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14 March 2017

PELE


Vamos conhecendo Laura Marling, literalmente, pela pele. Ou pelo que ela vai inscrevendo na pele. Em 2013, por altura da publicação de Once I Was An Eagle, ficámos a saber que, no pulso direito, tem tatuado o lema dos baronetes de Marling – cujo primeiro titular foi, desde 1882, Sir Samuel Marling, industrial, filantropo e político liberal –, nulli praeda sumus (“não somos presa de ninguém”). Agora, no momento em que surge Semper Femina, descobrimos que, aos 21 anos, tatuou discretamente o título do álbum (citação deliberada e ironicamente truncada da Eneida, de Virgílio: varium et mutabile semper femina (”a mulher sempre vária e volúvel”) na elegantíssima coxa esquerda. E, acessoriamente, o brasão da casa de Marling no outro pulso. Não é caso para alarme: ela não é, de todo, uma versão contemporânea de O Homem Ilustrado, de Ray Bradbury. Muito mais facilmente esta autoconfessada “mistura estranha de completa neurótica e espantosa procrastinadora nada perfeccionista”, loira e pálida, encarnaria uma qualquer heroína de Jane Austen. Porém, capaz de, ao mesmo tempo, afirmar: “Não é possível conceber tragédias a partir das minhas personagens. A nossa cultura adora tragédias femininas. Por isso, agora, concentro-me em reescrever essa ideia da mulher trágica”.  


Semper Femina é, então, uma detalhada e preciosa trajectória quase folk – isto é, mais próxima do espírito “de câmara” de Once I Was An Eagle do que do anterior Short Movie –, entre evocações de L’Origine du Monde, de Courbet (“A origem do mundo ser aquela imagem muito gráfica do sexo de uma mulher sempre me pareceu uma coisa poderosíssima”), da Casa de Bonecas, de Henrik Ibsen, de Leonard Cohen (“Um dos raros românticos realistas, um género a que fui buscar inspiração para a minha ainda curta vida”), da surrealista Leonora Carrington, ou – nos dois videoclips por ela dirigidos, para "Soothing" e "Next Time" –, de Roy Andersson, realizador de Um Pombo Pousou Num Ramo a Reflectir Sobre a Existência, único filme autenticamente genial que (até agora) o século XXI produziu. Não temamos perder-nos nela. É a própria Laura Marling que o autoriza: “O meu desejo de ser mal entendida é permanente. Posso parecer uma hippie tresloucada mas acredito que a escrita de canções é uma arte obscura, uma forma de encantamento. É impossível explicá-la”.

13 August 2015

A PRECÁRIA ORDEM DO MUNDO
(sequência daqui)


Momus, divindade da mitologia grega que personifica o escárnio, filho de Nyx – a noite – e irmão gémeo de Oizus, deusa da angústia e do desespero, apeteceu-lhe difamar Terpsicore, a musa da dança, e chamou-lhe Turpsycore, brincando, perversamente, com “turpitude”/depravação. Exactamente o género de divertimento a que Nicholas Currie ("nom de plume", Momus) poderia entregar-se no momento de dar nome a um álbum. Na verdade, fê-lo mesmo. E não poupou na ambição: três CD – Turpsy, Dybbuk (na tradição judaica, uma alma penada que vagueia em demanda de um corpo vivo de que se apossará, tal como ilustrado pelos Coen no prólogo de A Serious Man) e Harvard –, o primeiro, incluindo temas originais, o segundo, com versões de canções de David Bowie, e o terceiro, dedicado a releituras de Howard Devoto, o génio mui insuficientemente recordado dos Buzzcocks e, sobretudo, Magazine.



Nada de más interpretações apressadas, porém: do tipo que, em 2012, muito reynoldsianamente declarava “Estou convencido que o grande problema da pop é ter-se deixado paralisar pelo respeito para com o passado. Estamos esmagados pelo peso dos arquivos e isso torna difícil a criação de formas genuinamente novas” nunca iríamos esperar uma manobra de ressuscitação nostálgica. E não é, de facto, disso que se trata: tanto nos dezassete temas de Turpsy (e respectivos e indispensáveis videoclips, disponíveis no Youtube) como nos outros dois, o que se descobre, de espanto em assombro, é um desfile de instantâneos de um cabaret encenado por Kafka (em “O Castelo”, uma das personagens dá pelo nome de Momus), Cronenberg e Roy Andersson sobre uma falha na ordem precária do mundo, uma demonstração prática do confessado programa de “agressão contra a normalidade” exposta em ameaçadoras "limericks" (“rancid jism in a furnished room, boking in a bucket of tar, the living or the dead, sick or on the nod, don’t really care who they are”), polcas sibilantemente obscenas, recitações morbidamente ballardianas, blues electronicamente desfigurados e uma sucessão de vénias subliminares a Cage, Lou Reed, Burroughs, Paul McCarthy, ou Jobriath, de tal modo embutidas nas vísceras das canções que, quando se chega a Dybbuk e Harvard, não é já mais possível distinguir o que pertence a quem, onde começa Currie e acabam Bowie e Devoto.

04 July 2015

Um Pombo Pousou Num Ramo 
a Reflectir Sobre a Existência 
(real. Roy Andersson, 2014)