'In the monotheistic religions, Mary is the female model that is most represented, the most known and therefore the most exploited', de Robertis explains. 'The figure of Mary in Lourdes is in the end just as exploited as the face of the Mona Lisa in the Louvre. It is the goose that lays the golden eggs, it drives the economy of the Marian city. Like the Mona Lisa, her head can be found on mugs, t-shirts and keyrings. Like the female genitalia of the Origin of the World, which attracts tourists and fills the coffers of the Musée d’Orsay, the representation of Mary attracts pilgrims from all over the world', she says.
'But what would happen if the power relations were reversed, if the statue of the Virgin was incarnated as a real woman to regain ownership of her body?' asks de Robertis. 'What would happen if the woman whose vulva was painted by Courbet embodied herself to get out of the frame and use the institution to her advantage and not the other way around? By embodying the female models my aim is to free them from the framework in which they are frozen and thus to reverse the point of view on the historical, political and artistic level'".
Vamos conhecendo Laura Marling, literalmente, pela pele. Ou pelo que ela vai inscrevendo na pele. Em 2013, por altura da publicação de Once I Was An Eagle, ficámos a saber que, no pulso direito, tem tatuado o lema dos baronetes de Marling – cujo primeiro titular foi, desde 1882, Sir Samuel Marling, industrial, filantropo e político liberal –, nulli praeda sumus (“não somos presa de ninguém”). Agora, no momento em que surge Semper Femina, descobrimos que, aos 21 anos, tatuou discretamente o título do álbum (citação deliberada e ironicamente truncada da Eneida, de Virgílio: varium et mutabile semper femina (”a mulher sempre vária e volúvel”) na elegantíssima coxa esquerda. E, acessoriamente, o brasão da casa de Marling no outro pulso. Não é caso para alarme: ela não é, de todo, uma versão contemporânea de O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Muito mais facilmente esta autoconfessada “mistura estranha de completa neurótica e espantosa procrastinadora nada perfeccionista”, loira e pálida, encarnaria uma qualquer heroína de Jane Austen. Porém, capaz de, ao mesmo tempo, afirmar: “Não é possível conceber tragédias a partir das minhas personagens. A nossa cultura adora tragédias femininas. Por isso, agora, concentro-me em reescrever essa ideia da mulher trágica”.
Semper Femina é, então, uma detalhada e preciosa trajectória quase folk – isto é, mais próxima do espírito “de câmara” de Once I Was An Eagle do que do anterior Short Movie –, entre evocações de L’Origine du Monde, de Courbet (“A origem do mundo ser aquela imagem muito gráfica do sexo de uma mulher sempre me pareceu uma coisa poderosíssima”), da Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, de Leonard Cohen (“Um dos raros românticos realistas, um género a que fui buscar inspiração para a minha ainda curta vida”), da surrealista Leonora Carrington, ou – nos dois videoclips por ela dirigidos, para "Soothing" e "Next Time" –, de Roy Andersson, realizador de Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir Sobre a Existência, único filme autenticamente genial que (até agora) o século XXI produziu. Não temamos perder-nos nela. É a própria Laura Marling que o autoriza: “O meu desejo de ser mal entendida é permanente. Posso parecer uma hippie tresloucada mas acredito que a escrita de canções é uma arte obscura, uma forma de encantamento. É impossível explicá-la”.
Au delà du fait que je ne reconnais pas ma culpabilité, je ne comparais pas car il me semble que vous vous êtes trompé de destinataire. En effet la loi sur l’exhibition sexuelle ne s’applique pas à une œuvre d’art. Mon corps d’artiste et de femme ainsi que mon travail n’ont donc pas leur place dans un palais de justice.
Comparaitre serait faire semblant d’accepter de prendre cette place.
Si je dois comparaitre, ce ne sera pas pour avoir réalisé une performance dans une institution artistique, ce sera pour avoir fait le geste symbolique de laisser cette place vide.
En tant qu’artiste, je prends le droit de faire le geste de sortir du cadre de L’Origine du Monde de Gustave Courbet; une fois de plus, c’est en tant qu’artiste que je fais le geste de soustraire mon corps du cadre dans lequel on voudrait le confiner aujourd’hui.
Je me suis demandée longuement comment répondre à cette convocation, j’y réponds par le vide afin que l’absence de mon corps fasse entendre la voix de toutes les femmes.
Comme preuve de mon innocence et pour valider mon propos, je peux vous faire parvenir l’œuvre sur laquelle porte l’accusation.
Très respectueusement,
Deborah De Robertis
22 September 2016
"Dans les articles sur ma démarche, il est surtout question de l'aspect scandaleux de celui-ci et trop peu de l'aspect performatif, expérimental ou humoristique de mes vidéos comme si il s'agissait d'un acte impulsif et uniquement militant sans recherche esthétique: En effet la vidéo issue de cette performance n'a rien de scandaleux et c'est avec légèreté et humour que je révèle les mécanismes de censure liés au regard porté sur la nudité féminine dans nos sociétés occidentales et présentes directement et indirectement dans nos institutions artistiques. 'De la fascination à la provocation: quatre œuvres jugées scandaleuses et vandalisées lors de précédentes expositions seront présentées pour questionner les limites de la censure. Montrer Serrano, c’est affirmer les valeurs qui nous fondent. Contre la barbarie et l’intolérance. Contre l’obscurantisme et l’inhumanité'. Tels sont les mots utilisés pour présenter l'exposition de Serrano intitulée 'Uncensored Photographs' aux Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique. J'ai choisie cette photo intitulée 'The Interpretation of Dreams (Triumph of the Flesh)' d'Andres Serrano pour deux raisons: La première, elle nous renvoie inévitablement au sexe de l' Origine du monde de Gustave Courbet; la seconde, cette photo - 'exposant le sexe féminin' - n'éta it pas présente à l'exposition. Si la nudité exposée par un artiste homme a le statut de représenter 'les valeurs qui nous fondent' qu'en est t-il de la nudité exposé par une artiste femme ? Où se situent 'les limites de la censure'? Pour les Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique, elles semblent se situer dans le point de vue incarné par le sexe féminin"
Pierre-Joseph Proudhon et ses enfants - Gustave Courbet (1865)
"Ser governado é, a cada operação, a cada transacção, a cada movimento, ser registado, recenseado, taxado, selado, medido, quotizado, patenteado, encaminhado e corrigido. É, sob pretexto de utilidade pública e em nome do interesse geral, ser exercitado, encarcerado, explorado, monopolizado, convencionado, oprimido, mistificado e roubado. Depois, à menor resistência, à primeira palavra de queixa, reprimido, multado, vilipendiado, vexado, perseguido, maltratado, garrotado, preso, fuzilado, metralhado, julgado, condenado, deportado, sacrificado, vendido, ferido, e, para cumulo, escarnecido, zombado, ultrajado, desarmado. Eis o Governo, eis a sua justiça, eis a sua moral". (Proudhon)
Warm inside, yeah
I'd like to direct your attention
To something that needs directing to
A lot of people talk about
Dining in and eating out
I guess that's what this song's about
I know this is not a dining room conversation
And you don't have to listen if you don't have the time
But let me remind you in case you don't already know
Dining out can happen down below
Everybody's talkin' 'bout
Wanting that and needing this
I'd just like to know
If you want to learn a different kind of kiss
So won't you go down where it's warm inside
Go down where I cannot hide
Go down where all life begins
Go down that's where my love is
Now what could be better than a home cooked meal
How you want to eat it depends on how you feel
You can eat all you want and you don't get fat
Now where else can you go for a meal like that
It's not fair to be selfish or stingy
Every girl should experience eating out
Sometimes when I come home from a hard day at work
I swear it's all I can think about
Colonel Sanders says it best
"Finger lickin' good"
Let's put what you've learned to the test
Can you make a fire without using wood
Are you still hungry; aren't you glad we came
I'm glad you brought your raincoat
I think it's beginning to rain
That's where my love is
Come inside
That's where all life begins
It's warm inside
(2011)
06 June 2010
O ACTOR EM CONSTRUÇÃO
Bonnie “Prince” Billy & The Cairo Gang - The Wonder Show Of The World
Além da viúva-Love e da editora, que raparam o fundo ao tacho do catálogo dos Nirvana até nem uma só partícula restar (quer dizer, nunca se sabe… há sempre umas "outtakes"-de-"outtakes" prontas a ser exumadas), ninguém deve ter rentabilizado melhor o rigor mortis de Kurt Cobain do que Will Oldham. É verdade: tinha ele acabado de publicar o álbum de estreia There Is No-One What Will Take Care of You sob o primeiro dos "noms de plume", Palace Brothers, quando foi convidado para, pela assombrosa soma de mil dólares, fazer a primeira parte dos Nirvana, na quarta edição do festival Lollapalooza, de 1994. Aconteceu, entretanto, que, por esses dias, Cobain achou mais interessante explorar as possibilidades de nirvana radical que se esconderiam no cano de uma caçadeira carregada e isso teve como consequência que o futuro Bonnie Prince se visse promovido um degrau acima no cartaz do festival, com o correspondente bónus de duzentas e cinquenta verdinhas. O jovem Will não era propriamente indigente – o pai era advogado em Louisville, Kentucky, a mãe, artista amadora (seria dela o desenho naïf inspirado nos Lutadores, de Courbet, que, em 2008, ilustrou a capa de Lie Down In The Light) – mas, para um “appalachian post-punk solipsist” de vinte e quatro anos, acabadinho de aspirar, pela primeira vez, o odor dos estúdios, cada cêntimo era ouro.
Tudo nele, é importante dizer-se, era, desde o início, o absoluto oposto da redescoberta das raízes “espontâneas”, “autênticas” e muito "old, weird America" que, enquanto suposto pioneiro da coisa freak/folk/country/new americana, lhe quiseram colar à pele. Não foi por acaso que os seus primeiros passos foram como actor: estudou no Walden Theatre, pisou o palco do Actors Theatre, de Louisville e, até hoje, continuámos a vê-lo no cinema em Junebug, Old Joy ou Wendy And Lucy. Há uma razão para as sucessivas assinaturas “Palace” (Palace, Palace Songs, Palace Music, Palace Brothers): as personagens de Cannery Row, de Steinbeck, habitavam a decrépita Palace Flophouse. O “Brothers”, de Palace Brothers, descende, em linha directa, dos Louvin Brothers e dos Everly Brothers. Bonnie “Prince” Billy é uma justaposição de Bonnie Prince Charlie (o pretendente setecentista aos tronos da Inglaterra, Escócia e Irlanda) e Nat King Cole. E, se, relutantemente, aceitou dedicar-se à música foi porque, como confessa, acabou por compreender que “tal como um filme ou um livro, a música é uma construção. Não se trata de alguém que canta sobre a própria vida mas de uma pessoa que aprendeu um ofício”. O ofício dele aprendeu-o com a santíssima trindade Merle Haggard, Leonard Cohen e R. Kelly. A construção da própria personagem, laboriosamente realizada em mais de uma centena de gravações (álbuns, EP, registos ao vivo, singles, versões e colaborações) obecedeu a uma regra, evidentemente, declinada na terceira pessoa: “Ele (Bonnie Prince) irá cantar canções que têm estrofes, refrães e pontes. Como um escritor de canções do Brill Building ou de Nashville”.
Assim foi. Quase sempre magnificamente. E aquela versão que, agora, apresenta de uma country/folk confortavelmente rústica mas, nem por isso, menos disciplinadamente carpinteirada – algo entre o classicismo CSN&Y e o neo-medievalismo dos Fleet Foxes –, capaz de abrir um álbum com as palavras “I once loved a girl but she couldn’t take that I visited troublesome houses, she said when I got home, to leave her alone, she could taste trouble in my mouth” e de o encerrar pregando “Always choose the noise of music, always end the day in singing!” é só mais um capítulo da sua ficção privada.
(2010)
31 May 2010
COURBET & OLDHAM
Les Lutteurs - Gustave Courbet (1853)
Lie Down In The Light - Bonnie "Prince" Billy (capa de Joanne Oldham, 2008)
(2010)
26 April 2009
COURBET/L’ORIGINE DU MONDE/ COURBET/L’ORIGINE DU MONDE/ COURBET/L’ORIGINE DU MONDE/ COURBET/L’ORIGINE DU MONDE
Ao crescente número dos leitores deste blog oriundos da República Islâmica do Irão, dos Emiratos Árabes Unidos, do Egipto – e, porventura, ainda de outros países do Médio Oriente e zonas culturais e geográficas afins – declaradamente admiradores da obra de Gustave Courbet, sugerimos que nos enviem as suas opiniões e pontos de vista sobre o artista que vos traz aqui. Bem-vindos!
To our increasing number of readers from the Islamic Republic Of Iran, United Arab Emirates and Egypt – and, possibly, from other neighbouring countries in the Middle East – devout fans of the work of Gustave Courbet, we suggest you send to this blog your opinions and points of view about said artist. Welcome!
Domingos Névoa, administrador da Bragaparques, condenado por tentar corromper o vereador Sá Fernandes, foi nomeado presidente da empresa intermunicipal "Braval". A Braval é a empresa de tratamento de resíduos sólidos do Baixo Cávado, que engloba os municípios de Braga, Póvoa de Lanhoso, Amares, Vila Verde, Terras do Bouro e Vieira do Minho. Para director-geral da Braval foi nomeado Pedro Machado, genro de Mesquita Machado, presidente da Câmara Municipal de Braga e dirigente do PS. (...) Domingos Névoa tornou-se publicamente conhecido pela sua tentativa de corromper o vereador Sá Fernandes. Em 25 de Fevereiro passado, o Tribunal da Boa Hora deu como comprovado o crime de tenativa de corrupção activa, mas condenou-o apenas em 5.000 euros. (...) Pedro Machado é casado com Cláudia Machado, filha do presidente da Câmara de Braga, Mesquita Machado. (daqui)
"After Courbet, L´origine du Monde" - Tanja Ostojic, 2005
"If the image of a woman's body can be seen as a political statement when it comes to the EU presidency, then what about the reality of south-eastern European women who in the year 2006 are still being sold as commodities in the EU? Over here the fictitious woman lies in an apparently lascivious pose in the picture, and over there the real woman stands on the corner or is confined to a brothel. It is a paradoxical image".