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14 October 2022

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXXVII)

(com a indispensável colaboração do R & R)

(clicar na imagem para ampliar)
 
 
 
 
 It's Immaterial - Life's Hard And Then You Die (álbum integral aqui)
 

Iggy Pop - "Shades" (Blah-Blah-Blah - álbum integral aqui)
 
 
"Lenin In Zurich" - Easterhouse  (Contenders - álbum integal aqui; ver também aqui)

09 February 2021

VINTAGE (DLIII)
 
It's Immaterial - "New Moon"


 
(sequência daqui) Porém, coincidindo a publicação com o processo de encerramento da editora Siren – uma subsidiária da Virgin que Richard Branson, por esses dias mais interessado em projectos de aviação comercial, não hesitou em sacrificar –, seria por ela praticamente ignorado, e muito poucos o ouviriam. Voltaram ao estúdio de Malcolm para iniciar a gravação do que viria a ser House For Sale até ao dia em que à companheira de John Campbell foi diagnosticado cancro e tudo parou. Durante três décadas. John foi dando aulas de arte, em Liverpool, e Jarvis fundou uma escola de música. Há cerca de 6 anos, descobertas as fitas originais, reiniciaram o trabalho interrompido. Por pouco tempo: chegaria a vez de, desgraçadamente, Campbell ter também de enfrentar o demónio oncológico. Felizmente recuperado, House For Sale ficaria, enfim, concluído, financiado através de uma plataforma de "crowdfunding"... que, na pior altura, faliu. Transposto mais esse obstáculo, no início deste ano, o lendário “lost album” estava pronto a sair para a rua. Foi, então, que a pandemia surgiu. A vida tinha sido dura mas eles continuavam vivos. E, quando já se tornava difícil acreditar que alguma vez poderíamos chegsr a escutá-lo, ei-lo disponível na admirável Burning Shed (“run by artists for artists”)! Nunca seria caso para defender que o martírio é sempre recompensado mas valeu toda a pena esperar por esta magnífica continuação das atmosferas verdadeiramente imateriais de Song, laboriosamente depurada até à essência e feita de melodias de vidro finíssimo sobre aguarelas de céu, chuva e névoa. 

10 December 2020

DEPURAÇÃO

Quando Jarvis Whitehead e John Campbell, aliás, It’s Immaterial, intitularam o álbum de estreia Life’s Hard and Then You Die (1986) não podiam adivinhar que tinham encontrado a síntese tristemente exata para (quase) tudo o que o futuro lhes reservava. Co-produzido (não sem conflitos) por Jerry Harrison, dos Talking Heads, desse peculiar lugar de encontro entre pop, jazz, "spoken word", eletrónica, os vários minimalismos e a folk resultaria um sucesso totalmente inesperado, "Driving Away from Home", que, no momento em que trepava pelas tabelas de vendas britânicas e as rádios lhe estendiam passadeiras vermelhas, a editora deixou, indesculpavelmente, esgotar. Quatro anos depois, nos Castlesound Studios do mágico Calum Malcolm — que em A Walk Across the Rooftops (1984) e Hats (1989) já elevara os Blue Nile aos céus —, os dois ex-colegas de universidade atingiriam, subitamente, a perfeição: Song era um milagre de levitação de melodias e imagens impressionistas suspensas no tempo (“Yesterday I saw you, Main Street way, looking at the empty boarding houses and closed arcades. Well it’s funny, just to think, the tides now out and there is very little story to be found in the shops and buildings here”), instantâneos translúcidos simultaneamente frios e pungentes, “uma espécie de emoção controlada que nunca se liberta. A sensação de que está sempre algo à beira de acontecer na narrativa mas nunca acontece”, diria Campbell, à época.  (daqui; segue aqui)


 

21 November 2020

VINTAGE (DXXXVI)
 
It's Immaterial - Life's Hard And Then You Die
 
(álbum integral aqui)

03 November 2009

A BUNCH OF DO-RE-MIS
 

 
Prefab Sprout - Let’s Change The World With Music
 
Procure-se uma fotografia actual de Paddy McAloon e é muito natural que imaginemos que a busca de imagens do Google tenha sofrido um ataque malévolo de "hackers": a figura que nos aparece é a de um daqueles profetas hirsutos do "deep-south", psicoticamente concentrados no anúncio iminente do fim dos tempos por entre duas goladas de bourbon. Ou, como alguém também já o descreveu, um vagabundo Amish candidato ao papel principal num biopic sobre Robert Wyatt. Ele próprio, quase-eremita em Durham, com a mulher e as três filhas, contribui, voluntariamente, para o retrato: “Já viram um daqueles documentários acerca do género de pessoas que vivem no meio de pilhas de jornais, pão e bicicletas? Eu sou um bocado assim”


 
No caso dele, os jornais, pão e bicicletas são os álbuns que compôs e gravou mas nunca chegaram a ser publicados – mais de uma dúzia, desde peças conceptuais acerca do herói imaginário "Zorro The Fox", a um “Atomic Hymn Book” ou a outros com títulos como “20th-Century Magic”, “Jeff & Isolde”, “Doomed Poets Vol. 1” ou “Earth: The Story So Far”. “Sinto-me como uma personagem de Edgar Allan Poe, sepultado debaixo das caixas com os meus álbuns”. Let’s Change The World With Music, por exemplo, está gravado há dezassete anos, deveria ter sido editado a seguir a Jordan: The Comeback (1990) e começou por ser uma canção para Barbra Streisand que partia dos versos “Do you think that we can change the world with music?, If a sane man overheard us he'd shout 'Two straitjackets please', because all we've got is music, it's a wonderful ambition, but our only ammunition is a bunch of do-re-mis.." Da canção restou apenas o título do álbum e, do título de outro – “Earth: The Story So Far” –, ficou uma canção. 
 

 
Aos 52 anos, com a visão severamente diminuída, um ouvido gravemente afectado e uma relação persistentemente problemática com as editoras, entregou as velhas maquetes a Calum Malcolm (Blue Nile, It’s Immaterial) e, das mãos dele, surgiu o sucessor de The Gunman and Other Stories (2001): irremediavelmente marcado pela sonoridade da época de origem, sumptuosamente "orquestral", desesperadamente romântico, declaração de paixão pela música (“Music is a princess, I’m just a boy in rags”) e de amarga decepção (“Meet the new Mozart, he's in the bed where commerce, sleeps with art, who can blame him?”). (2009)

23 March 2009

FORA DO RADAR

 
 Lloyd Cole - Cleaning Out The Ashtrays 
 
Se pararmos um segundo para espreitar debaixo da carpete da memória, vamos facilmente reparar na considerável quantidade de músicos e escribas de canções que, sem que realmente déssemos por isso, há muito não deixam rasto no radar pop contemporâneo. Ou que, se o fazem ainda, não o poderiam desenhar de modo mais discreto, tal é a forma como passam despercebidos sob os raios cruzados dos focos luminosos. Onde andam, por exemplo, Suzanne Vega, Martin Stephenson, Liz Phair, Andy Partridge, Neil Hannon, os magníficos It’s Immaterial de Life’s Hard And Then You Die e Song? É verdade que o universo pop nunca demonstrou grande vocação para acarinhar aqueles que não inscrevem diariamente na agenda a obrigação de aparecer em todo o talk-show disponível, da entrada ritual na clínica de desintoxicação ou de exibir a "trophy-wife" ou o "trophy-husband" do trimestre. Mas, mesmo assim, uma tão curta memória de médio prazo deveria ser objecto de estudo científico.

 
Lloyd Cole, ele da mesma época em que ilustres desaparecidos em combate como os Bluebells, Sundays ou Waterboys edificavam a glória da música britânica, bissextamente, faz prova de vida com um álbum que ocupa uma ínfima parcela de página nas revistas “da especialidade”, sacia fugazmente o apetite dos seus cento e catorze fãs e esfuma-se. Agora, porém, excedeu-se: uma caixa de quatro CD (esta, de que nos lança a côdea de um sampler de dez títulos) e a promessa de dois live em modo “Folksinger Series”. A avaliar pelo isco, se a maioria das 56 sobras, lados B e raridades for da estatura de algumas das aqui reunidas (“I Will Not Leave You Alone” ou “The Steady Slowing Down Of The Heart” são Cole-vintage instantâneo) só se poderá afirmar que, mesmo que sejam poucos a reparar nisso, quando Lloyd Cole limpa os cinzeiros (pobre ingénuo que, um dia, me garantiu que eu haveria de deixar de fumar), há que correr para lhe tirar o saco do lixo das mãos. (2009)

20 November 2008

O ELOGIO DA PREGUIÇA

(departamento THE BROTHERHOOD OF THE UNKNOWN (VII), segundo David Thomas: "The first Pere Ubu record was meant to be something that would gain us entry into the Brotherhood of the Unknown that was gathering in used record bins everywhere")


It's Immaterial - Song

Vão-se preparando para sofrer mais um ou dois sérios abanões com epicentro no mesmo ponto que, no final de 1989, nos trouxe de volta os Blue Nile. A causa da coisa saiu no passado dia 25 de Junho, em Londres, tem o conciso título de Song e os agradecimentos pela sua criação devem ser endereçados para Liverpool, ao cuidado de John Campbell e Jarvis Whitehead, aliás, It's Immaterial. Não esqueçam já os Blue Nile pois o paralelismo não é fortuito. Tal como com eles, também sobre Campbell e Whitehead (igualmente ex-colegas de universidade que se descobriram mutuamente compositores) se poderia falar de um caso de invisibilidade deliberada, de uma estratégia de captação das atenções pela fuga à banalização da presença sob os focos dos media e assente na valorização da raridade da discografia. Nuns e noutros, a produção reduzida ao mínimo indispensável para poder constituir prova legal de existência, traduzida em dez anos para dois álbuns e meia dúzia de singles. Encaremo-los como a expressão de um derradeiro elogio da preguiça ou uma apologia da virtude dos metabolismos lentos: A Walk Across The Rooftops (1984) e Hats (1989), dos Blue Nile, e Life's Hard And Then You Die (1986) e, agora, Song, dos It's Immaterial, pertencem todos por legítimo direito à selecção restrita dos indispensáveis da música britânica dos anos recentes. Último traço de união: em ambos os casos, o regresso fez-se pela porta dos Castlesound Studios de East Lothian, sob a orientação do produtor Calum Malcolm.


A separação das águas pode iniciar-se, sem prejuízo, pela via das aparências. Onde os escoceses não sentem a obrigatoriedade de imprimir os textos das canções, o duo de Manchester "exilado" em Liverpool responsável por Song sabe bem como é imprescindível fazê-lo para possibilitar um entendimento sem equívocos do seu universo. Têm todos razão. Ainda que habitantes de territórios sonoros parcialmente coincidentes, a função das palavras que, nuns, é mero adereço na definição dos ambientes, para os outros, assume um papel central enquanto elemento de estruturação dos temas. Legíveis como trechos autónomos dedicados ao registo impressionista de paisagens de desolado despovoamento ("From the shore to the station, the blinds are down, people say the place is slowly dying, there's not a sound, above the rooftops, from the high rise, you can see for miles, a caravan on every plot of land, up and down the coastal plain, in New Brighton when it rains; yesterday I saw you Main Street way, looking at the empty boarding houses and closed arcades, well it's funny just to think the tide's now out and there is very little story to be found in the shops and buildings here") ou à narração de histórias individuais de isolamento e claustrofobia provincial ("When he was tirty five, Mr. Hart met Bernice, the check-out girl, spending all his time hanging around the doors of the junk food store, will they ever speak?"), não limitam nunca, no entanto, a liberdade de acção da música na busca de um espaço próprio.



Acontece, aliás, exactamente o oposto: da perfeita aderência das duas componentes resulta o desdobramento de sentidos de cada uma, num notável exercício de estimulação simultânea que multiplica os ângulos de abordagem. Aquando da edição de Life's Hard And Then You Die, era praticamento impossível não lhe identificar a proliferação de referências musicais que, entre o jazz, a pop, a folk, a "systems music", o electro ou a "contemporânea", se deixavam integrar num tecido vivo e diverso mas livre de problemas de rejeição imunitária. Ecléticos até aquele grau em que o próprio termo se torna redundante, os It's Immaterial recusavam já então a colagem ou o exercício de estilo como método de escrita, preferindo-lhe a fusão quase genética das linguagens sobre que operavam. Song prossegue e intensifica essa lógica, conduzindo-a a um estado de sofisticadíssima cirurgia plástica, incapaz de revelar o menor vestígio de cicatrizes no lugar dos implantes. "Atmosféricas" mas, de modo algum, carentes de consistência e coerência formal, às dez "songs" de Song seria dramático que estivesse reservado o mesmo destino do álbum anterior: coleccionar um invejável dossier de recortes de imprensa com a crítica unanimente ajoelhada e não vender senão o bastante para ocupar fugazmente um modesto lugar no top-75 britânico.

(1990)

17 November 2008

MICRO-POÉTICA



The Notwist - The Devil, You + Me

“I won’t sing you algebra, I won’t sing you anything”, canta Markus Archer, muito Neil Tennant-like, sobre uma complexa matemática sonora na qual se pode ler, “bleep” a “bleep”, toda a história do minimalismo pop alemão e adjacências. Leia-se, dos Kraftwerk aos Stereolab, passando por Young Marble Giants, Brian Eno, os ignorados It's Immaterial e um ou outro psicadelismo de tendência mais geométrica. Valeu inteiramente a pena esperar os seis anos de sesta prolongada que, muito pouco germanicamente, os irmãos Markus e Michael Archer (aqui acrescidos do programador Martin Gretschmann e da Andromeda Mega Express Orchestra) se ofereceram, após o magnífico Neon Golden, com aparições intercalares nos Lali Puna, Ms John Soda ou Tied & Tickled Trio.



Não se distanciaram muito dessa micro-poética de delicada relojoaria musical para estações de serviço nas redes de comunicação intergalácticas, mas acrescentaram-lhe intrincados sinfonismos de brinquedo, maquilharam-na discretamente com estridências acústicas e digitais, iluminaram uma ou outra núvem com relâmpagos virtuais. No final, apetece dizer que só não se trata de um Robert Wyatt portátil porque este dificilmente escreveria uma frase como “Let’s just imitate the real until we find a better one”.

(2008)