Showing posts with label Kathleen Brennan. Show all posts
Showing posts with label Kathleen Brennan. Show all posts

15 July 2026

"Playground"
 
(sequência daqui) Long Wave Home, o seu 7º álbum, é, então, explica ela, uma aplicação prática do princípio "O que importa é garantir sempre a pessoa certa no lugar certo", um registo reduzido a voz, guitarra e arranjos minimalistas, que mostra a ex-nanny da descendência de Tom Waits e Kathleen Brennan pelo seu lado mais íntimo. A faixa que empresta o título ao álbum define o tom: numa espécie de Lego sonoro, um dedilhado circular rodopia sob a voz, que passa de um sussurro para algo quase áspero no espaço de uma única frase. Ela sempre foi uma cantora pouco convencional e, aqui, essa estranheza parece menos uma afectação e mais um imperativo — a única forma de transmitir estas canções que não domesticam as palavras ("If revolution can be sparked by a feeling, turn up the system, point the finger, send them reeling.” ("Signal To Noise") e, numa alusão ao inferno de Gaza e de todas as Gazas contemporâneas, se interroga "Are playgrounds for children, in them arises humanity, and so morality, to recognize a brutalizer, if rubble is playground, in all that their new eyes see, what kind of man becomes us?" ('Playground')

02 July 2026

 
(sequência daqui) Há, porém, algo de paradoxal em Down Where the Willow and the Dogwood Grow. Apresentado como um novo tributo à obra de Tom Waits e Kathleen Brennan, o álbum não oferece uma única gravação inédita. Acaba, contudo, por funcionar como algo mais interessante: um reavaliador da extraordinária força das canções de Waits e Brennan num percurso que alterna entre baladas, blues andrajosos, canções de inspiração latina, gospel e peças quase faladas, reflectindo a impressionante diversidade do cancioneiro Waits/Brennan quando retirado da imensa sombra da sua personalidade. Ou como um espelho que, ao reflectir a obra através de vozes alheias - Solomon Burke, Bruce Springsteen, Willie Nelson, Lucinda Williams (que canta "Hang Down Your Head", a primeira canção oficialmente atribuída à parceria Waits-Brennan, publicada em Rain Dogs, 1985), Johnny Cash, Marianne Faithfull, Bob Seger, Diana Krall, John Hammond -, revela a qualidade rara de canções capazes de sobreviver a qualquer intérprete — inclusive ao seu criador. Afinal, um tanto ou quanto ironicamente, o título do álbum de homenagem haveria de ser extraído do texto de canção "Down There By The Train", o patinho feio inicial, em cuja primeira estrofe se lê: "There’s a place I know where the train goes slow, where the sinner can be washed in the blood of the lamb, there’s a river by the trestle down by sinner’s grove, down where the willow and the dogwood grow".

29 June 2026

Bettye LaVette - "Yesterday Is Here"
 
(sequência daqui) "Ela salvou-me", confessou Waits ao "Guardian", em 2009. "Talvez eu também a tenha salvado. Ela é de ascendência católica-irlandesa. Estava destinada a ser freira. Pode dizer-se que a salvei do Senhor. Mas todos sabem que ela é o cérebro por trás do Papá. Eu sou apenas a figura de proa. É ela quem conduz o navio". Dylan uma vez comentou que, aos olhos de Waits, "todas as grandes coisas que surgiram em New Jersey não chegam aos calcanhares de Kathleen Brennan". Tom reforça a ideia: "Ela é como uma operadora de maquinaria pesada e uma clarividente — é raro encontrar essa combinação. Ela é extraordinária — podadora de árvores e ventríloqua, astronauta e detective particular. Estamos sempre à procura dessas duas coisas. Um jornalista e uma beldade de praia. É uma combinação que funciona para nós, porque muitas vezes estou num carrinho de bebé à espera de ser empurrado para o meio do trânsito. É ela que o faz". (segue para aqui)

26 June 2026

 
(sequência daqui) Esta coleção homenageia não só a extraordinária versatilidade da composição de Waits, mas também a importância de um artista que continua a assombrar e a inspirar, partindo das margens para o centro. Poucos redefiniram o panorama da música popular, e da cultura em geral, como Tom Waits. Ao longo de cinco décadas, ele forjou uma estética singular que desafia os géneros e transforma o marginal em mito. Inspirando-se no vaudeville, no blues, no jazz, no folk, no teatro – e em praticamente tudo o que lhe chama a atenção – para criar algo inteiramente seu. Com a sua parceira criativa de longa data e esposa, Kathleen Brennan, ele desmontou e remontou a própria ideia de canção. O casal conheceu-se em 1978 no set de Paradise Alley (onde Waits fez a sua estreia como actor e Brennan trabalhou como argumentista). Embora se tenham casado apenas alguns anos mais tarde - "em Los Angeles, na Always Forever Yours Wedding Chapel, onde nos deram um saquinho que tinha lá dentro uma novela, The Vanishing Bride um Tampax, preservativos e um tira-nódoas. O escrivão chamava-se Watermelon" - começaram a colaborar em meados dos anos 80, dando início aos trabalhos mais experimentais de Waits com Swordfishtrombones, de 1985, e Franks Wild Years, de 1987. Trabalharam também com Robert Wilson em três musicais, The Black Rider (1989), Alice (1992) e Woyzeck (2000) (segue para aqui)

23 June 2026

 
(sequência daqui) Não por muito tempo. Alguns meses depois, Cash e Rubin deram-se conta de que tinham um músico em comum com Waits, o guitarrista Smokey Hormel, que, em missão de pombo-correio, foi para lhe perguntar se ele, por acaso, não teria alguma coisa guardada. Este rebuscou um pouco na memória e, não muito convictamente, sugeriu “Down There By the Train”: "Ei, tem tudo o que o Johnny gosta: comboios e morte, John Wilkes Booth, a cruz…" Depois de a canção lhe ter saido das mãos, Waits referiu que Cash "Fez-lhe algumas alterações, o que era de esperar. Eu faço o mesmo quando toco uma música de outro autor. É mesmo preciso fazê-lo, experimenta-se, e quando está um pouco apertado aqui, não encaixa bem ali, corta-se ou adapta-se. Queres que soe como se fosse tua". (segue para aqui)

21 June 2026

DAS MARGENS PARA O CENTRO

Quando, em 1993, Johnny Cash estava a trabalhar no seu memorável 81º álbum, American Recordings, o produtor Rick Rubin sugeriu-lhe convidar um grupo de compositores criteriosamente selecionados. Assinalando um ressurgimento na carreira de Cash, American Recordings excluiria qualquer tipo de produção sobrecarregada, deixando-o sozinho com uma guitarra e as letras. Para capturar o som na sua forma mais crua, o álbum seria gravado entre a sala de estar de Rubin e a cabana de Cash no Tennessee. Para além das cinco faixas escritas por Cash, o álbum incluiria, então, igualmente uma coleção de canções assinadas por um grupo eclético de artistas, de que faziam parte Nick Lowe, Kris Kristofferson, Leonard Cohen.e Loudon Winright III. Tom Waits também foi convidado a contribuir com uma canção. Mas, como ele contaria a Jim Jarmusch no substack "Every Tom Waits Song", havia apenas “Down There By the Train” que, até à altura, "ninguém quisera gravar. E também não conseguimos encontrar uma forma de o fazer que nos satisfizesse, por isso deixámo-la para trás. E lá ficou ela, à espera". (daqui; segue para aqui)

 

Lucinda Williams - "Hang Down Your Head"

20 October 2023

Bone Machine (álbum integral aqui)
 
(sequência daqui) Se, entre Closing Time (1973) e Blue Valentines (1978), ele se imaginava como a encarnação de uma personagem da ficção de Kerouac, Damon Runyon ou Raymond Chandler cambaleando por entre coreografias de jazz desmoronado ("Para a maioria dos músicos, há o 'onstage' e o 'backstage'. Eu cresci mais ou menos em público. Tinha vinte e dois anos quando gravei o primeiro disco. Ainda andava a tropeçar pelas escadas abaixo. Não fazia ideia do que estava a fazer mas sabia que iria ser músico. Há pessoas que aparecem logo completamente formadas, como um ovo. Comigo, não aconteceu assim. Fui juntando as peças pelo caminho. Uma 'persona' de palco é muito diferente daquilo que somos. De facto, uma 'persona' é algo que não acreditamos ser mas que tentamos desesperadamente convencer os outros que somos"), a partir daí, contando com Kathleen como insubstituível braço direito, tudo se transformaria: "Escrever canções com a minha mulher é assim: um segura no prego e o outro bate-lhe com o martelo. Colaboramos em tudo. Ela escreve mais inspirada por sonhos e eu pelo próprio mundo. Quando escrevemos, navegamos pelo meio da escuridão e não sabemos a direcção certa. Cinco minutos a mais e pode dar-se cabo de uma canção. Por isso, o tempo também participa do processo. Temos o nosso negociozinho familiar. Eu sou o prospector e ela cozinha. Eu trago o flamingo para casa e ela corta-lhe a cabeça. Eu meto-o na água e ela depena-o. Depois, ninguém lhe apetece comê-lo. Agora, o meu ponto mais forte é pegar numa coisa, combiná-la com outra com que não tenha nada a ver e conseguir que isso faça sentido. Digamos que procuro formas diversas de usar um guarda-chuva. A maior parte dos instrumentos são quadrados mas a música é sempre redonda e a verdade é que não gosto de linhas rectas". E, reforçando o louvor público, "Eu sou a Ingrid Bergman e a Kathleen é o Bogart. Ela tem um brevet de piloto de aviação e, antes de nos casarmos, estava para ser freira. Pus um ponto final nisso. Ela sabe de tudo desde reparação de motos até à alta finança e é uma excelente pianista. Uma das maiores autoridades mundiais acerca da violeta africana. É feita de material muito rijo. É como a Super-Mulher, com a capa a flutuar ao vento. Funciona. Já andamos nisto há muito tempo". (segue para aqui)

 
"I Don't Wanna Grow Up" (real. Jim Jarmusch)

10 October 2023

ESCULTURA DE ESCOMBROS 


Era o início de Outubro de 1990 e, junto à janela do primeiro andar de um pequeno café da Rue du Bac, em Paris, com os pés descontraidamente pousados sobre a cadeira da frente, Tom Waits discursava acerca do motivo que o conduzira à capital francesa: a apresentação, no Théâtre du Châtelet, da ópera The Black Rider que escrevera com William Burroughs e Robert Wilson. De súbito, lá em baixo, na rua, a figura de Kathleen Brennan - co-compositora, companheira e força da ordem no mundo de Waits -, saída do hotel em frente, surge, gesticulando para ele. Como quem faz apenas uma pausa para logo a seguir continuar o que ficara suspenso, em modo de ditador benévolo, Tom Waits diz-me: "Faça-me a próxima pergunta, deixe o gravador aqui e, por favor, vá até à rua para saber o que ela quer". Qual pombo correio, cumpri a missão em 5 minutos. Mais tarde, verificaria que ele fora também fiel ao compromisso, falando ininterruptamente durante todo o tempo. Apenas mais uma prova de que, pelo menos tão fascinante como a sua obra musical, Tom Waits em discurso directo é invariavelmente muito melhor do que qualquer tentativa de o caracterizar (daqui; segue para aqui)


"November" (The Black Rider, na íntegra aqui)

17 April 2020

Tom Waits and Kathleen Brennan 
remember Hal Willner


"Hal. Dear Hal. Brother. Uncle. Father. Son. Husband. Godfather. Friend. Wise and reckless. Lamb and black sheep. Lover of the afflicted and the blessed. More than kin and more than kind, more than friend and more than fiendish in his daunting and devoted pursuit of the lost and the buried, long may his coattails run and long may we now ride, and those that follow us continue to ride upon them (...)" (texto integral aqui)

15 November 2009

KELLESIMONE WAITS - POWER PLAYS
(Frank Pictures Gallery, Santa Monica, California,
November 7, 2009 - January 2, 2010)




Margaret Thatcher



Angela Merkel and Alan Greenspan



Hilary Clinton and Nancy Pelosi



Pope Benedict XVI



Condoleeza Rice

"Waits (the daughter of musician Tom Waits and lyricist Kathleen Brennan) says that from the get-go, painting has been her medium. She went to art school, but left. 'I've been working on my own for almost three years', she says. 'I miss the guidance, but I'm really learning to make my own choices, solve problems on my own'". (aqui)

(2009)

11 February 2008

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXXI)



"Não sei bem o que são fantasmas mas estar numa sala cheia de máquinas, participar numa experiência musical e, noventa anos mais tarde, muito depois dela ter sido demolida e das pessoas que nela estiveram terem morrido, podermos ouvir o que se passou naquela sala, o que nela foi gravado, é um bocado fantasmagórico. Usamos a palavra 'captar' quando falamos acerca de registar qualquer coisa numa fita. É porque se trata de algo que está vivo. Não se trata de caçar um espécime morto ou vivo. Queremos capturar aquela música naquela fita. Tem mesmo de ser apanhada viva.

(...)

"Ninguém vive uma canção da mesma forma que outra pessoa. Quando escutamos uma canção, misturamos os nossos sonhos e experiências com essa canção. Por isso, é sempre uma coisa única, é a nossa vivência dessa canção, a nossa experiência. É como receber uma carta e misturar a nossa vida naquela poção. É como os desenhos que os nossos putos colocam na porta do frigorífico, passam a ser os nossos desenhos.

(...)


(de Coffee & Cigarettes - Jim Jarmusch, 2003)

"Eu sou a Ingrid Bergman e a Kathleen é o Bogart. Ela tem um brevet de piloto de aviação e, antes de nos casarmos, estava para ser freira. Pus um ponto final nisso. Ela sabe de tudo desde reparação de motos até à alta finança e é uma excelente pianista. Uma das maiores autoridades mundiais acerca da violeta africana. É feita de material muito rijo. É como a Super-Mulher, com a capa a flutuar ao vento. Funciona. Já andamos nisto há muito tempo.

(...)

"Uma vez, fui numa visita de estudo com um grupo de miúdos a uma fábrica de guitarras para lhes mostrar como elas são construidas. Andávamos por ali e eu olhava à volta à espera que alguém me reconhecesse ou dissesse 'Você não é aquele tipo da música? O cantor?' E nada. Ninguém. Ficámos por ali cerca de duas horas a vê-los colocar os trastos nas guitarras e eu à espera, à espera... Uma semana mais tarde, fui com o mesmo grupo de miúdos noutra visita de estudo a uma lixeira e, assim que parei, não me perguntem porquê, tinha a camionete rodeada de gente a pedir autógrafos. Era uma lixeira, por amor de Deus! Parece que nas lixeiras toda a gente me conhece...

(...)

2002

(2008)

28 November 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXIV)


"O meu sogro tentou convencer-me a entrar num negócio, umas pastilhas chamadas Testamints. São pequenos losangos com uma cruz desenhada no meio. Se se andar em viagem e não se puder ir à missa, toma-se um Testamint e ele pôe-nos em contacto com o Poder Supremo. O Corpo de Cristo. Decidimos, então, levar a coisa um bocadinho mais longe. Se já há os Testamints, por que não o Chocolate Jesus? Derrete-se na boca e não nas mãos, funciona de forma imediata, tomai isto em memória de Mim. Pode haver quem pense que isto é uma blasfémia mas, a mim, parece-me mais uma manifestação de espiritualidade profunda. Isto, para não ir ao ponto de dizer que o sabor das hóstias da comunhão não chega aos calcanhares do chocolate. Estou convencido que a empresa devia entregar esse assunto nas mãos do departamento de controlo de paladares. Porque é que as hóstias têm de ser tão insonsas? Podia perfeitamente acompanhar-se o ciclo das estações: por exemplo, no outono, hóstias com sabor a maçã e canela. Muita gente que abandonou a igreja voltava de certeza.

(...)

"Até certo ponto, todos temos alguma curiosidade acerca dos nossos vizinhos e há sempre quatro ou cinco coisas que sabemos deles. A partir dessas coisas, criamos uma ideia sobre a vida deles. O automóvel dele é um Valiant...Já reparaste? O cão tem uma pelada no lombo... A mulher parece não ter mais de dezasseis anos... Olha para a garagem: parece que houve um incêndio e nunca mais voltaram a pintá-la. Depois, à medida que os pormenores se vão acrescentando, a história vai crescendo: vi-o na noite passada com umas calças verde-limão... de onde é que ele é? De St. Louis? Foi o único sítio onde vi gente com calças iguais... Mas ele diz que vieram de Tampa... E nunca, nunca nos vamos apresentar. Em 'What's He Building In There?' é uma dessas personagens que fala. Tornámo-nos excessivamente curiosos acerca dos nossos vizinhos e, no fundo, todos estamos convencidos que temos o direito de saber o que toda a gente faz.

(...)



"'Get Behind The Mule' era o que o pai do Robert Johnson lhe dizia quando ele fugia. O problema é que ele se recusava a pôr-se atrás da mula todas as manhãs e ir para o campo lavrar que era a vida que lhe estava destinada. Acabou por fugir para Maxwell Street e andou pelo Texas todo, ninguém o ia prender a nenhum sítio. 'Get Behind The Mule' pode significar o que se quiser. Todos temos que nos levantar de manhã e ir trabalhar. A Kathleen costuma dizer 'Não casei com um homem, casei com uma mula'. E como eu tenho mudado muito, foi daí que veio Mule Variations.

(...)

"Quando, no princípio, ainda estava a decidir-me sobre o que queria vir a ser, ouvia o Bob Dylan e o James Brown. Eram esses os meus heróis. E todas as noites ouvia o programa do Wolfman Jack. Cinquenta mil watts de 'soul power'. Durante a guerra, o meu pai foi técnico de rádio e, quando deixou a família, por volta dos meus onze anos, eu tinha um enorme fascínio pela rádio. Ele guardava os catálogos que recebia e eu construí um posto de rádio com a antena no telhado. A primeira estação que apanhei nuns auscultadores de dois dólares foi a do Wolfman. Pensei que tinha descoberto uma coisa que mais ninguém conhecia. Estava convencido que era de Kansas City ou de Omaha, que mais ninguém a sintonizava, ninguém sabia quem aquele tipo ou aqueles discos eram, que tinha apanhado alguém escondido num bunker ou numa estação de serviço de uma autoestrada a milhares de milhas daqui. E só para mim. Na verdade, ele emitia a partir de San Isidro, perto da fronteira. O que eu queria mesmo descobrir era como é que a nossa própria voz consegue sair de um rádio"

(...)

"Quando era puto, fartava-me de comer espinafres para ser capaz de bater nos matulões. Comi uma lata inteira de espinafres e meti-me numa escaramuça a sério. Deu-me que pensar que os espinafres não saltassem da lata para fora e que eu tivesse de a abrir. Abri-a devagarinho e despejei-os para a boca. E, depois, amachuquei a lata. Podem ver, por aqui, como, desde a mais tenra idade, eu me preocupava com a minha imagem.

(...)

1999

(2007)

13 November 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XXII)



"A minha mulher e eu temos uma pilha de artigos de jornal que achamos fora do vulgar, excêntricos ou bizarros. Quando o ano chega ao fim, pegamos na pilha e lemos os artigos, a versão condensada do jornal, o que muda a percepção que temos das coisas. Com os discos faço o mesmo. Compro-os e não os oiço logo. Arrumo-os nas traseiras e só vou buscá-los um ano depois. Às vezes, têm qualquer coisa a ver com o que vivemos nessa altura. É como nos filmes antigos: não conhecemos os actores, com quem namoram, nem sequer sabemos o apelido deles. E, no entanto, eles ali estão. Eles e uma história maravilhosa que paira sobre o tempo. É por isso que eu penso que, quando criamos, vivemos obcecados pela cultura popular. Ou é popular ou não existe.

(...)

"Há um bar chamado Red's Recovery Room. Claro que é tudo menos uma sala de recuperação. Mas isso também depende do que nós entendemos por recuperação. A maioria das pessoas que o frequenta está a recuperar da sobriedade.

(...)



"Em 'Big In Japan', imagino-me a entrar no porto, a destruir postes electricos, atirando automóveis ao ar, entrando por ali dentro como Godzilla e arrasando Tóquio. Há pessoas que são muito famosas no Japão e ninguém sabe quem elas são em mais sítio nenhum. É como ir até Marte. Ou como um mercado de sucata do 'entertainment'. Pode-se ir até lá e encontrar gente que não ouvíamos há vinte anos. Foram viver para lá e veneram-nos como deuses. E, depois, também há aqueles que têm uma imagem muito requintada e se recusam a fazer anúncios mas que, no Japão, fazem contrabando de cigarros, roupa interior, sushi, whisky, óculos de sol, carros em segunda mão e toalhas de praia.

(...)

"Há muitos anos, estava num hotel no México e tinha apenas comigo um gravador pequeno. Pu-lo a gravar e comecei aos gritos e a bater numa cómoda com toda a força, procurando imitar o som de uma banda inteira. Guardei essa gravação. De vez em quando, ouvia essa cassete e dava-me muita vontade de rir. Acabei por usá-la em 'Big In Japan'.

(...)

"A única razão para escrevermos canções novas, como dizia o Miles Davis, é termo-nos cansado das antigas. Deitam-se umas fora e arranjam-se outras. Não é assim nada como se tivéssemos sido atingidos por um raio. Tudo começa com qualquer coisa que me diverte e que eu deixo que passe através do meu espírito juntamente com muitas outras. Centenas de melodias e de ideias passam-nos pela cabeça quando não estamos a escrever. E nós permitimos que isso aconteça. Quando começamos a escrever construimos uma pequena barragem e começamos a apanhá-las. É a velha teoria da rede de borboletas.

(...)

1999

(2007)

31 October 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XX)



"'Murder In The Barn' é como um conto da Flannery O'Connor. Compro os jornais locais todos os dias e eles estão cheios de acidentes de automóveis. Tudo depende do que nos atrai. Será o humor negro irlandês? A minha mulher também provém de uma família irlandesa.

(...)

"O Greg Cohen, o Robert Wilson e eu fomos ter com o William Burroughs a Lawrence, no Kansas. Parecia uma cimeira literária. Ele tirou-nos fotografias a todos no portão. Levou-me até à garagem, mostrou-me as suas pinturas à pistola e o jardim. Por volta das três, começou a olhar para o relógio à medida que se aproximava a hora dos cocktails. Pareceu-me muito sério e erudito. Era, evidentemente, um perito em cobras, insectos e armas de fogo. Para mim, foi uma influência tão grande como Kerouac. Em Pela Estrada Fora, ele era o Bull Lee, uma espécie de Mark Twain mais ousado. Parecia concebido para ocupar a posição de poeta laureado da nação. Tinha uma visão mais ampla, cheia de cinismo e maturidade com um grande sentido de ironia que ia direito ao coração da experiência americana.

(...)

"Hoje crio música muito mais agressiva do que quando tinha 23 anos? Pois é, estou sempre do lado errado. Deito fora o manual das instruções e, depois, fico a pensar como é que se monta o raio da geringonça... Não sei, talvez seja só eu a revoltar-me contra a luz que se vai apagando. Ou será, como se costuma dizer, que a juventude é desperdiçada nos jovens? Talvez, nos sintamos mais próximo desses sentimentos à medida que nos afastamos deles. O tempo não é uma linha recta ou uma estrada que nos vai afastando das coisas, é tudo exponencial. Tudo o que vivemos aos 18 anos permanece connosco. Todos os dias caem do espaço 43 milhôes de toneladas de poeira dos meteoros e o que isso terá a ver com isto, não faço a menor ideia.

(...)



"Quando se produz um disco que também se está a gravar, é preciso dividir as tarefas. Ou tratamos nós da quinta ou temos de subcontratar mão de obra. Nem sempre sou em quem trata da reparação do material eléctrico lá em casa, habitualmente chamo um especialista. Por isso, contratámos músicos profissionais, um grupo do qual, honestamente, não sei se farei parte... Crio as formas e, às vezes, atrevesso-me no meu próprio caminho. O essencial é trabalhar com gente capaz de sucumbir ao poder da sugestão. É uma espécie de experiência hipnótica em que, quando se pede aos músicos que toquem como se tivessem o cabelo a arder, eles sabem exactamente o que queremos dizer.

(...)

"Escrever canções com a minha mulher é assim: um segura no prego e o outro bate-lhe com o martelo. Colaboramos em tudo. Ela escreve mais inspirada por sonhos e eu pelo próprio mundo. Quando escrevemos canções, navegamos pelo meio da escuridão e não sabemos a direcção certa. Cinco minutos a mais e pode-se dar cabo de uma canção. Por isso, o tempo também participa do processo. Temos o nosso negociozinho familiar. Eu sou o prospector e ela cozinha. Eu trago o flamingo para casa e ela corta-lhe a cabeça. Eu meto-o na água e ela depena-o. Depois, ninguém lhe apetece comê-lo.

(...)

1999

(2007)

25 October 2007

TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA (XIX)



"O Troubadour, em Los Angeles, era o lugar certo para tocar, nos anos 70. Punham uma grande fotografia nossa na vitrine e, se esgotássemos a lotação, estávamos em grande. O nosso nome era anunciado, um foco ilumináva-nos ao pé da máquina dos cigarros e acompanháva-nos até ao palco. Doug Weston, o patrão, aparecia e declamava 'The Love Song Of J. Alfred Prufrock'. Depois, havia tipos a tripar que queriam contar histórias. Era como o programa do Ed Sullivan sem o Ed. Chegava a haver gente que viajava até lá à boleia só para estar vinte minutos em palco.

(...)

"Houve provavelmente mais canções de Small Change do que de outros discos que continuei a cantar em concerto. Há canções que se escrevem e nunca mais queremos saber delas. Outras, cantamo-las todas as noites e continuamos a perguntar o que querem dizer. 'Tom Traubert's Blues' foi, decerto, uma das canções que mais cantei e com que encerrava os concertos.

(...)

"Na altura em que o Francis Ford Copolla me convidou para escrever as canções de One From The Heart, já tinha decidido afastar-me dessa cena 'lounge'. Quando ele me sugeriu uma opereta 'lounge', pensei 'chegaste com dois anos de atraso'. Para mim, isso estava no fim. Tive de voltar atrás e trazer tudo de volta. Foi como estar a crescer e bater com a cabeça no tecto. As pessoas têm uma imagem de nós a partir da qual nos definem e sabem o que hão-de exigir. É complicado mudar de atitude e operar mudanças no clima. Transportamos connosco a percepção que o público tem de nós.

(...)



"Não sei se consegui conciliar muito bem essa tensão entre canções agrestes e suaves. Apetecia-me mais misturá-las do que colocá-las lado a lado. Ou, se calhar, é como rebentar uma parede a murro e, depois, pedir desculpa, o reflexo alcoólico. Provavelmente, tem mais a ver com as festas a que ia quando era adolescente. Havia quatro ou cinco canções rápidas e, a seguir, uma mais lenta em que se convidava as raparigas para dançar. Nunca me devo ter esquecido desse ciclo musical. Os DJs também funcionam assim. Está relacionado com o ritmo cardíaco. Há canções mais rápidas que o ritmo do coração e outras mais lentas. Acho que sempre distingui as duas.

(...)

"Para onde quer que se vá, o lugar terá de nos afectar. Em Nova Iorque, andei mais pelos clubes onde a mistura musical era maior. Em Greenwich Village, partilhava um quarto com o John Lurie e o Evan, o irmão dele. Escrevíamos canções até às tantas. O problema, quando se tem putos, é que se pode ficar a pé até às cinco da manhã mas é preciso voltar a casa para lhes dar de comer.

(...)


"Muito do mérito em Swordfishtrombones foi da minha mulher, Kathleen. Esse disco foi o primeiro que fizemos sem um produtor externo. Foi ela que me disse que eu era capaz de o fazer. Estava convencido que era milionário e não tinha mais de 20 dólares no banco. A Kathleen ouviu os meus discos e percebeu que havia muitos géneros musicais que me interessavam e que eu nunca tinha explorado. Ela é uma DJ fantástica. Fez-me ouvir imensos discos. Foi ela quem, realmente, co-produziu esse disco. Eu andava à procura de música que se ajustasse melhor às personagens das canções em vez de as vestir todas com o mesmo fato como acontecia até aí.

(...)

1999

(2007)