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26 October 2021

Silent Speech — Law of Instability/Orderly Chaos

(álbum integral)
 
 
(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)

27 November 2015

CÃO VADIO


Quando, em Setembro de 2001, uma semana e um dia após o atentado ao World Trade Center, Laurie Anderson actuou no Town Hall de Nova Iorque, um calafrio circulou entre público e palco durante a enunciação dos textos de peças como "Strange Angels" (“Big changes are coming, here they come, here they come”), "Let X=X" ("I feel like I am in a burning building... I gotta go"), e, sobretudo, "Oh Superman" ("Well, you don't know me, but I know you, and I've got a message to give to you: here come the planes, they're American planes, made in America. And the voice said: neither snow nor rain nor gloom of night shall stay these couriers from the swift completion of their appointed rounds”). Incluir ainda na set list "From The Air" (“This is your Captain. We are about to attempt a crash landing. Please extinguish all cigarettes. (…) Your Captain says: Put your head on your hands. This is your Captain and we are going down. We are all going down, together”) teria sido carregar demasiado dramaticamente o momento.


Especialmente, tratando-se de Anderson que, seis anos antes em "The Cultural Ambassador", citando Don De Lillo, afirmara que "os terroristas são os derradeiros artistas que restam pois são os únicos capazes de verdadeiramente nos surpreender" (mais tarde, confrontada com isso, justificar-se-ia: “A questão, quando se escreve sobre estética e política, é que a política e a arte estão sempre a mudar. Há um tempo e um lugar certos para abordarmos determinadas ideias que não são sempre necessariamente verdadeiras”). No novo Heart Of A Dog – banda sonora do seu filme homónimo –, porém, uma outra "From The Air" surge: nela, Laurie Anderson conta como, tendo-se refugiado na Califórnia a seguir ao 11 de Setembro, durante um passeio pela montanha com a cadela Lolabelle, de súbito, esta se viu ameaçada por um falcão que as sobrevoava. Nesse instante, nos olhos da "rat terrier", leu exactamente o mesmo espanto que vira no rosto dos novaiorquinos: ela descobria-se na situação de presa e o predador atacava pelo ar. Um pouco antes, em "Birth Of Lola", começara a maravilhosamente errática exploração de mais outro colar de pérolas sterneano (“Chamo-lhes histórias de cão vadio: vão por aqui, por acolá, viram uma esquina, dão quinze voltas ao quarteirão antes de voltarem ao presumível tema. E Laurence Sterne foi o mestre desse tipo de escrita”) desencadeada pela senha “This is my dream body, the one I use to walk around in my dreams”.



E, no sonho, Laurie encontra-se na sala de partos de um hospital, dando à luz Lolabelle. Logo a seguir, o cenário é o do leito de morte da mãe e dos animais que ela vê no tecto e com os quais conversa; depois, a ínvia relação entre as directivas da Homeland Security (“If you see something, say something”) e, segundo Wittgenstein, o poder da linguagem na criação do mundo; as outras perdas – Lou Reed, Gordon Matta-Clark, também Lolabelle – e o suave apaziguamento que a filosofia oriental lhe emprestou; ou ainda uma história acerca de como contar histórias é também um processo de apagamento de memórias... numa estrutura líquida, articulada por "inserts" instrumentais do Kronos Quartet, aguadas electrónicas, som ambiente. Algo próximo de um hipnótico filme sem imagens de que apenas nos aperceberemos que poderão fazer falta se nos informarem que se trata, de facto, de uma banda sonora.

22 April 2015

UNIVERSO PERPENDICULAR 


A catedral de Winchester, no Hampshire (dedicada a St. Swithun, grande especialista do muito apreciado milagre rural da reconstituição de cestas de ovos partidos), teve origem num velho mosteiro do século VII mas a sua estrutura e configuração definitivas – possui a nave mais longa e o maior comprimento total de qualquer catedral gótica da Europa – só cerca de 1528 seriam atingidas, descontando reparações e ampliações menores posteriores. Kate Stables agarra-se à História e argumenta que “a grande arte precisa de tempo: Winchester, o lugar onde nasci, costuma ser definido como uma cidade medieval romano-saxónica. A catedral começou a ser construída há mais de mil anos e, desde então, têm continuado a trabalhar nela”. O intuito é, afinal, justificar o motivo pelo qual This Is The Kit, banda surgida em 2006, só agora publica o terceiro álbum, Bashed Out, e apresentar atenuantes para o facto de os anteriores (Krulle Bol, 2008, e Wriggle Out the Restless, 2012) terem passado praticamente indetectados pela maioria dos radares. 



Tenha sido ou não importante o grande escultor de Yourcenar, realmente decisivo foi o apadrinhamento de Aaron Dessner, dos National, na qualidade de produtor, que, para Bashed Out, além da geometria mais ou menos variável dos TITK – Stables, compositora, voz, banjo e guitarra; Jesse D Vernon, baixo, guitarra e violino; Jamie Whitby-Coles, bateria; Rozi Plain, voz e guitarra –, cuidou de recorrer a doadores sonoros oriundos dos Walkmen e Beirut, e ao irmão, Bryce. A presença dos gémeos Dessner e acólitos poderá, sem dúvida, contribuir para a sensação de estarmos perante o que, num universo perpendicular, seria um (óptimo) álbum dos National em declive folk: tela impressionista atravessada por rastos líquidos de guitarra, delicados remoinhos de joalharia electroacústica, estojos de sopros e cordas resguardando melodias astrais, algo como uma tapeçaria de lullabies lunares em fio de seda, murmúrio de fundo para a aproximação de silenciosas tempestades (“we’ve been getting most mightily filthy, mud marks up to our necks”). Ou, então, se calhar, apenas o eco distante de uma Sandy Denny wittgensteiniana que, do fundo da ábside de uma catedral, fosse capaz de clarissimamente enunciar “blessed are those who see and are silent”.

23 December 2014

DA-DA-DA-DA


Carmen Miranda é um filão inesgotável para o mui escorregadio jogo das identidades (“assassinas”, como as qualifica Amin Maalouf): portuguesa, da Várzea da Ovelha, carioca/bahiana ou confecção kitsch/exótica de Hollywood? Menina do convento de Santa Teresa de Lisieux ou “Brazilian Bombshell” dançando, escandalosamente "pantieless", com César Romero, no set de Weekend In Havana? Embaixadora, nos EUA, do Brasil de Getúlio Vargas ou emissária da Good Neighbor Policy de Roosevelt para a América Latina? Intérprete de “sambas demasiado negros” ou objecto dócil de “americanização” por comodidade de marketing e facilidade de exportação? Turbante tutti-frutti ambulante ou flamejante ícone gay? “Fantasia de um qualquer executivo impotente que se imaginava um magnata do cinema” – como refere David Toop em Exotica, citando a contracapa de uma compilação de êxitos “latinos” –, "a stranger reduced to what seemed strange about her", segundo Arto Lindsay, ou o brinquedo escapista favorito de Wittgenstein?



Era, de certeza, di-lo Caetano Veloso em Verdade Tropical, “um emblema tropicalista, um signo sobrecarregado de afectos contraditórios (...) O facto de ela ter-se tornado, com o sucesso em Hollywood, uma figura caricata de que a gente crescera sentindo um pouco de vergonha, fazia da mera menção de seu nome uma bomba de que os guerrilheiros tropicalistas fatalmente lançariam mão. Mas o lançar-se tal bomba significava igualmente decretar a morte dessa vergonha pela aceitação desafiadora tanto da cultura de massas americana (...) quanto da imagem estereotipada de um Brasil sexualmente exposto, hipercolorido e frutal”. Em 2014, atirar-se ao reportório de Carmen Miranda como o faz, agora, o Real Combo Lisbonense – Saudade de Você: Às Voltas com Carmen Miranda –, já não terá um efeito explosivo de igual magnitude mas é, sem dúvida, uma sequência natural para o divertimento iniciado, no álbum de estreia (2009), com a exumação vintage “da tradição das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais”. Transatlanticamente repatriada, sem nenhuma vergonha, em clave carnavalesca, "period music" de bailarico e folia, “Carmen Miranda da-da-da-da”!

09 July 2011

DEFINITIVAMENTE NÃO TALHADO PARA A ENGENHARIA,
CHEGOU A CONFIRMAÇÃO: TEMOS NITWITTGENSTEIN!
*






















Sócrates pede licença sem vencimento para seguir estudos superiores

Convenhamos que, aos 55 anos, uma licenciaturazinha que se visse já não era sem tempo. Mas (mesmo sendo as licenciaturas bolonhesas o que são), num só ano, não vai ser preciso uma espécie de Sorbonne em forma de UnI e de recorte-Novas Oportunidades?... nada que o embarace, claro.

* Glossário: nitwit; Wittgenstein.

(2011)

25 April 2010

SE CALHAR É SÓ MÁ VONTADE MINHA MAS OUVIR
O CAVACO A DIZER COISINHAS QUERIDAS SOBRE
AS "INDÚSTRIAS CRIATIVAS" SOA-ME DEMASIADO
PARECIDO COM O CRISTIANO RONALDO A TECER
LOUVORES AO "TRACTATUS" DO WITTGENSTEIN...




Barcelona, Berlim, Amsterdão, Estocolmo e... tcharaaam!... Porto???!!!... assim como quem diz "aqui para nós, que ninguém nos ouve, se tivesse dependido de mim, tinha trocado vinte autoestradas pela Utopia do Thomas Mann" ?... (gente do Nuorte, nada de confusões: contem comigo na primeira linha para que o Puârto seja a "New Amsterdam" - estarei lá caído, dia-sim, dia-não).

(2010)