A desproporção de forças entre a multidão de retrocompulsivos e – em frente unida na outra trincheira – classicistas, reconfiguradores e franco-atiradores, é imensa. E não dá sinais de, nos próximos tempos, vir a alterar-se muito. Mas isso não bastou para impedir que, como invariavelmente acontece, fosse possível, durante doze meses, ir alinhando um programa de audições não irremediavelmente engatado em marcha-atrás. Se a Shaking The Habitual deve ser atribuído o destaque de objecto sonoro não identificado, June Tabor integrada nos Quercus abriu mais uma janela por onde a tradição, coabitando com o jazz contemporâneo, respira ar fresco (o que, de outros vários modos, também aconteceu em Son of Rogues Gallery). Reordenando as peças do puzzle, British Sea Power, These New Puritans, Midlake, Vampire Weekend, Broadcast, Anna Calvi e, sotto voce, Laura Marling, apresentaram provas indiscutíveis de como a legibilidade não tem de ser, obrigatoriamente, redundante. O resto, no índice do último ano antes do primeiro sem Lou Reed, foi óptimo labor clássico.
* a ordem é razoavelmente arbitrária...
23 December 2013
The Knife - "A Tooth For An Eye"
26 April 2013
THE KNIFE - SHAKING THE HABITUAL (The Interview)
23 April 2013
DING DONG!
Red Wedge Tour
“When England was the whore of the world, Margaret was her madam”, escreveu e cantou Evis Costello em "Tramp The Dirt Down" (sétima faixa de Spike, publicado em Fevereiro de 1989), um dos mais fétidos vómitos de ódio alguma vez vertidos por um autor pop sobre uma figura política. Invectivando Margaret Thatcher por ela, aparentemente, supor que todo o povo inglês lhe deveria estar grato, “look proud and pleased, because you've only got the symptoms, you haven't got the whole disease”, Costello enterrava o punhal até ao fundo e não pesava as palavras: “I hope I don't die too soon, I pray the Lord my soul to save, oh I'll be a good boy, I'm trying so hard to behave, because there's one thing I know, I'd like to live long enough to savour, that's when they finally put you in the ground, I'll stand on your grave and tramp the dirt down”. O fel já fermentava há muito: no rescaldo da Guerra das Falklands/Malvinas (o tal arquipélago que Adrian Mole só a custo conseguiu descobrir no mapa, debaixo de uma migalha de bolo), em Punch The Clock (1983), "Pills And Soap", sibilava ameaças, entre dentes (“The sugar coated pill is getting bitterer still, you think your country needs you but you know it never will”), e "Shipbuilding", oferecida à voz desencarnada de Robert Wyatt, era um requiem envenenado.
The Specials - "Ghost Town"
Não foi a metralha cultural pop a afastar Thatcher do poder mas Costello esteve muito longe de ser o único a quem a personagem de valquíria (do nórdico arcaico, "a que escolhe os que irão morrer") socialmente devastadora de Thatcher despertou pulsões vingadoras: em Viva Hate (1988), Morrissey, docemente, insinuava “The kind people have a wonderful dream, Margaret on the guillotine”, The Beat reivindicavam 'Stand Down Margaret', Pete Wylie e os Hefner sonhavam com 'The Day That Thatcher Dies', e os Pink Floyd, Specials, The The ou o colectivo Red Wedge (vários dos anteriores mais Billy Bragg, Paul Weller, Jimmy Somerville, Lloyd Cole e diversos outros) agitaram quanto puderam. Já na altura, contudo, Costello não tinha dúvidas: “Podemos supor que uma canção contém algum potencial de mobilização mas isso pouco significa se estivermos a cantar para um grupo de pessoas que já comunga dos nossos pontos de vista. É a forma como o fazemos que importa”.
The Knife - "Full Of Fire"
É exactamente isso que, em contexto cultural inteiramente distinto, continua, agora, a preocupar o duo sueco The Knife, que, no monumental duplo Shaking The Habitual, afirma desejar “investigar o que poderá ser, hoje, uma canção de protesto: poderá ela integrar diferentes perspectivas sobre o mesmo tema, em vez de propor uma resposta?” A realidade, porém, tê-los-á esclarecido bem mais depressa do que esperariam: a canção que, para os seus eternos opositores, celebra – com a previsível controvérsia –, o desaparecimento de Thatcher é "Ding Dong! The Witch Is Dead", da banda sonora do filme O Feiticeiro de Oz. Apressadamente reeditada no dia seguinte à morte da ex-primeira ministra, em seis dias, atingiu o 2º lugar do top de singles da BBC Radio 1. A polissemia pop ou, se preferirmos, o "détournement" situacionista, são inesgotáveis.
02 January 2011
MÚSICA 2010 - INTERNACIONAL (III) (iniciando-se, de baixo para cima *, de um total de 20)
Não existiu, de certeza, um único ano na ainda curta história da música gravada (pouco mais de um século) acerca do qual se pudesse garantir que seria impossível seleccionar, pelo menos, dez discos capazes de permanecer longamente na memória. E, ainda que, no grande plano cósmico para a música das esferas, não assinalassem nenhum momento particularmente significativo, deles houve sempre matéria sonora suficientemente estimulante a retirar para a lubrificação do canal auditivo. 2010 deixa-se, facilmente, arrumar nesta última categoria despretensiosa mas decente e honesta. O que, se repararmos que, no top-10, poderiam também ter figurado, sem cunhas, The Divine Comedy, Johnny Flynn, Elvis Costello, The Magnetic Fields, Efterklang, The Walkmen, Fanfarlo ou Bonnie “Prince” Billy, ajuda a compreender como, com crises ou sem crises, a música é sempre uma fonte de energia renovável.
*a ordem é razoavelmente arbitrária...
(2011)
06 April 2010
TOMORROW, IN A YEAR - ENSAIOS NO ROYAL DANISH THEATRE (sequência daqui)
(2010)
29 March 2010
TERRA INCÓGNITA
The Knife in collaboration with Mt. Sims and Planningtorock - Tomorrow, In A Year
“Posto que muitos pontos sejam ainda bastante obscuros e assim ainda permanecerão durante muito tempo, vejo-me, contudo, após os estudos mais profundos e uma apreciação fria e imparcial, forçado a sustentar que a opinião defendida até muito recentemente pela maioria dos naturalistas, opinião que eu próprio partilhei, isto é, que cada espécie foi objecto de uma criação independente, é absolutamente errónea. Estou plenamente convencido que as espécies não são imutáveis; estou convencido que as espécies que pertencem ao mesmo ‘género’ derivam directamente de qualquer outra espécie ordinariamente distinta, do mesmo modo que as variedades reconhecidas dessa espécie, seja qual for, derivam directamente dessa espécie; estou convencido, enfim, que a selecção natural tem desempenhado o principal papel na modificação das espécies”.
Escrita, em 1859, na introdução de Sobre a Origem das Espécies por Meio da Selecção Natural, este é o género de declaração que permite, sem dúvida, afirmar que, se Deus morreu, Marx morreu e nós próprios não nos sentimos mesmo nada bem, Charles Darwin, esse, não poderia estar mais vivo. E – como uma inquietante multidão de criacionistas parece apostada em demonstrá-lo todos os dias – ainda muito capaz de continuar a provocar tumultos e sobressaltos num mundo em que o pensamento pré-científico permanece mais enraizado do que gostaríamos de imaginar. Daí que, todas as celebrações que ocorreram em 2009, por ocasião do 150º aniversário da publicação da obra fundadora do neto do não menos fascinante Erasmus Darwin, não tenham sido demais. Muito em particular, aquelas que aconteceram fora do âmbito estritamente científico, como é o caso deste Tomorrow, In A Year, ópera/performance encomendada pela companhia de teatro dinamarquesa Hotel Pro Forma ao duo electro sueco The Knife.
Estreada em 2 de Setembro passado no Teatro Real de Copenhaga e dirigida por Ralf Richardt Strøbech and Kirsten Dehlholm, pretendia mostrar “o mundo visto através dos olhos de Charles Darwin” e, ao mesmo tempo – tomando “o género operático como DNA” –, investigar “as relações entre imagem, narrativa, movimento e música” no sentido da criação de “uma nova espécie de electro-ópera”. O terreno, evidentemente, não é virgem: desde United States I-IV, de Laurie Anderson, às colaborações de David Byrne ou Tom Waits com Robert Wilson, os caminhos da ópera e da pop-e-tudo-à-volta, para o melhor e para o pior, já se cruzaram um razoável número de vezes. Mas, provavelmente, um tal projecto não terá sido nunca entregue aos cuidados de alguém como Olof Dreijer (a metade masculina de The Knife, irmão da outra metade, Karin Dreijer Andersson) que, candidamente, confessa “nunca ter assistido a uma ópera e desconhecer mesmo o que a palavra ‘libretto’ significava”.
Não foi, porém, obstáculo inultrapassável. Olof e Karin aplicaram-se na escuta de Meredith Monk, Luigi Nono, Diamanda Galas, Joan La Barbara, Klaus Nomi, Penderecki e Stockhausen, muniram-se de "field recordings" de sons da Amazónia e Islândia, desmembraram e atonalizaram radicalmente o perfil musical que lhes conhecíamos de Silent Shout ou da aventura colateral de Karin, Fever Ray, recorreram às vozes da cantora lírica Kristina Wahlin, da actriz Laerke Winther e do singer-songwriter Jonathan Johansson, praticaram um exercício de quase "cut-up" sobre os textos de Darwin, e – não esquecendo que apenas temos acesso ao registo sonoro de um espectáculo de teatro, dança e música – edificaram uma obra literalmente monumental de música electrónica-concreta-electro-pop que reinvindica ser digerida em regime de dedicação exclusiva. Não de forma tão extrema como (as proto-óperas) Tilt ou The Drift, de Scott Walker (aqui, ainda se encontram bússolas orientadoras para esta expedição por terra incógnita) mas não menos exigente do que a aventura do Beagle.
(2010)
10 March 2010
SE O ROCK-FM, XUNGA E OLEOSO, PERMANECE VIVO (SORT OF) DEVE ENVIAR OS AGRADECIMENTOS AOS TITTY-BARS DA AMÉRICA PROFUNDA
... mas Bubbles Burbujas, uma stripper com pinta que teoriza sobre o facto de o "rawk" ter sido "the music of the titty bar for 30 years, and someone is going to keep making it. It's the music of good times! and bar fights! And male bonding through the homoerotic experience of the stripper-proxy lapdancing for your friend!", também vê potencial na música dos Yeah Yeah Yeahs, Neko Case, Animal Collective e The Knife. (daqui)