MILAGRES E APARIÇÕES
Patti Smith - Banga
A 9 de Fevereiro deste ano, num extenso
texto (“The Mother Courage Of Rock”) publicado na “New York Review of Books”, o
crítico e escritor belga-americano, Luc Sante, descrevia Patti Smith como “a presidente
de um clube de fãs que tinha apenas um membro mas uma centena de ídolos:
Rimbaud, Bob Dylan, Jimi Hendrix, Keith Richards, Jackson Pollock, Isabelle
Eberhardt, Brian Jones, Georgia O’Keeffe, William Burroughs, Renée Falconetti
(a Joana d’Arc no filme de Carl Theodor Dreyer de 1928), não esquecendo Johnny
Carson”. Stephen Troussé, na abertura da sua crítica a Banga para o número de
Julho da “Uncut”, cita essa afirmação de Sante mas não aquilo que, mais à
frente, ele acrescentava: “Canção atrás de canção, ansiando por transcendência,
ela achou satisfação em andamentos acelerados e jactos de palavreado. (...) Uma
das consequências disto foi, a pouco e pouco, ter perdido o sentido de humor e
levar-se cada vez mais a sério. (...) Actualmente, quase tudo no seu reportório
soa como um cântico ou um hino. (...) A sua música tornou-se lúgubre e as
afectações religiosas podem ser entediantes para quem as escuta”.
Há cinco anos, no Coliseu de Lisboa, já
tínhamos dado por isso. Cavalgando a dupla personagem de sacerdotisa punk e
valquíria hippie, na missinha de Santa Patrícia (a memória permanece viva e o
disco rígido não deixa mentir) houve abundância de “mãos frementes de devoção
parkinsónica voltadas para o céu despertando o ardor dos fiéis, o passeio
pedestre pelo meio do povo (...), invocações das almas que já partiram do nosso
seio (...), a cópula mística com solo de guitarra, em pas-de-deux tribal com Lenny Kaye” e tudo o mais que a liturgia
exige. Banga, agora, prossegue, inexorável, no mesmo trilho em que o mero olhar
para um horário de comboios nunca desencadeará menos do que a visão do fim dos
tempos. Se não, reparem: dos ídolos e santos vivos, Johnny Depp recebeu a
oferenda de “Nine” como presente de aniversário, concebida, naturalmente, sob a
lua cheia de Porto Rico onde também o texto e a melodia de "Banga" lhe
apareceram. Em sonhos.
O Sonho de Constantino - Piero Della Francesca (c. 1455)
Tal como foi por entre sonhos que, em Arezzo, ela viu um
apocalipse ambiental e, sim, S. Francisco de Assis a chorar. O que,
evidentemente, a fez correr para ir rezar à igreja mais próxima (adivinharam?...
era a basílica de S. Francisco!) e aí deu de caras com O Sonho de
Constantino, de Piero Della Francesca, que, há décadas a intrigava. Ela e
Lenny Kaye persignaram-se, oraram mais, visitaram o “túmulo magnético” do
santinho e o lugar sagrado onde ele amansava os lobos (e os dez intermináveis
minutos de "Constantine’s Dream" surgiram). Outros milagres ocorreram como o da
perfeita junção entre melodia pronta a usar e poema instantâneo no dia da
morte de Amy Winehouse e – continuando nos ídolos mortos –, na celebração de
Santa Maria (Schneider); na outra (vá, agora já é fácil...) oração ao Monte
Fuji, por ocasião do tsunami do Japão; através das várias peregrinações aos
santuários de Bulgakov, Tarkovski e Gogol; no tributo aos índios, no papel do
Bom Selvagem de Rousseau, ou, via "After the Gold Rush", de Neil Young (com coro
infantil por causa da inocência), à... tcharaam!... Mãe Natureza.
Ocasionalmente, há bom ruído eléctrico – afinal, Tom Verlaine e a banda das
origens compareceram –, imenso verbiage "xamânico" e um ou dois inesperados ganchos pop bem medidos. Ah... e Banga era
o cão de Pôncio Pilatos.










