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25 October 2021

EM BUSCA DE FANTASMAS
 

Em 1967, Richard Brautigan – romancista, contista e poeta a meio caminho entre a geração "beat" e a contracultura de São Francisco da época, figura menor mas de culto persistente – publicou 1500 cópias do poema “All Watched Over By Machines Of Loving Grace” o qual, como aconteceu com várias das suas obras iniciais, distribuiria gratuitamente pelas ruas. É uma visão "naïve" de um ciberbucolismo filho de Thoreau, Lafargue e das utopias tecnológicas da época (“I like to think – it has to be! – of a cybernetic ecology where we are free of our labors and joined back to nature, returned to our mammal brothers and sisters, and all watched over by machines of loving grace”) que, relido mais de meio século depois, arrepia um bocadinho quando imaginamos o que poderiam ser (ou no que se tornariam) as “machines of loving grace”. Mas que, enquanto título alusivo da sexta faixa de The Hill, The Light, The Ghost, quinto álbum das Haiku Salut (Gemma Barkerwood, Sophie Barkerwood e Louise Croft, executantes de acordeão, piano, glockenspiel, trompete, trombone, guitarra, ukulele, percussões, melódica, malletkat, sintetizadores, e o resto a que chamam “loopery and laptopery”), sintetiza bem o geométrico pastoralismo assombrado de todo o disco. (daqui; segue para aqui)
 

13 October 2008

CUMPRIR ORDENS
(extracto da entrevista da professora
Maria do Carmo Vieira à revista do "DN")




"Contagiados pela febre de catalogar e incapazes de pensar pela sua própria cabeça, têm-me descrito, uns, como 'lamentavelmente fascista', outros, como 'sonsa comunista', outros ainda, como estando 'a soldo do PSD para destruir o governo socialista', e há também quem me descreva como 'agitadora catastrofista', ignorando, sobretudo, estes últimos, que são eles próprios os agitadores ao pretender limitar a liberdade de pensamento e de expressão, que em boa-hora o 25 de Abril nos trouxe. Esquecem ainda que 'as ideias têm asas e ninguém as pode impedir de voar', recuperando as palavras do realizador egípcio, recentemente falecido, Youssef Chahine, no seu inesquecível filme O Destino.

Por conhecimento de causa, continuarei a afirmar que o nivelamento por baixo, que oficialmente se instituiu no ensino (lembremo-nos das palavras recentes do Dr. Jorge Pedreira a propósito do ensino em Portugal ser demasiado exigente), faz com que os alunos deixem de acreditar nas suas próprias capacidades, perdendo a vontade e a perseverança, que acompanham habitualmente o desenvolvimento de todo o estudo. É uma forma deselegante, no mínimo, mas também muito elitista, de dizer antecipadamente aos alunos, sobretudo aos da Escola Pública, que são uns incapazes. Com perversa doçura, qual droga que vai corroendo, entrega-se como oferta aos alunos 'o êxito a que têm direito' (palavras do coordenador do GAVE) que assim se viciam na crença de que tudo se consegue sem trabalho. E, no entanto, inteligentemente reflectiu Albert Einstein: 'O único sítio onde o sucesso vem antes do trabalho é no dicionário'.

Inebriados pelo facilitismo e estimulados pelo passa palavra de 'em pouco tempo faz-se...' (e completamos a frase, o 2º ou 3º ciclos e o secundário) correm também muitos daqueles que, por motivos vários, interromperam, ou tiveram de interromper, os seus estudos, a inscrever-se nos cursos das novas oportunidades, não compreendendo, muitos, ou sequer admitindo, que os objectivos delineados assentam não na preocupação de formar, mas de atingir metas estatísticas.

É por ter conhecimento de como se processa este ensino 'pronto a vestir', desenhado na base de um suposto 'quadro de competências', que põe de lado a noção de programa, transformando-o em pózinhos de saber disto e daquilo (as tais aprendizagens ou saberes) e que rejeita o diploma, agora tornado certificado ('validação das aprendizagens'), de coisa nenhuma, que desejo transcrever as directivas comunitárias, as quais calarão quem tem vindo a insultar e a desmentir os que criticamente têm escrito sobre o assunto. (...) Lendo-os, compreendemos o manifesto desprezo pelas disciplinas de Humanidades, o aligeiramento da matéria científica, o facto de a Escola servir quase exclusivamente para responder ao mercado de trabalho, o porquê da conhecida e divulgadíssima expressão 'aprender a aprender', a defesa exaustiva da autonomia das escolas, ou ainda o espírito que rege a avaliação de desempenho dos professores, centrado nos bons resultados com os seus alunos, mediante o cumprimento acrítico das ordens impostas, num convite descarado à desresponsabilização do acto de ensinar. (...)

Não virão agora certamente desmentir a existência de um sistema perverso, cozinhado pela Comissão Europeia, que finge formar e educar, num manifesto desrespeito pelo papel da Escola e do professor, pela dignidade dos alunos, seja qual for a sua idade, e do próprio Saber. Cumprem-se ordens. Uma atitude que exige a abdicação de pensar e a anulação da nossa própria consciência e que tem servido de justificação ao longo da História para as maiores aberrações.

Por acaso já leram Desobediência Civil do escritor Henri Thoreau?" (o resto aqui)

(2008)