31 July 2022

 
(sequência daqui) Dificilmente poderia ter escolhido melhores “maîtres a penser”. Embora com largos hiatos (consequência da periclitante sobriedade) e praticamente nenhum sucesso comercial, não é, de facto, fácil encontrar um “songbook” simultaneamente tão enraizado no terreno de origem e tão aberto a impulsos exteriores – Byrds, Bacharach, Velvets –, costurados de tal forma que o que acaba por sobressair é a identidade de Michael Head. Após o tal álbum da sobriedade (Adiós Señor Pussycat, 2017), Dear Scott – inspirado na história de F. Scott Fitzgerald que, na bancarrota e sonhando com uma carreira de argumentista em Hollywood, é colocado pelo seu agente no Garden Of Allah Hotel, um antro de perdição de Sunset Boulevard – é mais uma colecção de canções minuciosamente lapidadas e orquestradas. Como ele canta em "Grace and Eddie", “If anybody asks you what you’re playing now, just say ragtime, country blues and original songs”.

28 July 2022

Gabriel Kahane - "What If I Told You"

(de Book of Travelers - álbum integral aqui)

A PERICLITANTE SOBRIEDADE
 

Quando um fulano chega aos 60 anos com mais de uma dúzia de álbuns no currículo e confessa que o penúltimo foi, provavelmente, “o único que gravei sóbrio”, acrescentando “desde os 20 anos, criei discos nos mais variados estados de consciência”, há que prestar alguma atenção. Especialmente, se a discografia em causa lhe valeu os títulos de “England’s greatest living songwriter” (cortesia da “Uncut”) e “lost genius (“NME”). A personagem em causa é Michael Head, notório desde há 4 décadas à frente dos Pale Fountains, Shack, The Strands e The Red Elastic Band - ainda que o ponto de partida historicamente rigoroso tenha sido com os eternamente ignorados Ho Ho Bacteria, assim nomeados a partir do graffito num WC de Liverpool descoberto por Julian Cope, dos Teardrop Explodes. Andavam por lá esses, os Echo & The Bunnymen, Mighty Wah e diversos outros mas Head só tinha ouvidos para os veteranos Love e para os novíssimos Aztec Camera. (daqui; segue para aqui)

"Broken Beauty"
O ANO DO TIGRE (CLXIV)


24 July 2022

Revisões da matéria dada (II):
 
Música da Ucrânia (I) - DakhaBrakha
"Ghetto Defendant" (c/ Allen Ginsberg)
 
(sequência daqui) Reeditado, agora, no 40º aniversário, com o disco de bónus The People’s Hall – incluindo versões alternativas de álguns temas, sessões de improvisação com Futura 2000, lados B, gravações de rua e de rádio, e outras que deveriam ter figurado no alinhamento original de Rat Patrol From Fort Bragg –, Combat Rock acabaria por ser o álbum de maior sucesso dos Clash e que lhes abriria as portas dos EUA. Mas, quando a 14 de Maio de 1982, foi publicado, Joe Strummer estava há três semanas fora de todos os radares, com o início de uma digressão no horizonte. Seria, por fim, localizado com a ajuda de um detective privado, escondido algures em Paris. Dificilmente convencido a regressar a Londres, dois dias depois subiria com a banda ao palco de um festival na Holanda. Justamente a mesma noite em que, tendo-se tornado totalmente impossível lidar com a dependência de heroína do baterista ‘Topper’ Headon (o motivo maior pelo qual Strummer “passara à clandestinidade”), este foi despedido e substituido de emergência por Terry Chimes, membro inicial da bands, entre 1976 e 1977. Não haveria capítulo seguinte.
Ou, em alternativa, "Pigs In Space"

23 July 2022

"'Com tanta falta de gente coexistível, como há hoje, que pode um homem de sensibilidade fazer senão inventar os seus amigos, ou, quando menos, os seus companheiros de espírito?' O escritor não estava a ser jocoso, estava a recordar o que tinha começado a fazer na adolescência" (Pessoa: Uma Biografia - Richard Zenith)

22 July 2022

The Wave Pictures - When The Purple Emperor Spreads His Wings

(daqui; álbum integral aqui)
Revisões da matéria dada (I):

Um cheirinho de Novicoiso no gin-tonic?


 

"Know Your Rights"

(sequência daqui) Combat Rock iria ser o último álbum dos Clash (não contando com Cut The Crap, de 1985, extertor final que, dos Clash originais, apenas reteria Joe Strummer). Inicialmente pensado como um duplo intitulado Rat Patrol From Fort Bragg, nos estúdios Electric Lady de Nova Iorque acabaria por se afastar do plano original de um regresso ao rock’n’roll primordial e incluir diversas colagens sonoras, uma secção de "spoken word" pelo poeta beat Allen Ginsberg em “Ghetto Defendant” (“Starved in metropolis, hooked on necropolis, addict of metropolis, the worm on the acropolis, slam dance the cosmopolis, enlighten the populace (...) Guatemala, Honduras, Poland, 100 years war, TV re-run, invasion, death squad, Salvador, Afghanistan, meditation, old Chinese flu, kick junk, what else can a poor worker do?”) e outra pelo street artist Futura 2000 em “Overpowered by Funk” (“Car crashed, food for the hungry millions? Funk out! Home for the floating people? Funk out! Over-drunk on power, Funk out! The final game will be solitaire, over-drunk on power, funk out”). Mas, sobretudo, "Should I Stay Or Should I Go", "Rock The Casbah" (uma parábola acerca da proibição da música nos regimes islâmicos fundamentalistas) e "Straight To Hell" que Simon Reynolds descreveria como "around-the-world-at-war-in-five-verses guided tour of hell-zones where boy-soldiers had languished”. Jim Jarmusch, em declarações à “Uncut”, preferir-lhes-ia a faixa de abertura, "Know Your Rights": “É um dos meus momentos favoritos em toda a história do rock’n’roll. Joe Strummer é um autor muito inteligente: trata-se, na verdade, de um alerta disfarçado de proclamação. E fá-lo com aquela tonalidade vocal dele, vigorosa e insolente, carregada de indignação. Por estes dias, 1982 parece-nos um ponto muito longínquo no tempo. Mas esta canção, em 2022, ressoa ainda mais poderosamente com todo o autoritarismo que se vai expandindo sobre o globo como as sombras no pôr do sol. Vivam os Clash!” (segue para aqui)

20 July 2022

(não estou certo se isto fará o ex-"sit-down comedian" feliz ou infeliz...)


Vilnius has 'sent' Vladimir Putin to a century-old Lukiškės Prison
 
"A life-size cardboard cutout of the dictator was put in one of the cells and can be spotted on a virtual tour around the prison, available on Google Street View. The installation, which is a form of a digital protest against Russia’s authoritarian regime and violence, was arranged after many visitors of the prison said they would like to see Putin imprisoned in Lukiškės Prison (...) The project, which upholds Vilnius’ continuous protests against the brutal aggression of Russia’s authoritarian regime, was created by Go Vilnius, the official tourism and business development agency of Vilnius, Lukiškės Prison 2.0 conversion authors, and Elijas Šležas, a virtual photography artist. 
 
The idea for this unexpected inmate came when designing the virtual tour on Google Street View. It was further bolstered when the prison’s guides said that many visitors expressed their desire to see Russia’s dictator behind bars. Vilnius has been an active protester against Russia’s aggression since February, helping the war refugees and supporting humanitarian, financial, and other war relief missions. Lukiškės Prison 2.0 was chosen as a platform for the installation because, despite its difficult past, it is creating a new vision for its future,” said Inga Romanovskienė, Director at Go Vilnius. 
 
The symbolic imprisonment of Putin allows Vilnius to express its firm stance against aggression, captivity, and autocracy, while its virtual form invites people with the same values to join in (...) Built in 1905, Lukiškės Prison held convicts and political prisoners who were opposed by various political authorities, including Tsarist Russian, Nazi German, and the Soviets. The prison survived World Wars and the Nazi and Soviet occupation and held many political prisoners from Lithuanian, Belarussian, Polish, Jewish, and other backgrounds. After a century of operation, Lukiškės Prison ceased to function as an imprisonment facility in 2019 and opened the doors to the public and the artists as a cultural hub Lukiškės Prison 2.0. Available to the public, the facility has become an open space for culture, artistic expression, and community”
 
(sequência daqui) Se os Gang Of Four eram o comité ideológico do punk britânico e os Sex Pistols (muitas luas antes de John Lydon/Rotten acabar a apoiar Donald Trump) a extensão Situacionista, Joe Strummer, Mick Jones, Paul Simonon e ‘Topper’ Headon encarnavam a brigada operacional de agitação e propaganda. Desde The Clash (1977) e Give ’Em Enough Rope (1978), tanques de fermentação de "London’s Burning", "White Riot", "Career Opportunities", "Tommy Gun" e "Janie Jones" (na opinião de Martin Scorsese, “the greatest British rock and roll song”), os dados estavam lançados. Mas seria com London Calling, Sandinista (1980) e Combat Rock (1982) que o lugar dos Clash enquanto "The Only Band That Matters” ficaria definitivamente estabelecido. Incorporando elementos de rockabilly, reggae, dub, ska, funk e rock clássico – o design gráfico da capa de London Calling mimetizava o do álbum de estreia de Elvis Presley – como veículo para os slogans, palavras de ordem e denúncias políticas, os Clash envolver-se-iam com organizações e movimentos como a Anti-Nazi League e Rock Against Fascism, e Strummer não hesitaria em vestir t-shirts explicitamente em apoio das Brigadas Vermelhas italianas e dos alemães Baader Meinhof, material altamente inflamável no preciso momento em que o Reino Unido se precipitava no Thatcherismo. “Somos anti-fascistas, anti-violência, anti-racistas e pró-criativos” tinha afirmado Strummer em 1976. Mas, daí em diante, a banda dera consideráveis passos em frente. (segue)

18 July 2022

A ÚNICA BANDA QUE IMPORTA 

Ainda a invasão da Ucrânia pelos exércitos russos de Putin não tinha completado um mês e já Bohdan Hrynko, Oleg Hula e Andriy Zholob (o trio punk-hardcore ucraniano Beton) tinham corrido até um estúdio de Lviv para gravar a banda sonora e, logo a seguir, o vídeo do apelo à resistência e solidariedade anti-imperialistas. Qual cantiga seria essa arma? "London Calling" – canção-título do terceiro álbum de The Clash (1979), inspirada pelo indicativo da BBC nas emissões para a Europa acupada pelas tropas nazis durante a segunda guerra mundial – em versão adaptada às actuais circunstâncias e imediatamente abençoada pelos Clash sobreviventes: “Kyiv calling to the zombies of death, quit holding Putin up and draw another breath, Kyiv calling see we cannot retreat, we’re already home so Russia ships fuck you! Kyiv is rising, we live for resistance!” Zholob, o guitarrista, vocalista e ortopedista que, na frente de combate, se dedica ao tratamento de soldados feridos e vítimas civis, é, segundo ele, “apenas um entre muitos outros músicos que trocaram as guitarras pelas armas na defesa do território”. Não espanta, pois, que tenham optado por uma canção dos Clash que, tal como, décadas atrás, Woody Guthrie anunciava, sempre encararam as canções como armas de elevada precisão. (daqui; segue para aqui)

Na generosíssima tradição de Luís IX perante o fake do Além, saúde-se a milagrosa recuperação da Santíssima Hemoglobina (o Divino Prepucinho virá a seguir, tenhamos fé!)

09 July 2022

Já tem quase uma semanita 
STAKHANOVISTAS
São em número crescente os músicos que, de um modo ou de outro, vão buscar inspiração às Quatro Estações de Antonio Vivaldi. Apenas entre os mais recentes, alinham-se Philip Glass, Piazzolla, Max Richter, Anna Meredith e Modern Nature aos quais deverão, agora, acrescentar-se The Wave Pictures, esse exemplo paradigmático de banda britânica eternamente alternativa e marginal: em cerca de duas décadas e mais de duas dezenas de álbuns, David Tattersall, Franic Rozycki e Jonny ‘Hudderfield’ Helm, construiram o tipo de discografia imaculada que, invariavelmente, é recebida pela crítica com vénias e salamaleques correspondidos por uma olímpica indiferença registada nos sismógrafos das tabelas de vendas. 


Quase tão stakhanovistas como o incansável veneziano que nos legou 500 concertos, 40 cantatas, 22 óperas, e mais de 60 peças de música sacra, os Wave Pictures recorreram, desta vez, ao formato de álbum duplo para, em When The Purple Emperor Spreads His Wings, acolher 20 canções divididas em quatro grupos de cinco, um por cada estação do ano. “Existe sempre um sentido de tempo e lugar muito forte nas canções dos Wave Pictures. Tornou-se rapidamente muito natural ir agrupando por estações as canções que ia escrevendo. Cada uma ‘tem lugar’ no contexto de cada estação. Começa no Verão e termina na Primavera, representando o ciclo da vida”, explica Tattersall que pormenoriza: “Como acontece muitas vezes, um pequeno momento no tempo é desenhado em três minutos. Na memória, um instante fugaz, um milisegundo, pode ser mais forte e intenso do que um ano inteiro”. Ávidas esponjas estéticas incapazes de enxergar incompatibilidades entre música de câmara, rock’n’roll clássico, blues norte-africanos, folk britânica, country, psicadelismo e jazz, é um imenso prazer espreitar para o enorme caldeirão onde os cozinham e aspirar os riquíssimos aromas. (daqui)