Sete anos depois, vi a luz: o melhor álbum de 2013 não foi nenhum destes mas sim Shanghai Void, dos Stalin Gardens ("Millions of crystal chandeliers crashing over Balinese ricefields at sunset")
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07 February 2020
07 November 2016
Chocado por António Ferro para o Estado Novo e engordado pela grande industrial do kitsch (e Grande Prémio "O.B. - Artes"/2013 do Provas de Contacto), para este ou qualquer outro governo que passe o cheque e não se aborreça se lhe chamarem "cocksucker"
26 March 2014
12 January 2014
08 January 2014
AMARGO DE BOCA
Picando o ponto no clássico inevitável dos balanços finais de ano: mas onde tinha eu a cabeça quando, naquele dia, em vez de escrever sobre o disco/livro/filme “x”, optei por me ocupar do “y”, acabando por deixar o “x” indesculpavelmente de fora? Na maioria dos casos, a sensação de missão incompletamente cumprida deixa-se atenuar por uma variante mais intelectualmente respeitável do lúbrico “so many girls, so little time” mas, noutros, o amargo de boca custa a passar. Se, em 2013, não ter feito uma única referência – mesmo que só de passagem – à reedição do óptimo mas eternamente mal amado Muswell Hillbillies, dos Kinks (1971), ainda se justificaria com a desculpa velhaca de que uma reedição não tem o mesmo peso de uma publicação original, ter ficado em branco relativamente a Aheym, de Bryce Dessner, quase obriga a entrar em modo-Opus Dei de cilício e vergastada.
Figura destacada da primeira geração pop/rock academicamente diferenciada mas, ao mesmo tempo, imunizada contra a tentação de, a despropósito, exibir a erudição, o guitarrista dos National, também compositor residente do Muziekgebouw, de Eindhoven, convidado da American Composers Orchestra e frequentador natural do círculo onde se movem Steve Reich, Philip Glass, Nico Muhly ou David Lang, é o género de pós-mimimalista que, tendo digerido sem sobressaltos a história da música do século XX, catabolizou os excessos dogmáticos do dodecafonismo e ensaiou uma síntese de vocabulários, do Renascimento à actualidade. Apresentado por Reich ao respeitabilíssimo mas sempre aventureiro Kronos Quartet, foi para ele que escreveu as quatro peças que integram Aheym: durante cerca de 45 minutos de vertiginoso virtuosismo rítmico e contrapontístico, nos quais, segundo Bryce, “cada tema responde ao que o antecede”, dispara rajadas de riffs reconfigurados para ensemble acústico, desenha intrincados labirintos eriçados de "pizzicati" e intensos polígonos sonoros assimétricos, em jogos de luz e sombra, silêncio e mapas astrais de harmónicos, viaja entre a polifonia renascentista – Thomas Tallis, Palestrina, Gesualdo – e um Arvo Pärt mais terreno, e, recorrendo ao Brooklyn Youth Chorus, em "Tour Eiffel", sobre um poema do chileno Vicente Huidobro, entrega-se a uma sinuosa ascensão vocal-orquestral, que poderia servir como ilustração ao aforismo “less is more”. E, de certa forma, ao seu inverso.
04 January 2014
31 December 2013
2013 - PRÉMIO "EU AINDA ACABO A FAZER CRÍTICA DE ARTE NO GUINESS BOOK OF
RECORDS OU NA MODAS & BORDADOS"
RECORDS OU NA MODAS & BORDADOS"
Gabriela Canavilhas
"A artista [Joana Vasconcelos] que em 2013 alguns quiseram transformar em 'artista do regime', aquela que maior visibilidade teve nos media, que maior sucesso conquistou nas várias exposições em que a sua obra foi mostrada este ano (...) foi quem estabeleceu o novo recorde de visitantes numa exposição individual em Portugal - 178 mil visitantes no Palácio da Ajuda, entre Março e Agosto de 2013. O anterior recorde também lhe pertencia, com a exposição no museu Berardo, em 2010. (...)
E como se justifica o seu enorme sucesso? Pop-arte e pop-star são conceitos muito próximos um do outro; quando 'arte' e 'star' têm 'pop' em comum - 'pop' de popular, de proximidade com as pessoas, de dessacralização e de mediatização - estão criadas as condições indispensáveis para o estrelato. Joana Vasconcelos consegue este estatuto raro: é uma estrela popular (...) em quem o público se reconhece (...) porque se revê no seu imaginário, na sua personalidade solar, no seu universo colorido e morfológico.(...) Dela se espera (...) que nos mostre ao mundo, lá do alto dos seus objectos em grande escala, elevando-nos, com ela, colectivamente, para nosso orgulho e contentamento" ("DN" de hoje)
MÚSICA 2013 - INTERNACIONAL (III)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 24)
A desproporção de forças entre a multidão de retrocompulsivos e – em frente unida na outra trincheira – classicistas, reconfiguradores e franco-atiradores, é imensa. E não dá sinais de, nos próximos tempos, vir a alterar-se muito. Mas isso não bastou para impedir que, como invariavelmente acontece, fosse possível, durante doze meses, ir alinhando um programa de audições não irremediavelmente engatado em marcha-atrás. Se a Shaking The Habitual deve ser atribuído o destaque de objecto sonoro não identificado, June Tabor integrada nos Quercus abriu mais uma janela por onde a tradição, coabitando com o jazz contemporâneo, respira ar fresco (o que, de outros vários modos, também aconteceu em Son of Rogues Gallery). Reordenando as peças do puzzle, British Sea Power, These New Puritans, Midlake, Vampire Weekend, Broadcast, Anna Calvi e, sotto voce, Laura Marling, apresentaram provas indiscutíveis de como a legibilidade não tem de ser, obrigatoriamente, redundante. O resto, no índice do último ano antes do primeiro sem Lou Reed, foi óptimo labor clássico.
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
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MÚSICA 2013 - INTERNACIONAL (II)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 24)
My Bloody Valentine – mbv
Vários – Son of Rogues Gallery
Nick Cave – Push The Sky Away
Bonnie ‘Prince’ Billy & Dawn McCarthy – What The Brothers Sang
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
30 December 2013
MÚSICA 2013 - INTERNACIONAL (I)
(iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 24)
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
21 December 2013
2013 - Segundo Prémio para o "Post mais idiota do ano contendo a palavra 'sinédoque'" (vem a propósito ler também isto)
21 November 2013
PRÉMIO CHRISTOPHER HITCHENS POP 2013
Cab Calloway - "It Ain't Necessarily So"
Não é sequer necessário ir desenterrar exemplos ao sector mais radicalmente blasfemo da metalomecânica pesada do rock para nos apercebermos de como aqueles que alertam para que a música popular é uma insidiosa arma do demo têm (do seu ponto de vista, claro) uma certa dose de razão. Podemos começar lá atrás, em 1935, com "It Ain't Necessarily So" em que os alegadamente ateus George e Ira Gershwin, na ópera Porgy And Bess, induziam as almas a duvidar do Good Book (“They tell all you children the devil's a villain, but it ain't necessarily so! The things you’re liable to read in a Bible ain’t necessarily so”). Pulando para 1972, em "God’s Song", Randy Newman dava a palavra ao Poder Supremo e obrigava-o a confessar “I burn down your cities, how blind you must be, I take from you your children and you say how blessed are we, you must all be crazy to put your faith in me, that's why I love mankind, you really need me”.
Mas, mesmo considerando a decisiva contribuição dos Monty Python para a subversiva demolição do espírito do Natal (“Fuck Christmas, it's a fucking Disney show, fuck reindeer and all that fucking snow, fuck carols and fuck Rudolph and his stupid fucking nose”), até agora, por entre muitas outras, o grau 7 do “espectro de possibilidade teísta” de Richard Dawkins (“ateísmo integral: eu sei que Deus não existe, com a mesma convicção que Jung sabe que ele existe") estava, desde 1986, inexpugnavelmente ocupado por "Dear God", dos XTC: sob forma epistolar, Andy Partridge dispara perguntas incómodas (“Did you make mankind after we made you?”), põe em causa os direitos de autor da Bíblia (“Us crazy humans wrote it (...) Still believin' that junk is true, well, I know it ain't and so do you") e remata, violentamente, com “If there's one thing I don't believe in, it's you”).
A poucas semanas dos balanços de final de ano e seis meses depois da publicação, deve dizer-se que Modern Vampires Of The City, dos Vampire Weekend, sem fazer grande escândalo, ameaça tão duradouro lugar. A refrega com o sobrenatural dá os primeiros sinais em "Unbelievers" (“We know the fire awaits unbelievers, all of the sinners the same, girl you and I will die unbelievers bound to the tracks of the train”), em "Everlasting Arms" (citação do Deuteronómio 33:27), alude ao Dies Irae e ao Aleluia de Haendel, e comenta “I took your counsel and came to ruin, leave me to myself”, mas é em "Ya Hey" que, sob a mais pura e erudita ligeireza pop (batida marcial, serpentinas de piano, baixo elástico, coros "mock-gospel", inversão de "Hey Ya" dos Outkast, citação "spoken word" de Desmond Dekker e Stones, e registo vocal-Chipmunks, no refrão, para parodiar JeováYaveh/Ya Hey), o desinteresse do suposto criador pelas suas criaturas é frontalmente desafiado (“And I can't help but think, that you've seen the mistake but you let it go, through the fire and through the flames, you won't even say your name, only ‘I am that I am’, but who could ever live that way?”) e confrontado com o falhanço (“The faithless they don't love you, the zealous hearts don't love you and that's not gonna change”). Prémio Christopher Hitchens-Pop 2013.
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(especial chamada de atenção para o naco "primário, instintivo, tão bélico como sexual – inerentemente masculino – completamente biológico, completamente individualista")
10 November 2013
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