05 October 2026

DESAFIAR O SILÊNCIO
O coração de Bahar Movahed nunca deixou o Irão. Mesmo a milhares de quilómetros, na Califórnia, a cantora continua a escutá-lo nas ruas, nas vozes e na bravura de um povo que permanece na sua música. Foi dessa distância, simultaneamente pertença e solidão, que nasceu Together Yet Alone, um álbum onde a memória, a dor e a esperança encontram a mesma voz. Nascida no Irão e hoje radicada nos Estados Unidos, Movahed regressa às raízes da tradição clássica persa com profunda reverência pelo radif, a vetusta colecção de melodias sobre a qual assenta a música tradicional iraniana. Mas o seu gesto é também político: cantar em farsi, a sua língua materna, é desafiar o silêncio imposto às mulheres que ousam fazer ouvir a sua voz. “Sou uma de entre os milhares de mulheres cuja paixão é cantar, mas que são silenciadas”, afirma à Bandcamp. Depois de um primeiro álbum em curdo, Together Yet Alone é a sua primeira gravação a solo em farsi. Pianista e intérprete de tanbour curdo, entre outros instrumentos, Movahed resume a sua resistência numa frase: “Só quero que a música seja ouvida. Estou de luto, sim, mas viva”. (daqui; segue)
 
"Together Yet Alone"

30 September 2026

Revisões da matéria dada (LXII)
 
 

 

"Landlord's Demise"

(sequência daqui) Ao terceiro álbum - após The Mary Wallopers (2022) e Irish Rock N Roll (2023) - e estimulados pelo exemplo de veteranos como os Pogues, Lankum, Clancy Brothers e The Dubliners, os Mary Wallopers ousam inscrever o seu nome na tradição irlandesa assinando todas as canções. E se o mundo parece mover-se - "Na história do nosso país, somos, de certa forma, ensinados a odiarmo-nos como povo. Mas com a Internet e a maior quantidade de informação que surge, as gerações mais jovens já aprenderam sobre a realidade do que foi o genocídio da Grande Fome * e a acção nefasta do Império Britânico e da Igreja Católica" -, o discurso torna-se também cada vez mais transparente: "Do what you're told by the bosses, try not to rattle the cage, bless when you pass by the crosses, in heaven you might break your chains, when you've dropped dead at the counter, there'll be no time for an amen, somebody's already lined up there, to start the big mixer again".

29 September 2026

 
Edit (30/09) - ver aqui e rever aqui) 
 
 
(sequência daqui) Tanta e tão exaltada eloquência decorre do contacto próximo e permanente com um reportório com séculos de uma história de desigualdade e luta de classes a ressoar ainda profundamente nos dias de hoje. Da espécie de rockabilly countrificado de "The Juice" ao programa de acção - voz, bodhrán e tin whistle - de "Landlord's Demise" ("No landlord here in Ireland is the song that I will sing, run them out or burn them out, whatever is your thing, no time now for the wealthy ones who try to put us down, break the greedy structures built to keep the poor folk down"), ou à demolição dos estereótipos do "orgulho identitário" de "Crowns Of England" ("For all the crowns in England I couldn't quench my thirst, I wandered back to Dundalk town, the place that quenched it first"), Charles Hendy explica em detalhe ao "NME": "A canção fala de estar em Inglaterra e sentir-se um forasteiro no meio de todo aquele colonialismo. E fala dos irlandeses que se mudam para Londres e depois se deixam assimilar, tentando afastar-se da sua identidade irlandesa. A Inglaterra continua a ser um lugar arcaico em muitos aspectos. Ainda existe uma monarquia. Todos os pubs chamam-se 'The Crown'. Há bandeiras por todo o lado". (segue para aqui)