Não é, de certeza, um exagero afirmar que se vivem tempos interessantes na música popular portuguesa. E, coisa que já seria muito menos previsível, tanto na área mais habitualmente bafejada pelas atenções dos media – a do pop-rock e adjacências – como naquela outra, descendente directa ou bastarda dos diversos cantautores clássicos e suas afinidades particulares, mais ou menos pronunciadas, pela tradição popular nacional. Os grandes responsáveis históricos pelo surgimento deste novíssimo filão exigem ser nomeados: por um lado, os Gaiteiros de Lisboa com a sua formidável iconoclastia e festiva erudição; por outro, a Sétima Legião que, com Sexto Sentido, desbravaram o território onde música moderna e arcaísmos remotos conviviam e se articulavam de forma natural e esteticamente consistente.
Com descendência mais ou menos interessante (dos Megafone à Naifa), é hoje que, verdadeiramente, os frutos começam a amadurecer e se pode escolher entre colher do neo-realismo pícaro dos Deolinda, do caldeirão transcultural dos OqueStrada, do folclorismo transviado dos Diabo na Cruz ou, agora também, do cocktail literalmente transatlântico dos açoreanos Bandarra. É obrigatório reconhecer que, para a estreia, dificilmente poderiam ter optado por melhores guias: Carlos Guerreiro (Gaiteiros de Lisboa) e Luís Varatojo (Despe & Siga, Naifa), na qualidade de produtores, e António Pinheiro da Silva como purificador sonoro. O resultado, se não é uniformemente excelente – uma ou outra escorregadela para algum excesso de populismo poderiam ter sido evitadas –, não deixa, no entanto, de prometer feitos de maior relevo nesta entusiasmada conflagração de fado e tango, pop e ska, transpiração cigana e textos de saboroso sarcasmo ilhéu. Ponhamos, então, as coisas nestes termos: com um dois ajustes aqui e ali, poderemos muito bem estar perante um conjunto de gente capaz de vir a pisar o mesmo palco dos Gogol Bordello e não saír de lá envergonhado.
(2010)
12 May 2010
PORTUGUESE SLOW FOOD
The Soaked Lamb - Hats & Chairs
Como (não) é imediatamente evidente, The Soaked Lamb é o tipo de tradução que, naturalmente, resultará se escrevermos “ensopado de borrego” num qualquer Babel Fish desta vida. O que será logo um indício de que os autores de Hats & Chairs têm uma elevada probabilidade de ser portugueses. São. Mais exactamente, segundo os próprios, “uma ditadura de seis pessoas” executantes de sax, guitarra, ukulele, banjo, lap steel, contrabaixo, piano, órgão, clarinete, trompete, concertina, bateria e percussões, de acordo com um programa estético convivial: “os blues como anfitrião e muitos convidados, como o swing, o ragtime, o jazz, e até uma valsa que ficou para o café”.
Na verdade, estão para esta descendência da "old-time music" como os OqueStrada para as variedades lusas: se estes apuraram o paladar entre refogados e gindungo, os Soaked Lamb preferem a "jambalaya", o "chicken fried steak" e a "pecan pie". Metafórica e musicalmente, claro. Nos temperos, entram Tom Waits, Nina Simone, Screamin’ Jay Hawkins, Chavela Vargas e Colette Magny, entre muitos outros, que eles gostam de pitéus "hot & spicy". Ainda bem que não é "nouvelle-cuisine".
(2010)
05 April 2010
ALMA DANADA
Galandum Galundaina - Senhor Galandum
Muito poucas coisas serão inteiramente más ou inteiramente boas. Em si mesmas e nas consequências que delas possam decorrer. Por exemplo, o nacionalismo, essa encarnação tardia (e, supostamente, sofisticada) do tribalismo. Mais ou menos xenófobo ou "racista", de tonalidades patrioteiro-futebolísticas ou "libertadoras", combustível para massacres, desenhos de fronteiras a sangue e limpezas étnicas, devemos-lhe também, no entanto, algumas das melhores obras chocadas no viveiro dos "nacionalismos musicais" que, do início do século XIX até à actualidade, por via erudita – a dos Glinka, Mussorgsky, Bartók, Dvořák, Kodály, Copland ou Lopes Graça – ou através dos sucessivos "folk-revivals" assentes nas recolhas dos vários Lomax, A.L.Lloyd e Giacometti deste mundo, se aplicaram na busca das míticas “almas nacionais” que, por contaminação ideológica romântica, haveriam, forçosamente de residir na "pureza" dos ritmos, harmonias e melodias das gentes "simples" do campo. A invenção do conceito de "world music", em 1987, trataria, finalmente, de globalizar todos os patrimónios musicais "tradicionais" e de, nesse mesmo processo, os colocar disponíveis para mil outras reconfigurações e desejáveis esquartejamentos.
Às mãos dos Gaiteiros de Lisboa, de Amélia Muge, da Sétima Legião, dos Vai de Roda, dos Oquestrada ou dos Chuchurumel, a "alma nacional" portuguesa já foi objecto de inúmeros safanões e aditamentos nos registos de identidade, a todos tendo ficado eternamente em dívida pelo enriquecimento que daí, invariavelmente, resultou. À lista dos credores haverá de acrescentar-se, agora, o nome dos Galandum Galundaina que, após o anterior Modas i Anzonas (2005), neste Senhor Galandum propõem mais uma magnífica tradução contemporânea e sem demasiadas cerimónias "autenticistas" da música popular tradicional do nordeste raiano. Sim, a matriz é trasmontana e mirandesa, de vozes, gaitas, fraitas e tamboris, mas acolhe sem alergias as charrascas galegas, o kaval húngaro, as rabecas, a dulçaina, as sanfonas, os bendirs, as vozes de Sérgio Godinho e Uxia e a remix do DJ Hugo Correia. E, atentem bem, poderia existir tema mais vibrantemente actual do que a vida sexual do clero, exemplificada pela história do cura que emprenhou a criadita a quem nasceu “un curica com gorro i sotaina”? Ou a do outro santo clérigo, borracho e devasso – talvez compincha do "Fraile Cornudo" –, que exigiu ser enterrado no carreiro do cemitério “para ber las fraldas a las mulhieres!"?... Se isto são velharias "folclóricas", vou ali e já venho.
Quando, em 1989, os Tina & The Top Ten se apresentaram como "the first all portuguese fake american rock’n’roll band", o caldo de cultura de então na pop-rock portuguesa possuía o equilíbrio de microorganismos exactamente adequado para que o gesto de João Paulo Feliciano (aliás, Dr. Top), Tina Costa, Johnny "Scratch" Money, Captain M. D., Lee "Beaty" Deasy, Cosmic Rita e Plastic Mimi pudesse ser facilmente interpretado enquanto acto de ironia arty, um "scherzo" conceptual em torno das velhas categorias do "autêntico" e do "falso", encenado, de princípio a fim, como se, por um golpe de magia, num universo alternativo, os Sonic Youth – com quem, para adensar a trama do argumento, os T&TTT viriam a estreitar relações e a actuar conjuntamente, em 1993, no Campo Pequeno, em Lisboa – tivessem nascido para o mundo não em Nova Iorque mas algures entre Lisboa e as Caldas da Rainha. E uma das razões porque, nessa altura, não existiriam muitas dúvidas acerca do sentido estético da banda era o facto de, à época – dos GNR aos Mler Ife Dada, dos Rádio Macau aos Pop Dell’Arte – ser absolutamente insólito pretender simular-se uma identidade pop com registo de nacionalidade diferente daquele que o BI exibia.
Nada de extraordinário, afinal: das cantigas de amigo medievais, ao fado, ao amarrotado nacional-cançonetismo ou à geração imediatamente anterior dos cantautores como José Afonso, Sérgio Godinho ou José Mário Branco, a norma “espontânea” (em todas as suas infinitas variações e contaminações) sempre foi a de, com maior ou menor dose de tempero patrioteiro, se compor e interpretar música portuguesa e em português. É, talvez, por isso, que soa um pouco bizarra alguma perplexidade actual perante a inevitabilidade de, após o curto interregno de domínio anglófono iniciado pelos Silence 4 em meados da década de 90, a pop lusa – essencialmente, através das independentes FlorCaveira e Amor Fúria, mas não exclusivamente – ter voltado a proferir frases como “beijas como uma freira” em vez de portentosos absurdos do género “I will build my world, I will sing my songs, I will keep my helmet on”. E duplamente interessante é também, neste preciso instante, darmos com o regresso de João Paulo Feliciano, desta vez, ao leme do Real Combo Lisbonense.
O manifesto/declaração de princípios (com contextualização histórica incluída: “Num mundo em transformação a um ritmo cada vez mais acelerado, corremos o risco de deixar, irrecuperavelmente, para trás muitas marcas, objectos e tradições da maior importância para a preservação da nossa identidade. Na música, uma das tradições que lamentavelmente se perdeu foi a das orquestras e conjuntos que, em meados do século XX, animavam os casinos, hotéis, bares e restaurantes das principais metrópoles ocidentais. Lisboa não era excepção – apresentava, nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial, uma cena viva de espaços dedicados ao convívio e à dança”) não podia ser mais sério, reivindicando-se dos “clássicos de sempre e pérolas perdidas da música portuguesa”, das “tradições da canção ligeira e romântica”, dos “sons e ritmos oriundos da América do Sul”, do “ twist, (d)o yé-yé e (d)o rock’n’roll”.
E, sem se rir, João Paulo (Hammond, piano, guitarra), Ana Brandão (voz), Bernardo Barata (baixo), Ian Mucznik (voz, guitarra, percussões), João Leitão (guitarra), João Pinheiro (bateria), Márcia Santos (voz, percussões), Mário Feliciano (Farfisa, percussões, voz), Rui Alves (percussões, voz), Sérgio Costa (piano, piano eléctrico, flauta, saxofone) e Tomás Pimentel (trompete, fliscorne), numa atitude “congregadora, transgeracional, transsocial e transcultural”, apelam a que “novos e menos novos, ricos, pobres e remediados”, dançando, participem da “recuperação de algo vital, de manifesto interesse, que se perdeu nessa corrida desenfreada do progresso que tudo atropela e tudo faz esquecer”. Traduzindo: aquilo que, em versão caricatural, Os Tornados, de Twist do Contrabando (ed. Arthouse/Valentim de Carvalho), ensaiam e os OqueStrada, de Tasca Beat, cinematizam e gloriosamente baralham, o Real Combo Lisbonense, assumindo a pose de "first all portuguese fake fifties dance band", junta as pontas soltas do imenso baú de tesouros que as edições Portugal Deluxe começaram a revelar (e que, no plano internacional, a monumental enciclopédia Ultra Lounge arrancou das trevas), puxa o lustro a meia dúzia de suaves frivolidades de Eugénio Pepe, Frederico Valério, Artur Ribeiro, Carlos Canelhas, Byron Gay e Mário Simões (o insano surrealismo de casino de "A Borracha do Rocha") e, tão naturalmente como quem, todos os dias tropeça em Thurston Moore à porta da tabacaria, projecta-as como novas para o enorme coreto do arraial pós-neo-alter-moderno do admirável mundo velho.
(2009)
07 June 2009
BOUILLABAISSE
OqueStrada - Tasca Beat: O Sonho Português
Desfazendo, de imediato, hipotéticas confusões: se os Deolinda se diriam directamente extraídos de uma sequência de O Pátio das Cantigas, os OqueStrada apenas poderiam ser personagens e autores da banda sonora de um filme realizado pelo Kusturica da melhor época, rodado entre Paris, Lisboa, Nova Orleães, Buenos Aires e Cabo Verde, segundo argumento de Pedro Almodovar.
É importante a distinção porque, naquele tipo de escuta desatenta – embora, neste caso, tivesse de ser extraordinariamente desatenta – em que os "marketeers" gostam de confiar, não seria impossível chegar a imaginar que uns surgem à boleia do sucesso dos outros. Falso, falso, falso. Não só a história dos OqueStrada conta já uns respeitáveis sete anos de vida de saltimbancos mundo fora, como a sua surreal "bouillabaisse" sonora é algo de absolutamente singular:
levados pela mão e pela voz de Miranda – provável nome próprio, Carmen, admirável e camaleónica criatura capaz de interiorizar diversas personalidades simultaneamente e em sucessão –, inventam, desvairadamente, no espaço de uma só canção, tangos/musette, mornas/flamenco, fados balcânicos e bossas/ska, saltam, sem tropeçar, do português para o crioulo e deste para o castelhano, o inglês ou o francês (com regresso à casa de partida), trocam, num segundo, a máscara de Billy Idol pela de Roberta Flack e, qual filarmónica "on acid", Pablo, Lima, Zeto e Donatelo engendram, finalmente, aquilo em que, quem inventou o termo "world music", só podia mesmo estar a pensar.