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18 July 2023


(sequência daqui) Abdicando da etapa do registo inicial de maquetes, PJ gravaria directamente a voz para o telemóvel e, em estúdio – configurado para registar os resultados de improvisações espontâneas, cintilações improváveis, momentos inesperados –, sob aquilo que Flood designa como a "ditadura benévola" de Polly Jean, se esse seria o ponto de arranque por ela definido, toda a concretizção e exploração posteriores ficariam a dever-se ao colectivo. É nessa matéria sonora que se enraíza a história da jovem Ira-Abel Rawles e dos seus dolorosos ritos de passagem à idade adulta, narrados por Orlam, o olho vigilante de um cordeiro e entidade protectora de Ira, num mundo de criaturas malignas por onde a personagem fantasmática de um soldado ferido, Wyman-Elvis, espalha as palavras da salvação: "Love me tender". Aqui e ali, escutam-se ecos de Let England Shake (2011) ou White Chalk (2007), Por momentos, recordamos Is This Desire? e alguma vibração distante de "Sheela-Na-Gig" (1992) paira por ali. Mas nada disso desmente o pedido que ela fizera a Flood: "Quero ouvir algo que nunca tenha ouvido antes".

19 April 2009

P J HARVEY - "SHEELA-NA-GIG"



I've been trying to show you over and over
Look at these my child-bearing hips
Look at these my ruby red ruby lips
Look at these my work strong arms and
You've got to see my bottle full of charm
I lay it all at your feet
You turn around and say back to me
He said
Sheela-na-gig, sheela-na-gig
You exhibitionist
Sheela-na-gig, sheela-na-gig
You exhibitionist
Gonna wash that man right out of my hair
Just like the first time he said he didn't care
Gonna wash that man right out of my hair



Heard it before, no more
Gonna wash that man right out of my hair
Turn the corner another one there
Gonna wash that man right out of my hair
Heard it before
He said
Sheela-na-gig, sheela-na-gig
You exhibitionist
Sheela-na-gig, sheela-na-gig
You exhibitionist
Put money in your idle hole
Put money in your idle hole
Gonna wash that man right out of my hair
Just like the first time he said he didn't care
Gonna wash that man right out of my hair
Heard it before, no more
Gonna take my hips to a man who cares
Turn the corner another one there
Gonna take my hips to a man who cares
Heard it before
He said



Sheela-na-gig, sheela-na-gig
You exhibitionist
Sheela-na-gig, sheela-na-gig
You exhibitionist
Put money in your idle hole
Put money in your idle hole

He said 'wash your breasts, I don't want to be unclean'
He said 'please take those dirty pillows away from me'

He said 'wash your breasts, I don't want to be unclean'
He said 'please take those dirty pillows away from me'

He said 'wash your breasts, I don't want to be unclean'
He said 'please take those dirty pillows away from me'

He said 'wash your breasts, I don't want to be unclean'
He said 'please take those dirty pillows away from me'

(2009)

08 October 2007

DE OUTRO MUNDO



PJ Harvey - White Chalk




Jesca Hoop - Kismet




Rachel Unthank & The Winterset - The Bairns

Vamos precisar de cartógrafos. Gente capaz de pisar um território pela primeira vez e, ao mesmo tempo, ir-lhe desenhando o mapa detalhado que sirva para nele não nos perdermos irremediavelmente. Porque, se nestes três discos, aqui e ali, ainda existem marcas e marcos reconhecíveis – é território árido mas definitivamente habitado, embora com um povoamento escasso e imensamente disperso –, eles desorientam-nos mais do que nos decifram um percurso sem demasiados acidentes. Não conhecemos estes mundos e, quando neles entramos, devemos avançar com precaução. White Chalk, de PJ Harvey, por exemplo. Recordam-se de “Sheela-Na-Gig”, aquela declaração de guerra (“Look at these my child-bearing hips, look at these my ruby red, ruby lips, look at these my work strong arms”) que evocava as homónimas esculturas pagãs (em inúmeras igrejas britânicas) de figuras femininas exibindo uma vulva devoradoramente aberta?


Quinze anos depois, aparentemente, foi Polly Jean quem acabou por ser devorada pela sua própria invocação, renascendo como personagem de um romantismo lívido que implora ao demónio por salvação (“Come! Come! Come here at once! Come on a night with no moon”), suplica perdões (“Please don’t reproach me for how empty my life has become”), aspira ao mergulho nas trevas (“Dear darkness, won’t you cover me again?”) e à passagem para outro mundo (“Something’s inside me unborn and unblessed, disappears in the ether, this world to the next”) e deixa uma nota final de despedida: “Farewell my friends, farewell my dear ones, if I was rude, forgive my weakness”. Serão, como ela afirma, fragmentos de um filme interior, mas não é fácil acreditar que se trate apenas de pura ficção, de cenários de um Thomas Hardy deslocado no tempo, emoldurados pelo dedilhar infantil de um piano, a narrativa de uma voz sem corpo, melodias ternamente mórbidas, cítaras, harpas e as colinas brancas de cal de Dorset.

O conceito de Kismet (em árabe e turco, “fado”, “destino”) poderia ajudar um pouco a entender a biografia de Jesca Hoop: nascida na opressão teológica de uma família Mormon de quinta geração, só algo como a “predestinação” a poderia ter conduzido daí a uma existência “on the road”, mil empregos de ocasião – ela enumera-os: trabalhadora rural e na construção civil, guarda florestal, vigilante, terapeuta de autistas – e o último e decisivo: “nanny” dos três filhos de Tom Waits e Kathleen Brennan, durante cinco anos. Dificilmente, na história do mundo e das gentes, percurso idêntico se repetirá, tal como não existe muita música que seja equiparável aquela que Jesca cria. O santo padroeiro-Waits (que lhe deu a benção e lhe ofereceu os códigos de acesso à indústria discográfica) definiu-a como “Uma moeda de quatro faces, uma alma antiga, uma pérola negra, uma bruxa boa ou uma lua vermelha. A sua música é como nadar, à noite, num lago” e, ao fazê-lo (coisa habitual, aliás…), tirou o pão da boca a quem, daí em diante, devesse falar sobre o álbum de estreia de Jesca Hoop.


Mas, para a identificação desta singularidade musical, poderá contribuir um pouco saber-se que a peculiar arquitectura destas canções (não por acaso, em diversos momentos, assaz waitsianas) se alimentou de gospel, música de câmara, velhíssimos blues, folk, jazz, country, “murder ballads”, vaudeville e cabaret que Hoop submeteu ao princípio estético “gosto de maximizar as minhas idiossincrasias”. E desenvolve: ”Quando escrevo, as canções surgem-me em formas abstractas e bizarras mas suponho que ainda consigo manter alguma relação com aquilo a que podemos chamar ‘a norma’. Quando reduzimos tudo aos elementos essenciais, torna-se possível engendrar um ponto de vista original". Ouvido Kismet, não há como não lhe dar razão e, acima de tudo, invejar a sorte dos três rebentos Waits a quem já não bastava o privilégio da ascendência…

The Bairns, finalmente, é pura paisagem lunar encenada na Northumbria britânica. A matéria-prima é simultaneamente rica e frugal – canções tradicionais de abuso e inocência perdida , lullabyes funerárias e cantilenas fantasmáticas, mas também temas originais, “Sea Song”, de Robert Wyatt, e “A Minor Place”, de Bonnie Prince Billy – e os recursos deliberadamente limitados: duas vozes (Rachel e Becky Unthank), piano (Belinda O’Hooley) e violino (Niopha Keegan).


Mas, ainda que a linhagem publicamente reivindicada seja notória e ilustre (uma genealogia que une The Watersons, Joni Mitchell, June Tabor, Sufjan Stevens, Regina Spektor, Nick Drake, Billie Holiday e os Led Zeppelin) e o manifesto estético tomado de empréstimo a Louis Armstrong (“all music is folk music, I ain’t never heard a horse sing a song!”), o que Rachel Unthank & The Winterset pintam (e este é um caso em que se deve obrigatoriamente declarar que a música aspira à condição de pintura) não se assemelha a nada que, até hoje, a música popular anglo-americana tenha produzido: da mesma dimensão fundadora de Liege & Leaf, dos Fairport Convention, de uma mão-cheia de gravações de June Tabor ou do período de ouro de Richard & Linda Thompson, The Bairns – nas vozes literalmente avassaladoras de Rachel e Becky e no milagre de invenção instrumental exclusivamente ancorado no piano e violino(s) – é o exacto tipo de álbum que, instantaneamente, cria o seu próprio território, ocupa todos os espaços vazios à volta e reformula os parâmetros segundo os quais, a partir de agora, se avaliará toda a música futura que, explícita ou implicitamente, alegue parentesco com o vocabulário tradicional. (2007)

06 October 2007

DA TERRA E DO MAR


PJ Harvey - Stories From The City, Stories From The Sea

De regresso, Polly Jean Harvey conta as suas histórias da cidade e do mar e, ao fazê-lo, transforma-se na Patti Smith que nunca foi. Ela diz que não é verdade mas é bem provável que não tenha razão. Não só porque isso lhe fica extraordinariamente bem, como também porque não há nada de errado em reescrever de modo diferente as etapas de um percurso îdêntico que pode ter necessitado de várias protagonistas para se tornar integralmente legível. Mesmo que ela ainda não o saiba.

O título deste seu álbum — Stories From The City, Stories From The Sea — começa por ser um pouco desconcertante na medida em que, normalmente, a oposição que faríamos seria entre "city" e "country" e não "city" e "sea"...
Não se tratou, para mim, de estabelecer esse contraste. Eu vivo no sudoeste da Inglaterra, literalmente na praia. Da minha janela apenas vejo o mar que se tornou o meu ambiente natural. Mesmo, quando vivia em Nova Iorque, que também se debruça sobre o Atlântico e convive de perto com rios, isso também acontecia. De modo que esse título pareceu-me bastante adequado.



E esse aspecto da influência do cenário é realmente importante para a escrita das suas canções?
Na verdade, nem por isso... Pode-se especular muito acerca desse assunto mas, de facto, se umas foram escritas na cidade e outras à beira do mar, têm muito pouco a ver com isso. As canções provêm de mim e relacionam-se apenas com as minhas reacções ao que vejo, oiço e sinto todos os dias.

Neste disco parece ter optado por regressar à sua sonoridade do início, bastante mais rude, muito mais rock do que nos últimos álbuns, em especial Is This Desire?. Por que motivo?
Não procurei voltar atrás, pelo contrário, pretendi caminhar em frente em direcção a algo de novo. Nos dois últimos álbuns — Is This Desire? e To Bring You My Love — tentei explorar áreas musicais diferentes, concentrei-me muito mais nas atmosferas e nas sonoridades do que na escrita de canções muito simples. Desta vez, tentei escrever outra vez canções muito directas e procurar uma energia diferente. Se os anteriores foram álbuns muito lentos, escuros e densos, agora quis afastar-me disso e reencontrar uma sensação de entusiasmo e de energia na escrita das minhas canções.

Quando apareceu na cena musical, houve muita gente que associou a sua música à de Patti Smith o que sempre me pareceu um pouco despropositado. Mas, desta vez, ao escutar canções como "Good Fortune" e títulos como "Horses In My Dreams", já não estou assim tão seguro. Concorda comigo?
Parece-me bem que não... Essa imagem perseguiu-me sempre e sempre tive a ideia que não era mais do que uma atitude preguiçosa dos jornalistas que tem apenas origem no facto de eu cantar e compôr canções muito intensas e de me pronunciar acerca das minhas convicções tal como a Patti Smith faz. Musicalmente, somos completamente diferentes e os textos que escrevemos também.



Nem sequer em canções tão evidente e quase foneticamente "pattismithianas" como "Good Fortune" e "This Is Love"?
De facto, já houve mais pessoas que fizeram essa comparação. Mas só se for por causa do texto falar de Nova Iorque que é um tema que a Patti Smith também abordou com frequência.

Não tanto neste último disco mas mais no anterior, criou uma série de personagens femininas através das quais falava. Eram inteiramente personagens de ficção ou apenas máscaras por meio das quais se projectava a si mesma?
Nesse disco procurei explorar a técnica de escrita na terceira pessoa o que era algo que não tinha tentado muito antes. Tinha andado a ouvir muito o Bob Dylan que, com grande frequência, é capaz de escrever segundo o ponto de vista de outra pessoa. Foi uma atitude verdadeiramente premeditada. Mas também, pessoalmente, havia coisas que se passavam comigo que me faziam desejar projectar a minha vida nas situações de outras pessoas. Dito isto, no novo álbum regressei à escrita na primeira pessoa, em cima dos momentos, a quente, e não através dos olhos de outros.

De qualquer modo, tanto através das técnicas de escrita, como da forma como se apresentava em palco, sempre existiu em si um elemento muito forte de teatralidade...
Sim, interessa-me bastante mas apenas quando é apropriado para a música, num determinado momento. Quando termino um álbum e me preparo para o apresentar em palco, procuro as imagens que me parecem adequadas para aquela música. Mas é algo que vem sempre depois da música e que só pretende realçá-la e incutir-lhe uma dinâmica mais forte.

Foi no programa de televisão September Songs, sobre as canções de Kurt Weill, quando a vi interpretar a "Ballad Of The Soldier's Wife", que, definitivamente reparei como, para além de cantora, compositora e performer, havia uma actriz dentro de si. A seguir a isso, já não me espantou nada saber que iria trabalhar realmente como actriz no filme The Book Of Life, de Hal Hartley...
É verdade, é, para mim, uma coisa muito natural. Obviamente, quando, no palco, interpreto as minhas canções, tiro partido disso. Por isso, participar no filme do Hal Hartley, foi-me relativamente fácil. Aprendi uma série de coisas que também poderei vir a utilizar na escrita de canções e foi uma experiência que, francamente, me apetece prosseguir. É evidente que desconfio muito daquela armadilha segundo a qual qualquer cantor pode facilmente transformar-se em actor. Teria, evidentemente, de trabalhar e de me concentrar muito nisso para o realizar com êxito. É um ofício que exige dedicação e estudo e só dessa forma me dedicaria a ele. Apesar de me parecer fácil e natural, investiguei muito a natureza da personagem o que é completamente diferente de quando canto e me estou a representar a mim própria.



Nesse filme de Hal Hartley representou a figura de Maria Madalena. E o mais curioso é que, ontem, estava a ler um livro sobre o gnosticismo cristão no qual se referia a hipótese de Maria Madalena ter sido uma prostituta-sacerdotiza da Grande Deusa adorada em Magdala e, duas ou três páginas a seguir, se falava das "Sheela-na-Gigs" (o tema de uma das suas primeiras canções), essas gárgulas femininas que, nalgumas igrejas cristãs do mundo celta, exibem obscenamente o sexo, como deusas pagãs da fertilidade e do renascimento simbólico...
A sério?! É fascinante!... Não fazia a menor ideia. E o mais interessante é que, antes de a representar no filme, li tudo o que pude encontrar acerca da personagem e não descobri nada acerca disso. É espantoso, estou sempre a aprender.

Nunca ninguém a conseguiu situar exactamente como feminista, pós-feminista, anti-feminista ou apenas feminina. Como mulher, parece-lhe importante ter uma opinião acerca disso?
Sempre me perguntaram isso e disse sempre que foi um assunto que nunca estudei, investiguei e que nunca senti que, na minha carreira, tivesse sido uma desvantagem. Foi uma questão por que nunca tive de me interessar. Quando algo relacionado com isso aconteceu, fiz o que tinha a fazer, lidei com o assunto, e tudo se resolveu. Comigo, isso nunca foi um problema. Nunca tive nada a ver com as "riot grrrls" e a música delas também nunca me pareceu muito boa (risos).

Há tempos, li algures que, se David Bowie tivesse aparecido nos anos 90, teria seguido uma trajectória semelhante à sua. Está de acordo?
É uma opinião muito simpática. Mesmo que não aprecie tudo o que ele fez, admiro o seu desejo de mudar em cada álbum, de procurar novos territórios, e, de em cada momento, mudar de pele. (2000)