Showing posts with label Kathleen Hanna. Show all posts
Showing posts with label Kathleen Hanna. Show all posts

01 March 2023

 
(sequência daqui) A saber, Dorothy Day (activista e anarquista do início do século passado), Ada Limón (actual Poeta Laureada dos EUA), Dorianne Laux (poeta), Wendell Berry (poeta, ensaísta, activista ambiental e agricultor) e Sharon Olds (poeta pagã e panteísta). É na intersecção entre as duas listas que se pode melhor entender a música de Heather Cecelia McEntire, filha das Blue Ridge Mountains da Carolina do Norte numa família de cristãos evangélicos. De uma dieta inicial de country, gospel e bluegrass, na universidade deixar-se-ia infectar pelo punk, desocultaria a sua orientação lésbica e, após a passagem pelos Mount Moriah, e a publicação de um livro de poesia e outro de prosa, espicaçada pela ex-Bikini Kill, Kathleen Hanna, aventurar-se-ia a solo. Em Every Acre, por entre folk eléctrica, country desmembrada, "drones" de sitar e coros de grilos e sapos, costura um belíssimo "quilt" de psicogeografia rural.

28 May 2022

Amber Coffman - "Run Run Run"
 
(sequência daqui) Seria, justamente, isso que, paralelamente ao preconceito que a lançaria para todo o sempre nas labaredas da Inquisição pop, a transformaria em farol das movimentações punk, pós-punk e new wave com discípulos e fãs confessos como Thurston Moore, Kim Gordon (Sonic Youth), B-52, Kathleen Hanna (Bikini Kill), Courtney Love, RZA ou todos os que viriam a participar nos álbuns de homenagem Every Man Has a Woman (1984) – Elvis Costello, Harry Nilson, Rosanne Cash, Roberta Flack –, Yes, I’m A Witch (2007) – Peaches, Le Tigre, DJ Spooky, Cat Power, Flaming Lips – e Mrs. Lennon - Canções de Yoko Ono (2010) – só com intérpretes brasileiras. Aos quais deverão acrescentar-se aqueles que, agora, sob a produção de Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), em Ocean Child – Songs of Yoko Ono, a 18 de Fevereiro, lhe ofereceram este valioso presente pelo seu 89º aniversário. Muito em particular, David Byrne com os Yo La Tengo, Sudan Archives, Sharon Van Etten, Thao, U.S. Girls e Stephin Merritt mas também Flaming Lips, Amber Coffman e Deerhoof.

05 September 2018

MANIFESTO

  
Em 1913, Luigi Russolo, no manifesto Futurista L'Arte dei Rumori, decretava: “Após terem sido conquistadas por olhos Futuristas, as nossas múltiplas sensibilidades ouvirão, enfim, com ouvidos Futuristas. Os motores e máquinas das nossas cidades industriais serão, um dia, conscientemente afinados de modo a que cada fábrica se transforme numa embriagante orquestra de ruídos”. Nas “liner notes” de Music For Airports (1978), Brian Eno anunciava os parâmetros por que a "ambient music" haveria de se reger: “Deverá ser capaz de acomodar diversos níveis de escuta sem privilegiar nenhum em particular. Será tão ignorável quanto interessante”. O número 2 do “Bikini Kill Zine” de 1991, publicava o Riot Grrrl Manifesto assinado por Kathleen Hanna”: “Acredito, com toda a força do meu coração, mente e corpo, que as raparigas constituem uma força revolucionária que pode transformar o mundo e que o transformará”. Em 2012, Nadezhda Tolokonnikova, perante um tribunal russo fantoche, expunha o programa das Pussy Riot: “Demos concertos nos túneis do metro, em cima de autocarros, no telhado de centros de detenção, em lojas de roupa e na Praça Vermelha. Acreditamos que a arte deverá ser para todos”. No Nu-Troglodyte Manifesto (2015), Jarvis Cocker proclamava: “Fujam do tagarelar constante, interminável e sem sentido que nos distrai de quem realmente somos e do que realmente queremos”



Em Agosto de 2018, num texto em que apresenta o terceiro álbum, Hunter, Anna Calvi junta-se à ilustre lista de músicos produtores de manifestos e declara: “Pretendo ir além do género. Desejo não ter de escolher entre o masculino e o feminino em mim. (...) Ando à caça de alguma coisa – desejo experiências, desejo acção, desejo liberdade sexual, desejo intimidade. (...) Desejo repetir infinitamente as palavras ‘rapariga, rapaz, mulher, homem’ até lhes encontrar os limites, contra a vastidão da experiência humana. Envergo o meu corpo e a minha arte como uma armadura mas também sei que ser verdadeira para comigo é expor-me a ser ferida”. Abertamente “queer e feminista” – mas as anteriores "I’ll Be Your Man" ou "Suzanne And I" haviam já aberto as hostilidades das políticas de género –, troca algo da amplitude e elaboração cinemáticas de Anna Calvi (2011) e One Breath (2013) por uma urgência quase militante de guitarras incendiárias e palavras de ordem cifradas ("As a Man", "Don’t Beat The Girl Out Of My Boy", "Alpha", "Chain"), em belíssimo registo de libreto operático “com uma causa”.

09 May 2014

(sequência daqui

Bikini Kill - "I Like Fucking"

Just cause my world sweet sister
Is so fucking goddamn full of rape
Does that mean my body must always be a source of pain?
No. No. No.

29 April 2014

HEREGES & SANTOS

  
“Somos todas Pussy Riot!”, foi o grito de guerra de Kathleen Hanna, em Agosto de 2012, na véspera da decisão final do julgamento que condenaria Nadia Tolokonnikova, Maria Alyokhina e Katia Samutsevich a 2 anos de prisão por terem desafiado publicamente Vladimir Putin com a "Punk Prayer" urrada na catedral de Cristo Redentor, de Moscovo. Mas seria igualmente verdade se Nadia, Maria e Katia tivessem declarado “Somos todas Bikini Kill!”. Fizeram-no, aliás, pouco antes da performance que lhes traria notoriedade mundial: “O que temos em comum é a insolência, as letras politicamente carregadas, a importância do discurso feminista e uma imagem feminina não convencional. A diferença é que as Bikini Kill actuavam em salas de concerto e nós em lugares proibidos. O movimento riot grrrl estava intimamente associado à cultura ocidental cujo equivalente não existe na Rússia”.  



The Punk Singer, de Sini Anderson, um dos mais vibrantes documentários que serão exibidos no IndieLisboa 2014, conta a história de Kathleen Hanna (e, por arrasto, das Bikini e demais riot grrrls, jovens feministas punk radicais norte-americanas, da década de 90), ex-stripper que, tendo-se dedicado, inicialmente, ao "spoken word", optou pela modalidade “feminism and punk rock in the same sentence” após uma conversa com Kathy Acker. A atitude era violentamente confrontacional (“I have a fucking right to be hostile and I’m not gonna sit around and be peace and love with somebody’s fucking boot on my neck”), os fanzines e manifestos encarregavam-se da agit-prop (“I believe with my wholeheartmindbody that girls constitute a revolutionary soul force that can, and will change the world for real”) e, em conjunto com as Huggy Bear, Sleater-Kinney ou Bratmobile, sob a aprovação de figuras tutelares como Kim Gordon, dos Sonic Youth, e Joan Jett – todas depondo para o doc –, das Bikini para The Julie Ruin e Le Tigre (“a feminist party band”), aprofundaram aquela via que as Slits, Au Pairs, Patti Smith, Raincoats, Lydia Lunch e outras pioneiras haviam desbravado.


Outro padroeiro da história punk, Alan Vega (Suicide), surge também numa espécie de "extended videoclip" – Just a Million Dreams, de Marie Losier –, num registo doméstico algo deprimente, no qual o quase octogenário Vega, acompanhado do filho pré-adolescente e da esposa formato-MILF, faz esgares para a câmara, posa lendo uma biografia dos Suicide por entre maquinas de lavar roupa, vagamente ensaia na sala para um concerto (?) de que apenas enxergamos os segundos finais, debita frases do estilo “It’s so hard to be an artist, very hard to be revolutionary” e dependura um boneco de Elvis na árvore de Natal.



Já claramente no domínio da hagiografia, Springsteen & I, de Baillie Walsh, é uma colagem de testemunhos e confissões "homemade" de fãs de Bruce que abre com o próprio, em palco, em jeito de "preacher man", interrogando as massas “Can you feel the spirit?” e prossegue, em regime de acumulação: “Quando ele canta, percebe-se o esforço pelas veias inchadas do pescoço” diz uma miúda de 10 anos, recitando os santos valores da ética do trabalho; uma mãe confessa que mostrava ao filho as imagens sagradas de Bruce e lhe dizia que eram fotos do pai; outros exibem relíquias e memorabilia e aqueles que lhe viram o branco dos olhos ou, suprema beatitude!..., chegaram a tocá-lo, contam as suas histórias coroadas por acessos de pranto convulsivo; há quem revele que perdeu a virgindade ao som da Sua música, e tudo se resume – matéria de fé – em “You believe in Bruce, Bruce believes in you”. Springsteen é demasiado grande para precisar disto.

(Programação IndieMusic do IndieLisboa 2014)

20 April 2014

VINTAGE (CCIV)

Sonic Youth (c/ Kathleen Hanna/Bikini Kill) - "Bull In The Heather"