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06 May 2026

A Dialéctica nas margens do Reno

 A dialéctica. Já ouvi falar da dialéctica: 

era assim uma espécie de regra de três

simples no papel pardo das mercearias,

a penitência dos bígamos, 

um motor a três tempos engatado

na quarta velocidade do pensamento. 

O jovem Carlos leu GWF nas longas, 

teutónicas noites de inverno e escreveu 

na Rheinische Zeitung um artigo 

sobre o roubo da lenha aos camponeses ou 

pelos camponeses: não sei bem. 

Alguns discutiram se O Capital é 

uma obra de maturidade ou um efeito 

secundário da furunculose. 

Por mim confesso: tenho saudades de tais tempos 

em que despontavam as mamas em raparigas 

acossadas pelo acne e pela delicadeza.

16 June 2025

A FITA DO TEMPO
No ano passado, Rooting For Love apresentava-se com todos os preocupantes sintomas da obra de final de carreira: Laetitia Sadier, ao 5º álbum a solo após a separação dos Stereolab (2009), parecia desinteressar-se de vez do, até aí, fértil cruzamento entre a estética retro-futurista e o diálogo com o marxismo e o situacionismo e escorregava, ideologia abaixo, para o território das "personal politics", abeirando-se mesmo da involuntária comicidade "new age":“Smile at your spleen, inundated with light, and be serene, smile at your kidneys, lights escaping, color is blue, feel your organs smiling back at you”. Os Stereolab tinham emergido em Londres no acampamento "indie" local dos anos 90, mas, na verdade, nunca soaram como os seus contemporâneos. Se mantinham alguns pontos de contacto exteriores, estes situavam-se no pós-rock, no revivalismo do easy listening, na eletrónica experimental e na cena underground que revelou bandas como Pram, Broadcast e Plone.  (daqui; segue para aqui)

21 May 2024

 COM AS CORES DO FOGO


David Robert Jones transmutar-se-ia em David Bowie (por anexação do apelido do pioneiro norte-americano, Jim Bowie, ou, em rigor, do punhal que o celebrizou).  Seria depois Major Tom, Ziggy Stardust, Aladdin Sane, Halloween Jack, The Thin White Duke e Nathan Adler. No final da maratona heteronímica, dar-se-ia conta de que "nos últimos 20 anos, para muita gente, a realidade transformou-se numa abstracção. Coisas que eram vistas como verdades extinguiram-se e é como se agora pensássemos pós-filosoficamente. Não há conhecimento, apenas a interpretação dos factos com que nos inundam diariamente, sentimo-nos como que à deriva no mar". Anne Erin Clark (ou Annie Clark), viria a ser St. Vincent por via de Nick Cave (e interpolado Dylan Thomas). Em Abattoir Blues/The Lyre of Orpheus (2004), na 5ª faixa do primeiro CD, "There She Goes My Beautiful World", Cave canta  "Karl Marx squeezed his carbuncles, while writing Das Kapital, and Gauguin, he buggered off, man, and went all tropical, while Philip Larkin stuck it out in a library in Hull, and Dylan Thomas died drunk in St. Vincent’s hospital". Em conversa com o "Sydney Morning Herald ", há 6 anos, Clark contaria a bizarra experiência que fora estar presente num jantar ao lado de Nick Cave: "Sentia-me tão intimidada que fui tremendamente aborrecida. Queria tanto ser interessante que só me imaginava a dizer coisas idiotas como 'Passas-me o pão, por favor? Tudo o que criei foram referências a ti'". (daqui; segue para aqui)

25 March 2024

PERSONAL POLITICS
Nos anos 90, Robert Christgau, decano da crítica musical norte-americana, despachava os Stereolab classificando-os como “Marxist background music” e, numa interrogação que deveria ser lida como um elogio, acrescentava: "So it isn't just silly punk songs - yet other people want to fill the world with silly Marxist songs, and what's wrong with that?" Era a altura na qual a banda de Tim Gane e Laetitia Sadier, socorrendo-se de todas as referências a que podia deitar a mão ("avant-pop", "electronica", "post-rock", "krautrock", "lounge", minimalismo, John Cage, bossa nova, "chanson"), se entretinha a polvilhar de alusões anarco-situacionistas o "consomé" sonoro da dezena de álbuns de estúdio que, entre 1992 e 2010, publicou. Exemplo supremo destes exercícios de ironia assassina, "Ping Pong" (1994): "It's alright, 'cause the historical pattern has shown / How the economical cycle tends to revolve / In a round of decades three stages stand out in a loop / A slump and war then peel back to square one and back for more / There's only millions that lose their jobs". (daqui; segue para aqui)

"Panser L'Inacceptable"

10 January 2024

Cambada de comunas! (como diria a trupe de monteventuras * & "liberais")
 
Karl Marx Hof

Edit (11/01/2024) - * ... estava muito longe de imaginar que "monteventura" era um neologismo com futuro... 

Edit (15:30) - ... e "ex-monteventura"?...

02 January 2024

SINGULARIDADES VISIONÁRIAS
Em 1848, procurando identificar o que "distinguia a época burguesa de todas as anteriores", Marx e Engels, no Manifesto Comunista, escreviam: "Todas as relações fixas e enferrujadas, com a sua série de antigos e veneráveis preconceitos e opiniões, são varridas, e todas as novas formações tornam-se antiquadas antes de poderem consolidar-se. Tudo o que é sólido se dissolve no ar, tudo o que é sagrado é profanado". 125 anos depois, em "Melty", faixa de abertura de Afternoon X, após uma introdução feita de um ostinato de duas notas que borbulham à superfície de um caldo sonoro electrónico onde a sombra de um vibrafone flutua, a voz de Cathy Lucas, harmonicamente triplicada, entoa "All that is solid melts into air". Cinco passos à frente, nos mais de oito minutos de "The Down Below", deambulamos por um labirinto de "lounge" desfiguradamente "latino", dissonâncias febris, cornucópias em estado de liquefação, e segredos conspirativamente soprados (“Revelation! Revelation! It’s all a revelation!”, “America! America!”) no planisfério estropiado de um território imaginário. (daqui; segue para aqui)
 
"Melty"

22 March 2022


"Farewell, OK"
 
(sequência daqui) Desenha as silhuetas de personagens sombrias (“I had a pocket full of presidents, a suitcase full of elements, double-cross of spectacles, a tycoon made of tentacles“), reanima fantasias (“Penelope Halfpenny sat on the desk, then stretched and grinned, she cracked her spine and so we sinned”) e tentações juvenis (“She took my hand in an experiment, put it where it shouldn't be, put it underneath her dress and waited to see”) ou reune no mesmo palco Mussolini, Gustav Mahler, Myrna Loy, Francis Bacon, Helena de Tróia, Lady Godiva, Godzilla e “The Marxists, Groucho, Chico, Harpo and Karl”. Exactamente o tipo de clássicos instantâneos capazes de desenhar completamente o argumento sobre “a part-time waitress with a dream of greatness“ apenas em quatro versos: “He wrote her name out in sugar on a Formica counter, ‘You could be the game that captures the hunter’, then he went out for cigarettes, as the soundtrack played The Marvelettes”.

31 August 2021

Visto o filme, concentremo-nos, então, na banda sonora

Downtown Boys - Full Communism (álbum integral)

Downtown Boys | Democracy Now!

18 December 2020

Os extra-terrestres do general Eshed, tão poderosos que conseguiram que o Trampas guardasse um segredo, parecem estar a ter competição oriunda de Proxima Centauri - custa a crer que a malucagem conspiracionista do QAnon e descompensados afins não ache maneira de juntar tudo isto (mais os pirilaus) num belo ramalhete de fervente denúncia do "marxismo cultural" ou em anúncio da chegada iminente de reforços na luta contra o "marxismo cultural" ou o raio que lhes chocalhar no crânio na altura

15 October 2020

Agora, fiquei na dúvida: isto será marxismo cultural? (é bem capaz de ser, os moços até têm um álbum intitulado Full Communism, obálhamedeus...)
 
Downtown Boys - "L'Internationale" (da BSO de Miss Marx, real. Susanna Nicchiarelli)

"2020 brought a new wave that none of us have ridden. From the necessary uprising in the names of George Floyd and Breonna Taylor to confront police brutality and the grieving and fight to survive a pandemic, what can keep us going is the reminder that so much of the pain of capitalism can only be confronted by the desire and urgency of collective power. We are very honored to be a part of Miss Marx, a film by Susanna Nicchiarelli that is a biopic about Karl Marx’s daughter who was an important but often overlooked organizer and writer. She led many women to take up their/our rightful power in socialism. We recorded this version of 'L’Internationale', a communist worker song, an ode to the global struggle and passion for a freedom bigger than ourselves. We also have other songs on the soundtrack including 'Wave of History', 'A Wall', and 'I’m Enough (I Want More)'. In the midst of this year, we are excited that we could be a part of this and may the future be on our side. We drove through Appalachia in a blizzard for 13 hours with a leaky tire to record this single in time. Wouldn’t take it any other way". (aqui)

22 September 2020

A NOITE E A CHUVA

 

No poema “Old Marx”, o polaco Adam Zagajewski escreveu: “He couldn’t concentrate, rewrote old work, reread young Marx for days on end, and secretly admired that ambitious author. He still had faith in his fantastic vision, but in moments of doubt, he worried that he’d given the world only a new version of despair; then he’d close his eyes and see nothing but the scarlet darkness of his lids”. Foi a frase “in moments of doubt, he worried that he’d given the world only a new version of despair” que, há cinco anos, por pouco não impediu Peter Milton Walsh de publicar No Song, No Spell, No Madrigal, o sublime álbum de regresso dos Apartments, após quase duas décadas de ausência. “Esse poema assombrou-me durante imenso tempo. As canções são como janelas – às vezes, alçapões –, as memórias entram a galope e temos de ser capazes de lidar com elas”, disse ele, na altura, a propósito dessa gravação consagrada ao luto pelo filho, Riley.

 

As “new versions of despair” de Peter Milton Walsh não eram coisa nova. Robert Forster descrevia-o como “um homem que deixa suspiros e queixas no seu rasto” e Grant McLennan (o outro Go-Between, banda da qual, fugazmente, Walsh também fez parte) comparava: “Ele é a noite, nós somos o dia. Nós somos o sol, ele é a chuva”. Poucos soldados do escasso exército de sombras que é a sua rede de seguidores dispersos pelo planeta esperariam já esse ressurgimento. E menos ainda apostariam que fossem necessários apenas cinco anos para que Peter Milton Walsh – ele que assegura dedicar grande esforço ao desenvolvimento dos seus “sitting still and keeping quiet talents”, algo que lhe parece “demasiado menosprezado neste mundo” – voltasse a reanimar o tresmalhado ensemble de câmara que lhe serve de alter ego. E, no entanto, com epicentro em Sydney e ramificações em Paris e Londres, eis In And Out Of The Light, belíssimos oito quadros de impressionismo "noir", ensaio de fuga (“Write your way out of town, write your way out of sorrow”) e exercício de aproximação audeniana (“Oh you were so unlike the rest, my North, my South, my East and West, you were so unlike the rest”), que, se, confessadamente, se abeira daqueles “sobre quem toda a vida desabou”, não resiste a cuspir o veneno que tanto intoxica quem o expele como aqueles que atinge: “I like living without you, can’t you see I’m getting by? Except when I’m dreaming or drinking, breathing or sleeping, walking or talking, I don’t give a fuck about you anymore”.

11 August 2020

AGITADORES


No extenso e desvairado menu da esfera conspiranóica, um dos pratos actualmente com mais saída é o do “marxismo cultural”, herdeiro legítimo do “bolchevismo cultural” nazi. Simplificando bastante porque não é de digestão fácil, algures numa obscura caverna, uma seita de temíveis radicais apostados em virar o mundo do avesso, trabalharia dia e noite para manter em frenética actividade os seus agentes espalhados pelo planeta (e, em especial, pelos media, universidades, artes, letras, ciências sociais), soldadinhos da subversão do Ocidente branco e cristão e da militância por causas com as quais, na maioria, Marx nunca sequer sonhou: políticas de género, ambientalismo, imigração, secularismo, questões identitárias. Não basta ser direitolas para combater nas fileiras dos anti-marxistas culturais, é indispensável acreditar que, desta vez, “o espectro” anda mesmo por aí e que, sem darmos por isso, vai devorar-nos as entranhas. 

"New Left Review #2" (álbum integral aqui)

Por, em 1985, terem chegado cedo de mais – o papão do “marxismo cultural” só foi detectado no início dos anos 90 – ou por tenderem para um marxismo mais "old school", os McCarthy de Malcolm Eden, Tim Gane, John Williamson e Gary Baker (Lætitia Sadier juntar-se-lhes-ia fugazmente antes de, com Gane, fundar os Stereolab) nunca caíram no index da nova Inquisição mas, na qualidade de agitadores infiltrados na cultura pop, houve muito poucos como eles. Adepto do distanciamento brechtiano, Eden (a locomotiva ideológica da banda), ao modelo punk de agit-prop irada, preferia as interrogações educadamente irónicas (“Who made the wealth in this pleasant land? The entrepreneurs made it with their only free hand. Why do prices rise? Who's to blame for that? The workers put up prices with their pay demands”) envoltas no doce crochet de guitarras de raiz Byrds/Smiths. The Enraged Will Inherit The Earth (1989) – segundo volume antes do terceiro e final Banking, Violence And The Inner Life Today (1990) –, agora reeditado em duplo vinil com as proverbiais raridades, não há-de escapar outra vez às patrulhas de vigilância.