Showing posts with label Joni Mitchell. Show all posts
Showing posts with label Joni Mitchell. Show all posts

11 December 2024

FAÇO PORQUE QUERO

Em 1972, Ian Matthews era um dos primeiros da imensa diáspora oriunda dos Fairport Convention que, há pouco, se havia iniciado. Por essa altura, enquanto Matthews Southern Comfort, gravara já um álbum homónimo (1969) e, após duas experiências a solo - If You Saw Thro' My Eyes (1971) e Tigers Will Survive (1972) -, dedicar-se-ia à curta existância dos Plainsong: formados no início de 1972 e extintos no final desse mesmo ano, deixariam como testemunho da sua meteórica vida inicial (diversas ressuscitações aconteceriam posteriormente) In Search Of Amelia Earhart, dedicado à pioneira norte-americana da aviação, misteriosa e tragicamente desaparecida em 1937, quando ousava a viagem de circumnavegação aérea da Terra. As homenagens e tributos que, nas mais variadas áreas, lhe foram, desde então, prestados são inúmeros mas, no que à música diz respeito, para além do álbum dos Plainsong, até agora, apenas se registava uma canção de Joni Mitchell, "Amelia", em Hegira (1976) - "Pensava em Amelia Earhart e era como uma piloto solitária dirigindo-se a outra, reflectindo sobre o que custa ser mulher e haver algo que não podemos deixar de fazer", diria Mitchell. (daqui; segue para aqui)

"The South Atlantic" (ft. This Is The Kit)

31 October 2024

UMA INFINIDADE DE SENTIDOS
No penúltimo número da "Uncut", o álbum do mês era Patterns In Repeat, de Laura Marling. 18 páginas à frente, na secção das reedições, a lista era encabeçada pelo 4º volume dos Joni Mitchell Archives, The Asylum Years (1976 - 1980). Para o desenho de um triângulo perfeito, faltaria, talvez, a presença de algo de Marianne Faihfull. Porque, se a relação de intimidade estética entre Laura e Joni sempre foi evidente e claramente confessada ("Se Joni Mitchell não existisse, eu nunca teria existido", declarou Marling em 2017), de modo muito menos claro e explícito mas não menos real, pontos comuns existirão também entre Laura, filha do 5º baronete de Marling ("of Stanley Park and Sedbury Park in the County of Gloucester") e Marianne, baronesa Erisso von Sacher-Masoch. Não apenas na ascendência aristocrática mas, especialmente, na condição de "starlets" adolescentes de perfil folk cujo amadurecimento foi acontecendo muito fora desse perímetro. À "Mojo", Laura Marling deixa muito poucas dúvidas: "Nunca ouvi música folk. Sei que o Bob Dylan e muitos outros provêm do que é, desatentamente, considerada a tradição folk. Mas eu sou o eco, do eco, do eco de tudo isso. Não poderia estar mais distante". (daqui; segue para aqui)

"Caroline"

24 July 2024

(sequência daqui) Não é regra que convites deste género sejam motivo de obras memoráveis mas, diga-se já, All My Friends é uma notabilíssima excepção. Livremente inspirado pelos textos e discuros da sufragista Carrie Chapman Catt, e contando com a colaboração do ensemble de cordas The Knights, do quarteto de metais The Westerlies, do San Francisco Girls’ Chorus, de elementos dos Punch Brothers e da folksinger Anaïs Mitchell, verdadeiramente decisivos foram os soberbos arranjos orquestrais de Tanner Porter que transportam as belíssimas canções magnificamente jonimitchellianas de O'Donovan para o plano de clássicos como American Gothic, de David Ackles. O remate com "The Lonesome Death of Hattie Carroll", de Dylan ("You who philosophize disgrace and criticize all fears, take the rag away from your face, now ain’t the time for your tears") não poderia ser mais perfeito.

24 May 2024

"Flea"
 
(sequência daqui) Claro que St. Vincent não só não ignora como voluntariamente admite que, no seu processo de permanente reinvenção, o exemplo de Bowie foi determinante: "Sempre que gravamos um disco, estamos a subir a fasquia. Olho para os meus heróis e penso: será que o meu trabalho está à altura do deles? Tenho a minha matemática interior para avaliar o que penso ser excelente e o que não é suficientemente bom. Essas fasquias estão constantemente a elevar-se. Quem são esses heróis? É óbvio, Bowie, em termos de inúmeras coisas... como, por exemplo, ser um daqueles artistas capazes de publicar um dos seus álbuns mais absolutamente geniais pouco antes de morrer!" confessou à "Uncut". Não precisou, porém, de multiplicar as assinaturas para que, ao longo dos 6 álbuns anteriores, as diversas personagens emergissem claras e distintas: da (autoclassificada) "Pollyana assexual" de Marry Me (2007) e Actor (2009) à "cult leader" de St. Vincent (2014), à “dominatrix num asilo de loucos” de Masseduction (2017) ou à "besta grotesca" prosteticamente desfigurada de Love This Giant, o álbum que gravou a meias com David Byrne, em 2012. No anterior Daddy's Home (2021), no entanto, em "The Melting Of The Sun", aludindo cripticamente a Joni Mitchell, Tori Amos e Nina Simone, já se interrogava: "Saint Joni ain't no phony (...) Brave Tori told her story (...) Proud Nina got subpoenaed, singing 'Mississippi good goddamn', but me, I never cried, to tell the truth, I lied". (segue para aqui)

14 May 2024

Julia Holter - "Meyou" (feat. Jenny Hval)
 
(sequência daqui) Toque então a campaínha para o início da aula da professora Holter: "Ok, pode ser isso. Mas podemos ver a questão sob vários aspectos. Basta pensarmos, por exemplo, em algumas canções de Bob Dylan... Ou nas canções do Woody Guthrie - que o meu pai Darryl Holter, [historiador do movimento operário norte-americano e "folk singer", que publicou o álbum Radio Songs: Woody Guthrie in Los Angeles 1937-1939] canta - que, sendo tão clássicas, tanto influenciaram o Dylan, sem que isso o tenha impedido de se aventurar em muitas outras direcções. No caso do Woody, aos textos é atribuido o primeiro plano e as considerações propriamente musicais ficam em segundo plano. Mas, se pensarmos na Alice Coltrane ou na Joni Mitchell, são tudo casos e circunstâncias únicos. Podemos sempre abordar a questão de modos diferentes, reflectirmos sobre os vários géneros, formas e estruturas musicais e como isso influencia o caracter da música. Há quem prefira trabalhar no interior de uma estrutura musical pré-estabelecida e quem procure uma total liberdade de movimentos. Mas, em qualquer dos casos, decisiva é a importância de permanecermos criativos, de nos divertirmos enquanto nos debruçamos sobre a música. Tenho consciência de todos estes aspectos mas, quando estou a trabalhar, não penso realmente neles. Encorajo também os meus alunos a reflectirem mas não a fazerem-no interminavelmente". Quase, quase em cima do toque de saída, uma última pergunta para a professora Julia: entre Aviary e Something in the Room She Moves, existe mais contraste ou continuidade? Previsivelmente, a resposta vem com TPC incluído: "Neste último álbum, encontro semelhanças com todos os meus discos anteriores, não penso que se trate de algo radicalmente diferente. Mas esse é exactamente o tipo de assunto que prefiro deixar nas mãos dos críticos de música". (risos)

17 March 2024

Paul Simon no Les Cousins
 
(sequência daqui) Até ao encerramento em 1972, transformar-se-ia no ponto de encontro e centro nevrálgico das cenas folk, blues e tudo à volta da época, para lá convergindo tanto devotos das músicas tradicionais como audaciosos experimentadores do que não era ainda conhecido como "psicadelismo", futuras celebridades ou eternos desconhecidos. Bob Dylan, Joni Mitchell e Van Morrison terão também andado por lá, Nick Drake era visto como "um jovem nervoso que punha o público a dormir", e, conta o guitarrista Mike Cooper, uma noite, tendo-se cruzado à porta com um tipo que era a cara chapada de Tim Buckley, disse-lho. "Mas eu sou o Tim Buckley" respondeu ele. "Sim, sim, e eu sou o Tim Hardin". Era o Tim Buckley.

02 March 2024

"Seed" 

(sequência daqui) Isto passava-se há 12 anos, quando Chapter 1, o seu álbum de estreia acabava de ser publicado. Seguir-se-ia Cocoon (2017) e, nessa altura, já a sua música, por ângulos vários, havia sido associada às de Björk, Joni Mitchell, Sufjan Stevens, Julia Holter e My Brightest Diamond. Agora, com Come Swim, não esquecendo essa genealogia estética, deveria acrescentar-se Virginia Astley à linhagem, bem como Kate Stables (This Is The Kit) e Rozi Plain, ambas participantes deste álbum, espécie de cinemática aguarela subaquática, feita de violinos, clarinetes, flautas, harpas, sintetizadores e "drum loops", crescendos e transparências.

17 September 2023

SEM VÉUS NOS OLHOS

Aparentemente, a atmosfera na Holy Child Convent School, de Dublin, não era tão aterradora como a das masmorras católicas sob o disfarce de orfanatos (em actividade por toda a Irlanda) dirigidas pelas Sisters Of Mercy, sobre as quais Joni Mitchell escreveu e cantou a arrepiante "The Magdalene Laundries". Mas, ainda assim, recorda Clodagh Simmonds, quando ela e Alison O'Donnel foram convocadas a comparecer perante a autoridade do colégio a propósito das actividades musicais a que se dedicavam - advertiram-nas de que a vida não é um sonho e a sabedoria apenas pode ser alcançada com a passagem dos anos e a obediência às regras -, a resposta a isso só viria mais tarde na forma de uma das canções ("Reverend Sisters") que incluiriam no primeiro e único álbum dos Mellow Candle: "All your words and teachings left some imprint on my memory, though I'm sad it had to be this way, as you said we change with every day, Reverend Sisters though I hate to say it, now the veils are lifted from my eyes and I can see". (daqui; segue para aqui)

25 August 2023


(sequência daqui) Indo muito além das melhores expectativas ("Ser capaz de recuperar ao ponto de voltar a poder actuar como músico é verdadeiramente incrível. Habitualmente, usamos a expressão 'voltar ao trabalho' como marcador de uma recuperação funcional com sucesso. Mas muito poucas vezes é um trabalho tão diferenciado: tocar um instrumento, o domínio das cordas vocais, são de uma motricidade tão fina que levam imenso tempo a readquirir", explicou um dos cirurgiões que a seguiu), ver Joni em Newport - 8 660 dias após a última vez que, no seu 55º aniversário pisara um palco - era, uma vez mais, coisa de assombro. Rodeada por Brandi Carlile, Wynonna Judd, Marcus Mumford, Allison Russell, Jess Wolfe, Lucius, Blake Mills e outros tantos, Joni Mitchell - musa/estrela polar -, aos 78 anos inaugurava oficialmente a 5ª vida, participando numa revisão colectiva do seu reportório e ousando mesmo empunhar uma guitarra eléctrica em "Just Like This Train". No capítulo final - 'The Circle Game' -, sintetizaria tudo em modo coral: "We’re captive on the carousel of time, we can’t return, we can only look behind from where we came, and go round and round and round, in the circle game”.

21 August 2023

 
(sequência daqui) Foi, por isso, quase uma surpresa que, a 24 de Junho do ano passado, ela tenha aparecido no palco do Newport Folk Festival. Era, afinal, apenas a sequência lógica das "Joni Jams" que, desde há algum tempo, vinham acontecendo em casa dela, no Laurel Canyon. Incluindo "um círculo de amigos muito especial", por lá passaram, entre vários outros, Herbie Hancock, Paul McCartney, Elton John e Bonnie Raitt. Eram encontros absolutamente informais nos quais, enquanto os diversos participantes iam abordando o reportório de Joni sob todos os ângulos, ela escutava, aqui e ali, experimentava cantar alguns compassos e, lentamente, ia ganhando balanço para voos mais altos. Ao mesmo tempo, procurava reaprender a tocar guitarra vendo vídeos de actuações suas: "Tive de voltar a aprender tudo. Observo videos na Net para descobrir onde devo colocar os dedos na guitarra, procuro decifrar os acordes. É espantoso... Quando temos um aneurisma, não sabemos como fazer para nos sentarmos numa cadeira. Não sabemos como sair da cama. É preciso reaprender tudo. É quase como se tivéssemos regressado à infância", diria numa entrevista â CBS. (segue para aqui)

16 August 2023

 
(sequência daqui) Começou cedo, aos 9 anos, quando a poliomielite a deixou paralisada.: "A minha coluna estava toda deformada, parecia um comboio após um acidente ferroviário. Era incapaz de andar", contaria ela quando, 40 anos mais tarde, o que a medicina designa como síndroma pós-polio - que pode afectar os sobreviventes do primeiro surto da doença cerca de 15 a 40 anos depois - voltou a atormentá-la com extrema fadiga física e fraqueza muscular . "Tenho de conservar a minha energia. É como aqueles coelhinhos nos anúncios de pilhas eléctricas. Eu sou o que está quase a cair, não o que continua sem parar, infatigável". Pelo caminho, teria ainda de lidar com a doença de Morgellons - uma dermopatia de etiologia desconhecida e, possivelmente, do foro mental - e, como se isso não fosse mais do que suficiente, quando em 31 de Março de 2015 foi encontrada inconsciente em casa, ser-lhe-ia diagnosticado um aneurisma. Há 2 anos, comentaria: "Penso sempre que a poliomielite foi um ensaio para o resto dos meus dias. Tive de regressar à vida várias vezes. E esta última foi um abalo a sério. Mais uma vez, não conseguia andar. Tive de reaprender a fazê-lo. Não conseguia falar. A poliomielite não me atingiu de modo tão violento, o aneurisma foi muito pior. A fala regressou depressa mas ainda me é difícil caminhar. Mas que raio!... Tenho sangue irlandês e não desisto sem dar luta! Lá vou coxeando pelo caminho, e tudo há-de ficar bem". (segue para aqui)

14 August 2023

A QUINTA VIDA

Joni Mitchell é, declaradamente, uma irremediável gatófila. Na capa de Taming The Tiger (1998), já nos havia dado a conhecer, pintado por ela, o belíssimo abissínio, Nietzsche ("A little lavender lion who looks like an alien and walks on his hind legs as an expression of affection for me") e, aquando da publicação de Joni Mitchell Archives Vol 1: The Early Years (1963-1967), numa entrevista com Cameron Crowe publicada no "Guardian", em Outubro de 2020, era-nos apresentado Bootsy, um muito jovem laranja que, após ter-se esgueirado para o jardim de Joni pela meia noite da véspera como candidato a residente permanente, estava prestes a consegui-lo. Talvez tenha sido por via dessa intensa afinidade que Joni terá adquirido as lendárias nove vidas felinas das quais tem disposto tão liberal quanto parcimoniosamente. (daqui; segue para aqui)

29 January 2022

"I’ve decided to remove all my music from Spotify. Irresponsible people are spreading lies that are costing people their lives. I stand in solidarity with Neil Young and the global scientific and medical communities on this issue" (Joni Mitchell)

14 January 2022

"You Can Close Your Eyes" (c/ James Taylor - Peel Session, no Paris Theatre de Londres)
 
(sequência daqui) Assaz ironicamente, porém, a faixa de abertura do primeiro CD deste ilustríssimo exemplo da museologia musical inaugurada pela “Bootleg Series”, de Bob Dylan, assinala um indiscutível falhanço: "Midnight Cowboy", escrita para a banda sonora do filme homónimo de John Schlesinger, acabaria preterida a favor de "Everybody’s Talkin’", de Harry Nilsson. Por essa altura, ela poderia ver-se como símbolo de uma geração de "singer-songwriters" agudamente confessionais, expondo-se publicamente “como um saco de celofane cheio de orgãos humanos com um coração a bater no meio”. Mas esse lado magoadamente “sensível” não a impediria de, perante a multidão ostensivamente desatenta do festival da Ilha de Wight de 1970, ter desabafado, sem pesar as palavras: “Parem de se comportar como turistas. Vá lá, mostrem algum respeito!