Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.
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14 October 2020
HEMORRAGIA LENTA
Na lista das experiências formativas essenciais, Tom Waits inclui ter sido empregado de mesa, em San Diego, na Napoleone's Pizza House: “O que San Diego tinha de bom era haver muitas lojas de tatuagens. Tenho o mapa da Ilha de Páscoa nas costas. E o menu completo da Napoleone's Pizza House na barriga. Quando lá trabalhava, a partir de certa altura, desistiram de imprimir os menus. Eu ia até às mesas e levantava a camisa”. Matt Berninger não anda muito longe disso quando recorda como, nos anos 80, era entregador de pizzas, em Cincinnati: “Fazia pouco mais do que viajar pela cidade, fumando e ouvindo uma estação de rádio, a 97X, Foi o emprego mais musical que tive”. E, à “Uncut”, acrescenta: “Depois, trabalhei num campo de golfe, como cortador de relva, e ouvia os Smiths, enquanto aqueles imbecis ricos tentavam acertar-me com as bolas. Foi a minha educação musical”.
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