27 September 2026

LUTA DE CLASSES


Com uma certa liberdade interpretativa, digamos que "paddywhackery", em português, poderia traduzir-se por "saloiice irlandesa". E remeteria para o termo que, desde o início do século XIX, foi usado para, mais acintosamente, descrever uma pessoa facilmente irritável, em particular, um "irlandês arruaceiro". Charles e Andrew Hendy, motor e alma estética dos Mary Wallopers, ao terceiro álbum, não se limitam a designá-lo por Paddywhackery, como, em entrevista à "Mojo", reivindicam essa palavra enquanto vernacular arma de combate: "A música folk ganhou a fama de ser algo insípida. Tornou-se inofensiva, o que detestamos, as canções folk não são assim. As canções são todas sobre foder, beber, enforcar senhorios e matar aqueles cabrões. São canções políticas, e até as canções de amor podem ser macabras". Alargando a esfera de acção - "É preciso haver uma voz que devolva às pessoas o lado rebelde do folk" - e invocando os padroeiros da causa, declaram: "É para isso que serve a música folk. Foi o Woody Guthrie quem o disse, são os blues, é o punk, é o hip-hop. É uma forma de expressão de pessoas que não estão satisfeitas com o que a vida lhes reservou e que percebem que isso não é justo. O mundo não é justo e não é justo porque as pessoas não querem que seja justo. Sabes, os políticos e aqueles cabrões ricos de merda, são todos uns filhos da mãe. Na verdade, deviam ser todos mortos!". (daqui; segue)
 
A malta das bófias está mesmo determinada a demonstrar que ferve de  actividade contra a malandragem
... e eles perceberam  

26 September 2026

É, evidentemente, prestigiditação eleitoral, mas, neste Lula, agora (ao contrário de outros mamíferos), até se pode votar de espírito um bocadinho mais leve 

 

"Talking Heads - Girlfriend Is Better" (from Stop Making Sense)

(sequência daqui) Também Stop Making Sense, filmado em 1983 no Pantages Theatre, em Hollywood, durante a digressão de Speaking in Tongues, ultrapassa largamente o registo de um concerto dos Talking Heads. Realizado por Jonathan Demme, transforma o palco num espaço cinematográfico onde música, movimento e imagem se fundem. David Byrne entra sozinho em cena e, aos poucos, a banda cresce à sua volta. No centro está Byrne, inquieto, excêntrico e magnético. O célebre “Grande Fato”, usado em "Girlfriend Is Better'" tornou-se uma das imagens mais icónicas da cultura pop. Os restantes três filmes — A Hard Day’s Night (1964), Summer of Soul (1969) e Purple Rain (1984) —, embora importantes nas carreiras dos seus protagonistas, não se equiparam verdadeiramente aos exemplos anteriores. O crítico do "Village Voice" que chamou ao filme de Richard Lester com os Beatles “the Citizen Kane of jukebox musicals” poupou milhares de palavras a muitos colegas de ofício. A verdade, porém, é que A Hard Day’s Night fica historicamente a considerável distância dos exemplos, bem mais interessantes, de surrealismo naïf de Magical Mystery Tour (1967) e Yellow Submarine (1968).  Summer of Soul é um documentário escorreito sobre o Harlem Cultural Festival de 1969, o chamado “Woodstock Negro”, celebrado como momento de afirmação da cultura, da música afro-americana e do orgulho negro. Durante seis semanas, no Mount Morris Park, em Nova Iorque, passaram pelo festival nomes como Stevie Wonder, Nina Simone, Sly and the Family Stone e B.B. King. As cerca de 40 horas de filmagens originais permaneceram arquivadas até serem recuperadas pelo realizador Ahmir Khalib Thompson e lançadas oficialmente em 2021, no Festival de Sundance. Meter as mãos na massa do género musical, porém, não é para todos. E se, mesmo sem ir além do patamar de Mamma Mia!, se pode construir uma bela obra, Purple Rain (1984) — que multidões de fãs de Prince continuarão a exaltar — arruma-se melhor na prateleira das telenovelas glorificadas.

25 September 2026

Fazendo jus à velha máxima, e apanhando a boleia disponível, a 4ª Internacional (em qualquer uma das suas inúmeras encarnações) não brinca em serviço

História do Irão
Homens praticando sexo anal (pintura do império Persa Safavid, 1501 - 1736)
 

Bob Dylan & The Band  – "Forever Young" | The Last Waltz (1976) 

(sequência daqui) The Last Waltz parte de uma premissa diferente, mas igualmente ambiciosa. A música da Band exigia ser escutada e analisada sob o vasto pano de fundo da História americana — não por acaso, foi Martin Scorsese quem realizou o filme. A música do grupo era feita da mesma matéria das ficções do realizador. Desde as suas origens, no final dos anos 50, quando quatro canadianos e um americano se reuniram sob o nome The Hawks para acompanhar o rock’n’roller do Arkansas, Ronnie Hawkins, transportavam consigo “os blues, o jazz, o country & western e uma multidão de verdadeiros heróis do rock’n’roll que haviam absorvido ao longo das estradas americanas”, como escreveu Greil Marcus. O filme regista o concerto realizado a 25 de novembro de 1976 no Winterland Ballroom, em São Francisco, anunciado como a despedida da Band. Perante cerca de 5000 espectadores, o grupo partilhou o palco com convidados como Bob Dylan (com quem convivera durante a gravação das célebres Basement Tapes, 1975), Joni Mitchell, Van Morrison e Neil Young, entre outros. Scorsese transformou as filmagens num documentário de 116 minutos que é muito mais do que o registo de um concerto: é um retrato da Band e, através dela, de uma América musical, cultural e histórica. (segue para aqui)

22 September 2026

 

Dylan/Don't Look Back - trailer with D.A. Pennebaker commentary

(sequência daqui) A importância fundadora de Don’t Look Back não termina aí. Articulando procedimentos do cinéma vérité com o acompanhamento quase quotidiano de uma das maiores figuras da cultura pop, foi o primeiro grande documentário pop/rock, antecedendo outros trabalhos de Pennebaker, como Monterey Pop (1968). O filme reúne ainda uma sucessão de momentos memoráveis: as arrasadoras sessões de humilhação de jornalistas, as sequências dos concertos, o achincalhamento de Donovan, então promovido a “novo Bob Dylan”, e momentos privados, como Joan Baez interpretando "Percy’s Song" e "Love Is Just a Four Letter Word" enquanto Dylan escreve concentradamente à máquina. Na versão comentada do DVD de Don’t Look Back, Pennebaker explica os propósitos que o orientaram: “Não queria um simples concert-film. Cada concerto foi filmado com uma única câmara, sem preocupação em obter material para posterior montagem, e por vezes a película chegava ao fim a meio de uma canção". O realizador queria que o público pudesse “ver para lá da música”. Por isso, acompanhou Dylan nos vários momentos do dia que antecediam os concertos, procurando mostrar também “o responsável por ela”. (segue para aqui)
Jorge Palma (1950-2026)
 
+ Edit (18:08) - O Estado das Coisas:
(daqui; clicar na imagem para ampliar)