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05 October 2025

(sequência daqui) Após a publicaçao em Abril de 2023, de Songs and Symphoniques: the Music of Moondog, (em torno da música do lendário "Viking da 6ª Avenida", reinterpretada pela Ghost Train Orchestra, pelo Kronos Quartet e avulsos notáveis vários (Rufus Wainwright, Joan Wasser, Jarvis Cocker, Petra Haden, Sam Amidon, Aoife O'Donovan), David Byrne que, durante um dos concertos em Brooklyn, entusiasmado com a variedade de instrumentos da Ghost Train, não resistira a subir ao palco com o grupo, deixou-se arrastar pela ideia de entregar as suas novas canções a um ensemble de bateria, percussão, guitarra, baixo, cordas e sopros. No fundo, apenas um prolongamento e diversificação da estratégia de American Utopia: "Senti que a opção por arranjos orquestrais mais íntimos realçaria a emoção que me parece estar presente nestas canções", diz Byrne, "É algo de que as pessoas nem sempre se aprecebem no meu trabalho, mas desta vez tive a certeza de que estava lá. Ao mesmo tempo, também me vejo como alguém que pretende ser acessível". (segue para aqui)

16 March 2023

"Silver Seed"
 
(sequência daqui) E, um pouco por todo o lado, outros nomes – Shane MacGowan, Johnny Cash, Nick Cave, William Blake, Christy Moore – iriam sendo pronunciados, inclusive pela própria Lisa quando interrogada sobre que elementos a influenciariam: “A chuva, o vento, as flores, as abelhas, os rios, as árvores, os pássaros, as perguntas que as crianças fazem. Gente como Alan Watts, Charlie Chaplin, Einstein, Nina Simone, Moondog, a lua e o pó das estrelas”. Nem seria preciso recordar a assombração da sua voz no episódio final da série Peaky Blinders incinerando o haiku “All The Tired Horses”, de Bob Dylan, para que, antes da escuta de All Of This Is Chance, não tivesse já a menor dúvida de que “a lawless league of lonesome beauty” acabara de chegar das costas da Irlanda. Crua e densamente orquestral, entranhadamente tradicional e irremediavelmente contemporânea, com o olhar nas estrelas ("A star ran rings around the star before me and spun and swooped and sank in rock beneath me”) e uma fonte de alimentação inesgotável: “The solar system is a very large pool to draw from!

01 March 2021

CAVALGADA CEGA
 

Dá muito jeito quando, no "press-release" de um álbum, se declara, preto no branco: “Inspirado por Van Dyke Parks (Song Cycle), Scott Walker (3 e 4), Moondog (Elpmas), White Noise (An Electric Storm) e Beach Boys (Smile)”. O que, aos especialmente catalogadores e arquivistas, poupa logo o esforço de procurar as coordenadas daquilo que irão, a seguir, ouvir. Excepto nos casos em que isso – a menos que se trate de maliciosa manobra de diversão – apenas poderá fazer algum sentido para quem o concebeu mas pouco ou nenhum em relação ao par de tímpanos que o irá escutar. 
 

 
Excerpts from Chapter 3: The Mind Runs a Net of Rabbit Paths, terceiro álbum dos holandeses Rats On Rafts, apesar do que anuncia, com os 3º e 4º volumes de Scott Walker não revela o menor parentesco, e de Moondog e dos Beach Boys, nem um rasto de pegadas. Quanto a Van Dyke Parks e aos vetustos pioneiros da electrónica, White Noise, se, de um, com boa vontade, poderá reconhecer-se o conceito de "song cycle", dos outros, só resta supôr que alguma informalidade e experimentalismo "noise" ter-se-ão derramado para aqui. Nada de grave. (daqui; segue para aqui)

08 October 2008

FECHAR FERIDAS



Dennis Wilson - Pacific Ocean Blue




Brian Wilson - That Lucky Old Sun

O Verão eterno. O surf. “Babes” permanentemente bronzeadas. “Fun, fun, fun”. A visão de postal do paraíso californiano que se colou à lenda e à música dos Beach Boys dificilmente poderia coincidir menos com a realidade. Literalmente brutalizados pelo pai/manager, Murry Wilson, um “songwriter” medíocre e um tirano doméstico que exercia a autoridade por meio do terror, nenhum dos três irmãos Wilson, ao longo da vida, conseguiria cicatrizar verdadeiramente as feridas abertas durante a adolescência. Brian Wilson, aos 25 anos, angustiado pelo que supunha ser a irredimível inferioridade de Pet Sounds perante Sgt. Pepper's, dos Beatles, e mentalmente desgovernado por uma dieta demasiado rica em alucinogénios, mergulharia, até hoje – de psicocharlatão em pseudoterapeuta –, num limbo de vida semi-consciente, necessitando de cerca de quatro décadas (e meia dúzia de álbuns intercalares em dente de serra) para, finalmente, concluir o mítico Smile. Carl Wilson, que manteve o barco dos Beach Boys a flutuar após o naufrágio de Brian, acabaria também, no final dos anos 70, por ajoelhar diante dos químicos, morrendo de cancro cerebral e pulmonar, em 1997.


Dennis Wilson Forever (doc. real. Billy Hinsche, 2007)

Dennis, o único que, afinal, correspondia ao perfil do puto das praias da Califórnia – radicalmente hedonista, adepto do presente do indicativo como único tempo verbal, ávido consumidor de todas as substâncias que reconfiguram a percepção e... surfista –, era “apenas” o baterista do grupo mas aquele por quem as fãs abdicavam sem esforço de peças de roupa interior. Íntimo do tresloucado Charles Manson, tão sedutoramente fascinante como – em particular, nos últimos anos de plano inclinado – capaz de criar o deserto à sua volta no círculo de namoradas, esposas e amigos, morreria, em 1983, aos 39 anos, afogado no oceano de Marina del Rey. Seria ele, porém, quem (como o irmão Brian) haveria de deixar para a história da pop um “lost album” e meio, agora, finalmente reeditados.


"River Song"

Pacific Ocean Blue (1977) foi publicado pela Caribou (de James Guercio, produtor e colaborador de Zappa, Blood Sweat & Tears, Chicago e Moondog), vendeu razoavelmente mas, uma vez descatalogado, nunca seria convertido para CD. Bambu, o sucessor previsto, esse, nunca sairia das bobines. Naturalmente, um e outro, desde então, inflaccionaram cotações no e-Bay, circularam nos proverbiais “bootlegs” e, inevitavelmente, adquiriram aura de santidade pop. Ouvidos hoje nesta dupla edição, no entanto, fica claro que, se Dennis tinha talento suficiente para não ser condenado a viver à sombra de Brian, ele só se revelava irregularmente: num e noutro álbum (mas, especialmente, em Pacific Ocean Blue), os melhores momentos são aqueles em que as reconhecíveis harmonias vocais dos Beach Boys deslizam para um idioma quase-gospel (houve quem lhe chamasse “California surfer soul”), caso de “River Song”, “Moonshine” e “Rainbows”, ou os outros – “Thoughts Of You”, “Time” – onde parece quererem definir-se os traços do género de canção “cool”-minimal que nos habituámos a associar a Robert Wyatt. Todo o resto, contudo, ou exibe em excesso algumas das menos agradáveis dedadas da época (aqui e ali, suspeita-se, com algum horror, que Dennis Wilson se poderia ter transformado em... Phil Collins) ou são apenas resultado de esboços/jams de estúdio apressadamente convertidos em canções.



Ressuscitado através da magnífica reconstituição ansiosamente aguardada de Smile, em 2004, Brian Wilson regressa agora também com That Lucky Old Sun. A equipa de apoio (e, nos tempos que correm, Wilson continua a necessitar de muito apoio) é a mesma que, desde há vários anos, o acompanha (o devotado fã e membro dos Wondermints, Darian Sahanaja, o fidelíssimo Van Dyke Parks e um pelotão de operacionais de estúdio de quilométricos currículos) e, talvez por isso e porque o efeito-Smile permanece intenso, a sensação que se guarda é a de que Wilson – ou alguém por ele – pretendeu sublinhar a ideia de o seu imenso génio não se ter esgotado nessa viagem de profundidade pela memória. O que resulta é algo de ambivalente: o álbum contém algumas sobreexcelentes canções de colheita “vintage” (e algumas das piores: “Mexican Girl” é indesculpável) mas é impossível não reparar como todo o esforço parece dirigido para edificar um Smile-part II (os “intermezzi” declamados, escritos por Parks, reforçam a vertente conceptual) e não deixar de sentir que, por vezes, Brian Wilson chega a soar como uma – competentíssima – “covers band” de si mesmo.

(2008)

09 February 2008

UM PÉ NO PRESENTE, OUTRO NO PASSADO

 
Segundo a lenda, entre o final dos anos 40 e o início dos 70 (e, aqui, a cronologia é extremamente flutuante...), na esquina da 54th Street com a 6ª Avenida de Manhattan, costumava encontrar-se uma personagem insólita: uma espécie de profeta/mendigo, cego de nascença, vestido de viking que vendia fascículos da sua poesia, filosofava de modo avulso com os transeuntes e, para alguns, mais iniciados nos mistérios ocultos da invulgar figura, era músico, compositor e até teria chegado a gravar discos. Por volta de 1974, desapareceu subitamente e alguns fãs mais dedicados — entre os quais, Paul Simon, que chegou a ir à televisão fazer-lhe o elogio fúnebre — convenceram-se de que o ancião extravagante teria morrido. Não era impossível. Nascido Louis T. Hardin cerca de 1916, em Maryneville, no Kansas, por essa altura, contaria já perto de sessenta anos que uma vida de "homeless" esotérico não deveriam ter suavizado. Afinal, Moondog — assim autointitulado, em 1947, em memória de um velho cão que "uivava à lua como ninguém" — tinha apenas emigrado para a Alemanha onde até à verdadeira data da sua morte (8 de Setembro de 1999) iria prosseguir uma carreira singular de excêntrico militante ocasionalmente tocado pelo génio.
 

Essencialmente autodidacta (embora tenha estudado violino, viola de arco, piano, orgão, harmonia e cantado no coro da Iowa School For The Blind), considerava-se "um europeu no exílio, cuja alma e coração estão na Europa, fundamentalmente um clássico na forma, conteúdo e interpretação. Sinto-me como se tivesse um pé na América e outro na Europa ou um no presente e outro no passado. Ritmicamente, sinto-me no presente, mesmo 'avant garde', enquanto que, melódica e harmonicamente estou verdadeiramente no passado. Mas o presente transforma-se em passado tal como o futuro virá a ser o presente...". É exactamente isso que a quase totalidade da sua obra, agora finalmente reeditada (até aqui, só uma miraculosa aparição na banda sonora de The Big Lebowski o recordava) documenta. Moondog (que reune Moondog, de 1969, e Moondog 2, de 1971) assinala o início registado da lenda quando este "clochard" novaioquino que frequentava os clubes de Manhattan na companhia de Charlie Mingus, Miles Davis, Benny Goodman, Buddy Rich ou Charlie Parker conseguia (como?) gravar música orquestral que, inspirando-se na "early music" da tradição europeia — cânones, "grounds", "ostinati", "chaconnes", "rounds", "passacailles", madrigais —, desde 1952, iria inspirar os, então jovens, Philip Glass ou Steve Reich. Escutando hoje este extraordinário álbum (recheado de improváveis dedicatórias e homenagens a Tchaikovsky, Benny Goodman e Charlie Parker, partituras para Martha Graham e sinfonias para mitológicas figuras como "Thor The Nordoom, Emperor Of Earth") pode descobrir-se que também Michael Nyman ou toda a "escola de Canterbury" e adjacências ainda um dia lhe deverão reconhecer uma considerável dívida

 

"Clandestinamente" emigrado para a Europa, sob convite da editora Kopf, gravaria, a partir de 1976, In Europe, H'art Songs e A New Sound Of An Old Instrument, colecções de deliciosas miniaturas musicais que, tanto celebravam o lançamento da sonda espacial americana Viking para Marte em "scherzi" para celesta, como inventavam valsas impossíveis, se divertiam com o "nonsense" puro daquele tipo de canções em que Robert Wyatt ou Kevin Ayers se haveriam de especializar ou combinariam o contraponto no orgão barroco da igreja de Oberhausen com desenhos rítmicos supostamente ameríndios ou com fantasias sobre a Grécia clássica. Elpmas e Sax Pax For A Sax (respectivamente, de 1991 e 1994) representariam, o primeiro, um protesto ecológico contra os maus tratos inflingidos à natureza e aos povos nativos, sob a forma de requintados cânones minimalistas para marimbas, balafones, violas de gamba, banjos e amplos exercícios de contraponto "ambiental" e, o segundo, uma magnífica e extravagante comemoração do 100º aniversário da morte de Adolphe Sax que Moondog aproveitou inventar o conceito de "ZAJAZ" — jazz em duas direcções — que lhe permitiria divertir-se com enxertos de linguagem barroca sobre matriz swing e infinitos outros vice-versas para o que contribuiriam nomes como Peter Hammil, o saxofonista de Michael Nyman, John Harle, Danny Thompson ou o Apollo Saxophone Quartet. Nunca é tarde para descobrir um "maverick" com uma interessantíssima história para contar. (2000)