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10 April 2015

Esclarecendo melhor

"O Nóvoa saltou para a frigideira e começou a ser frito; nada de mais. Começando o Nóvoa a falar de ética e demais coisas que povoam um pais civilizado a que quer presidir, é natural que lhe saltem ao caminho uns mastins e uns canitos a lembrar coisas. Obrigado ao rafeiro do Taborda da Gama, seja lá ele quem for. Este acréscimo do Marcelo no retrato do grupo não altera em nada o que já foi dito, esteja certo, ou errado. Cá esperamos o Marcelo, quando ele próprio se candidatar, para o confrontarmos sobre as suas próprias decisões. Aliás, achar pertinente tal informação para defesa do Nóvoa, não abona nada em favor do seu caráter. Não foi certamente por o Marcelo fazer parte do júri que o Nóvoa perdeu capacidade de intervenção, se não a estatutária, pelo menos a ética, ou a coisa é pior do que penso. Mas não é necessário conhecer o meio, para se saber que tal dissidência pública entre júri e presidente seria protocolarmente tão grave e inédito como a quebra da ordem das precedências numa procissão de catedráticos. Diz a Isabel Moreira que o Nóvoa se terá sentido incomodado. Ora, parabéns à prima. A menos que lhe tenha dado um surto psicótico, não me impressiona nada. De vez em quando, celebramos heróis que pelas suas atitudes perdem lugares, são exilados, ficam com dificuldades económicas, etc. O Estado Novo está cheio desses exemplos no ensino universitário, por exemplo. Do Nóvoa, parece ser suficiente celebrarmos o facto de o mesmo se ter sentido incomodado, algo que passa com um alka seltzer" (da caixa de comentários do VB)

14 January 2012

DEVE SER UMA DAQUELAS COISAS QUE SÓ A MAYA (OU O SALDANHA SANCHES - INVOLUNTÁRIA E ALEGORICAMENTE, CLARO) CONSEGUEM EXPLICAR


("Expresso" de hoje)

... mas o mundo (e, em particular, o Conselho Geral e de Supervisão da EDP) é um lugar maravilhoso, pleno de mistérios.

(2012)

12 January 2012

UM CONTO DE NATAL *
(Saldanha Sanches)



Há muitos anos chegou a Lisboa com a sua mala de cartão, à procura de melhor vida, a Maria Etelvina. Uma rapariga azougada nascida numa pequena aldeia do interior. Espertalhona e desembaraçada, era aquele género de criatura, como dizia numa sábia previsão um ancião da sua terra que a tinha visto crescer, disposta a vender o pai e a mãe no mesmo cabaz. Pouco tempo depois estava casada, empregada e politicamente empenhada.

Por essa época estava-se na revolução. Os seus companheiros de emprego numa serralharia da outra banda davam vivas ao PCP, acreditavam que a União Soviética era o sol da terra e desfilavam por Lisboa de fato-macaco e bandeira vermelha. Sempre atenta ao lado de que sopram os ventos a Etelvina alinhou. Naquela altura quem mandava na empresa era a Comissão de Trabalhadores. Mais dia, menos dia os trabalhadores iam tomar o poder e a Etelvina já se estava a ver como uma grande dirigente, com limusina, motorista e casa de campo.

Testemunhos da época falam da sua jovem figura enrolada numa bandeira da União Soviética, e falam disso com uma ponta de nostalgia. Onde isso já vai! Mas os estados de alma de recorte lírico não iriam durar muito. A tomada de poder e a ditadura do proletariado não eram para amanhã. Aquela gente falava incessantemente do passado de resistência ao fascismo e dos amanhãs que cantam, mas a Etelvina não ia em cantigas.

Começou a deitar contas à vida e a libertar-se de companhias comprometedoras. Sacrifícios sim, mas só por causas mais sumarentas. E como naquela altura os cursos nocturnos rebentavam por todo o lado, lá estava a Etelvina a fazer a sua revolução por outros meios. Conseguiu entrar para um curso nocturno que ainda estava meio avariado com a ressaca da revolução (na Faculdade de Direito? Mas quem é que falou da Faculdade de Direito?) e tirou o curso.

Com boas notas e tudo. E como, é muito simples. Primeiro, a Etelvina, honra lhe seja, nunca teve medo de trabalhar. Mesmo se for um trabalho honrado, se não houver outro recurso. Segundo, sempre teve na completa falta de vergonha o seu principal activo. O que dá sempre muito jeito em especial em alturas de confusão. E aí temos a Etelvina a iniciar a sua gloriosa ascensão social. De emprego em emprego, de marido em marido, de partido em partido, a cavar duramente, com muitos esforços e sacrifícios o seu lugarzinho ao sol.

Do tipo dos sacrifícios não iremos falar. Abundam a esse respeito as histórias mais pornográficas mas nós - por pudor! - não praticamos esse tipo de literatura. E aqui temos a Etelvina já de canudo e num ponto culminante da sua carreira, prestes a criar as amizades e relações que iam determinar o seu apogeu profissional. E, com aquela forma esclarecida de pensar e agir que sempre pautou a sua conduta, tinha tomado a sua grande decisão: ganhar o máximo de dinheiro fosse de que modo fosse.

O «modus operandi» era simples: uma actividade que ela própria definia, de modo um pouco eufemístico, como tráfico de influências. Ou melhor, era realmente tráfico de influência. Na versão «hard core»: dada a forma irritantemente lenta de o Estado resolver os assuntos dos cidadãos, a Maria Etelvina, desejosa de servir o próximo, encontrou o meio para agilizar a decisão pública. Transformando, com verdadeiros passes de mágica, certos morcões que antes dormiam nas suas secretárias em funcionários diligentes e apressados.

Parece que o seu grande mestre e guia nessas artes foi o fiscal come-come. Aquele personagem de ficção (e queremos sublinhar o termo de ficção: cautela e caldos de galinha.) do Conto de Natal do ano passado. Embora também haja quem diga que foi a Etelvina que iniciou o come-come nestas práticas, permitindo o desabrochar da sua verdadeira vocação. Não interessa. O que conta é que juntos faziam maravilhas: os processos parados há anos graças a umas certas maquias a untar umas certas mãos ficavam resolvidos a contento do cliente quase de um dia para o outro. «Eu resolvo isso em quinze dias», dizia a Maria Etelvina.

Contudo, um pequeno fantasma ensombrava a bela vida deste par: e se tudo viesse a ser descoberto? Se algum invejoso (ninguém consegue convencer a Etelvina e o come-come de que este pacato modo de vida, sem mortes, sem droga, sem violência, possa incomodar alguém) os denunciasse? Se a bófia lhes deitasse a mão? E se aqueles deliciosos proventos daquela suculenta actividade fossem apenas um daqueles enganos de alma ledo e cego que a fortuna não deixa durar muito? À volta sentiam-se uns movimentos suspeitos, umas curiosidades incómodas, umas salvas de tiros que atingiam as portas ao lado.

E estavam neste transes o come-come e a Etelvina, já a gastar em tranquilizantes uma boa parte do que ganhavam com as manigâncias, quando de repente - oh que sorte, oh que boa fortuna! - tudo se resolve. As ameaças estavam afastadas. Já não ia mais ninguém para a cadeia e os que lá estavam iam sair. O que se teria passado? Que milagre lhes teria restituído o sossego? (continua no próximo ano).

P. S. Mais uma vez salientamos que este é um texto de ficção devido à delirante imaginação do autor. Que pede o especial favor de ninguém se meter dentro das suas personagens.

* a maravilhosa narrativa de Natal por que tanto ansiei e que só a inigualável camarada Leopardo foi capaz de me depositar no regaço

(2012)

06 January 2012

QUEM É QUE SERÁ CAPAZ DE ME DESENCANTAR UMA CRÓNICA DO SALDANHA SANCHES, DE FEIÇÃO NEOREALISTA, SOBRE UMA JOVEM QUASE-PROLETÁRIA DA MARGEM SUL QUE SOBE A PULSO (SO TO SPEAK) NA VIDA?

Celeste Cardona a caminho do conselho geral da EDP
























(2012)

27 October 2010

MAIS UMA PARA NUNCA, NUNCA MAIS ESQUECER:
ESTA É A CRIATURA A QUEM QUE FOI ENTREGUE A
MISSÃO DE SUBSTITUIR SALDANHA SANCHES!




Ana Paula Vitorino implica Mário Lino no 'Face Oculta': " Ana Paula Vitorino, antiga secretária de Estado dos Transportes, revelou que o ex-ministro das Obras Públicas, Mário Lino, a tentou sensibilizar para os problemas que existiam entre o empresário Manuel Godinho - o único arguido em prisão preventiva - e a Refer. De acordo com informações recolhidas pelo DN, Ana Paula Vitorino terá contado ao MP que Mário Lino tentou convencê-la a intervir, dizendo- -lhe que Manuel Godinho era amigo do PS".

"O ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações é o novo presidente do conselho fiscal das companhias de seguros do grupo Caixa Geral de Depósitos, que era ocupado pelo falecido Saldanha Sanches".

Saldanha Sanches aqui.

(2010)

18 June 2010

NÃO, NÃO É SÓ O DESESPERO DE, À BEIRA DO FIM,
PROCURAR OCUPAR TODAS AS CASAS DO TABULEIRO;
É, EM PARTICULAR, A PROVOCAÇÃO SEM VERGONHA
APÓS A CHEGADA AO ÚLTIMO GRAU DE PUTREFACÇÃO




"O ex-ministro das Obras Públicas, Transportes e Comunicações é o novo presidente do conselho fiscal das companhias de seguros do grupo Caixa Geral de Depósitos, que era ocupado pelo falecido Saldanha Sanches". (aqui)

(2010)

15 May 2010

JOSÉ LUÍS SALDANHA SANCHES (1944-2010)



"(...) O Estado (o Governo, o primeiro-ministro) vive agrilhoado a um conjunto de compromissos políticos, arranjinhos, promessas, vassalagens, dívidas que paga periodicamente em quilómetros de autoestradas, túneis e, agora, TGV com paragens em todas as estações e apeadeiros do poder local (desenhado em cima do mapa da volta a Portugal em bicicleta). Já todos sabemos que Portugal tem mais quilómetros de auto-estrada do que muitos países mais desenvolvidos, que não fazem sentido muitas dessas estradas e que é um absurdo havê-las sem custos. (...) Além das vassalagens, não podemos esquecer os outros papa-reformas, profissionais da acumulação de reformas públicas, semipúblicas e semiprivadas. Basta ver o caso do Banco de Portugal, ou outros menos imorais, que permitem que uma série de cidadãos - gente séria, acima de qualquer suspeita - se alimente vorazmente, em acumulações de pensões, reformas e complementos, que começam a receber em tenta idade. Muitas vezes até com carreiras contributivas virtuais, sem trabalho e com promoções (dizem que para isto são muito boas a Emissora Nacional/RTP e a Carris). Tudo isto, como sempre, é feito ao abrigo da lei. É que isso dos crimes contra a lei é para os sucateiros. O problema é que a lei que dá é refém dos beneficiários que tiram e da sua ética". (última crónica, no "Expresso" de hoje)

Entrevista de 2008, com Maria José Morgado, à "Pública"

As crónicas do "Expresso"

(2010)