(sequência daqui) Seria, justamente, isso que, paralelamente ao preconceito que a lançaria para todo o sempre nas labaredas da Inquisição pop, a transformaria em farol das movimentações punk, pós-punk e new wave com discípulos e fãs confessos como Thurston Moore, Kim Gordon (Sonic Youth), B-52, Kathleen Hanna (Bikini Kill), Courtney Love, RZA ou todos os que viriam a participar nos álbuns de homenagem Every Man Has a Woman (1984) – Elvis Costello, Harry Nilson, Rosanne Cash, Roberta Flack –, Yes, I’m A Witch (2007) – Peaches, Le Tigre, DJ Spooky, Cat Power, Flaming Lips – e Mrs. Lennon - Canções de Yoko Ono (2010) – só com intérpretes brasileiras. Aos quais deverão acrescentar-se aqueles que, agora, sob a produção de Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), em Ocean Child – Songs of Yoko Ono, a 18 de Fevereiro, lhe ofereceram este valioso presente pelo seu 89º aniversário. Muito em particular, David Byrne com os Yo La Tengo, Sudan Archives, Sharon Van Etten, Thao, U.S. Girls e Stephin Merritt mas também Flaming Lips, Amber Coffman e Deerhoof.
Cat Power - "Stuck Inside of Mobile With The Memphis Blues Again" (Bob Dylan)
"Anyway, then we went downstairs and he was like, 'I want to show you what I want you to wear'. When he opened the little dressing room, it was all Bob Dylan T-shirts. 'I just want you to wear this. I’m going to rip it a little'. I was like, 'No way'. He’s like, 'You look great. Just leave your hair up'. He took about six Polaroids, 8x10. I was sick. I’d just gotten back from Mexico. I had some toxin in my blood. On the seventh shot, he had cut my shirt. He said, 'Keep pulling it up — just like it’s a towel or something'. And that’s the picture. My stomach was hurting so bad because I wasn’t eating and was just manic. My jeans were unbuttoned and unzipped the whole time, but when he told me to take the shirt off to snip it, that picture happened. The first pubic hairs ever to be published in The New Yorker. My grandmother shit a brick" (aqui + reler aqui)
29 October 2012
HOUSE CAT
Cat Power - Sun
Quase bastaria a belíssima fotografia que, em 2003, um ano antes de morrer, Richard Avedon lhe fez para a “New Yorker”: cigarro em equilíbrio, entre o indicador e o polegar da mão direita, sorriso algo forçado, dois dedos da mão esquerda segurando por uma ponta uma t-shirt de Bob Dylan rasgada (por Avedon) que pouco lhe cobre o tronco e jeans de braguilha aberta revelando a base do triângulo de penugem púbica. “Estava tão bêbeda que mal me tinha de pé. Por causa do álcool, o meu organismo estava em tal estado que tinha dores horríveis e, por isso, não conseguia apertar as calças. Só quando a revista foi publicada me apercebi que não usava roupa interior. Depois, tive de explicar à minha avó que aquele era o maior fotógrafo do século XX...” Tudo o que deveríamos (e não deveríamos) saber sobre Cat Power/Chan Marshall estava ali: a fragilidade psíquica convertida em tragédia publicamente encenada, o modo como isso alimenta (ou destrói) a criação, o fascínio da decadência, a paixão por Dylan.
Agora que, seis anos e várias quedas e redenções depois de The Greatest (com o excelente álbum de versões, Jukebox, 2008, pelo meio), Sun é publicado, numa entrevista ao “Huffington Post” em que se ajoelha mais uma vez perante Bob Dylan, começa por justificar a sua estética da espontaneidade (“Tudo vem cá de dentro, é instintivo. Acredito firmemente que o primeiro passo é o melhor passo. Porque é assim que, na vida, acontece. À medida que crescemos, somos treinados e condicionados e não continuamos a progredir individualmente mas, na minha opinião, os nossos primeiros actos físicos criativos são aqueles a que devemos dar importância”); porém, quando Michael Hogan lhe pergunta se, ao pensar assim, procede como Dylan, responde: “Isso era o que eu supunha até que o Judah Bauer [da Dirty Delta Blues Band que a acompanhou e também da Jon Spencer Blues Explosion] me disse: ‘Não leste aquele livro acerca dele? O tipo chega a gravar 43 takes de uma canção!’”. E Chan deveria ter reflectido um pouco mais nisso. É verdade que lançou para o lixo as maquetas do que deveria ter sido a primeira versão deste álbum apenas porque um amigo terá opinado que não eram senão “the old, sad Cat Power”. Mas Sun poderia, talvez, ser um muito melhor disco se essa ideia do “first thought, best thought” fosse temperada pela velha sabedoria zen segundo a qual tudo o que é espontâneo exige uma longa preparação.
Todo executado instrumentalmente por Chan Marshall com produção de Philippe Zdar, do duo de house/synthpop francês, Cassius, se, por um lado, Sun aposta naquele tipo de colisão entre música dançável e festiva e textos não exactamente exuberantes, por outro, isso resulta de uma forma que tende a expor sob um ângulo particularmente desfavorável alguma da filosofia quase-new-age que tem servido de amparo à sua escalada para fora dos abismos. "Manhattan" (“Liberty in the basement light, free speech, lipstick and the moonlight howling to get me, howlin’ to get you, in Harlem, in a dark back room, dancing to a different tune”) é um belíssimo espécime de "city-strutting" algures entre Lou Reed e Brian Eno, "3 6 9" (“3, 6, 9, you drink wine, monkey on your back, you feel just fine”) conjuga de modo exemplar pesadelo e efusão rítmica de feição latina e "Nothin’ But Time" (com "cameo" de Iggy Pop), se tosquiado para metade dos seus 11 minutos, do falso final e do excessivo "verbiage" de auto-ajuda, poderia ser um razoável equivalente contemporâneo de "Heroes", de Bowie (“It's up to you to be a superhero, it's up to you, to be like nobody, you got nothin' but time ain't got nothin' on you”). A questão, contudo, é que boa parte do restante de que "Ruin" é o mais eloquente exemplo (“I’ve been to Saudi Arabia, Dhaka, Calcutta, Soweto, Mozambique, Istanbul, Rio, Rome, Argentina, (…) all the way back home, to my town, bitching, complaining when some people who ain’t got shit to eat”), lida mal com as boas intenções e sucumbe perante o tratamento de choque electrónico.
27 September 2012
"There's a lot of bad news in reality, but I'm me and I have my life and if I can talk about the news when I have the chance, to help or do something in the moment I have a microphone or something ... Like Pussy Riot - I wish that I was as rich as Oprah so I could fly 5 million women from all over the world [to Russia]. If I were Oprah, I'd be like, 'We're gonna do a show. I'm gonna fly 5 million people to [Russia] and we're gonna go to jail. We're gonna go on a trip. We're gonna go to jail!' To show solidarity".(Cat Power/Chan Marshall)
”I was so drunk I could barely stand up. My organs were so messed up from drinking I was in physical pain. I couldn’t zip up my pants because my stomach was killing me. I didn’t even realize I wasn’t wearing underwear until the magazine came out. I had to explain to my grandmother that this was the definitive photographer of the 20th century” (+ aqui)
02 July 2012
CLASSES "A" E "B"
Anna Ternheim - The
Night Visitor
Há uma dificuldade intrínseca e dificilmente
removível na missão de levar a sério uma "singer-songwriter"
sueca de tendência folk/country e a gravar em Nashville. Será, possivelmente,
apenas um preconceito idiota: na verdade, se a contribuição de origem
escandinava para a música popular tradicional norte-americana “branca” não foi
tão importante como a das ilhas britânicas, nem por isso deixou de existir. E,
vendo bem, não é menos legítima Anna Ternheim do que a legião de bandas
inglesas de blues do final dos anos 60. Até porque, do ponto de vista do
recrutamento dos parceiros de expedição de Anne pela América profunda, nada
existe de reprovável: Matt Sweeney (cúmplice de Cat Power, Bonnie "Prince"
Billy, Guided By Voices, Six Organs Of Admittance, Yo La Tengo) enquanto
produtor, o lendário Cowboy Jack Clement, Will Oldham...
Também não é pelo lado
da escolha de reportório – versões de temas alheios e originais – nem do
guarda-roupa musical (mui sóbrios arranjos acústicos de guitarras,
discretíssimas secções de cordas e vestigiais acordeão e bandolim) que o
edifício vacila. Porque, na verdade, nem vacila. Simplesmente, da sua exacta e
mais que perfeita bissectriz entre tradições americanas e o seu posterior
reflexo europeu (ver Sandy Denny, Nick Drake, Martin Carthy), traduzida em
amáveis aguarelas melódicas e macios afagos harmónicos, solta-se muito mais a
sensação de "coffee-table music" para
salões de classes A e B do que tudo aquilo que – com mais ou menos alegada
autenticidade, mais ou menos terra agarrada à voz e aos instrumentos – preferimos
escutar num disco que reinvindica o género de paternidade que The Night
Visitor escolheu para si. E é impossível afastar a suspeita de que, um
só passo para o lado errado, e Anna Ternheim chamar-se-ia Norah Jones.
17 October 2010
ANO DO TIGRE (XXIII)
Cat Power - 2
(2010)
05 October 2010
ANO DO TIGRE (XXI)
Cat Power - "Lived In Bars"
(2010)
23 November 2008
A VOZ CERTA
Marianne Faithfull - Easy Come, Easy Go
Segundo rezam as lendas da grande narrativa pop, foi em 1969 que, ao acordar de um coma induzido por “overdose”, Marianne Faithfull teve o seu momento-Mia Wallace/Pulp Fiction: mal abriu os olhos, as suas primeiras palavras foram “Wild horses couldn’t drag me away”. Tê-las-à pronunciado, decerto, num inglês shakespeareanamente impecável, Mick Jagger tomou nota, tratou de escrever a canção homónima e aquelas “famous (but not) last words” entraram directamente para a História. O que importa aqui, no entanto, é não terem sido, de facto, “last” e não ser muito difícil adivinhar que, nas inúmeras vezes em que, durante quase duas décadas, episódios desses se terão repetido, a reacção terá sido bastante semelhante. Marianne nem desiste de caminhar à beira do precipício nem autoriza que ele a devore. Retirando até benefícios disso: se a sua cristalina voz de soprano se transformou num dramático contralto curtido pelo álcool, a nicotina e a cocaína – não ignorando que, caso desejemos encarar as coisas de um ponto de vista mais pragmático, não sejam de desprezar privilégios como aquele de que gozou aquando do concerto na St Anne’s Cathedral, de Brooklyn, em 1989, de que resultaria o álbum Blazing Away: no programa, alertava-se o público de que “a ninguém será permitido fumar na sala, à excepção de Marianne Faithfull” –, segundo ela tratou-se, na realidade, de uma bênção: “Tenho a voz certa para mim, não preciso de representar, não tenho de fazer nada; basta-me abrir a boca e aí está ela”.
Claro que não é verdade. Marianne Faithfull, de Broken English (1979) a Strange Weather (1987), Vagabond Ways (1999) ou Kissin’ Time (2002), não tem feito outra coisa senão apropriar-se interpretativamente das canções de autores diversos, não se limitando para tal, de modo nenhum, a abrir a boca e cantar. De novo produzida por Hal Willner, Easy Come, Easy Go instala-se, de imediato, no seu cânone de ouro: acompanhada, pontualmente, por Nick Cave, Cat Power, Teddy Thompson, Keith Richards, Rufus Wainwright, Sean Lennon, Jarvis Cocker, Antony (a única autêntica nódoa, em “Ooh Baby Baby”, de Smokey Robinson) e Kate e Anna MacGarrigle, o reportório viaja, surpreendentemente, de Dolly Parton a Judee Sill, de Brian Eno aos Decemberists, de Duke Ellington a Neko Case, de Morrissey a Randy Newman, Bessie Smith, Merle Haggard ou aos Espers, num assombroso exercício de versatilidade e selecção de “songwriters” tudo menos óbvia que, nunca transformando o álbum num “patchwork” estilisticamente descosido, dá bem a medida do gigantesco e magnificamente amadurecido talento de Marianne Faithfull.
(2008)
28 June 2008
ACADEMIA: ART & SOUL
My Brightest Diamond - A Thousand Shark’s Teeth
Joan As Police Woman - To Survive
Quando, há dois anos, foi publicado Bring Me The Workhorse, de Shara Worden/My Brightest Diamond, e, em simultâneo, Begin To Hope, de Regina Spektor, os pontos comuns da biografia de ambas permitiram que, sem esticar demasiado a lógica, os dois álbuns fossem tratados no mesmo texto. Uma e outra provinham de famílias musicais e, com currículo académico de conservatório (estudo da música de Purcell e Debussy na University of North Texas e aulas de canto operático em Nova Iorque para Worden, e, da Moscovo natal aos Purchase College e Manhattan School Of Music, uma licenciatura em piano, no caso de Spektor), tinham acabado por se dedicar a variantes distintas do idioma pop/rock, demonstrando como não é uma fatalidade que a atmosfera erudita das salas de aula conduza à amputação de uma criatividade menos universitariamente configurada.
Também por essa altura, em 2006, era editado Real Life, o álbum de estreia de Joan Wasser (aliás, Joan As Police Woman), outra ilustre frequentadora daquelas instituições cujas paredes transpiram a tradição clássica europeia: aulas de piano desde os seis anos e de violino a partir dos oito, prosseguidas na Universidade de Boston (sob a orientação de Yuri Mazurkevich, discípulo de David Oistrakh) onde, naturalmente, integrou a Boston University Symphony Orchestra. É, portanto, quase inevitável que, agora que My Brightest Diamond e Joan As Police Woman chegam aos respectivos segundos álbuns, estes, exactamente pelos mesmos motivos, voltem a ser igualmente emparelhados. O mais interessante, no entanto, é que, tal como já sucedia com Worden e Spektor, sejam bastante mais significativas as diferenças entre eles do que qualquer hipotético elo espiritual “académico” que os reunisse.
Concebido ao mesmo tempo que Bring Me The Workhorse (num processo que vem desde 2002), A Thousand Shark’s Teeth deveria ter sido o segundo painel para quarteto de cordas do díptico que os dois constituiriam. Na verdade, cresceu para um elenco final de cerca de vinte elementos – secções de cordas, guitarras, vibrafones, clarinetes, corne inglês, harpa – que dá corpo orquestral às magníficas peças de Shara Worden, algures entre o que poderia ter sido uma Kate Bush imensamente menos afectada, Björk, Jeff Buckley, e tudo o que ela própria enumera como pontos de referência: Lewis Carroll, Tom Waits, os filmes de Jean Pierre Jeunet, a pintura de Anselm Kiefer, a fotografia de Robert ParkeHarrison, Maurice Ravel e Tricky (aos dois últimos, cita-os explicitamente em “Black & Costaud” e “Like A Sieve”). Se Workhorse foi uma estreia memorável, Shark’s Teeth não apenas a confirma integralmente como é, seguramente, um dos enormes álbuns deste ano.
To Survive é de outra estirpe: a dos “singer-songwriters”, na tradição de Joni Mitchell, Carole King ou Laura Nyro, uma espécie de soul branca sofisticada (pensem em Nina Simone mas também em Cat Power ou Mary Margaret O’Hara), criada por quem já pisou estúdios e palcos ao lado de Lou Reed, Tanya Donelly, Sparklehorse, Antony & The Johnsons e Rufus Wainwright (integrou as bandas de ambos). Repescar a ideia de “torch song” – despida de adereços, excesso de maquilhagem e luxo de guarda-roupa – não será demasiado despropositado num álbum de maioritariamente belas canções onde, com alguma surpresa, Wasser troca preferencialmente o violino pelo piano e David Sylvian e Rufus (discretíssimo como lhe fica melhor) contribuem vocalmente em duas faixas.
(2008)
07 April 2008
E, AGORA, DYLAN x 34
Vários - I’m Not There (OST)
Menos de metade das trinta e quatro faixas deste duplo CD surge no filme de Todd Haynes acerca das “muitas vidas de Bob Dylan”. Porque o plano dos produtores Randall Poster e Jim Dunbar e dos seus “comandantes de campo” Lee Ranaldo (Sonic Youth) e Joey Burns (Calexico) era precisamente esse: prolongar em disco a estratégia de multiplicação dos Dylans que, no ecrã, se limitava apenas a seis.
Com duas equipas de apoio permanente, os Million Dollar Bashers (Steve Shelley, baterista dos Youth, o teclista John Medeski, Tony Garnier, baixista de Dylan, e Tom Verlaine) e os Calexico, a distribuição de papéis foi convenientemente eclética, estendendo-se de Ramblin’ Jack Elliott – uma vetusta referência do próprio Dylan – a Sufjan Stevens, Charlotte Gainsbourg, Cat Power, Stephen Malkmus, Yo La Tengo ou ao inevitável (mas sempre, sempre, tão dispensável) Antony. Naturalmente, o resultado final tende a oscilar em função das diversas contribuições e da sua maior ou menor empatia com o reportório de Bob Dylan e/ou do deliberado distanciamento que ensaiam. Verdadeiramente preciosas: “Cold Iron Bound” (Tom Verlaine), “Stuck Inside Of Mobile” (Cat Power) e “I’m Not There” (Sonic Youth). (2008)
06 February 2008
PARCEIRAS PERFEITAS
Cat Power - Jukebox
Dawn Landes - Fireproof
Cat Power e Dawn Landes. À primeira vista, poderia imaginar-se que se trata apenas de uma “arrumação” confortavelmente preguiçosa que obedeceria exclusivamente ao critério de reunir duas “singer-songwriters” femininas por uma única questão de género. O que, na verdade, até seria bastante defensável: mesmo sem demasiados rigores estatísticos, não é difícil reparar como o contingente feminino em actividade na pop de melhor linhagem tem, hoje, um peso e importância incomparavelmente superiores ao que, não há tanto tempo quanto isso, acontecia. A discriminação positiva – ainda que, no caso, crescentemente inútil e desnecessária – estaria, então, razoavelmente justificada. O essencial, porém, deve ser procurado na condição de “singer-songwriter” que, em cada uma, de modo inteiramente distinto, repensa e reavalia a forma-canção, o seu posicionamento e os diversos modos de lidar com ela.
Cat Power, por exemplo, havia já entrado na lenda como a persona trágica e (em palco) imprevisível de Chan Marshall. Os álbuns revelavam uma valiosa escritora de canções mas eram os seus concertos que alimentavam o mito: poderiam chegar ou não ao fim, transformar-se em violentas sessões de psicodrama público, perder-se em patéticas divagações alcoólicas com residual componente musical ou – também sucedia – ser momentos de intimidade única entre ela e o seu público. A bisbilhotice “social-cor-de-rosa” (ou de tons mais negros…) a que o jornalismo musical não é imune tanto vampirizou os “comos”, “ondes” e “porquês” dessa exposição do combate com os seus demónios interiores como se afadiga agora na enumeração dos passos da via dolorosa que – aparentemente – a terão conduzido à redenção. Afinal, o que importa dizer a propósito da publicação de Jukebox (segundo disco de versões, oito anos depois de The Covers Record) é que, qualquer que seja a relação entre a suposta pacificação existencial e a obra, este é, muito provavelmente, o melhor álbum de Chan Marshall/intérprete (e, apenas pontualmente, compositora).
Onde, na realidade, é obrigatório reparar que a intérprete, em considerável medida, assume quase o estatuto de co-autora, de tal modo se apropria das canções e, muito pouco cerimoniosamente, as revolve e transforma. Exagerando (mas não muito): Frank Sinatra foi apagado da História, “New York” é, de agora em diante, uma canção de Cat Power. Precisamente o mesmo tratamento a que (ao lado de Jim White, dos Dirty Three, e de Judah Bauer, da Jon Spencer Blues Explosion) submete as restantes dezasseis – as outras onze do álbum principal acrescidas de cinco bónus –, herdadas de nomes tão veneráveis como Billie Holiday, Janis Joplin, Joni Mitchell, James Brown, Nick Cave, Moby Grape, Patsy Cline, Hank Williams ou Bob Dylan. E é exactamente nas duas faixas que giram em torno de Dylan (a versão de “I Believe In You” e o original de Marshall, “Song To Bobby”) que o mais surpreendente jogo de máscaras ocorre: enquanto “I Believe In You”, literalmente, muda de mãos, escutamos “Song To Bobby” – “Backstage pass in my hand, giving you my heart was my plan, can I finally tell you to be my man?” – no que só poderá ser a voz de Chan Dylan ou Bob Marshall.
No site da Amazon, quando se procura Fireproof, de Dawn Landes, aconselham-nos a comprá-lo, na qualidade de “perfect partner”, em conjunto com Jukebox. E não custa muito admitir que, independentemente da estratégia de marketing, existe, sem dúvida, alguma lógica de familiaridade no emparelhamento: apadrinhada por Suzanne Vega e Andrew Bird, técnica de som de Philip Glass, Joseph Arthur e Ryan Adams, Dawn Landes pratica o tipo de canção contemporânea que viaja agilmente entre tradição country-folk e aquele “modernismo” sonoro patenteado por Tom Waits desde Swordfishtrombones. Gravado num antigo quartel de bombeiros de Brooklyn convertido em estúdio, articula instrumentação tradicional com electrónica, optigons, glockenspiel, melodias memoráveis e uma escrita poeticamente enxuta que alinha frases como “we are like kids in a play set in the Victorian age, we only know what to say because we practiced at home” com a maior naturalidade. Traz à memória Laura Veirs mas, sobretudo, 99.9 Farenheit Degrees, de Suzanne Vega, e isso só pode ser uma coisa muito boa. (2008)
09 August 2007
ARESTAS
Nina Nastasia - Run To Ruin
Kristin Hersh - The Grotto
Pode, se calhar, dizer-se que, sem Kristin Hersh, Nina Nastasia teria sido provavelmente diferente do que é. Mas, agora, deve dizer-se também que talvez esteja a fazer falta a Kristin Hersh escutar Nina Nastasia para poder imaginar uma forma sua de regressar aos óptimos tempos de Hips And Makers. Porque todas aquelas arestas que faltam a The Grotto para ser algo mais do que apenas uma muito boa colecção de bonitas canções acústicas geradas por uma mente singular estavam já presentes em The Blackened Air (o anterior de Nastasia) e regressam agora no mini-álbum (trinta e poucos minutos) Run To Ruin: o falso ar de "lo-fi" a dissimular um verdadeiro teatro cru de emoções (cortesia da produção de Steve Albini mas não só), a rudeza e aparente desarrumação da colocação dos diversos instrumentos — viola, violino, violoncelo, banjo, piano, acordeão, dulcimer, guitarras acústica e eléctrica, bateria — no espaço sonoro, a estética de folk simultaneamente melódica-segundo-a-"tradição" e dissonantemente cauterizadora, a escrita fragmentária "beat"/surreal, a atmosfera artesalmente gótica, a superior sofisticação de um enganador desleixo de recorte. "I Say That I Will Go" é a imagem paralisada de um labirinto rasgado de estridências, "Regrets" faz lembrar Suzanne Vega redesenhada por Sam Shepard, "The Body" sopra um murmúrio de câmara sobre a tumultuosa resolução final, "Superstar" evoca Neil Young sob o efeito de ketamina, "On Teasing" exibe um tango em forma de sofisma tragado por um tsunami e o resto contribui para a coerência global desta espécie de argumento esfarrapado para "road movie" residual. Com os de Cat Power e Neko Case, outro dos imperdíveis do ano na categoria "female-singer-songwriter". (2003)
11 June 2007
É A CANÇÃO, ESTÚPIDO!
The Go-Betweens - Oceans Apart
Andrew Bird - The Mysterious Production Of Eggs
Laura Veirs - Year Of Meteors
Cai um aguaceiro fino de guitarras e, por entre as gotas, escuta-se a voz de Grant McLennan que canta "What would you do if you turned around and saw me beside you, not in a dream but in a song? Would you float like a phantom or would you sing along?". Entra um sinuoso arranjo de cordas e um assobio morriconiano e Andrew Bird explica-nos "Turn on the history channel and ask our esteemed panel why are we alive and here's how they replied: you're what happens when two substances collide and, by all accounts, you really should've died". Laura Veirs sugere "To dress up your wounds, wash off the salt, freshen the blooms at your sea-rusted altar" e a melodia dissolve-se pelo meio de um motivo de violino hipnótico e de fortuitos vapores electrónicos. Oceans Apart mergulha em tons de cobalto no poço da memória, The Mysterious Production Of Eggs ensaia a estética mil-folhas de um Kafka sorridente, Year Of Meteors inventa a impossível bissectriz entre Suzanne Vega, Walt Whitman e meia dúzia de resíduos da vanguarda nova-iorquina.
E, generosamente distribuida pelos três — intacta, barroca, esquartejada, luminosamente polida —, aquilo de que sempre se fez a quintessência da matéria-pop: canções, isto é, literatura em solução homeopática, a história toda da música no rectângulo de um telegrama, o universo inteiro em três minutos. Sabe-se o que é necessário (limpar, excluir, desbastar tudo o que não é imprescindível, inverter o processo, recomeçar de novo) mas a excelência na aplicação do método não está ao alcance de todos. Até porque existe um método e mil formas de o executar.
Robert Forster e Grant McLennan praticam a a arte da marcenaria rústica, a melodia enxuta, a geometria simples das guitarras e a ginástica do epigrama ("Why do people who read Dostoievsky always look like Dostoievsky?"), só de vez em quando se aventuram no fogo de artifício beatleano ("Darlinghurst Nights"), mas, em cada álbum, autorizam-nos sempre o privilégio sem preço de, à meia-luz, espreitar, para três ou quatro páginas privadas onde alguém, por algum motivo, confessa "I need the touch of fingers on my skin, then the sunrise seeks you through a maze of dragons and drops its touch on the fir trees in the wind". Andrew Bird é o "jongleur" de enigmas consumado: numa mão, equilibra as partituras de Brian Wilson, da Disney-pop, de Jobim, na outra, desenha círculos com as de Paul Simon, George Martin, Jim O'Rourke. E, saltando através do aro em chamas, no interior de uma melodia violeta, interroga-nos "I just can't remember which way the east wind blows, does it matter? If we're all matter, what's it matter, does it matter, if we're all matter when we're done?". Aí, reparamos que há muito ninguém nos oferecera nada semelhante.
Laura Veirs, essa, tem ascendência. Ilustre: a das meteóricas Brenda Kahn (de Epiphany In Brooklyn) e Barbara Gosza (de Beckett & Buddha), a da Suzanne Vega de 99.9Fº, alguma coisa de Cat Power ou de Sam Phillips. Tudo isso, porém, decantado e destilado para uma pop translúcida que se transforma com facilidade em folk assimétrica e se deixa rasgar de bom grado por aquele tipo de abstracções e labaredas sonoras onde se refugiam iluminações como "slain by your zirconium smile, I was slain by your olivine eyes, slain I was lying in piles, hoping shovels would cast me, furnaces burn everlasting, black tattoos of you unto me". (2006)
11 April 2007
VELUDO E NICOTINA
Eleni Mandell - Miracle Of Five
Quando, em Novembro do ano passado, propus a Laura Veirs que indicasse os “songwriters” actuais de que se sente mais próxima, o primeiro nome na ponta da língua foi o de Eleni Mandell. Seis anos antes, acontecera exactamente o mesmo, em conversa com Chuck E. Weiss (a lendária personagem desaparecida de “I Wish I Was In New Orleans”, de Tom Waits, e de “Chuck E’s In Love”, de Rickie Lee Jones, então em período de regresso ao mundo dos vivos com Extremely Cool), tinha Eleni ainda gravado apenas Wishbone (de 1999, produzido por Jon Brion) e Thrill (2000). Pouco depois, tropecei em New Coat Of Paint, um bastante pouco memorável álbum de homenagem a Tom Waits, onde não se salvava muito mais do que a sua versão de “Muriel” e a de Neko Case para “Christmas Card From A Hooker In Minneapolis”.
As peças começavam a juntar-se. Mas, só agora, ao sexto álbum de Eleni Mandell, se pode, finalmente, enxergar a configuração total da genealogia: produzido por Andy Kaulkin (responsável pela Anti que acolhe também Jolie Holland, Danny Cohen, Nick Cave, Neko Case e Tom Waits), Miracle Of Five convocou uma associação instantânea de todos esses nomes acrescentados dos de Ambrosia Parsley/Shivaree, PJ Harvey, Fiona Apple ou Cat Power.
Sim, existe aqui, sem dúvida, uma inegável atmosfera de família. Que ela própria, Eleni, não desmente: ajoelha perante Weiss que a apresentou a Waits e, aí mesmo, estabeleceram uma sociedade de apreciação mútua, jura que a sua mais preciosa relíquia é um poema que Charles Bukowski lhe autografou, coloca em plano de igualdade enquanto factores decisivos na sua formação o dicionário de rimas que Mrs Block (a professora do 6º ano) lhe ofereceu por ocasião do Bar Mitzvah e uma adolescência passada a ouvir a banda punk de Los Angeles, X, e confessa que a sua veia de “songwriting” entronca na linhagem dos Gershwins, Porter e Rogers & Hammerstein tal como Ella Fitzgerald, Nina Simone ou Billie Holiday os cantaram. Ah, e não dispensa o golfe e a máquina de costura.
Suponho que, através desta “declaração de interesses”, começarão a ficar com uma ideia do que Miracle of Five (capa inspirada em Saul Bass, designer gráfico dos genéricos de The Man With The Golden Arm, Psycho, Vertigo e inúmeros outros filmes clássicos) contém: um cocktail em registo “after-hours” de folk, jazz, blues e country (Andy Kaulkin chama-lhe “o elo perdido entre Hoagy Carmichael e Leonard Cohen”) para guitarras eléctrica e acústica (Nels Cline, dos Wilco), dobro, lap-steel, banjo, orgão, mellotron, sax, harpa, clarinete e a voz de veludo e nicotina de Eleni enroscada em melodias e palavras como “I am a marble the color of candy, I’ll make you money whenever you’re gambling, I am the dice you roll in the alley, I am the pennies that come in handy”. A garrafa de “bourbon” é um acessório de escuta obrigatório. (2007)
04 April 2007
Neko Case - Fox Confessor Brings The Flood
Cat Power - The Greatest
Ambas têm qualquer coisa na voz — uma sombra de fumo, um excesso ácido de estrogénios, um toque de seda áspero — que provoca todas as sensações certas nos sítios certos. E uma e outra (embora de modo diferente), sentem-se bem quando isso é transportado para o interior de uma tradição enraízada na história da música americana: Neko Case (a solo, por outras palavras: quando não integrada nos New Pornographers) enquanto descendente — por conturbada e inexplicável genealogia - de Tammy Wynette, Patsy Cline e Loretta Lynn; Cat Power, neste álbum, algures em Memphis, esvaziando barris de bourbon, ao lado de Al Green.
O que, se fica, literalmente a matar a Neko Case, desfigura e amolece Cat Power. Fox Confessor Brings The Flood (que é, pelo menos, tão assombrosamente óptimo quanto Blacklisted, de 2002) recruta, de novo a seita dos suspeitos habituais (Giant Sand/Calexico) e acrescenta-lhe Garth Hudson, da Band, mergulha na América "western/noir" de um Leone corrompido por Lynch e, por entre guitarras fluorescentes e assomos de "torch song", faz-nos desfilar diante dos olhos e ouvidos um filme inteiro de personagens ("Her love pours like a fountain, her love steams like rage, her jaw aches from wanting and she's sick from chlorine, but she'll never be as clean as the cool side of satin, Pauline"), puros instantâneos-Waits ("My true love drowned in a dirty old pan of oil that did run from the block of a Falcon Sedan 1969, the paper said 75"), flashes de pesadelo ("He sang nursery rhymes to paralyse the wolves that eddy out the corner of his eyes").
The Greatest, por outro lado, partiu de uma boa ideia (rodear-se de veteranos músicos de estúdio da Memphis-soul) e não lhe faltam os óptimos textos de Chan Marshall mas a atmosfera demasiado confortável e preguiçosamente "laid back" de todo o álbum esvazia-o da tensão que as canções exigiam. Seca, esquemática e nua como em You Are Free, Cat Power é bem mais urgente. (2006)