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18 June 2014

A IDADE DA INOCÊNCIA


A concepção romântica da música como a arte a cuja condição todas as outras deveriam aspirar foi ferida de morte em 1877, às mãos de Thomas Edison, com a invenção do fonógrafo. Registada em cilindros de cera e, posteriormente, em discos de vinil, objectificada, coisificada, perdia, definitivamente, a aura de entidade incorpórea, ideal, sujectiva, quase imaterial, que a pintura, a escultura ou a literatura jamais poderiam alcançar. Três décadas e meia depois, ao visitar o Salon du Phonographe, dos irmãos Pathé, em Paris, Claude Debussy ainda se interrogava: “Não deveríamos recear esta domesticação do som, esta magia preservada num disco que, por 10 cêntimos, qualquer um pode despertar à sua vontade? Não será isto uma diminuição das forças secretas da arte que, até agora, foram consideradas indestrutíveis?” A imparável história da indústria discográfica no século XX trataria de eliminar tais reticências mas, há dois anos, Beck, com Songbook – 20 partituras originais apenas escutáveis por quem, mesmo que da forma mais livre, as decifrasse e interpretasse –, procurou reverter a trajectória. 


Esse apelo de uma idade da inocência situa-o, agora, Neil Young nas tecnologias de registo sonoro de nula fidelidade das cabinas de gravação individual Voice-O-Graph (popularizadas dos anos 40 a 70 do século XX) de que, aparentemente, Jack White, é o possuidor do único exemplar sobrevivente em estado funcional, utilizado para a gravação de A Letter Home. Exactamente o mesmo Neil Young, paladino da luta contra a perda de qualidade do som digital que se propõe combater com o lançamento em Outubro do Pono, um serviço de dowloads em 24-bit 192kHz. Contradição? Nada disso. Em ambos os casos, o que o motiva é a demanda de uma certa pureza e autenticidade primordiais (porventura, apenas imaginárias) que, em A Letter Home, assume a forma de “art project”: menos uma colecção de versões musicalmente rudimentares – com todas as falhas preservadas – de canções de Dylan, Phil Ochs, Tim Hardin, Bert Jansch, Gordon Lightfoot, Willie Nelson ou Springsteen do que uma recuperação de memórias (interpoladas com mensagens dirigidas à mãe, Edna, morta em 1990), bloco de notas de uma viagem no tempo ou uma espécie de adenda contemporânea à Anthology Of American Folk Music, de Harry Smith. 

13 October 2008

BOB, FRANK & AL
(prosseguindo daqui)



"In the weeks before recording [Oh Mercy], I kept asking Dan Lanois, 'Have you heard from Bob? Have you heard any songs?' Then, a week before we were due to start, we received a cassette from Bob. I thought, 'Great, we're going to hear some songs'. There was this little note: 'This 'll give you a good idea'. Dan and Mark Howard and I sat down to listen - and this Al Jolson music started. We were like 'What the fuck?'. So we fast-forwarded it. It was a whole tape of Al Jolson. We looked back at Bob's note: 'Listen to it. You can learn a lot'. When Bob arrived, though, I'd sort of forgotten this. Then, one evening, something came up about his favourite singers, who were influences, especially when it comes to phrasing. Bob said several times that phrasing was everything. And he said: 'My two favourite singers are Frank Sinatra and Al Jolson'. And I thought, wow, now I get it. I asked who his favourite songwriters were. 'Gordon Lightfoot and Kris Kristofferson. Those are the guys'. (Malcolm Burns, engenheiro de som, na "Uncut" de Novembro, 2008)

(2008)