Showing posts with label Richmond Fontaine. Show all posts
Showing posts with label Richmond Fontaine. Show all posts

12 March 2025

A NOSSA CIDADE EM RUÍNAS
Muito provavelmente, é um esforço inglório. Mas, mesmo que alguma esperança ainda exista, é obrigatório reconhecer que pouco resta tentar para que o mundo se aperceba do muito que tem andado a perder ao ignorar a belíssima obra de Willy Vlautin. Sim, o homem de Reno, Nevada, publicou já, desde 2007, 7 livros de "short novels" celebrados pela crítica e dois dos quais adaptados ao cinema (The Motel Life, em 2013, e Lean On Pete, 2017); com os Richmond Fontaine, entre 1994 e 2016, ofereceu-nos uma dúzia de riquíssimos álbuns - quem nunca tenha sequer tentado escutar The Fitzgerald (2005) não merece o ar que respira; e, nos Delines de Colfax (2014), The Imperial (2019) e The Sea Drift (2022), entregando às belíssimas nuances da voz de Amy Boone a missão de desocultar os vários recantos da narrativa, criou um universo tão intimamente pessoal quanto retintamente norte-americano. Ursula K. Le Guin chamou-lhe "um Steinbeck não sentimental que nos fala de quem, na realidade, vive hoje na nossa America, na nossa cidade em ruinas" (daqui; segue para aqui)
 

07 April 2022

 
(sequência daqui) Desde 1996 – primeiro, com os 12 álbuns dos Richmond Fontaine e, depois, a partir de 2014, com os 3 dos Delines – que ele não faz outra coisa. Mas fá-lo tão assombrosamente bem (nas canções e nos 6 romances que, entretanto, foi publicando) que não desejamos senão que nunca pare. Se, para cenários virtuais, optou, até agora, por hotéis de beira-da estrada (The Imperial, 2019), espeluncas a 28 dólares/noite (The Fitzgerald, 2005), ou avenidas que tanto acolhem papas como prostitutas em horário de trabalho (Colfax, 2014), desta vez é The Sea Drift, cidade minúscula da Gulf Coast onde descobriu “estas histórias à deriva”. Pela voz de Amy Boone – belíssima combinação do melhor de Dusty Springfield e Rickie Lee Jones – comecem, por exemplo, aqui: “There's a half pack of Winstons and an overfilled ashtray, a pint of V.O. that’s nearly put away, and sitting on the TV is a loaded .38, he lights a cigarette and says nothing, just stares out into space”.

29 January 2019

O PESADELO AMERICANO

  
Muito antes de Donald Trump ter identificado aquela parcela do seu eleitorado a que a deplorável Hillary Clinton chamaria “the deplorables”, já Willy Vlautin os conhecia e tratava por tu. Sim, muito provavelmente, racistas, homofóbicos e xenófobos mas, fundamentalmente – à excepção das brigadas ideológicas de facínoras ultra-direitistas que, na sombra, puxam os cordéis –, apenas aqueles milhões de "blue collars" invisíveis e ignorados, o “lixo branco” encurralado em "trailer parks" e cidades fantasma, para quem o “sonho americano” nunca passou disso mesmo, um sonho. Ou, talvez mais exactamente, um pesadelo. Não surgiram agora: habitavam há muito as canções de Woody Guthrie, Springsteen, Randy Newman ou Tom Waits, desde sempre, os blues, ou as páginas de Steinbeck, Carson McCullers, Raymond Carver e Cormac Mc Carthy. Vlautin, no entanto, mais pronunciadamente – em 12 álbuns com os Richmond Fontaine, 2 com The Delines e 5 romances –, deu-lhes voz, nomes e moradas. 



Em tempos, contara-nos a história de Wes (“Sitting on the curb, his face bloody, his right hand broken, ‘this time what am I gonna do?’”), de Ruby e Lou que se interrogavam “What if the whole world is cursed?” e, entre mil e um outros, de “Ray, he's in Fairview now, he lost his leg in a wreck, and Harlin's in jail in Rawlins, Wyoming, doing three years for breaking and entering”. Desta vez, em The Imperial, a “darkness on the edge of town” aparece transfigurada na moldura de country-soul amargamente "noir" que a "pedal steel guitar" de Tucker Jackson, os arranjos de cordas e sopros de Cory Gray e a voz calorosa de Amy Boone lhe oferecem. Mas as personagens que comparecem â chamada (“All these couples who fall apart like deserted cars alongside the road, I’ve always passed them heartbroken”) poderiam bem ser as mesmas – ou outras inquietantemente iguais – dos tomos anteriores: “Lily's sick, Irwin's fadin' fast, Carol's hocked everything, emptied the savings account, but still the mortgage is defaultin'”, as palavras de conforto soam como maldições (“You’re the destroying kind, too busy hurting yourself while everyone else does your time“) e inventários de ruínas (“All those scars, what did they do to you? We both seen some miles, more than a few rough ones for me and you”), e as súplicas por salvação (“Pour me a drink, turn down the lights, and roll back my life”) como resposta não têm senão "There ain’t no end to going down, there ain't no end, cheer up, Charley".

18 January 2017

05 January 2017

22 March 2016

GOSTAR DAS TREVAS


“Ouvia o meu coração a bater. Ouvia o coração de toda a gente. Ouvia o ruído humano que fazíamos, sem que nenhum de nós se movesse, nem sequer quando a luz da sala se apagou. Quando vivemos durante tanto tempo nas trevas, começamos a gostar delas. E elas a gostarem de nós. O rosto vira-se para as sombras e elas aceitam, curam. Mas também devoram. Alguma coisa morreu em mim. Foi preciso muito tempo mas, agora, morreu. Apetecia-me ir ao pátio e gritar ‘Nada disto vale a pena!’ Não sei o que me irá acontecer nem a qualquer outro neste mundo. Noites sem início que não têm fim. A falar sobre o passado como se ele tivesse realmente acontecido. Tentando convencer-se que, para o ano, por esta altura, as coisas irão ser diferentes. No fim, as palavras são tudo o que temos e é bom que sejam as palavras certas”. O que acabaram de ler é uma montagem de citações de Raymond Carver, ele do "dirty realism" literário norte-americano. 



Considerem, agora, esta outra: “He'd wake up in the middle of the night, his heart racing so fast that he thought he was dying but it wouldn't go away, it wouldn't go away, so he'd go running and he'd keep running until he couldn't think anymore. We came home one night and our door was open, most of our things were gone or broken, all our clothes were thrown around the rooms and even our pictures were wrecked too, and the overpass where the endless miles of cars would pass, it hummed night and day and night and day, we used to think it sounded like a river, but all that slipped away that day. In the morning I'd go home, she'd be up all night from crying alone, watching a credit card TV and holding a credit card phone, sitting on a credit card couch still in her mom's beat up and ugly robe”. Carver também? Não, Willy Vlautin, dos Richmond Fontaine e Delines, mas igualmente romancista premiado. Gente da mesma família. Os Fontaine chegaram ao fim e You Can't Go Back If There's Nothing to Go Back To (magnífico, como os anteriores, por vezes, também arrepiantemente dylaniano) é o ponto final. Quando uma débil esperança espreita, ouve-se “it’s a wonderful world if you put aside the sorrow, better take the time to know it if you feel anything at all”. Não adianta respirar fundo, de alívio: os Delines vão continuar.

07 May 2015

MEMÓRIAS DE NOVA IORQUE

  
Mais ou menos a meio de Girl In A Band, na página 148, Kim Gordon, num aparte não demasiado significativo, conta que, em conversa para a “Interview” com o ilustrador Raymond Pettibon – autor da capa de Goo, dos Sonic Youth, bem como de várias outras de álbuns dos Black Flag e da editora SST –, ambos concordaram que, quando se trata de discutir algum assunto com um músico, é conveniente não elevar demasiado a complexidade do tema. “Não porque não sejam inteligentes, apenas não intelectualizam as coisas da mesma forma que os artistas”. E Kim reforça a ideia, confessando “Sinto que não há muita gente com quem possa falar sobre o que me vai na cabeça... isto não quer dizer que os menospreze”. Poderá, talvez, situar-se aí a razão porque a literatura – autobiográfica ou não – assinada por músicos é tão escassa e, na maioria dos casos, assaz desinteressante. A memoráveis excepções como Chronicles Vol. I, de Bob Dylan, Autobiography, de Morrissey, os quatro romances de Willy Vlautin (Richmond Fontaine/Delines), a recolha de poemas de David Berman (Silver Jews), Actual Air, ou a quase dezena de publicações de David Byrne (Leonard Cohen, exactamente o caso oposto – poeta e romancista tornado songwriter –, não conta) adicione-se, agora, Girl In A Band – A Memoir, de Kim Gordon.



Guitarrista, baixista, compositora e cantora dos Sonic Youth (e, igualmente, dos Free Kitten, Body/Head e participante em inúmeras colaborações) mas também artista plástica, "fashion designer", actriz, crítica e jornalista de arte, Gordon possui o perfil exactamente adequado para não ceder (demasiado) à "petite histoire" de circunstância e desenhar, com nervo e energia, a trajectória de uma "California girl" de classe média, nascida no início dos anos 50 e transplantada para a cena musical e artística da Nova Iorque, de fins de 70 até à actualidade. A visão panorâmica é povoada por um "who’s who" de todo o período abrangido (mas com figuras de carne e osso e não em mero exercício de "name dropping"), em permanente viagem entre auto-análise e observação/comentário de situações e personagens, painel estético/histórico e diário pessoal, o precioso bloco-notas de uma testemunha-participante activa das vibrantes ascensões e perturbantes quedas da capital do mundo.

14 May 2014

ESPECTROS 


Vinte anos, dez álbuns, quatro romances e, à excepção daquele escasso punhado de gente que fez o necessário para ter acesso à "password" (leia-se: realizou um pequeno esforço de investigação), Willy Vlautin continua a ser um total desconhecido. As palavras Richmond Fontaine também fazem tocar pouquíssimas campainhas e associar um nome ao outro não melhora extraordinariamente a situação. Introduzir ainda na equação o factor The Delines, provavelmente só irá piorar as coisas. Mas não deveria. Porque aquele universo de personagens, histórias e canções que “começam a beber logo pela manhã mas, mesmo assim, conseguem cambalear até ao emprego”, viajantes frequentes na discografia dos Richmond Fontaine, terá, talvez, encontrado os seus intérpretes ideais neste novo heterónimo colectivo de Willy Vlautin – com Jenny Conlee (dos Decemberists), Amy Boone (Damnations), Sean Oldham (repescado dos Richmond) e Tucker Jackson (Minus 5) – e em Colfax, álbum de acolhimento para dez planos fixos de espectros assinados por Vlautin e um outro, a assombrada "Sandman’s Coming" (“It's a great big dirty world, if they say it ain't, they're lyin' sandman's coming soon, you know he's coming soon”), de Randy Newman. 



"The longest, wickedest street in America", foi como, uma vez, a “Playboy” caracterizou a Colfax Avenue, em Denver, no Colorado. A mesma que Sal Paradise/Jack Kerouac mitificou em On The Road e que, mais prosaicamente, há oito anos, o “Denver Post” apresentava enquanto “anfitriã de um papa [Karol Wojtyla, em 1993] e local de trabalho de prostitutas”. Irmã-gémea do Fitzgerald and Casino Hotel, espelunca a 28 dólares por noite, de Reno, no Nevada, cenário de The Fitzgerald (2005) ou de qualquer um dos desolados panos de fundo das páginas de The Motel Life (2006), Northline (2008), Lean on Pete (2010) e The Free (2014). Vlautin reivindica-se de Steinbeck, Carver, Tom Waits e Shane MacGowan mas, desta vez, foi Amy Boone a atear o fogo: “Passei um ano inteiro a escrever canções, pensando na voz dela: metade destroçada, metade lindíssima, uma imensa fadiga interior”. Das cinzas, varridas pela insinuação dos "glissandi" da "steel guitar", de Jackson, e o pontilhismo do Fender Rhodes, de Conlee, ergue-se algo, magnífico, como uns Mazzy Star com muito menos láudano e bastante mais bourbon.

01 September 2010

MEMÓRIAS DA AMÉRICA



The Gaslight Anthem - American Slang




Holly Golightly & The Brokeoffs - Medicine County

Encravada algures nas vísceras da Net, está uma entrevista com Brian Fallon, dos Gaslight Anthem, em que, à pergunta “Como é a sensação de se aperceberem que o Bruce Springsteen vos roubou a vossa sonoridade?”, ele, com absoluta candura, primeiro ri à gargalhada e, depois, responde “Mas fomos nós quem o roubou desavergonhadamente!...”. Tratava-se, claro de uma interrogação ironicamente armadilhada mas Fallon não só entrou no jogo sem pestanejar como, logo de seguida, se lançou num extenso elogio das imensas qualidades de Bruce como "everyday man" e vizinho de New Jersey nada difícil de encontrar nos bares e clubes da cidade, sempre à espreita de revelações locais. Estas coisas têm, evidentemente, consequências. Não foi também, por isso, uma daquelas manobras promocionais cozinhadas nos departamentos de marketing editoriais o facto de, em 2009, no concerto de Glastonbury dos Gaslight, Springsteen ter participado enquanto guest-star em "The '59 Sound", tendo repetido a visita em Hyde Park, pouco antes do seu London Calling (já publicado em DVD).



Serão, então, os Gaslight Anthem apenas mais uma das inúmeras bandas que fazem carreira à custa da clonagem de obra alheia? Considerem esta hipótese: muito mais legitimamente do que, por exemplo, os Arcade Fire – cuja dívida colateral ao mais célebre residente da E Street se limita a uma rígida simulação formal dos sinais exteriores da cinemática dimensão bigger than life da sua música –, os autores de American Slang trabalham, sim, sobre a mesma matéria que deu origem a clássicos como Darkness On The Edge Of Town, Born To Run ou The River. Por outras palavras, enquanto uns (ainda que não seja essa a sua matriz essencial) tomam de empréstimo o guarda-roupa, os cenários e os adereços de Springsteen, Fallon e cúmplices concentram-se na escrita dos episódios e na invenção das personagens que não chegaram a figurar no gigantesco painel da história americana contemporânea iniciado em Greetings From Asbury Park N.J.



Se lhes desejássemos encontrar genealogia diferente, poderíamos pensar, igualmente, nos Replacements, no ilustríssimo e ignorado Willy de Ville, no Van Morrison de “Domino” ou nos actuais Richmond Fontaine e Dropkick Murphys mas, eles próprios, quando inquiridos, tanto referem os Clash quanto Tom Petty, os Joy Division ou os Smiths. A espinha dorsal do argumento, essa, mantém-se fidelíssima à memória mítica de uma América (privada e colectiva) ancorada naquele tempo “when we were lions, lovers in combat, faded like your name on those jeans I burned”, povoada de “queens of the Bronx, blue eyes and spitfire”, “orphans before we were ever your sons of regret”, mesmo ali ao lado do "Andy Diamond’s Choir (...) who’ll sing the rhythm and the blues so sad and so slow”.



De fora para dentro – isto é, de Londres para a Georgia onde, actualmente, vive –, Holly Golightly procura outro ângulo para a reinvenção da mesma lendária narrativa (a da country, dos blues, do rockabilly, do bluegrass), em registo eruditamente noir e, pela terceira vez, na companhia do guitarrista e baterista Lawyer Dave. O pequeno milagre que ambos concretizam em Medicine County (gravado numa igreja abandonada) assenta, essencialmente, numa dupla e sábia fuga: ao diletantismo "new weird America" dos pretensos hillbillies de fim-de-semana – felizmente, em curva descendente – e ao pastiche cerimoniosamente respeitador da tradição. Aqui o modelo é o de uns Cramps algo menos psicadélicos filmados por Terrence Malick, com argumento co-escrito por David Lynch e Nick Cave e a "final cut" não poderia assentar-lhes melhor.

(2010)

04 September 2007

EM LOUVOR DO DESVIO



Mirah & Spectratone International - Share This Place: Stories And Observations




Ray’s Vast Basement - Starvation Under Orange Trees




Holly Golightly & The Brokeoffs - You Can’t Buy A Gun When You’re Crying

Um pequeno desvio do ângulo de visão. Uma alteração de regras, mais ou menos invisível, a meio do jogo. Ou um discreto puxar de tapete debaixo dos pés. Muitas vezes, é quanto basta para introduzir o efeito de perturbação necessário, capaz de fazer chocalhar de modo produtivo os neurotransmissores que se ocupam dos processos criativos. O que, de modo completamente diferente em cada um, aconteceu nestes três álbums, comprovando bastante satisfatoriamente a tese. De Mirah – aliás, Mirah Yom Tov Zeitlyn de seu nome completo – esperar-se-ia qualquer coisa que, mesmo com heterodoxias como o seu album de canções “militantes” (To All We Stretch The Open Arm, 2004) de Weill, Dylan, Cohen, Foster e outros, não andasse demasiado longe da sua variante de “folk-indie”, tal como a K Records, de Olympia, Washington, a reconhece e aprova. E, sendo Mirah quem é, até não seria nada mau. É aqui, então, que devemos enviar os nossos entusiasmados agradecimentos ao Institute for Contemporary Art de Portland que, tendo-lhe dirigido a encomenda de um ciclo de 12 canções a ser estreado no International Children’s Festival de Seattle, em Maio passado, lhe ofereceu a possibilidade de gravar este mui excelente Share This Place, improvável álbum conceptual sobre… a vida dos insectos.



Saudemos, pois, o nascimento da folk-entomológica e corrijamos a saudação já de seguida: não só a música que Kyle Hanson (acordeão), Lori Goldston (violoncelo) – ambos ex-Black Cat Orchestra que acompanhara Mirah em To All We Stretch…) – Jane Hall (percussão) e Kane Mathis (alaúde árabe) executam deve muito pouco ao convencional cânone folk e imenso a uma rica dieta transcultural de “early music”, cabaret, klezmer e arabismos vários, como os textos de Mirah (inspirados na obra do entomologista francês do século XIX, Jean-Henri Fabre e na Insect Play do checo Karel Čapek), em plano picado sobre este microcosmos de rituais de acasalamento, metamorfoses, organismos colectivos e estratégias de sobrevivência, não fugindo ao tema, falam tanto sobre minúsculas criaturas quitinosas de seis patas como acerca de lamentáveis humanos de apenas duas, em esclarecedoras parábolas e interpelações inter-espécies de que “Community” é um óptimo exemplo: ”We communicate with chemicals but this is not as you might think just mechanical, it’s an expressive art, instinctually smart, secretions quiet and dependable”.

Starvation Under Orange Trees sobe um bocadinho na taxonomia e ocupa-se de ratos e homens. Mais exactamente de Of Mice And Men, o romance de John Steinbeck adaptado para o palco pelo Actors Theatre de S. Francisco. Entra (literalmente) em cena Jon Bernson – inventor do ficcional Ray’s Vast Basement, lugar imaginário na topografia alternativa de Drakesville –, alma gémea de Jeff Tweedy (Wilco), Willy Vlautin (Richmond Fontaine) ou Howe Gelb e neto hipotético de Randy Newman, ansioso por confessar que “Steinbeck é um dos meus músicos preferidos: nem sempre lhe compreendo os textos mas as suas melodias valem ouro”.



Naturalmente, o desafio de compor uma banda sonora para o Actors Theatre pareceu-lhe valer platina (a verdadeira, não a dos “discos de”) e, esquivando-se à tentação de macaquear o “dustbowl realism” de Woody Guthrie ou do Ghost Of Tom Joad, de Springsteen, na transposição para o álbum, ampliou o espectro de referências a diversas personagens e circunstâncias de outras obras de Steinbeck como Tortilla Flat, Cannery Row, Grapes of Wrath ou East Of Eden. Sobrevivem fragmentos de música incidental que funcionam enquanto tecido conjuntivo na articulação das canções e atribuem uma certa dimensão cinemática a um universo musical que reinventa a tradição folk/blues/country/jazz e, simultaneamente (com a participação de Nate Query, dos Decemberists, e Enzo Garcia, da banda de Jolie Holland), a faz disparar para coordenadas não muito afastadas do Morricone mais libertário.



Holly Golightly & The Brokeoffs (isto é, Holly Golightly e a personagem que responde pelo nome de Lawyer Dave) aplicam-se numa outra ficção: reencenar a música da América profunda, aquela com esterco agarrado às botas, terra nas unhas, os blues do Delta a temperar o bourbon e rockabilly encardido a escorrer do jukebox num honky-tonk insalubre. A mais que perfeita música ambiente desenhada por medida para a Tarantinoland que, um dia, virá a ser inevitavelmente edificada sob direcção artística de Tom Waits. Sim, mas onde o desvio em You Can’t Buy A Gun When You’re Crying? Holly Golightly, nativa do East Sussex, UK, é tão britânica como a “steak and kidney pie”. (2007)

20 January 2007

28 DÓLARES/NOITE

Richmond Fontaine - The Fitzgerald

Wes deve dinheiro a um tipo. Cruza-se com ele, por acaso, no "Astro Lounge", e acaba com a cara desfeita e uma mão partida. Harry tem a camisa encharcada em sangue e J.P. foi abatido a tiro. Em Conklin Creek, na boca de uma mina, está o cadáver de um puto, nem ainda vinte anos, morto há menos de dois dias, "cause there was no smell and you could still see life in his face". Ao balcão do bar do "Swiss Chalet", "a madness came over him", alucinado pela memória de Francine. No parque de estacionamento do "Gold And Silver", as luzes do casino "only bring darkness to the night". Logo a seguir ao desvio 194B da autoestrada, há uma casa igual a todas as outras e o fantasma de um irmão desaparecido em combate.



À beira de Laramie, Wyoming, um homem é esfaqueado num hotel abandonado. Depois de sete horas de carro, num quarto de motel, ela suplica "'Save my life'; he grabbed her hand and said 'That's all I ever wanted to do'". Os néons cintilam lá fora e, "in a foreign room, with foreign noise, in a foreign bed, in a foreigh town", ela só consegue pensar "don't look and it won't hurt". São três da manhã, "Summer In Siam" toca uma e outra e outra vez, "and you and me and our whole place we're okay, now that I'm in your arms again". Willy Vlautin escreve como Raymond Carver escrevia, como Hopper pintava, como Springsteen, Dylan e Waits compõem, sabe-o e admite-o de bom grado.


(Willy Vlautin lê um excerto de The Motel Life)

Um pouco também da mesma forma que Lou Reed canta Nova Iorque. Mas, aí, já não se reconhece tanto: não ouviu muito da obra de Reed e assegura que ele sempre lhe meteu medo. Se, porventura, alguma vez, ele e Mark Eitzel pensassem em escrever juntos, seria difícil imaginar quem teria estômago para escutar o que daí resultasse. Acrescentar ainda David Berman seria já convocar estupidamente a catástrofe. Para The Fitzgerald, encerrou-se durante duas semanas no Fitzgerald and Casino Hotel (28 dólares/noite), em Reno, Nevada, a esquálida capital do jogo: no meio do deserto, a observar os infinitos desertos interiores das personagens que povoariam estas onze peças do sexto álbum dos Richmond Fontaine, a banda de Vlautin. Descobrir um autor imenso, assim, dez anos depois do seu início, não é habitual. E é difícil garantir que há aqui canções, sequer melodias, tal como as conhecemos. Existem, sim, escombros, detritos, ruínas, prolongados grandes planos de coisa nenhuma com sombras lá dentro, Johnny Cash e Hank Williams em contraluz, vestígios de violino, piano, harmónica, acordeão e contrabaixo à volta de uma guitarra e de uma voz (apetece dizer "voz off"), as entranhas desmazeladas de um "heartbreak hotel" onde nem, como se reconfortava Eitzel, o vento que sopra através do cabelo de Gena Rowlands chega para impedir o mundo de desabar. (2005)