30 June 2021

Como é possível não mencionar 

Luke Haines - Smash The System

(daqui; álbum integral aqui)

 
"Sob qualquer forma, em qualquer tempo, o diálogo é um sinal de civilização e de paz. Mas, pouco a pouco (...), quase todos se foram moldando à fala telegráfica, que é apenas uma maneira de evitar a fala, um substituto sintético da verdadeira fala. A invasão da língua pelo calão ou, pior, por meia dúzia de termos de calão, não é mais do que um aspecto desta redução da linguagem (do pensamento e da sensibilidade: da pessoa) a meia dúzia de lugares-comuns que pobremente se repetem até (quem sabe?) ao desgaste final da língua (do pensamento, da sensibilidade, das pessoas). Pouco a pouco, cedendo à pressão de tantas e tantas circunstâncias, a conversa no seu mais alto significado, que é o de desfiar a realidade a dois ou a três, o de reencontrar a realidade através do choque suave e compreensivo, do encontro tolerante (seja vivo, embora, seja entusiástico!) de duas ou mais visões opostas que, ao fim, se completam, esfumou-se. A maior parte das pessoas - e são professores, são advogados, são médicos, são até artistas - não suporta uma frase mais longa, uma observação que não pareça trazer, ao fim de dois minutos, a sua aplicação imediata, ou seja: a observação pessoal, o outro lado, a variedade, de que a vida se enriquece. Habituaram-nos a receber essa nova entidade, odiosa e esterilizante: o slogan. O sim ou o não, a chave que abre esta porta e se deita fora mal a abriu". (Mário Dionísio - Passageiro Clandestino I, 20/10/50)

29 June 2021

MONSTROS E DEMÓNIOS
 
 
Sem se dar muito por isso, ao longo de 30 e tal anos, sob o nome (verdadeiro) de Will Oldham - aliás, Joseph Will Oldham -, mas também enquanto Palace, Palace Brothers, Palace Songs, Palace Music ou Bonnie ‘Prince’ Billy, a solo ou em colaborações com Dawn McCarthy, The Cairo Gang, Bill Callahan, Meg Baird, Jim O’Rourke e inúmeros outros, em álbuns, EP, singles, e compilações, o belo príncipe exibe no CV bem para lá de uma centena de títulos. Entre os quais, desde 25 de Abril do ano passado, também uma versão de "Grândola Vila Morena", de José Afonso, cantada "a capella", em português, na sua conta do Instagram. Pelo meio dessa densa e riquíssima floresta de música feita de folk, country e punk que lhe valeria o cognome de “Appalachian post-punk solipsist”, em Master And Everyone (2003), descobria-se "Wolf Among Wolves", uma dulcíssima e tremenda confissão de alienação e renúncia (“Why can’t I be loved as what I am, a wolf among wolves, and not as a man among men”) que, bastaria, por si só, para justificar o título da sua recolha de textos – Songs Of Love And Horror – de há 3 anos. Em 2005, na companhia de Matt Sweeney (Skunk, Chavez e pistoleiro contratado de estúdio de primeira linha), o lobo ganharia super-poderes e transformar-se-ia em possante Superwolf, criatura mítica que, só 16 anos depois, reemerge das trevas. (daqui; segue para aqui)
Hiperson - Another Language

(ver aqui)
O javardolas no seu labirinto
 
"They look like Democrats" (ou, como dizia a jovem bruxa Trampas, "it's an optics issue")
Polly Paulusma - Invisible Music: Ten Short Videos (VI)


27 June 2021

Ufff!... Sempre concentradíssimos, safámo-nos de boa/Edit (15:13)! (O Costa deve ficar eternamente grato à "nossa selecção" por ter evitado que os dias 11 e 12 de Julho se transformassem no gatilho para uma devastadora escalada em flecha de infecções)
Jon Hassell (1937 - 2021)

Jon Hassell/Brian Eno - Fourth World Vol. 1: Possible Musics (álbum integral)
"Our politics of nostalgia is a sure sign of present-day decay" (não tem apenas uma leitura Brit e deixa-se acompanhar muito bem por este outro texto)

24 June 2021

(sequência daqui) “Foram necessárias duas semanas só para experimentar os diferentes sons que os tijolos da Lego podiam produzir. Despejaram-nos sobre o chão ou em cima de mesas, chocalharam-nos dentro de grandes baldes, deixaram os gravadores ligados enquanto se faziam construções. Passámos depois bastante tempo a refinar cada faixa e a fazer 'loops' de segmentos sonoros. Ainda que não fossem acrescentados sons exteriores, fomos muito meticulosos no modo como procurámos equilibrar os níveis das faixas e também tivemos de limitar algumas das frequências mais agudas para que, ouvidas em auscultadores, não soassem demasiado agrestes. Mas, de um modo geral, procurámos recriar os sons de modo tão autêntico quanto possível”. “Built For Two”, “Wild As The Wind”, “Searching For The One (Brick)”, “It All Clicks”, “The Waterfall”, “Big Hearted Bricks” e “The Night Builder” são, então, exemplos materiais do que um Lego sonoro pode ser: um divertimento entre Cage e a "musique concrète", com L’Arte Dei Rumori futurista como pano de fundo.
 
Quer parecer-me que isto não é concentrarmo-nos no fundamental (mas os portugueses da Área Metropolitana de Lisboa também podem?)
 
Edit (15:13) - Se, por uma tremenda maldição cósmica, os matraquilhos lusos vencerem o eurocoiso, já existem planos (quais planos?) para controlar as destrambelhadas movimentações infecto-contagiosas de centenas de milhares de elementos do p.o.v.o. ébrios de patriotismo ludopédico?
 

22 June 2021

Polly Paulusma - Invisible Music: Ten Short Videos (IV)


10 000 INSTRUMENTOS MINÚSCULOS

Falta pouco mais de um ano para se celebrar o 70º aniversário da demonstração pública da inexistência do silêncio bem como da ideia que daí decorre acerca de, potencialmente, todos os sons de qualquer origem poderem ser considerados e apreendidos como música. Os 4’33” de silêncio de John Cage – “interpretados” ao piano por David Tudor a 29 de Agosto de 1952 – não são, pois, coisa nova e radical mas continuam a gerar descendência das mais variadas estirpes que mantém vivos e activos esses conceitos literalmente seminais. Talvez nenhuma, porém, tenha agarrado de modo tão explícito o lado lúdico e aleatório da sugestão cageana como, agora, Lego White Noise. Concebida para “10 000 instrumentos minúsculos” por Primus Manokaran (director criativo da Lego), e disponível nas diversas plataformas de "streaming", são 7 faixas de meia hora cada, construídas a partir da gravação da infinidade de sons obtidos a partir do choque, encaixe e fricção das peças de todas as construções da Lego. (daqui; segue para aqui)

Iamus Computer - Adsum (Málaga Philharmonic Orchestra, dir. José Luis Estellés): World premiere performance of Adsum, an orchestral work performed in a live concert entirely composed, orchestrated and automatically notated by a machine (ver aqui)

18 June 2021

Será possível existir um partido de direita que não seja exclusivamente constituido por esterco neo-facho neo-beto? (via DT)
A senhora da limpeza já foi despedida
O caprino até poderia nem ir a conduzir mas é inegável que tudo aquilo de que se aproxima corre (muito) mal

"A santa resiliência: (...) Basta ouvir os nossos políticos para perceber que a resiliência se tornou uma ideologia: a ideologia do sofrimento e da infelicidade que salvam e purificam. O resistente estava disposto a quebrar; o resiliente é maleável, adapta-se a tudo, não tenta alterar nenhuma ordem, mas, pura e simplesmente, fazer o jogo da ordem presente para daí retirar ganhos. A táctica da resiliência é o consentimento. Por cada crise, infortúnio ou catástrofe, os arautos da resiliência prometem que 'vamos sair daqui ainda mais fortes'. Toda a felicidade é conseguida à custa da infelicidade, e é sempre a destruição que é uma fonte da reconstrução. Aliás, o pressuposto da resiliência, essa terapia inventada nos gabinetes clínicos da aliança económico-política, é que a infelicidade é um mérito e a destruição uma bênção. Uma coisa que tem o nome de 'Plano de Recuperação e Resiliência' poderia ser uma prescrição médica seguida numa associação de alcoólicos anónimos. Tudo neste jargão político tresanda de vício e de uma execrável ideologia" (AG; leitura complementar aqui)
É uma afinidade muito especial

17 June 2021

16 June 2021

VINTAGE (DLXXIX) 

Microdisney - The Clock Comes Down The Stairs

(álbum integral aqui)

(sequência daqui) Invisible Music - Folk Songs That Influenced Angela Carter, em conjunto com uma série de 10 curtos vídeos que complementam a audição do disco, é a consequência prática da tese de doutoramento de Paulusma (professora em Cambridge e autora de sete álbuns) no decorrer da qual descobriu gravações inéditas da Angela Carter cantora e executante de concertina, listas extensas de canções folk que ela arquivara, e identificou tópicos e passagens de textos da obra de Carter literalmente extraídos da música tradicional britânica. “Parecia-me uma loucura mas estava certa de que ouvia ritmos da canção folk nas escolhas prosódicas dela. Foi a cantora em mim que reconheceu outra cantora. A influência da folk, derrama-se de facto, sobre toda a sua obra”. Acompanhada por Jed Bevington (violino), Jack Harris (guitarra) e John Parker (contrabaixo), em 9 fantásticas e sangrentas canções de força e engenho femininos e 10 leituras intercaladas de textos de Carter (por Polly, Kirsty Logan e Kathryn Williams), Paulusma aplica-se a tornar visível o invisível.
 
Polly Paulusma - Invisible Music: Ten Short Videos (II)
A alta política é outra loiça (II)
 

14 June 2021

"Ainda não está totalmente concluído" é um eufemismo aldrabão para dizer que continua um estaleiro infrequentável (é só passar por lá); mas, com as autárquicas à porta e a assombração da denúncia de activistas russos (e outros) * a pairar, vale literalmente tudo!

"Ainda não está totalmente concluído, mas (...), para a Câmara Municipal de Lisboa, o que está feito é suficiente para o presidente Fernando Medina inaugurar o designado Parque Ribeiro Telles"

* Edit (14:22) - ... Aaaah!... pronto, não passam de "processos administrativos"...

Edit (15:19) - Mas que teimosia... o senhor embaixador já explicou tudinho!

Edit (18:46) - Não se terá tratado "de uma prática de colaboração da Câmara de Lisboa na identificação e perseguição de activista russos, (...) como se a Câmara fosse um centro de espionagem do senhor Putin na perseguição dos seus opositores" mas foi uma coisa muito parecida

TORNAR VISÍVEL O INVISÍVEL

Não é um segredo fechado a sete chaves. Mas, sempre que o nome da escritora britânica Angela Carter vem à baila, não é habitual que, por entre as referências biográficas – uma das mais importantes autoras do século XX, feminista, romancista criadora de um poderoso realismo mágico, que viu um dos seus contos, The Company Of Wolves, adaptado ao cinema por Neil Jordan –, seja mencionado que, enquanto jovem, se dedicou por inteiro à folk: com o primeiro marido, Paul Carter (cantor e "field-recorder" para a lendária Topic Records), no início da década de 60, participou em expedições de gravação pelo Sussex e pela Irlanda, tendo sido também responsáveis, pelas noites-folk do Lansdown Club, em Bristol. Tudo isso não apenas alimentaria o estudo que, na universidade, realizaria sobre os textos da canção folk como, garante agora a "singer-songwriter" e académica Polly Paulusma, constituia uma “música invisível” que atravessa toda a sua obra e, em boa medida, lhe determinou o estilo e a substância. (daqui; segue para aqui)

11 June 2021

Agora, mais pertinho das autárquicas (e a contar soldadinhos para a sucessão do chefe), é que as correias de transmissão estão bem lubrificadas, não é?
"Guardar os dados?... Mas onde é que vocês foram buscar tal ideia???... Os camaradas, aqui no Largo do Leão, não têm nada a ver com o Largo do Rato... Há uns quantos, vá, quase todos, que são do FSB/KGB mas do que eles gostam mesmo é de jogar xadrez, passam o dia todo naquilo, bem regado a vodka, com um borschzinho pelo meio (que a Sveta, a 'devotchka' do Oleg Quebra-Ossos, cozinha logo de manhãzinha), para retemperar... Os que ganham são a Brigada Karpov, os derrotados a Escumalha Kasparov. Já agora, aquela história da fedelha drunfada do Gambito de Dama ter dado uma coça ao Borgov é tudo tanga!!! Nenum deles existiu e, se tivessem existido, quem ganhava era, evidentemente, o Borgov, porque teria havido meios de fazer perceber à catraia que ir a Moscovo vencer um russo pode provocar problemas metabólicos lixados. Como aconteceu com o Navalny, coitado... Andar a perder tempo precioso de xadrez com uma Ashrafullina qualquer... Tenham juízo!" 
 
O borsch da Sveta
VINTAGE (DLXXVIII)

Black Box Recorder - The Facts Of Life
(ver aqui; álbum integral aqui)

10 June 2021

... e, para não engordar desmedidamente uma coluna de "edits", o devido destaque ao que foi uma política claramente definida e não apenas uma "falha burocrática"
 
O Medina e os problemas com emails, mas este - um puro caso de bufaria - é motivo, pelo menos, para demissão
 
 
Edit (11:04) - Acessoriamente, não é impossível que se trate de mais um capítulo desta história

Edit (11:36) - De mal a pior: o agente local do FSB/KGB, no dia de Camões, escreve "rececionou" (incorrendo em crime linguístico agravado)

Edit (13:06) - "Foi um erro a todos os títulos lamentável", tão lamentável que o máximo responsável por ele não pode continuar à frente da CML (e já houve tempo mais do que suficiente para aprender que é "Navalny" e não "Nalvany")

09 June 2021

07 June 2021

 
Marianne Faithfull & Warren Ellis 
discuss their new album She Walks In Beauty

"I Just Want To Be Buried" (álbum integral aqui)

(sequência daqui) É só olhar para Setting The Dogs on The Post Punk Postman: uma canção acerca de um pacto suicida com uma abóbora, outra sobre um ex-espião da Stasi “unpaid by the State to keep the dream alive”, e outra ainda a propósito de partilhar o autocarro com Ivor Cutler; uma divagação em torno das consequências de possuir um espantalho, outra inspirada pelos joelhos da feminista Andrea Dworkin, e “Two Japanese Freaks Talking About Mao And Nixon”, com o cinema de Shūji Terayama em fundo. A moldura sonora é de um glam-rock tal como os Kinks (não) o tocariam mas, naturalmente, com parcimonioso tempero de caixas de música, metrónomos e flautas de bisel.

06 June 2021

VINTAGE (DLXXVII)
 
Cocteau Twins - Treasure

(álbum integral aqui)
O MARAVILHOSO MUNDO DA BLOGOCOISA (XVII)
 
Hoje, alguém acedeu a este blog através da query "pono coraçeos no tubo do simiterio"

03 June 2021

Quanta ingratidão!... tanto miminho, tanto cafuné, tanta calcinha arreada e, afinal... (e o Augie "Mad Dog" SS à nora para "justificar" as asneiradas...)
PERSONAL ANARCHY
 
 
O mistério do cérebro perdido de Ulrike Meinhof. A história fantástica de Jack Parsons, pioneiro aero-espacial, espião e ocultista da seita de Aleister Crowley. O Situacionismo e a guerrilha urbana. A "sci-fi" neo-swiftiana sobre uma comunidade hiper-libidinosa de mutantes de 6 centímetros. Uma discografia – em nome próprio ou sob as designações de The Auteurs, Baader-Meinhof e Black Box Recorder – com perto de 30 títulos, entre os quais The Oliver Twist Manifesto (2001), Das Capital (2003), 9 1/2 Psychedelic Meditations on British Wrestling of the 1970s & Early '80s (2011), Adventures In Dementia (2015), British Nuclear Bunkers (2015) e o inédito e confidencial The State Funeral of Winston Churchill (2005). Três livros – Bad Vibes: Britpop and My Part in Its Downfall (2009) Post Everything: Outsider Rock and Roll (2011) e o “psychedelic cookbook”, Outsider Food And Righteous Rock And Roll (2015) – e uma extensa lista de canções pelas quais, em estados variáveis de desfiguramento, desfilam Andy Warhol, Liberace, Ramones, Jacqueline du Pré, Captain Beefheart, Donovan, Maria Callas, Valerie Solanas, Nick Lowe, Klaus Kinski, Gene Vincent, Lou Reed, Peter Hammill, Marc Bolan, Bruce Lee, Roman Polanski e os futuristas russos. É, pois, inteiramente legítimo afirmar que, no imenso caldo de cultura pop/rock, não existe quem, sequer remotamente, se assemelhe a Luke Haines, adepto confesso da “personal anarchy” e supremo praticante da modalidade. (daqui; segue para aqui)

"Ex Stasi Spy"
E Peniche, e o Aljube, e o Tarrafal (fica um bocadinho mais longe mas, mesmo assim...), tanto sítio jeitoso e acolhedor

02 June 2021

Dry Cleaning | Live on KEXP

(ver aqui e aqui)
Ó pró belo empreendedorismo, & educação, & coiso, & as fundações, & o SAPSNJPA - III, num "evento" todo catita - com o superior patrocínio do fundador de uma empresa com sede fiscal em Londres, budista (quer dizer, taoísta, estas merdas são complicadas), amante das "mudanças de paradigma" -, abrilhantado pelo ex-"sit-down comedian", a Catarina Furtado, o Bryan Adams, a Fátima Lopes e outros intelectuais de renome (o Damásio já tinha idade para ter juízo), em arrojados números de circo de grande espectacularidade!

Edit (03/06/2021) - O pasquim direitolas online, claro, é fâ e explica-nos qual "o foco" da fundação; o guru, entretanto, assegura que "temos de tratar da mente como tratamos do corpo" mas, assumido o dualismo cartesiano, não revela onde a mente se situa.
... portanto, se a bófia não teve ordens para não intervir no Porto, só podem ter sido as suas enormes gentileza e cortesia que a conduziram a não importunar os jovens lordes britânicos que, "by jove!... ", apenas queriam passar "a helluva good time"

Jovem lorde britânico adepto do ludopédio

01 June 2021

Valerie June | Austin City Limits Interview

(ver aqui)
Pedro Franco para Presidente da CML (ou Director Geral de Saúde, ou Ministro da Saúde, ou Primeiro-Ministro, ou Ministro da Administração Interna)!
 
Edit (15:36) - vá lá, desta vez o mail não se extraviou...
m b v (álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Tentando ir um bocadinho mais fundo, volto a recordar-lhe outra tentativa de definição confiada a Simon Reynolds: “A questão é que o som não está todo ali. É, de facto, o oposto do rock’n’roll. É como se lhe arrancássemos as entranhas – restam apenas vestígios, contornos”. Na essência, é isto? “Não. Quando disse isso, estava apenas a descrever um aspecto da nossa música. De certo modo, a essência do rock’n’roll é aquela energia masculina do ímpeto para a frente e do ataque, e o que fizemos foi subtrair o ataque. A nossa música era mais como o movimento de uma massa de lava ou do oceano que tanto pode ser suave e acariciador como gerar um tsunami. Do que eu falava era do facto de nós incorporarmos esse tipo de energia que não é menos poderosa e é potencialmente muito mais devastadora. Mas essa nossa abordagem sonora não era a única. Enquanto conceito, o rock transformou-se numa caricatura, uma anedota, com gente em palco agarrada às guitarras, cheia de enegia que sabemos não ser autêntica. A ideia de que a música é uma representação do esforço físico de quem a toca está em declínio. A música vale o que vale, independentemente do intérprete. Por isso, quando dávamos concertos, o público tinha dificuldade em associar o que via àquilo que ouvia: um som absolutamente esmagador produzido por pessoas que pouco se mexiam em palco. Na altura, era estranho mas, agora, já não é tanto”.