
Nicholas Carr
"Na revista americana 'Atlantic', o ensaísta Nicholas Carr publicou um texto com o título 'What the Internet Is Doing to Our Brains'. Carr é autor de um livro sobre o tema da revolução tecnológica na informação: The Big Switch: Rewiring The World, From Edison To Google, e o que ele diz é, essencialmente, uma constatação: qualquer pessoa que esteja habituada a ler livros, e livros grandes e difíceis, com muitas páginas e muito raciocínio, livros que só dão alguma coisa se o leitor der algo em troca, apercebe-se de que se torna cada vez mais árdua a concentração nesses livros e que a tendência para a dispersão e a diminuição da atenção se tornou uma segunda natureza no leitor. Vivemos em overdose de informação desnecessária e invasiva como um tumor maligno. Escapar a esta overdose é impossível, tanto na imagem como na palavra escrita, a não ser que desliguemos todas as tomadas eléctricas. Essa informação multiplicada e, muitas vezes, burocraticamente multiplicada tende a inverter ou destruir as hierarquias e a subverter o essencial ao acessório.

Existem novas leis: a imagem sobrepõe-se à palavra, a palavra tem de estar dividida e segmentada em parágrafos e pedaços, com destaques, de modo a prender a atenção. Na luta infernal pela atenção dispersa do ouvinte, leitor, espectador, tudo tem de ser hiperexplicado ou, em alternativa, sensacional e eufórico, sensacional e disfórico. Uma vez convenientemente digerida nos intervalos de outras informações que competem entre si, a informação não chega a ser hierarquizada nas nossas mentes e tudo é igual a tudo, na grande teoria da indiferenciação cultural que gera a nossa indiferença. (...) A estupidez contamina a audiência e forja o preconceito violento e iletrado que enche as caixas de comentários e certa blogosfera azeda. Carr não fala de jornalismo, descreve dificuldades pessoais para ler um livro e inscreve a história e efeitos da inteligência artificial, explicando como estamos a ser privados de 'um reportório de densa herança cultural' (a cultura ocidental) e a ser transformados em 'pessoas-panquecas', segundo a teoria de Richard Foreman. Pessoas-panquecas, fininhas e achatadas enquanto se ligam à rede de informação pelo mero toque de um botão. Pessoas-panquecas que deixarão de ler romances russos, livros de Kant e Hegel, Aristóteles e Platão. Pessoas-panquecas que deixarão de ler, simplesmente. E que terão opinião sobre tudo" (Clara Ferreira Alves in "Única"/"Expresso" de 26.07.08)
(2008)