a música da época de um modo que só, talvez, as Raincoats terão igualado. 


Nas primeiras imagens de Coda, Ryuichi Sakamoto debruça-se sobre um piano que sobreviveu ao sismo e tsunami de 2011: “Senti como se estivesse a tocar no cadáver de um piano que se tinha afogado”. Depois, visita a zona radioactivamente contaminada na central nuclear de Fukushima, mostra imagens de uma enorme manifestação contra a reactivação das centrais (“Nós, japoneses, temos estado demasiado silenciosos desde há 40 anos”) e convida-nos para um concerto num local de evacuação temporária durante a catástrofe, onde escutamos "Forbidden Colours", o tema que compôs para Merry Christmas, Mr. Lawrence, de Nagisa Oshima. Quase friamente, recorda, então que, em 2014, lhe foi diagnosticado um cancro na garganta e que, embora, clinicamente curado, “não sei o tempo que me resta; mas sei que quero continuar a criar música”. A câmara segue-o entre Tokyo, Nova Iorque, o Ártico e o lago Turkana, no Quénia, durante o processo que culminaria na publicação de async (2017). A música que ele deseja poder continuar a compor – e que esse álbum nos permitiu ouvir – deverá “incorporar os sons ‘naturais’ na música de um modo simultaneamente caótico e unificado”. E ele recolhe-os caminhando pela floresta, registando as gotas de chuva que caem sobre uma clarabóia ou, no quintal, em recipientes de diferentes dimensões, pesca-os no fundo de glaciares ou numa ilha africana. O modelo (coisa bem distinta do que ele próprio fez com Oshima, com Bertollucci, em O Último Imperador e Um Chá no Deserto, ou com Iñarritu, em O Renascido, de que vemos excertos) encontra-o em Solaris, de Tarkovsky. No estúdio doméstico, assistimos aos momentos de experimentação e condensação sonora. Qual parábola, explica-nos que os diversos elementos ‘naturais’ do seu Steinway foram tecnologicamente trabalhados para dar origem a um piano e como o outro sobrevivente do tsunami parece ter revertido esse processo. Antes, numa evocação do artista enquanto jovem membro da Yellow Magic Orchestra, há mais de 30 anos, já afirmara coisa idêntica: “Não digo que devamos regressar à natureza mas interessa-me a erosão da tecnologia, os seus erros, falhas e ruídos”.

20 June 2017

BOA MÚSICA NO TITANIC


Se, por estes dias, os putos rufias do planeta – o Kim, o Donald, o Vlad-meia-leca – se engalfinhassem a sério, segundos antes de vermos surgir na linha do horizonte um fabuloso "light show" de fulgurantes cogumelos, de uma coisa, pelo menos, poderíamos estar certos: os últimos seis meses de vida do mundo "as we know it" tinham sido, musicalmente, riquíssimos. Fraco consolo para quem, logo a seguir, se iria transformar em fóssil radioactivo, espécie de estátua de sal bíblica para futuros estudiosos extraterrenos do mal sucedido projecto-homo sapiens. Mas que até contribuiria para explicar por que motivo, no grande e pérfido desígnio cósmico, os seis meses restantes de 2017 seriam desnecessários. E que, aliás, também confirmaria a tese de Arthur Koestler acerca do primata supremo, enquanto “aberração biológica resultante de um grave erro no processo evolutivo” – coisa que, na verdade, qualquer cristão, leitor atento do seu manual de instruções, sabe que, logo no Génesis, começou desastradamente mal –, Janus bifronte capaz do melhor e do aterradoramente pior.

E, musicalmente falando, indiscutivelmente do melhor, até agora, foram as tentativas para localizar alguma fugidia tranquilidade de Brian Eno (Reflection), Ryuichi Sakamoto (async), das Unthanks (Molly Drake), Julia Holter (In The Same Room) ou de Thurston Moore (Rock’n’Roll Consciousness), este em registo neo-hippie no meio de uma tempestade eléctrica. Entretanto, pela terceira vez, Dylan, com Triplicate, deu corda à orquestra do Titanic planetário enquanto Jarvis Cocker e Chilly Gonzales (Room 29) nos conduziam pela mão a espreitar através do buraco da fechadura de cada um dos quartos, e Aimee Mann ensaiava uma hipótese de diagnóstico – koestlerianamente correctíssima – a que, nada surpreendentemente, chamou Mental Illness. A comemoração dos 50 anos de carreira do veterano folk, Michael Chapman (50), e de outros tantos de vida de Stephin Merritt (50 Song Memoir) contribuiram decisivamente para manter elevada a fasquia que Memories Are Now, de Jesca Hoop, e Semper Femina, de Laura Marling, empurraram ainda mais para cima. Olhando a besta de frente, dos dois lados do Atlântico, English Tapas, dos Sleaford Mods, e The Navigator, de Alynda Segarra/Hurray For The Riff Raff, não deram tréguas mas foi dos britâncos Gnod a última palavra: Just Say No To The Psycho Right-Wing Capitalist Fascist Industrial Death Machine.

25 May 2017

NA MONTANHA, SEM MAPA 


Ryuichi Sakamoto nasceu precisamente no ano – 1952 – em que, com 4’53”, John Cage criou, instantaneamente, um antes e um depois na história da música do século XX. E não há-de ser uma coincidência que, hoje, lhe seja absolutamente natural confessar como acertar e errar são as duas faces da mesma indispensável moeda: “Quando estou a compor, toco, inadvertidamente, notas erradas. Mas isso não é um problema, pelo contrário: os erros são bem-vindos, encara-os como uma dádiva. Descobrir um som inesperado ou uma harmonia em que não tinha pensado que transformam por completo o carácter de uma música é o melhor que me pode acontecer”. E chega a ser até um pouco intrigante que nunca tenha sido comparado com Ennio Morricone: ambos músicos de formação clássica com interesse pelas práticas experimentais e de vanguarda, incursões pela pop e adjacências e contribuição importante para a música no cinema. Não será, por isso, realmente inesperado que Sakamoto – autor das bandas sonoras de Merry Christmas Mr. Lawrence (Nagisa Oshima, 1983), O Último Imperador (Bertolucci, 1987), Saltos Altos (Almodovar, 1991), Olhos de Serpente (Brian de Palma, 1998) ou O Renascido (Iñarritu, 2015) – declare, agora, a propósito do último álbum, async, que o imaginou como banda sonora para um filme inexistente de Andrei Tarkovski: “A experiência ensinou-me que o processo de compor, seja para cinema ou não, é, essencialmente idêntico. Os objectivos é que são diferentes. Se componho para mim, só tenho de me satisfazer a mim mesmo. Se o estou a fazer para um filme, sou obrigado a responder aos desejos e aos prazos – por vezes, pouco razoáveis – do realizador, do produtor, do público... é um trabalho esgotante. Por isso, escrever para um filme imaginário permitiu-me juntar o melhor dos dois mundos, embora também não fosse uma tarefa fácil ser simultaneamente compositor, realizador, produtor e público. Conheço bem o cinema de Tarkovski, gosto de todos os filmes dele mas, para este álbum, inspirei-me, especialmente, em determinadas imagens de Solaris, O Espelho e Sacrifício.



Na origem, havia um programa: “jogar com as ideias de a-sincronismo, caos, física quântica, os números primos, as fronteiras difusas entre natural e artificial, ruído e música”. Mas como traduzir tudo isso musicalmente? “Já não é a primeira vez que experimento aproximar-me desse tipo de música, ‘async music’, já em álbuns anteriores tinha procurado ir por aí. Todos os géneros musicais – world, clássica, jazz, rock – se constroem em torno de uma pulsação central. Queria fazer algo completamente diferente e não existem muitos exemplos disso. Não é fácil imaginar música com múltiplas pulsações. A questão da inspiração recolhida no estudo dos números primos ou da física quântica decorre de serem assuntos que tenho estudado e tentado compreender e que acho extraordinariamente estimulantes. Mas os meus interesses têm vindo a deslocar-se em direcção à utilização simultânea de ‘som e música’ e não apenas de ‘música’. Tenho feito muitas gravações de campo e coleccionado uma grande quantidade de sons estranhos”. async acaba, então, por ser o ponto onde coincidem sonoridades e instrumentos tradicionais – ainda que abordadas sob uma perspectiva não convencional – e fontes sonoras diversas, numa espécie de “musique concrète” requintadamente domesticada? “É esse mesmo o conceito de async. Sempre fiz questão de manter os ouvidos bem abertos, não escutar apenas música mas todo o tipo de ruídos e, neles, tentar identificar o que contêm de música em potência. Já quando andava no liceu e tinha de ir de comboio para a escola, ocupava o tempo da viagem a escutar todos os inúmeros sons no interior do comboio. Tudo isto, claro, aprendi com John Cage”




O plano, então, era: “Todas as manhãs, assim que acordava, recriar todos sons que me povoavam a cabeça, usando o sintetizador analógico; pegar num coral de Bach e rearranjá-lo como se escutado no meio do nevoeiro, para revelar uma lógica austera no interior de uma núvem informe; recolher os sons de coisas e lugares – ruínas, multidões, mercados, chuva; compor música cujas componentes tenham todas uma pulsação diferente”. Mas surgiram igualmente as vozes de David Sylvian recitando um poema de Arseny Tarkovsky, pai de Andrei (“I dreamed this dream and I still dream of it and I will dream of it sometime again, everything repeats itself and everything will be reincarnated, and my dreams will be your dreams (…) wave after wave breaks on the shore: there's a star on the wave, and a man, and a bird, reality and dreams and death - wave after wave, life is a wonder of wonders, and to wonder, I dedicate myself, on my knees, like an orphan, alone among mirrors, fenced in by reflections: cities and seas, iridescent, intensified”) e a de Paul Bowles gravada há quase trinta anos quando Sakamoto trabalhava na banda sonora de Um Chá no Deserto, de Bertolucci (“Because we don’t know when we will die, we get to think of life as an inexhaustible well. How many more times will you watch the full moon rise? Perhaps 20. And yet it all seems limitless”). 



Mas não apenas essa: “Porque, realmente, adoro o Tarkovski, apeteceu-me ouvir aquele texto de Paul Bowles em russo. Gosto também muito de filmes chineses, porque não também em chinês? No final, acabou por ser lido igualmente em alemão, iraniano, farsi, espanhol, islandês e italiano... pelo próprio Bernardo Bertolucci”. Não ficou, porém, por aí. Chamadas a contribuir foram também as esculturas sonoras dos irmãos Baschet (que, num dia quente de Verão, gravou, por entre corais de cigarras, na universidade de Kioto) bem como as do italo-americano Harry Bertoia que desencantou num pequeno museu de Manhattan. Na verdade, não se trata de uma estratégia omnívora inteiramente inédita na música de Sakamoto. Já em Discord (1998) - num gesto de reacção emocional às tragédias humanitárias que, na altura, tinham lugar no Ruanda e no Zaire – ele recorrera a estilos musicais diversos e diferentes media. Mas, quando o interrogo acerca da existência de alguma afinidade entre essas duas obras, praticamente reafirma aquilo que, há quase vinte anos me respondera (“A música não é um utensílio nem uma máquina capaz de interpretar o mundo real. Tem o seu próprio universo mas contém também uma gramática e uma sintaxe das emoções. De qualquer modo, em geral, não gosto de usar a música como veículo de propaganda política”): “Na altura de Discord, senti a necessidade de reagir a esses acontecimentos mundiais. Não é o tipo de atitude que, habitualmente, pense que deva tomar através da música. Mas é evidente que não posso fugir à influência que aquilo que se vai passando no mundo tem, inevitavelmente, sobre mim. Todos os dias. Não de uma forma clara e explícita mas a um nível mais profundo”



No fundo, na raiz de async, encontrava-se algo de mais intensamente pessoal e dramático: há três anos, foi-lhe diagnosticado um cancro na garganta, actualmente em remissão (embora lhe tenha bloqueado a possibilidade de salivar) mas que, ainda assim, permanece como uma ameaça latente. As palavras do texto de Paul Bowles adquirem toda uma outra ressonância quando ele afirma “Estava convencido de que este álbum poderia ser o último que iria gravar. E não é ainda impossível que o venha a ser. Ninguém sabe quando vai morrer”. Imediatamente a sombra de Blackstar, de David Bowie, paira sobre a conversa. Mas Ryuichi Sakamoto, colocado perante a hipótese de encaramos async como um testamento final, tranquilamente, afasta-a: “Nunca pensaria na minha música como um testamento final. Gravar este álbum foi como trepar a uma montanha sem um mapa na mão. Uma vez atingido um cume, descobrimos logo outro mais à frente e não temos o fim à vista. Mas, na verdade, cada trabalho meu representa sempre a minha última vontade. Claro que o facto de ter tido o problema do cancro na garganta acentuou bastante mais essa ideia. E fez-me tomar consciência de que, na verdade, a atitude de encarar cada álbum como sendo, potencialmente, o último é, de facto, a mais correcta. Não sei se terei um ano ou dez ainda à minha frente mas claro que continuo a ter sonhos, esperanças e planos para o futuro”.

30 October 2008

BOSSA DE NOVO



Vinicius Cantuária - Cymbals

Dificilmente, Vinícius Cantuária se deixa situar como arquétipo do “músico brasileiro”: se o baterista, guitarrista, cantor, compositor de Manaus guarda no currículo colaborações com Caetano Veloso, Chico Buarque de Hollanda ou Gilberto Gil, a verdade é que, quando interrogado acerca dos modelos em torno dos quais construiu a sua personalidade, deixa escapar que cresceu a ouvir os Beatles e, mais tarde, lhes acrescentou as figuras tutelares de Bill Evans, Chet Baker e Miles Davis. Nada disso, porém, seria suficiente para adivinhar que, desde que, em 1994, emigrou para Nova Iorque, se iria transformar em nome de referência do “inner circle” da cena musical a que, desde há uns bons anos, se convencionou designar como “downtown”. Isto é, o polígono de imensamente variável geometria, cujos vértices se situam em John Zorn, Laurie Anderson, Bill Frisell, Marc Ribot, Arto Lindsay, David Byrne e que, episodicamente, absorve outros como Sakamoto ou Brian Eno. Segundo conta, integrou-se no meio do modo mais informal possível e conseguiu rapidamente ultrapassar o estatuto de “brasileiro convidado” pelo mero facto de a sua origem poder acrescentar algum tempero mais ou menos “exótico”. É por isso que, embora datando do ano passado, o seu mais recente álbum, Cymbals, surpreende: objecto de classicismo bossanovista quase puro, poderia ter sido concebido propositadamente para se integrar com merecidíssima honra nas comemorações actuais do género musical que João Gilberto, Tom Jobim e o outro Vinícius ofereceram ao mundo. Apenas com pontuais alusões ao idioma do tango, revisões de clássicos, e as participações de Brad Meldhau e Naná Vasconcelos, dir-se-ia uma espécie de virtuoso exercício “back to basics”.

(2008)

23 October 2008

MATÉRIA EM VIBRAÇÃO



Ryuichi Sakamoto - Heartbeat

No meu dicionário, "world" continua a significar "mundo". E "mundo", tanto quanto parece, é um conceito que não exclui continentes nem regiões mas, pelo contrário, os inclui a todos. É por isso que, a despeito da tendência para ver a "world music" como uma emanação sonora de paragens exóticas e distantes, de preferência não-europeias e não-ocidentais, a sua exacta concretização tem passado mais pelas mãos de quem entende o coração musical do planeta como um organismo único, mesmo que pulsando a ritmo diferente de acordo com as latitudes geográficas que anima.

Sempre chegado à área da pop mas nunca se deixando limitar por ela, Ryuichi Sakamoto é daqueles músicos para quem a ideia de ecletismo constitui uma segunda natureza: música é matéria em vibração e não importa a origem de que provém. Não é, decerto, um acaso que (para além da educação clássica formal) as referências fundamentais para a sua formação musical que nunca deixa de citar sejam nomes tão diversos quanto Beethoven, os Beatles, John Coltrane, António Carlos Jobim ou John Cage.


YMO - "Rydeen"

Como, há poucos meses, escrevia a "Keyboards", para ele, "Tóquio é um subúrbio de Nova Iorque, a música de dança combina-se com a herança de Debussy, o piano solista coexiste com o techno-pop e a música não é senão um meio, entre outros, de fazer cinema". Enquanto síntese seria quase perfeita se não se desse o caso de ser impossível resumir a actividade de Sakamoto em tão poucas linhas. Só em termos discográficos, uma escolha "selectiva" (muito "selectiva", acrescento eu) incluída nesse número da revista contabilizava, entre 1978 e 1992, dezassete álbuns editados. Depois, há ainda o passado com a Yellow Magic Orchestra, as composições para dança (com Molissa Fenley) e para o cinema (onde também intervém como actor), as publicações de dois livros de diálogos com os filósofos Shozo Ohmori e Yujo Takahashi (See The Sound, Hear The Time e The Long Call) e as múltiplas colaborações como executante, compositor ou produtor que vão de Hector Zazou a David Sylvian ou Virginia Astley.

Heartbeat, o álbum a solo acabado de sair, corre, pois, o sério risco de se ver afogado num dilúvio de projectos paralelos, portador do perverso efeito de empalidecer o brilho daquela que é já uma da edições marcantes de 1992. Nada seria mais injusto. Na sequência lógica da estética pancultural consagrada, em 1990, com o excelente Beauty, Heartbeat recusa a repetição de uma fórmula mas confirma a mesma visão: o mundo da música e as músicas do mundo coincidem no mesmo espaço e conjugam-se no tempo presente. É indiferente a proveniência negro-americana da batida house ou a matriz melódica japonesa de "Sayonara". Pouco conta a coabitação dos Super DJ Dimitry e Jungle DJ Towa Towa (dos Deee Lite) com Youssou N'Dour ou com "samples" de Jimi Hendrix. Não é fundamental olhar para o lugar de onde partiram David Sylvian, Marco Prince, John Lurie, Arto Lindsay, Ingrid Chavez ou Bill Frisell, cantem, toquem ou falem inglês, português, francês e japonês ou se exercitem no rap, no disco ou no swing. A todos reúne o mesmo "heartbeat", aquela pulsação cardíaca primordial que Sakamoto, em "Tainai Kaiki II", traduz para o esperanto planetário como "returning to the womb". É essa a corrente subterrânea que articula a ossatura de todo o álbum e, finalmente, reduz à impotência qualquer tentativa de o dividir em partes.



Tão "étnica" é a primeira metade (devotada à "club culture") quanto a segunda (onde as dimensões atmosférica, europeia e extra-ocidental cruzam caminhos). Satie pode dialogar com os Soul II Soul e a electrónica invadir o Islão. Nem por isso as leis básicas da acústica universal se modificam ou o vocabulário sofre torsões radicais. É tudo uma questão de identificar a raíz comum e partir daí para o ensaio das declinações locais, onde as era se confundem e as linguagens convergem na celebração das diferenças. Entre o arabismo estratosférico de "Nuages", o "eastern disco" de "Sayonara", a indeterminação geográfica de "Borum Gal", o impressionismo de "Song Lines" ou o funk minimal de "Cloud nº9", bem poderia ser a voz subliminar de Cage - que aflora em "Heartbeat (Tainai Kaiki II)" - a recitar o conceito unificador de todo o disco, que a faixa de abertura prefere entregar ao canto de Dee Dee Brave: "Break the code and read the message, speak directly to the center".

(1992)

18 September 2008

OS FILHOS DE CAGE

Provavelmente ainda haverá quem não tenha reparado a sério como tudo, literalmente tudo, o que aconteceu no mundo das músicas desde 1952 decorre em linha directa dos (apesar de tudo famosos) 4'33", de John Cage, publicamente "apresentados" nesse ano. O que, entre dezenas de outras possíveis consequências, foi uma forma de abrir de par em par as portas do universo musical a todo e qualquer acontecimento sonoro, voluntário ou acidental, deliberado ou espontâneo, "natural" ou "artificial", nada excluindo e tudo fazendo depender da atitude de quem escuta: música ou ruído passavam a ser apenas aquilo que, num determinado momento, se entendia como tal em função das circunstâncias ou expectativas. Já não uma "arte de combinar os sons" ou de "orquestrar o ruído" mas, sim, de os seleccionar, identificar ou bloquear, caso a caso, instante a instante, com o ouvido humano individual como único sintonizador e padrão. O comboio que passa no exterior da minha janela ou a peça de Mozart que, simultaneamente, o rádio difunde passaram a equivaler-se como matéria potencialmente musical (a mim cabe atribuir-lhes ou não essa qualidade) e eventualmente associáveis numa unidade única: a banda sonora irrepetivel daqueles segundos, naquele lugar. Se 4'33" foi, seguramente, o primeiro exemplo de música radicalmente ambiental (os sons do ambiente eram a própria música), a homenagem prestada pela "Time Out", no ano passado, por ocasião da morte de Cage, não podia ser mais adequada: uma banda desenhada em que, interrompendo subitamente um concerto de obras de John Cage, o apresentador anuncia o falecimento deste e, em respeito pela sua memória, solicita ao público um minuto de... ruído.

Obviamente, desde que tudo passou a ser possível, nenhum limite voltou a ser reconhecido, o campo ficou, teórica e praticamente, aberto a todo o tipo de experimentações, projectos e propostas. Do punk à world music, do pós-serialismo ao "noise", do neo-industrialismo ao sampling, ninguém fez senão ecoar uma ideia ("a arte é uma espécie de banco de ensaio onde a vida se experimenta") e uma profecia ("acredito que a utilização do ruído para criar música irá continuar e ampliar-se-à até atingirmos uma música produzida através de instrumentos eléctricos que, para todos os efeitos, colocarão à nossa disposição todos os sons audíveis") de John Cage, em 1937. Sensiblidades, condicionamentos, tiques e preferências culturais acabarão sempre por decidir do que é aceitável, excitante ou insuportável, com a possibilidade adicional de, se submetido a outros ouvidos, o mesmo se apresentar possuidor de caracteríticas exactamente opostas.

É nesse território de indecisões e interrogações que se enquadram estes sete discos. Três deles (1/2 e 3/4, dos Dome, e Or So It Seems, dos Duet Emmo) são a reedição em CD de parte da aventura paralela de Bruce Gilbert e Graham Lewis, dois elementos dos Wire que, durante o prolongado lapso de tempo em que o grupo-base se eclipsou, iniciaram uma trajectória de investigação das técnicas de estúdio e das possibilidades do som sintetizado. Abandonada toda a relação com as estruturas convencionais da canção, ficava uma atmosfera sonora de colagens fantasmáticas, ruídos mecânicos assombrados, vozes desencarnadas e surdas obsessões rítmicas, com enxertos "étnicos" e laivos de psicadelismo minimal. O acento tónico na componente tímbrica, rítmica ou estrutural varia de intensidade de faixa para faixa e de disco para disco mas, tanto na variante Dome como Duet Emmo (um anagrama para a associação Dome e Mute, fruto da participação de Daniel Miller), faz do "modern ennui" um valor estético apreciável. Verdadeiramente intrigante e a exigir audições repetidas é o extenso "To Speak" (incluído no quarto volume Dome, originalmente intitulado Will You Speak This Word), exercício de voo livre sobre o planisfério musical, a prolongar-se em pura abstracção. Uma reflexão inevitável: considerável percentagem da música de dança actual nasceu - directa ou indirectamente - do que aqui se contém.

Não demasiado longe das mesmas coordenadas sonoras viajam os australianos SPK (sigla sucessivamente explicada como Surgical Penis Klinik, System Planning Korporation ou Sozialistisches Patienten Kolektiv...), fundamentalmente, um duo constituído por Graeme Revell e a vocalista Sinan. A parcela da sua discografia agora republicada revela uma concepção que oscila entre o teste de resistência às virtualidades do estúdio convertido em câmara de tortura electroacústica (Leichenschrei e, sobretudo, Information Overload Unit) e uma ideia de "sound painting" desterritorializado que suga para o mesmo espaço os vestígios sonoros de todas as culturas planetárias e as envolve num fluído único de contornos pouco definíveis. Este último é o domínio de Zamia Lehmani, um deslumbrante buraco negro de murmúrios exóticos, preces líricas e pesadelos revestidos a ouro, em equilíbrio instável sobre o estreito fio de comunicação que liga o espaço sideral com a ressonância das catedrais.

Finalmente, The Shutov Assembly, de Brian Eno, é o retorno do ex-Roxy Music ao ambientalismo decorativista da série que o anterior Nerve Net interrompeu. Enquanto nesse excelente álbum do ano passado valia, essencialmente, o entendimento do mundo musical contemporâneo como corpo sonoro orgânico e a dimensão ambiental era apenas uma componente entre muitas outras (techno, house, rock, jazz, impressionismo) gerando um híbrido tão instável quanto rico de potencial, Assembly retoma a feição de aguarela de superfícies, preciosa e texturada, mas, na verdade, sem acrescentar nada de decisivo a toda a linha de trabalhos anteriores que Discreet Music inaugurou em 1975. Retêm-se dez faixas cujo único traço de união é obedecerem a títulos de nove letras e aguarda-se pelo capítulo seguinte que terá tudo a ganhar se sintonizar de novo o sistema nervoso planetário e nele decifrar o código que adivinha o futuro. Ou, como enuncia Ryuichi Sakamoto em Heartbeat, "Break the code and read the message, speak directly to the center".

(1993)

17 September 2008

VER O SOM, OUVIR A IMAGEM



Hector Zazou et Bernard Caillaud - Quadri+Chromies

Hector Zazou é bem o paradigma do músico contemporâneo que, definitivamente, se desembaraçou de todos os compromissos estéticos, "de escola" ou género, e encara o universo sonoro — todo o universo sonoro — como um potencial campo de descoberta e experimentação. Desde os capítulos iniciais na série "Made To Measure" (da Crammed Disc) até aos magníficos painéis transcontinentais e transmusicais de Les Nouvelles Polyphonies Corses e Songs From The Cold Seas, passando pela sublime releitura de Rimbaud, Sahara Blue, por Strong Currents ou pelas inúmeras colaborações com Laurie Anderson, Bill Laswell, Sandy Dillon, John Cale, Harold Budd ou Peter Gabriel, Zazou tem feito do desdobramento de personalidade uma escola de pensamento autónoma. Quadri+Chromies (CD e DVD em colaboração com o físico e pintor Bernard Caillaud, morto em 2004) aventura-se ainda por um outro território: o da sinestesia, através do qual, procura "dar a ver o som e escutar as imagens".



Segundo Zazou, o que interessava Caillaud "era a pintura cinética, como a de Vasarely, as bandas de cores, os círculos, as formas geométricas e a maneira de trabalhar estas formas no espaço. Em seguida, pensou como poderia ser interessante colocar estas imagens em movimento e começou a conceber equações matemáticas para poder animar as cores e as formas. Passou para equações cada vez mais sofisticadas à medida que os próprios computadores — começou com um Amiga rudimentar — se sofisticavam também. O resultado foi aquilo a que chamou 'pintura algocinética' (de 'algoritmo' e 'cinética')". Com Brian Eno, David Sylvian, Peter Buck (R.E.M.) e Ryuichi Sakamoto integrados na tripulação, Quadri+Chromies actua como uma espécie de mandala audiovisual em permanente e assombroso processo de reconfiguração, sumetido a regras estritas ("Não partimos de uma imagem existente, como na música para o cinema, mas da ideia de uma imagem. Decidíamos, por exemplo, ir das linhas aos rectângulos, depois pensávamos no ritmo das mudanças de formas e, enfim, nas modificações de cor no interior de cada tema") e conduzido por "duas grandes inspirações: Derrida e Deleuze; utilizámos os princípios por eles enunciados: colocar ao centro o que se encontra na margem... do ponto de vista musical, por exemplo, numa melodia, não conservando o acorde mas apenas a ressonância do acorde". Agora em directo e a cores, queiram, por favor, abandonar a caverna de Platão.

(2006)

16 September 2008

MELANCOLIAS SIDERAIS



Hector Zazou - Strong Currents/Sonora Portraits 2

Les Nouvelles Polyphonies Corses, Sahara Blue, Songs From The Cold Seas. Um, enraizado na tradição vocal mediterrânica, outro, em torno da biografia e da figura de Rimbaud, o último, oferecendo múltiplas declinações da atmosfera musical à volta do Norte gelado. Mas, todos eles, o género de amplos painéis musicais que atraíam para o seu interior a maior diversidade de cúmplices e colaboradores que Hector Zazou se encarregava de compatibilizar e, do confronto de personalidades, extrair a imensa mais valia estética que cada álbum continha. A marca-Zazou, essa, deixava-se ficar não só nesse muito discreto "managing" estético das diferenças e identidades como também no sofisticado "design" de arranjos e recorte global que articulava milagrosamente impressionismos debussy-satieanos, modernismo electrónico e vestígios "étnicos". Strong Currents — uma encomenda da Materiali Sonori — é Zazou quase puro. E esse "quase" decorre apenas do facto de praticamente todos os textos serem da autoria das vozes femininas que os interpretam. A saber: Laurie Anderson, Jane Birkin, Melanie Gabriel, Lori Carson, Emma Stow, Nina Hynes, Caroline Lavelle, Sarah-Jane Morris, Catherine Russell, Lisa Germano, Nicola Hitchcock e Irene Grandi. Há ainda (entre bastantes outros) os fiéis da "bande à Zazou", Ryuichi Sakamoto, Renaud Pion, Lone Kent. E é um universo interior de enorme delicadeza e fragilidade que daqui resulta, um jogo de luzes e reflexos entre o fantasma da "torch song" e melancolias siderais, cenários digitais e timbres calorosamente acústicos, a carcassa do trip-hop e o "after taste" do romantismo em formato minimal. Se Julie London, Björk, os Portishead, This Mortal Coil e Ravel se tivessem cruzado num qualquer "time-warp" para criar música em conjunto, não teriam inventado nada de muito melhor que Strong Currents.

(2003)

11 September 2008

UM PINHEIRO DE NATAL



Quando, em tempos, pediram a Hector Zazou a receita para um álbum como Sahara Blue, ele explicou que "no início, estavam as palavras escolhidas pelo seu ritmo e som. Depois, a música: a princípio, apenas um pano de fundo vagamente colorido. A seguir, as vozes: tubos de côr para desenhar uma linha, um quadrado, um círculo. Vai-se, então, para a tela, modifica-se o fundo, pinta-se, de novo, as formas, recorta-se os quadrados, alarga-se os círculos, quebra-se as linhas, segue-se por outras vias que obrigam a usar outros ritmos e contrastes. Pode ter de se modificar completamente o fundo e começar tudo de novo: colocar a voz de outro modo, trabalhar cada elemento como uma matéria-prima e consolidá-lo através da contribuição dos músicos". Em pessoa, Zazou exprime-se à imagem da sua música: pausadamente, medindo cada palavra, exprimindo mais dúvidas do que certezas. Enquanto levanta um pouco o véu sobre o sucessor de Sahara Blue, o novo Songs From The Cold Seas, há dois anos em preparação.

Numa entrevista, a propósito de Sahara Blue, afirmava que não se tratava de um disco de rock nem de world music. Se gravações como essa ou Les Nouvelles Polyphonies Corses, onde se cruzam músicos e sonoridades de todo o mundo, não são world music, o que é para si a world music?
O problema é saber se a world music é uma mistura ou se é música profundamente ancorada numa cultura e que se serve de outros elementos. Acerca das Nouvelles Polyphonies Corses, estou de acordo, será world music no sentido tradicional do termo. É música com identidade própria a que se acrescenta elementos exteriores. Mas pode haver outra definição: a do cruzamento de elementos de todos os países e, aí, ter-se-à algo que não é culturalmente identificável, com diversos aromas e paladares, mas de que não se pode dizer se é africano, japonês ou francês. Por isso, não existe uma resposta definitiva.

Recordo-me de uma vez ter dito que, se desenhasse um retrato de si próprio, seria uma árvore com as raízes espalhadas pelo mundo. O que me parece uma bela metáfora para um conceito de world music...
Voltei a pensar sobre isso e já posso ser mais preciso. Não estou muito certo de que a música "pura" seja menos interessante nem de que os cruzamentos sejam uma solução de futuro. Discutia isso com um amigo e dizia-lhe que uma floresta é suficientemente bela em si mesma, não ganha nada em ser domesticada. E ele respondeu-me que o que eu fazia não era uma árvore numa floresta mas um pinheiro de Natal (risos). O que é verdade: a árvore está lá, mas cheia de decorações. É uma definição que me assenta ainda melhor.



Quando entrevistei Jean-Pierre Lanfranchi, que trabalhou consigo nas Nouvelles Polyphonies Corses, ele disse-me que esse género de encontros era realmente interessante mas não afectaria em nada a tradição sobre que se exercia...
Sem dúvida. Se as tradições locais forem suficientemente fortes, isso não as abalará. É até possível que essas experiências tenham um lado um pouco "gadget".

De qualquer modo, como procede, habitualmente, nesse terreno: procura contrastes, identidades ou explorar uma linguagem comum?
Procuro uma linguagem comum. Não me interessa criar choques. Tento encontrar espaços harmoniosos onde um pianista japonês como Ryuichi Sakamoto possa entrar sem perturbação e colocar a sua cultura e sensibilidade ao serviço, por exemplo, da voz de Jean-Pierre Lanfranchi nas Nouvelles Polyphonies Corses, num diálogo que não atraiçoa um nem o outro.

Nesse disco ou no próximo Songs From The Cold Seas sobre as músicas do Norte, como actua: investiga profundamente as tradições sobre que vai trabalhar ou reage-lhes apenas instintivamente como um ouvinte exterior?
Em cada caso é diferente. Em Songs From The Cold Seas, nada sabia dessas músicas. Foi a imagem dos mares gelados que me atraiu e me fez desejar saber como seriam as músicas desses países. Durante mais de dois anos desloquei-me aos lugares, procurei discos e cassetes, contactei músicos. A pouco e pouco, construí uma imagem dessas músicas, procurei descobrir pontos de contacto. A segunda etapa foi descobrir os instrumentos que os enquadrassem. No caso da Córsega, tentei saber se aquela fortíssima tradição "a cappela" aguentava um suporte instrumental. Não existe um método global.



Quando foi publicado um dos seus discos com Bony Bikaye, a síntese da sua biografia indicava como influências os Platters, Shadows, as revoltas estudantis francesas, Satie, a ópera e Raymond Roussel. São essas, de facto, as fontes de que se alimenta?
Foram. A partir de certa altura, no entanto, essas influências começaram a dissolver-se e apareceram outras. Agora, quando me envolvo num projecto, é quase como se se tratasse de uma tese universitária. Leio imenso, escuto muita música, mergulho por inteiro nele. As revoltas estudantis influenciaram não apenas a música mas toda a minha vida. Ensinaram-me, por exemplo, que a técnica de um músico não é o mesmo que a criatividade pela qual ele afirma a sua independência perante um sistema musical. O que, se calhar, me leva a adorar agora um disco como o dos Nine Inch Nails que é o género de música que eu nunca faria mas que ousa contrariar asregras.

Em Songs From The Cold Seas, participarão Björk, Siouxsie Sioux, Jane Siberry, Suzanne Vega, Mark Isham, John Cale, Jerry Marotta, Harold Budd e muitos outros. Voltando ao princípio, pode, neste caso, falar-se de world music?
Não pretendi fazer um disco étnico. Assim, tanto é a minha visão dos mares gelados completamente inventada, como tem raízes locais. Se a Jane Siberry e a Björk cantam canções tradicionais canadianas e islandesas, no caso da Suzanne Vega e da Siouxsie é mais uma invenção romântica da minha visão dos mares do Norte. Na realidade, vão ser publicados três discos: um em que predomina essa visão mais cinematográfica em que todos os estilos se combinam um pouco, como aconteceu em Sahara Blue; outro em que eu não intervenho, totalmente "a cappela", somente com cantores (uns intervêm no primeiro, outros não, nomeadamente, as cantoras dos Hedningarna) e um terceiro, extremamente violento, apenas com xâmanes da Sibéria. Vão ser editados em sequência, muito próximo uns dos outros.

(1994)