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28 May 2022

Amber Coffman - "Run Run Run"
 
(sequência daqui) Seria, justamente, isso que, paralelamente ao preconceito que a lançaria para todo o sempre nas labaredas da Inquisição pop, a transformaria em farol das movimentações punk, pós-punk e new wave com discípulos e fãs confessos como Thurston Moore, Kim Gordon (Sonic Youth), B-52, Kathleen Hanna (Bikini Kill), Courtney Love, RZA ou todos os que viriam a participar nos álbuns de homenagem Every Man Has a Woman (1984) – Elvis Costello, Harry Nilson, Rosanne Cash, Roberta Flack –, Yes, I’m A Witch (2007) – Peaches, Le Tigre, DJ Spooky, Cat Power, Flaming Lips – e Mrs. Lennon - Canções de Yoko Ono (2010) – só com intérpretes brasileiras. Aos quais deverão acrescentar-se aqueles que, agora, sob a produção de Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), em Ocean Child – Songs of Yoko Ono, a 18 de Fevereiro, lhe ofereceram este valioso presente pelo seu 89º aniversário. Muito em particular, David Byrne com os Yo La Tengo, Sudan Archives, Sharon Van Etten, Thao, U.S. Girls e Stephin Merritt mas também Flaming Lips, Amber Coffman e Deerhoof.

19 May 2021

 
(sequência daqui) Após dois óptimos EP de aquecimento, New Long Leg revela por inteiro a personagem de uma bibliotecária arquivista da banalidade quotidiana, operando sobre a realidade como o faria uma tesoura dadaísta a partir de matéria-prima-Beckett, em neutro registo "sprechgesang" a escorregar para "spoken-word", algo como um "morphing" vocal de Kim Gordon e Laurie Anderson. Ela diz "I've come here to make a ceramic shoe, and I've come to smash what you made, I've come to learn how to mingle, I've come to learn how to dance, I've come to join the knitting circle" e o trio masculino – comandado na sombra pelo ubíquo John Parish – oferece-lhe uma moldura de enérgico pós-punk, pele, osso e nervo. Ela pergunta “Would you choose a dentist with a messy back garden like that? I don’t think so” e Dowse quase inventa uma melodia. Em menos palavras: “Do everything and feel nothing”.

11 December 2015

EVERYDAY I WRITE THE BOOK 


Comecemos, então, pelo princípio. Isto é, pelo capítulo 6, "London’s Brilliant Parade": “Nasci no mesmo hospital em que Alexander Fleming descobriu a penicilina. Peço, antecipadamente, desculpa por não ter sido uma dádiva equivalente à humanidade. Há muitos lugares em Londres que oferecem a sensação de lhes pertencermos: Camden, Stepney, Hampstead, Brixton, até Shepherd’s Bush. Paddington não é um deles, a menos que se seja um urso de ficção. É um lugar de passagem, uma estação no tabuleiro do Monopólio”. Em epígrafe, “From the gates of St. Mary’s, there were horses in Olympia and a troley bus in Fulham Broadway, the lions and the tigers in Regent’s Park couldn’t pay their way, and now they’re not the only ones”. É um mapa instantâneo das origens de Declan Patrick MacManus, aliás, Elvis Costello: o hospital de St. Mary’s, à beira de Paddington e das competições equestres do Olympia Horse Show. Há uma prova do feliz acontecimento na página 406 de Unfaithful Music & Disappearing Ink: a reprodução de um minúsculo recorte de 6 linhas do “New Musical Express” de Agosto de 1954 em que o semanário “dá os parabéns a Ross MacManus, trompetista-vocalista da Arthur Rowberry Band, cuja mulher, Lillian, o presenteou com um filho na passada terça-feira. O bebé chamar-se-á Declan Patrick”.



Não é tudo rigorosamente verdade – 25 de Agosto de 1954 foi uma quarta-feira – mas isso não deverá incomodar demasiado Costello que, não sendo um efabulador compulsivo como Tom Waits, nas 670 páginas destas suas "memoirs", não se esquiva a confessar episódios nos quais, sem cerimónias, reconfigura os factos em função das circunstâncias. Por exemplo, aquele, acontecido na Casa Branca, em 2010, aquando da entrega a Paul McCartney do Gershwin Prize for Popular Song. Integrando o grupo de músicos que actuariam perante o homenageado, Barack Obama e a corte de convidados, coube-lhe interpretar "Penny Lane" que apresentou evocando quão importante tinha sido para um miúdo de 13 anos escutar no rádio, “ao lado do meu pai, da minha mãe e do gato”, uma canção “tão fantástica acerca de uma anónima rua suburbana, muito próxima daquela onde, em criança, a minha mãe vivera”. Na realidade, não havia gato algum e, por essa altura, os pais estavam já separados...



É também indispensável não contar com uma narração cronologicamente ordenada. Da vaga recente de autobiografias e memórias de medalhados estadistas do pop/rock – o primeiro volume das Chronicles, de Dylan, a Autobiography, de Morrissey, Girl In a Band, de Kim Gordon –, Costello tende mais para o estilo-Dylan: ora está a justificar a sua má reputação inicial por culpa do maldito diastema (“parece que o espaço entre os meus dois dentes incisivos, que fizeram Jane Birkin, Ray Davies e Jerry Lewis tão atraentes, teve o efeito de fazer soar metade do que digo como uma provocação ou um insulto”); ora salta para o meio da década de 80 e, ele que se reivindica perito em “sentimentos de culpa católicos”, faz público acto de contrição acerca da sua condição de predador sentimental (“Escrevi cartas, seduzindo raparigas diferentes, levando-as a acreditar fosse no que fosse que desejassem acreditar (...) Depois, escrevi canções tentando convencer-me que o fazia em busca do amor e não apenas das boas e velhas luxúria e cobiça e de mais dois ou três dos restantes pecados mortais”); ora, ao longo de 20 assombrosas páginas faz desfilar uma História viva da Irlanda-Reino Unido-EUA iniciadas com o bisavô, John MacManus (“que, como muitos irlandeses nascidos nos anos da Grande Fome, se safaram da Irlanda mal tiveram idade para isso”), continuadas com o avô, Patrick – entre as carnificinas da primeira guerra mundial e da guerra de independência da Índia, e a carreira como executante de trompa que, a bordo do White Star Liner, terá conhecido Duke Ellington – e, depois com as perturbadas evocações do pai, já doente de Parkinson, sobre os anos da Grande Depressão, quando “muitas coisas tiveram de ser cortadas ao meio: a força de trabalho, o salário, o pão”.

Mom, dad, Declan & no cat
 
Dispersas um pouco por todo o livro, há elucubrações teóricas sobre o que distingue bandas inglesas e americanas (“As melhores bandas inglesas preocupam-se mais com ‘como começamos?’ do que com ‘como acabamos?’”); inventários detalhados de onde e a quem foram surripiados arranjos, melodias, riffs, introduções; desabafos como o de nunca ter conseguido convencer nenhum dos seus primeiros comparsas a escutar um álbum de David Ackles; as cumplicidades diversas com Dylan, Robert Wyatt, Allen Toussaint, Bacharach, Chet Baker, Johnny Cash, Diana Krall, T Bone Burnett; as dementes digressões com os Attractions através da América; a figura sempre presente e ausente do pai – perdido à procura de uma estrofe para "This House Is Empty Now", de Painted From Memory, sintetiza o espírito de Unfaithful Music & Disappearing Ink em duas frases: “Tinha, agora, de encontrar ainda mais palavras. O meu pai entrou no meu quarto quando eu tinha oito anos e ofereceu-mas”.


Poderia ser um momento cinematográfico como são, aliás, inúmeros outros no decurso dos 36 capítulos. Até porque ele cuidou de que, para eles, existisse a banda sonora adequada: um duplo álbum (quase) homónimo com outros tantos temas da sua discografia mais dois inéditos – "April 5th", com Rosanne Cash e Kris Kristofferson, e "I Can’t Turn It Off", relíquia dos primórdios assinada por D. P. Costello. Afinal, exactamente o mesmo tipo que escreveu “I'm a man with a mission in two or three editions, and I'm giving you a longing look, everyday, everyday, everyday I write the book”.

07 May 2015

MEMÓRIAS DE NOVA IORQUE

  
Mais ou menos a meio de Girl In A Band, na página 148, Kim Gordon, num aparte não demasiado significativo, conta que, em conversa para a “Interview” com o ilustrador Raymond Pettibon – autor da capa de Goo, dos Sonic Youth, bem como de várias outras de álbuns dos Black Flag e da editora SST –, ambos concordaram que, quando se trata de discutir algum assunto com um músico, é conveniente não elevar demasiado a complexidade do tema. “Não porque não sejam inteligentes, apenas não intelectualizam as coisas da mesma forma que os artistas”. E Kim reforça a ideia, confessando “Sinto que não há muita gente com quem possa falar sobre o que me vai na cabeça... isto não quer dizer que os menospreze”. Poderá, talvez, situar-se aí a razão porque a literatura – autobiográfica ou não – assinada por músicos é tão escassa e, na maioria dos casos, assaz desinteressante. A memoráveis excepções como Chronicles Vol. I, de Bob Dylan, Autobiography, de Morrissey, os quatro romances de Willy Vlautin (Richmond Fontaine/Delines), a recolha de poemas de David Berman (Silver Jews), Actual Air, ou a quase dezena de publicações de David Byrne (Leonard Cohen, exactamente o caso oposto – poeta e romancista tornado songwriter –, não conta) adicione-se, agora, Girl In A Band – A Memoir, de Kim Gordon.



Guitarrista, baixista, compositora e cantora dos Sonic Youth (e, igualmente, dos Free Kitten, Body/Head e participante em inúmeras colaborações) mas também artista plástica, "fashion designer", actriz, crítica e jornalista de arte, Gordon possui o perfil exactamente adequado para não ceder (demasiado) à "petite histoire" de circunstância e desenhar, com nervo e energia, a trajectória de uma "California girl" de classe média, nascida no início dos anos 50 e transplantada para a cena musical e artística da Nova Iorque, de fins de 70 até à actualidade. A visão panorâmica é povoada por um "who’s who" de todo o período abrangido (mas com figuras de carne e osso e não em mero exercício de "name dropping"), em permanente viagem entre auto-análise e observação/comentário de situações e personagens, painel estético/histórico e diário pessoal, o precioso bloco-notas de uma testemunha-participante activa das vibrantes ascensões e perturbantes quedas da capital do mundo.

14 September 2012

Fear of a Female Planet: Kim Gordon (Sonic Youth) on Why Russia and the US Need a Pussy Riot





Kool Thing sittin' with a kitty
Now you know you're sure lookin' pretty
Like a lover not a dancer
Superboy take a chance here
I don't want to, I don't think so
I don't want to, I don't think so

Kool Thing let me play it with your radio

Move me, turn me on, baby-o
I'll be your slave
Give you a shave
I don't want to, I don't think so
I don't want to, I don't think so

Yeah, tell'em about it,

Hit'em where it hurts
Hey, Kool Thing, come here, sit down
There's something I go to ask you.
I just want to know, what are you gonna do for me?
I mean, are you gonna liberate us girls
From male white corporate oppression?
Tell it like it is!
Huh?
Yeah!
Don't be shy
Word up!
Fear of a female planet?
Fear of a female planet?
Fear, baby!
I just want to know that we can still be friends
Come on, come on, come on, come on let everybody know
Kool thing, Kool thing

When you're a star, I know you'll fix everything

Now you know you're sure lookin' pretty
Rock the beat just a little faster
Now I know you are the master
I don't want to, I don't think so
I don't want to, I don't think so

Kool thing walkin' like a panther

Come on and give me an answer
Kool thing walkin' like a panther
What'd he say?
I don't want to, I don't think so
I don't want to, I don't think so