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03 December 2009

MAS, SE NÃO É AQUELA VELHA CENA TERRITORIAL
DO "ESTE QUINTAL É MEU", PORQUE NÃO ADMITEM ELES
QUE SÃO "AS DUAS METADES IGUAIS DO MESMO ZERO"
E NÃO CELEBRAM O MATRIMÓNIO OU UNIÃO DE FACTO
OU VÃO PARA UM HOTEL E RESOLVEM O ASSUNTO DE VEZ?

(ou os difíceis amores desnecessariamente platónicos de PS e PSD)



O "lento suicídio".

(2009)

09 October 2009

PORTUGAL: O PRESENTE E O FUTURO (II)
(continuação daqui)



"Mais tarde, Yeroen e Nikkie formaram uma aliança e acabaram por depor Luit. Nikkie tornou-se o novo líder oficial, mas o verdadeiro poder parecia estar nas mãos de Yeroen. Na verdade, a seguir à ascensão de Nikkie, Yeroen manobrava contra ele de forma tão eficaz que é duvidoso que Nikkie alguma vez tenha tido o controlo. (...) A inteligência superior de Yeroen relativamente a Nikkie e a Luit consistia na capacidade que tinha para estabelecer múltiplas alianças para múltiplos objectivos: uma aliança para controlar Nikkie, outra para controlar Luit. A aliança entre Nikkie e Luit era comparativamente rudimentar. Para se ser um primata de sucesso - e exibir a inteligência símia no seu melhor - tem de se ser capaz de conspirar não apenas contra um primata, mas contra vários. E os primatas mais bem sucedidos são aqueles que conseguem conspirar ao lado dos mesmos primatas contra quem conspiram. (...)



Quanto mais desagradável for o animal, mais perverso ele é, e quanto mais insensível à hipótese de conciliação, mais sente necessidade de um sentido de justiça. Sozinho na natureza, por sua conta, encontramos o primata: o único animal suficientemente desagradável para se tornar um animal moral". (análise cortesia do politólogo Mark Rowlands em O Filósofo E O Lobo)

(2009)
PORTUGAL: O PRESENTE E O FUTURO (I)



"(...) Havia três chimpanzés que estavam constantemente a competir pela liderança do grupo. No início do estudo, a posição de macho-alfa era ocupada por Yeroen. Um dos factores importantes que ajudava a manter essa liderança era o apoio das fêmeas chimpanzés. As copiosas e finalmente bem sucedidas tentativas de Luit para destronar Yeroen consistiam em retirar-lhe esse apoio. Antes desse desafio, Luit ocupava uma posição relativamente periférica na colónia - sendo obrigado por Yeroen a viver ligeiramente à parte do resto do grupo. O factor-chave da mudança em toda essa dinâmica aconteceu quando um macho mais jovem, Nikkie, cresceu o bastante para formar uma aliança com Luit. Juntos empenharam-se numa política de 'punição' - ou seja, distribuir uns açoites - impostos às fêmeas, não porque lhes apetecia, mas porque tinham o objectivo de demonstrar a falta de capacidade de Yeroen para as proteger. Cerca de quatro meses depois desta política ter entrado em vigor, as fêmeas começaram a apoiar Luit, certamente porque estavam fartas dos correctivos de que estavam a ser alvo e porque Yeroen não era capaz de travar aquela situação.



Na sequência da sua acensão, Luit depressa mudou de política. Como líder, tinha agora de mudar de atitude para com as fêmeas e também para com os outros machos. Quanto às primeiras, confiava no apoio delas e adoptou uma vigilância justa para manter a paz. No que respeita aos machos, começou a apoiar os mais fracos. Ou seja, quando intervinha num conflito entre dois machos, normalmente apoiava os mais fracos. Assim, embora na sua ascensão ao poder tivesse contado com a ajuda de Nikkie, normalmente ficava do lado de outros chimpazés nas disputas com Nikkie. Esta política fazia sentido. O vencedor de um conflito entre dois machos seria provavelmente forte o suficiente para pôr em causa a autoridade de Luit. O mesmo já não se passaria com um derrotado. E, ao apoiar o mais fraco, Luit aumentava também a possibilidade de ter o apoio do mesmo noutros conflitos. Por outras palavras, as exigências da liderança levavam a que fizesse alianças com aqueles que não podiam pôr em causa a sua autoridade, para se proteger daqueles que eram capazes de a desafiar". (análise cortesia do politólogo Mark Rowlands em O Filósofo E O Lobo - continua)

(2009)

04 October 2009

À PÁGINA 199 DE "O FILÓSOFO E O LOBO"


Sacha, 1998-2009, tudo menos um lobo

"Uma coisa que aprendi no último ano da vida de Brenin é que os lobos, e, já agora, os cães, conseguem passar no teste existencialista de Nietzsche de uma maneira que os humanos raramente conseguem. (...) O tempo dos lobos, suspeito, é um círculo e não uma linha. Cada momento da vida de um lobo é, em si, completo. E a felicidade para eles encontra-se sempre no eterno retorno do mesmo. Se o tempo é um círculo, não existe o nunca mais. E, por conseguinte, a existência de cada um não gira à volta da vida como um processo de perda. (...) Para um lobo, ou um cão, a morte é realmente o limite da vida. E por isso a morte não tem controlo sobre eles. Isto, gostaria de pensar, é o que é ser-se um lobo ou um cão" (Mark Rowlands em O Filósofo E O Lobo)

(2009)

04 April 2009

HOMENS E LOBOS *
João Pereira Coutinho

* (mas o que interessa são os gatos)



Existem momentos em que fico horas a olhar para o meu gato. Com inveja, sempre com inveja. Só Deus sabe o que existe na cabeça de um felino. Mas acompanho as rotinas dele e sei, filosoficamente falando, que ele é feliz. Nós, humanos, seres temporais por excelência, vivemos aprisionados à ideia do nosso próprio fim. E, como se não bastasse essa terrível condenação, somos também incapazes de habitar cada momento inteiramente. O presente, em nós, está sempre carregado de passado e de futuro: do que fomos, das memórias que temos, do caminho e das escolhas que fizemos; e daquilo que gostaríamos de ser, ou ter, ou fazer. O presente, para nós, não é um lugar para estar. É uma breve passagem a caminho de outra breve passagem. Sempre e sempre e sempre até a despedida final. Por isso, aconselho: se quiserem entender a natureza da felicidade, comprem um gato.



E acompanhem a forma como ele cumpre as suas rotinas com entrega contida e total. Ele não espera nada, ele não deseja nada. A felicidade, para ele, não existe por adição: de objectos, experiências, lugares. Mas por repetição: ele repete as experiências que são significativas. E, em cada repetição, existe a certeza da mesma felicidade. Um gato ajuda a entender tudo isso. Mas um livro publicado recentemente reforça a ideia. Confesso: comprei o livro sem expectativas numa livraria do aeroporto de Heathrow, em Londres. Só o título despertou a curiosidade: "The Philosopher and the Wolf: Lessons from the Wild on Love, Death and Happiness" (o filósofo e o lobo: lições do selvagem sobre amor, morte e felicidade; Granta, 246 págs.). Não é manual de filosofia "ligeira". Longe disso. O livro de Mark Rowlands é uma mistura erudita de experiência pessoal e reflexão metafísica, em que Nietzsche, Heidegger e Camus têm participação direta.



Ponto de partida: certo dia, o professor Rowlands leu anúncio no jornal. Alguém vendia lobos por US$ 500. Rowlands entrou na aventura. Horas depois, a casa estava destruída pelo novo hóspede, de nome Brenin, que não poupou a mobília e as cortinas. Primeira lição: um lobo não é um cão. E, nos 11 anos seguintes e após treino apertado, Brenin foi a companhia do professor. Em casa. Na rua. Em viagem. E até nas aulas, para espanto de colegas e alunos: enquanto o professor dissertava sobre Platão e Aristóteles, o lobo dormitava ao seu lado. As aulas terminavam com um uivo. O livro de Rowlands é uma descrição pessoal de tudo isso: da relação idiossincrática de um homem com um lobo. Mas o livro de Rowlands oferece-se essencialmente como uma longa meditação sobre a natureza da felicidade humana. Ou, se preferirem, sobre a sua impossibilidade.



Impossibilidade? Precisamente. A modernidade ofereceu-se aos Homens como projecto de construção secular. Por meio da Razão, seria possível conquistar a "sorte" que tanto afligia os gregos e realizar na Terra o que a cristandade medieval apenas prometia para o Reino dos Céus. A felicidade seria uma construção individual e progressiva rumo a um fim determinado. Paradoxalmente, essa ideia libertadora apenas trouxe o seu reverso: se a felicidade era responsabilidade nossa, a infelicidade também. E, adicionalmente, se a felicidade era convertida em projecto, ela seria igualmente convertida em insatisfação interminável: jamais estaremos onde queremos estar; jamais seremos o que queremos ser; jamais teremos o que queremos ter. A felicidade moderna converteu-se numa vigília permanente: a vigília de Homens insatisfeitos; de Homens esmagados pelos seus próprios ideais de felicidade e perfeição. Viver com Brenin ensinou a Rowlands essa crucial diferença entre Homens e animais: nós vivemos mergulhados no tempo e nas nossas próprias teleologias pessoais. E a forma como desejamos sempre momentos que são posteriores ao momento presente impede-nos de viver qualquer momento de forma real e total.



A infelicidade humana não nasce da nossa ignorância ou da nossa imperfeição. Muito menos da ignorância ou da imperfeição das nossas sociedades. A infelicidade humana é um produto da nossa específica temporalidade. Resta uma questão final: serão os Homens superiores aos animais? A resposta de Rowlands talvez seja a mais honesta: depende do que entendemos por "superioridade". Sim, um lobo jamais pintaria o tecto da Capela Sistina. Mas será a Capela Sistina uma necessidade para um lobo? Ou, pelo contrário, será antes uma necessidade para nós? Uma forma de completarmos a parte que nos falta das várias partes que nos faltam? (começou aqui, na caixa de comentários, saltou para aqui, foi parar ali e ainda sobrou para aqui, com o bónus do Eliot-link que, por acaso, até tinha partido cá de casa - ou as maravilhas da Net)

(2009)