"French artist JR is one of the few who has done well over the past year, exhibiting his large-scale trompe l’oeil photographic installations in Paris and São Paulo. In his most recent installation in Florence, JR makes a striking visual commentary on 'the adversities that cultural institutions — including museums, libraries, and cinemas — have faced over the past year' (...). Called La Ferita ('The Wound' in Italian) and 'measuring 28 meters high and 33 meters wide, this optical illusion creates a ‘crack’ in the exterior' of the Palazzo Strozzi, 'so that viewers can see masterpieces like Botticelli’s Birth of Venus and Primavera'" (aqui; ver também aqui)
26 May 2020
O AZUL DISTANTE
Quando, no dia seguinte a ter estado presente numa reunião da Socialist League, William Guest acorda, descobre-se, inesperadamente, num mundo maravilhoso onde não existem propriedade privada, sistema monetário, tribunais, casamentos, prisões, nem autoridade, e toda a estrutura social assenta na propriedade comum dos meios de produção. Porém, tal estado de felicidade não se atingira através da industrialização e do progresso tecnológico que libertaria a humanidade do pesado fardo do trabalho mas pelo regresso a uma idílica sociedade agrária respeitadora da natureza, na qual toda a actividade deveria ser livre, criativa e fonte de prazer. Durante a sua deslumbrada viagem de barco pelas águas límpidas do Tamisa, vai descobrindo igualmente que a Hammersmith Bridge que sempre conhecera feita de aço fora substituida por outra, em pedra, mais bela que a Ponte Vecchio de Florença, o barqueiro que o conduz veste-se à maneira do século XIV, a fétida Manchester fora apagada do mapa, e, de um modo geral, tudo à sua volta se parecia com uma tela de Bruegel.
Muito resumidamente, é este o enredo, situado em 2102, de News From Nowhere (1890), o romance de ficção política do escritor, socialista e figura central do movimento Arts & Crafts, William Morris, que, em Electric Eden, Rob Young cita, observando: “A mente britânica, até certo ponto, não parece ser capaz de imaginar o futuro senão sob a forma do passado”. Justamente aquilo que poderia dizer-se acerca de The Weight of the Sun, terceiro tomo do quarteto Modern Studies. O que, no caso, não é sequer depreciativo: essencialmente pastoral e bucólico, o álbum da banda de Emily Scott, Rob St. John, Joe Smillie e Pete Harvey (gente com pedigree do conservatório, ao rock, à folk, e à "sound art"), gerado entre o Lancashire e a Escócia, não fecha as portas ao presente mas, na sua equação de “classicismo e experimentalismo com uma canção pop no meio”, escutam-se distintamente ecos dos Fairport Convention (revistos pelos Stereolab), dos Velvet Undergound ("Sweet Jane" a viver numa eterna "Sunday Morning") ou do "chiaroscuro" dos Elysian Fields e Mazzy Star. Uma folk de câmara, outonal e suavemente psicadélica, impressionista e de harmonias tangenciais, a dar corpo às palavras de Rebecca Solnit que, em "The Blue Of Distance", evocam: “The world is blue at its edges and in its depths. This blue is the light that got lost”.
09 January 2020
Ecco la Primavera: Music from 14th Century Florence - Early Music Consort of London (dir. David Munrow)
"Like the whole antiquarian business, Early Music is a 20th century phenomenon. After two world wars, we're not very keen on looking into the future. We prefer to look back at what, superficially at any rate, look like brighter and simpler times. Of course, that's a vast illusion. We like to enjoy our early music in a world that has lavatories and central heating, don't we?" (David Munrow, numa entrevista à "Gramophone" de Maio de 1974, citado por Rob Young em Electric Eden)
"Na Pastelaria Suíça, uma empregada de balcão narrava as aventuras da colega que se escapuliu em excursão a Roma, Nápoles, Florença, Veneza, sabe deus que mais. E de repente, como nos maus romances, o meu coração encheu-se de alegria por essa outra empregada de balcão desconhecida, inacessível às sentenças dos basbaques do regime, que cagou do alto em exortações sovinas e virtudes fraldiqueiras e se atreveu a conhecer o mundo como uma Lou Andreas Salomé das classes procriadoras, e a pousar em Roma e a descobrir Florença e, em Rialto, a emudecer" (Fondamenta degli Incurabili)