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26 August 2012


Van Morrison - "Moondance"


Neko Case - "I Wish I Was The Moon"


Echo & The Bunnymen - "The Killing Moon"


David Bowie - "Moonage Daydream"


Audrey Hepburn - "Moon River"

07 June 2011

UMA TARTE DE MAÇÃ



Alela Diane & Wild Divine - Alela Diane & Wild Divine




Fleet Foxes - Helplessness Blues

Dois dias antes do 70º aniversário de Bob Dylan – celebrado no passado 24 de Maio –, o “Observer” decidiu inquirir uma série notáveis da música e outras artes acerca de qual o presente que achariam mais apropriado para lhe oferecer. As propostas foram, previsivelmente, assaz diversas: Martin Carthy (recordando um episódio ocorrido no Inverno de 1962 entre ambos) sugeriu um piano e uma espada de samurai para despedaçar o piano e o usar como lenha para a lareira nas noites frias; Isobel Campbell pensou numa camisa de seda e num par de sapatos italianos; Chrissie Hynde lembrou-se de um jogo de dardos (“por nenhuma razão especial: suponho que ele gostaria”); e Alela Diane, imaginando sensatamente que ele poderá comprar tudo aquilo que quiser, optou pelos valores básicos e seguros: uma tarte de maçã que confeccionaria segundo a infalível receita da mãe. E explicou-se: “A música folk, na sua essência mais profunda, foi criada para as pessoas conviverem à sombra do alpendre e eu associo a tarte de maçã a esse tipo de comportamento. Suponho que a vida do Bob Dylan, nestes últimos tempos, se tenha tornado muito mais simples e que, no dia de anos, lhe saiba bem sentar-se no alpendre e fazer o que lhe apetecer. Como companhia, uma tarte de maçã será tudo o que precisa”.



A música que emergiu do que foi baptizado como "new weird America" (padrinho do baptismo: David Keenan, no número de Agosto de 2003 da “Wire”), "free-folk", "psych-folk" ou "freak-folk" não foi, assim, senão um ensaio do regresso da boa velha tarte, mais ou menos condimentada com temperos psicotrópicos, e preparada de acordo com uma interpretação livre dos antiquíssimos preceitos recuperados das tradições britânica e norte-americana. Que, agora, quase dez anos depois, e após a poeira ter assentado suficientemente, permite distinguir com maior facilidade os folqueiros de fim-de-semana (aqueles que apreciavam travestir-se de descendentes híbridos de Jesse James e feiticeiros comanches com uma costela de bardo celta) dos outros que, verdadeiramente, reinventavam e retomavam o fio da história no ponto em que – sem nunca, de facto, ter sido interrompida –, há trinta e tal anos, ficara suspensa. Por motivos de proximidade geracional e geográfica, inicialmente, Alela Diane foi associada a algumas das cintilações da seita neo-hippie, caso, por exemplo, de Joanna Newsom.



Mas, com The Pirate’s Gospel (2006) e To Be Still (2009), tudo ficaria devidamente esclarecido: a ascendência poderia ter ramos comuns mas o que dela resultava era, afinal, uma novíssima e valiosa voz de songwriter bem mais afim de Neko Case ou Jolie Holland (ou, recuando até às origens, Sandy Denny) do que de míticas lambisgóias “celtas”. Alela Diane & Wild Divine (a saber: ela e banda acompanhante que, em registo de "family affair", inclui o pai e o marido), sem exibir tremendas alterações no perfil musical reconhecível, encorpa sensivelmente a sonoridade das óptimas canções – o produtor Scott Litt, com CV ao lado dos R.E.M., Nirvana e Patti Smith, terá modificado dois ou três parâmetros – e aproxima-as dos igualmente recomendáveis padrões de Neil Young ou Richard & Linda Thompson, povoadas de inquietantes recados como “death is a hard act to follow” ou “we are hopeful, we are scattered, we are dust”.



Genuína emanação da cena "freak-folk", os Fleet Foxes, pelo seu lado, mantém inalterada a faceta menos digerível da genealogia – a da chinela “poética” que os obriga a, sem se rirem, formularem portentosas interrogações do gènero de “why is the Earth moving around the sun? why is life made only for it to end?” – mas como, muito mais do que canções, o que eles criam são majestosas catedrais de remoinhos corais que ampliam desmedidamente a matriz Beach Boys-CSN&Y-Simon & Garfunkel, “Helplessness Blues” não deixa de ser uma tentadora peça de dulcíssima massagem auditiva.

(2011)

10 March 2010

SE O ROCK-FM, XUNGA E OLEOSO,
PERMANECE VIVO (SORT OF) DEVE
ENVIAR OS AGRADECIMENTOS AOS
TITTY-BARS DA AMÉRICA PROFUNDA




... mas Bubbles Burbujas, uma stripper com pinta que teoriza sobre o facto de o "rawk" ter sido "the music of the titty bar for 30 years, and someone is going to keep making it. It's the music of good times! and bar fights! And male bonding through the homoerotic experience of the stripper-proxy lapdancing for your friend!", também vê potencial na música dos Yeah Yeah Yeahs, Neko Case, Animal Collective e The Knife. (daqui)

(2010)

29 March 2009

OBRIGADO, DIVINDADE FELINA!



Alela Diane - To Be Still




Headless Heroes - The Silence Of Love

Eu já tinha obrigação de saber que a suposta sageza contida nos provérbios populares não possui, propriamente, valor científico. Mas, porque estas coisas se infiltram desde o biberão e continuam a actuar subliminarmente, desta vez, por pouco me ia deixando rasteirar por um dos clássicos do género, o universalmente repetido “diz-me com quem andas, dir-te-ei quem és”. Há que conceder a atenuante de que as circunstâncias eram favoráveis ao tropeção: jovem singer-songwriter, natural de Nevada City, como Joanna Newsom, e coberta de louvores por Joanna Newsom, caminha a passos largos para a santidade "freak-folk" à custa de um álbum criado numa cabana de montanha, em Portland, na companhia de um gato. Se acabei por escutar o disco e este texto foi escrito, só pode ter sido por causa do gato, já que, pelas restantes personagens e contornos da história, o evitei cuidadosamente durante dias.


Obrigado, divindade felina: To Be Still é uma belíssima colecção de canções e, ou muito me engano, ou Alela Diane Menig rapidamente deixará na merecidíssima sombra a seita "hippy/psych" do pé descalço. Espreitem-na, no Youtube, nos três clips da série “Concerts à Emporter” de La Blogotheque – cada vez mais um lugar de atribuição de credibilidade indie através do reconhecimento “intelectual” europeu –, vagueando, de guitarra na mão, entre as pedras de Notre-Dame e a Place St. Michel. Já que aí estão, procurem também “The Rifle” (cenário de assombração flannery o'connoriana genuinamente "old weird America") e “The Pirate’s Gospel” (“While some folks pray their path to Jesus, we're gonna sing the pirate's gospel” em atmosfera de mar e trevas noturnas), do álbum anterior.



Podem, agora, passar a To Be Still e descobrir uma legítima descendente de (peso cada palavra) Sandy Denny e – muito mais obliquamente – Nico, algures, numa bissectriz mais contemporânea, entre Nina Nastasia, Kristin Hersh e Neko Case, mas (levando a utilidade do "name-dropping" às últimas consequências) com aquele teor de anacrónica excentricidade que Jolie Holland e Jesca Hoop terão de passar a partilhar com ela. No DVD que acompanha o disco, em concerto de Novembro do ano passado no Olympia de Paris, entre banjos, guitarras e bandolins, podemos, por outro lado, descobrir a personalidade de quem, em cima de um palco, parece estar com o mesmo à vontade que no alpendre do tal refúgio de Portland.



Etapa seguinte: The Silence Of Love, álbum de versões produzido por Eddie Bezalel a que Alela empresta a voz e, na companhia de gente com currículo ao lado dos R.E.M., Beck ou Red Hot Chili Peppers, reinventa temas de Nick Cave, Jesus & Mary Chain, Linda Perhacs ou Jackson C. Frank. Nos melhores momentos (“True Love Will Find You In The End”, “Just Like Honey”, “Nobody’s Baby Now”), dir-se-ia Karen Dalton a bordo dos Mazzy Star; nos outros, poderá não se voar tão alto mas também nunca há danos irreversíveis a registar. E, caso os houvesse, Alela Diane seria sempre mui justamente absolvida.

(2009)

16 March 2009

SEGUINDO AS PISTAS (II)

Sidney Nolan (gallery)


Bathers



Untitled - Horned Figure, 1956



Blue Kelly At Midnight, 1956



Untitled - Carcass, 1955



Kelly, 1959

(2009)
SEGUINDO AS PISTAS (I)

Amy Casey - (blog)


Two cities



Satellites



Congested



Clouds



Rigging

(2009)

15 March 2009

17 THINGS I LOVE, BY NEKO CASE(na "Paste Magazine")



Canada, honeycrisp apples, my band, bats, my pets, "Hobby Farms" magazine, books I read while making this record, iced tea, "The Mighty Boosh", everyone who voted, "Weird Science", paintings by Amy Casey and Sidney Nolan, Nick Cave and Warren Ellis soundtracks, co-ed rock'n'roll, "Saveur" magazine, remembering my dreams ("the best dream I’ve had lately was where my grandma called me on the grey princess phone, and I answered it in the middle of a big green pasture. She passed away a year ago, but she was calling to tell me she was feeling much better and wanted me to know she was looking out for me. She said she was traveling through Thailand and having a ball; in fact she had to go so she wouldn’t miss her connection. “Wait!” I said, “Do you have anything else to tell me?” She thought about it for quite a while. She finally answered in a soft and serious tone, “Make sure you have your say”. She said it like she was telling everyone, so I thought I should let you know"). (todas as dezassete)
 
+ NEKO CASE ON QTV
BEST FRIENDS
THE PLEASURE OF THE RUNNER'S HIGH (2009)
A CAPELA SISTINA PINTADA A METRALHADORA



Neko Case - Middle Cyclone

Há que ser absolutamente honesto e reconhecer que, se Neko Case se agrafou ao imaginário do bom povo indie, deve-o tanto à sobreexcelência da sua música como a duas ou três sessões fotográficas – nomeadamente, uma particularmente interessante onde, de forma assaz persuasiva, fazia uma convincente demonstração da sua destreza diante de uma mesa de snooker. Iconografia à parte, a designação country-noir deverá ter sido criada de propósito para ela. Ou, na verdade, por ela, em Blacklisted (2002) e Fox Confessor Brings the Flood (2006), dois tornados de pesadelos lynchianos em tonalidade "american-gothic" eléctrica vermelho-sangue.



Middle Cyclone representa-a, agora, na capa, em pose de valquíria, de sabre em punho, cavalgando um Ford Mustang, e derrama sobre nós o imenso deleite de a ouvir expelir tições em brasa como “She is the centrifuge that throws the spires from the Sun, the Sistine Chapel painted with a Gatling gun” ou “I lie across the path waiting just for the chance to be a spiderweb caught in your lashes”, por entre um batalhão de seis pianos resgatados para o seu celeiro do Vermont, versões de Harry Nilsson ("Don't Forget Me") e dos Sparks ("Never Turn Your Back On Mother Earth"), um coral de 30 minutos de criaturas silvestres (“Marais La Nuit”, a última faixa), gente amiga como M Ward, Garth Hudson, e "old acquaintances" dos Calexico, Giant Sand, Los Lobos e New Pornographers.

(2009)

10 March 2009

COUNTRY NOIR BABE ALERT: NEKO CASE (V)







Country noir babe at work

(2009)

23 November 2008

A VOZ CERTA



Marianne Faithfull - Easy Come, Easy Go

Segundo rezam as lendas da grande narrativa pop, foi em 1969 que, ao acordar de um coma induzido por “overdose”, Marianne Faithfull teve o seu momento-Mia Wallace/Pulp Fiction: mal abriu os olhos, as suas primeiras palavras foram “Wild horses couldn’t drag me away”. Tê-las-à pronunciado, decerto, num inglês shakespeareanamente impecável, Mick Jagger tomou nota, tratou de escrever a canção homónima e aquelas “famous (but not) last words” entraram directamente para a História. O que importa aqui, no entanto, é não terem sido, de facto, “last” e não ser muito difícil adivinhar que, nas inúmeras vezes em que, durante quase duas décadas, episódios desses se terão repetido, a reacção terá sido bastante semelhante. Marianne nem desiste de caminhar à beira do precipício nem autoriza que ele a devore. Retirando até benefícios disso: se a sua cristalina voz de soprano se transformou num dramático contralto curtido pelo álcool, a nicotina e a cocaína – não ignorando que, caso desejemos encarar as coisas de um ponto de vista mais pragmático, não sejam de desprezar privilégios como aquele de que gozou aquando do concerto na St Anne’s Cathedral, de Brooklyn, em 1989, de que resultaria o álbum Blazing Away: no programa, alertava-se o público de que “a ninguém será permitido fumar na sala, à excepção de Marianne Faithfull” –, segundo ela tratou-se, na realidade, de uma bênção: “Tenho a voz certa para mim, não preciso de representar, não tenho de fazer nada; basta-me abrir a boca e aí está ela”.



Claro que não é verdade. Marianne Faithfull, de Broken English (1979) a Strange Weather (1987), Vagabond Ways (1999) ou Kissin’ Time (2002), não tem feito outra coisa senão apropriar-se interpretativamente das canções de autores diversos, não se limitando para tal, de modo nenhum, a abrir a boca e cantar. De novo produzida por Hal Willner, Easy Come, Easy Go instala-se, de imediato, no seu cânone de ouro: acompanhada, pontualmente, por Nick Cave, Cat Power, Teddy Thompson, Keith Richards, Rufus Wainwright, Sean Lennon, Jarvis Cocker, Antony (a única autêntica nódoa, em “Ooh Baby Baby”, de Smokey Robinson) e Kate e Anna MacGarrigle, o reportório viaja, surpreendentemente, de Dolly Parton a Judee Sill, de Brian Eno aos Decemberists, de Duke Ellington a Neko Case, de Morrissey a Randy Newman, Bessie Smith, Merle Haggard ou aos Espers, num assombroso exercício de versatilidade e selecção de “songwriters” tudo menos óbvia que, nunca transformando o álbum num “patchwork” estilisticamente descosido, dá bem a medida do gigantesco e magnificamente amadurecido talento de Marianne Faithfull.

(2008)

25 September 2007

O BOM, O BELO E O BIZARRO



Danny Cohen - Shades of Dorian Gray

Danny Cohen vive no Paraíso. Mais exactamente, em Paradise, no norte da Califórnia, na região de Butte County, no sopé das montanhas da Sierra Nevada. Mas, ao contrário do que se poderia imaginar, não se dedica propriamente a nenhum género de música vagamente bucólica e campestre. Gaba-se, aliás, de, no início dos anos 60, com as suas bandas de liceu (as magnificamente obscuras Polka & The Dots, Organized Confusion e, sobretudo, Charleston Grotto), ter sido o inventor do punk através de canções ignotas e nunca gravadas como “Kill The Teacher”. Depois, pura e simplesmente, desapareceu e não há biografia nenhuma que, ao menos, explique se, durante quarenta anos, vagueou pelo deserto e foi tentado por Satanás (com esforço, descobre-se apenas que, em data indeterminada, terá feito parte da seita de Captain Beefheart), até que a Tzadik, de John Zorn (na colecção “Lunatic Fringe”), em 1998 e 1999 – com Self-Indulgent Music e Museum Of Dannys –, o ressuscitou para o mundo dos mais ou menos vivos. Devia estar escrito algures que haveria de aportar à Anti, abrigo de Tom Waits, Neko Case, Jolie Holland e outros casos gloriosamente peculiares da música americana que, em 2004 e 2005, lhe editou Dannyland e We’re All Gunna Die e, agora, reincide com este fabulosamente bizarro Shades Of Dorian Gray.



Segundo o próprio, o método assenta na divisão de personalidades: o autor das canções é intuitivo, o intérprete é visceral e o produtor (com direito a heterónimo e tudo: Sir Errol Sprague) analítico. Daqui resulta o que, logo a abrir (“Prayer In The Black And White”), se apresenta como uma charanga enxovalhada de sopros tropegamente em desalinho, prossegue com uma litania para bramido de elefante beefheartiano, órgão processional e percussão metronómica (“Avian Blues”), tropeça na estética-Waits de glorificação do ferro-velho sonoro cerzido sobre retalhos de jazz puído e pseudo-theremin (“For George ), avança para uma assombração “sci-fi” de comboio fantasma na variante Herrmann-em-tenda-de-feira (“Vertigo”) e, eventualmente, repousa numa belíssima balada dylaniana com serpentinas de violino (“Palm Of My Hand”) ou no que o próprio Danny descreve como “Neil Young meets ‘Rosemary’s Baby’” (On The Fall”) e “a nod to Procol Harum about the nobility of death” (“Death Waltz”). Os “Waits men” Ralph Carney e (o irmão) Greg Cohen dão uma importante mãozinha e, à terceira ou quarta audição, nacos de texto como “trembling like a leaf, Zoloft for my grief” e “snow in early fall, debt collectors call, lawyers contradictions, doctors write prescriptions” começam a fazer todo o sentido. (2007)

09 August 2007

ARESTAS



Nina Nastasia - Run To Ruin




Kristin Hersh - The Grotto

Pode, se calhar, dizer-se que, sem Kristin Hersh, Nina Nastasia teria sido provavelmente diferente do que é. Mas, agora, deve dizer-se também que talvez esteja a fazer falta a Kristin Hersh escutar Nina Nastasia para poder imaginar uma forma sua de regressar aos óptimos tempos de Hips And Makers. Porque todas aquelas arestas que faltam a The Grotto para ser algo mais do que apenas uma muito boa colecção de bonitas canções acústicas geradas por uma mente singular estavam já presentes em The Blackened Air (o anterior de Nastasia) e regressam agora no mini-álbum (trinta e poucos minutos) Run To Ruin: o falso ar de "lo-fi" a dissimular um verdadeiro teatro cru de emoções (cortesia da produção de Steve Albini mas não só), a rudeza e aparente desarrumação da colocação dos diversos instrumentos — viola, violino, violoncelo, banjo, piano, acordeão, dulcimer, guitarras acústica e eléctrica, bateria — no espaço sonoro, a estética de folk simultaneamente melódica-segundo-a-"tradição" e dissonantemente cauterizadora, a escrita fragmentária "beat"/surreal, a atmosfera artesalmente gótica, a superior sofisticação de um enganador desleixo de recorte. "I Say That I Will Go" é a imagem paralisada de um labirinto rasgado de estridências, "Regrets" faz lembrar Suzanne Vega redesenhada por Sam Shepard, "The Body" sopra um murmúrio de câmara sobre a tumultuosa resolução final, "Superstar" evoca Neil Young sob o efeito de ketamina, "On Teasing" exibe um tango em forma de sofisma tragado por um tsunami e o resto contribui para a coerência global desta espécie de argumento esfarrapado para "road movie" residual. Com os de Cat Power e Neko Case, outro dos imperdíveis do ano na categoria "female-singer-songwriter". (2003)

11 April 2007

VELUDO E NICOTINA


Eleni Mandell - Miracle Of Five

Quando, em Novembro do ano passado, propus a Laura Veirs que indicasse os “songwriters” actuais de que se sente mais próxima, o primeiro nome na ponta da língua foi o de Eleni Mandell. Seis anos antes, acontecera exactamente o mesmo, em conversa com Chuck E. Weiss (a lendária personagem desaparecida de “I Wish I Was In New Orleans”, de Tom Waits, e de “Chuck E’s In Love”, de Rickie Lee Jones, então em período de regresso ao mundo dos vivos com Extremely Cool), tinha Eleni ainda gravado apenas Wishbone (de 1999, produzido por Jon Brion) e Thrill (2000). Pouco depois, tropecei em New Coat Of Paint, um bastante pouco memorável álbum de homenagem a Tom Waits, onde não se salvava muito mais do que a sua versão de “Muriel” e a de Neko Case para “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis”.


As peças começavam a juntar-se. Mas, só agora, ao sexto álbum de Eleni Mandell, se pode, finalmente, enxergar a configuração total da genealogia: produzido por Andy Kaulkin (responsável pela Anti que acolhe também Jolie Holland, Danny Cohen, Nick Cave, Neko Case e Tom Waits), Miracle Of Five convocou uma associação instantânea de todos esses nomes acrescentados dos de Ambrosia Parsley/Shivaree, PJ Harvey, Fiona Apple ou Cat Power.



Sim, existe aqui, sem dúvida, uma inegável atmosfera de família. Que ela própria, Eleni, não desmente: ajoelha perante Weiss que a apresentou a Waits e, aí mesmo, estabeleceram uma sociedade de apreciação mútua, jura que a sua mais preciosa relíquia é um poema que Charles Bukowski lhe autografou, coloca em plano de igualdade enquanto factores decisivos na sua formação o dicionário de rimas que Mrs Block (a professora do 6º ano) lhe ofereceu por ocasião do Bar Mitzvah e uma adolescência passada a ouvir a banda punk de Los Angeles, X, e confessa que a sua veia de “songwriting” entronca na linhagem dos Gershwins, Porter e Rogers & Hammerstein tal como Ella Fitzgerald, Nina Simone ou Billie Holiday os cantaram. Ah, e não dispensa o golfe e a máquina de costura.


Suponho que, através desta “declaração de interesses”, começarão a ficar com uma ideia do que Miracle of Five (capa inspirada em Saul Bass, designer gráfico dos genéricos de The Man With The Golden Arm, Psycho, Vertigo e inúmeros outros filmes clássicos) contém: um cocktail em registo “after-hours” de folk, jazz, blues e country (Andy Kaulkin chama-lhe “o elo perdido entre Hoagy Carmichael e Leonard Cohen”) para guitarras eléctrica e acústica (Nels Cline, dos Wilco), dobro, lap-steel, banjo, orgão, mellotron, sax, harpa, clarinete e a voz de veludo e nicotina de Eleni enroscada em melodias e palavras como “I am a marble the color of candy, I’ll make you money whenever you’re gambling, I am the dice you roll in the alley, I am the pennies that come in handy”. A garrafa de “bourbon” é um acessório de escuta obrigatório. (2007)

07 April 2007

Jolie Holland - Springtime Can Kill You



A Anti Records sabe o que faz. Não só agarrou Tom Waits, Daniel Lanois e Solomon Burke (entre vários outros figurões igualmente respeitáveis) para o seu catálogo, como parece apostada em assegurar a hegemonia no sub-sector das ruivas bem apessoadas, de voz singular e com francamente mais do que apenas talento para a escrita de canções. Por outras palavras, Neko Case e Jolie Holland já lá cantam e, assim de repente, não estou a ver quem possa ter ficado de fora. Este ano, a primeira publicou o muito bom Fox Confessor Brings The Flood e, agora, Holland acrescenta considerável esplendor à glória da valorosa "indie" com Springtime Can Kill You.



Desde Catalpa (as suas "basement tapes" de 2003) e Escondida (2004), a corte de fãs inclui caça de grande porte como Nick Cave e Tom Waits (não, decerto, por solidariedade editorial, que ele não é especialmente dado a isso) o que, só por si, não chegaria como legitimação (Waits, incompreensivelmente, também venera... Daniel Johnston) se a música não tratasse de mostrar os comos e porquês. E demonstra. Muito. Daquela peculiar forma a que só se pode chamar (mas convém utilizar a classificação parcimoniosamente) "intemporal". Sim, Jolie Holland, começou por explicar que não é incompatível escrever textos como "some people say you got a psychedelic presence, shining in the park with a bioluminescence" ou "nobody sings like Mary Sue Bell, nobody prays like Willie McTell, nobody walks a mile in my shoes like I do" e convencer-nos que isso poderia perfeitamente ter saído de um dos "field recordings" de Alan Lomax.



Desta vez, ao terceiro capítulo, nem por um segundo duvidamos que nos encontramos refastelados num qualquer "honky-tonk" do cu-do-mundo-texano, por entre Jacks, Daniels e outros inomináveis, enquanto a miúda da banda que toca como se palitasse os dentes canta por mais um copo. Assim mesmo: folk e country de mangas encardidas, jazz e blues de hálito turvo, valsas e cajun a preto-e-branco-Jarmusch, "I'm flirting with the birds, I'm talking to the weeds, look what you've done to me". E os Jacks, os Daniels e os outros, durante um instante, parecem quase gente. (2006)