Não é surpresa nenhuma que a bola seja um covil de meliantes; mas ao ponto de já praticamente não ser escandaloso o Trampas andar por lá a chafurdar, é desavergonhadamente demais
Vestido como um detective de film noir - longo sobretudo cinzento e chapéu de feltro -, o "Record Officer" (na realidade, o actor George MacKay) chega a um centro de arquivos. Está nas instalações do Ministério do Não Esquecimento — uma instituição cinematográfica imaginária e vagamente orwelliana, onde a memória e a mitologia se atropelam. Aí irá conduzir uma entrevista com Marianne Faithfull, na qual lhe mostrará imagens dela própria num monitor e lhe fará diversas perguntas. Na verdade, uma apenas bastaria para a situar: "Acha que precisava assim tanto das trevas para ter sido uma grande artista?", pergunta ele à baronesa Erisso von Sacher-Masoch - da ilustre linhagem dos Habsburgos e sobrinha bisneta de Leopold von Sacher-Masoch - que alcançou a fama como uma angelical estrela pop loira de 17 anos e sofreu um rápido declínio para o alcoolismo, a dependência da heroína e a vida nas ruas pelos seus 20 anos. "Fuck, no!..", replica muito energicamente Faithfull. "Mas é um bom gancho para se pendurar as coisas, não acha?", acrescenta ela. (daqui; segue )
(sequência daqui) Há, porém, algo de paradoxal em Down Where the Willow and the Dogwood Grow. Apresentado como um novo tributo à obra de Tom Waits e Kathleen Brennan, o álbum não oferece uma única gravação inédita. Acaba, contudo, por funcionar como algo mais interessante: um reavaliador da extraordinária força das canções de Waits e Brennan num percurso que alterna entre baladas, blues andrajosos, canções de inspiração latina, gospel e peças quase faladas, reflectindo a impressionante diversidade do cancioneiro Waits/Brennan quando retirado da imensa sombra da sua personalidade. Ou como um espelho que, ao reflectir a obra através de vozes alheias - Solomon Burke, Bruce Springsteen, Willie Nelson, Lucinda Williams (que canta "Hang Down Your Head", a primeira canção oficialmente atribuída à parceria Waits-Brennan, publicada em Rain Dogs, 1985), Johnny Cash, Marianne Faithfull, Bob Seger, Diana Krall, John Hammond -, revela a qualidade rara de canções capazes de sobreviver a qualquer intérprete — inclusive ao seu criador. Afinal, um tanto ou quanto ironicamente, o título do álbum de homenagem haveria de ser extraído do texto de canção "Down There By The Train", o patinho feio inicial, em cuja primeira estrofe se lê: "There’s a place I know where the train goes slow, where the sinner can be washed in the blood of the lamb, there’s a river by the trestle down by sinner’s grove, down where the willow and the dogwood grow".
(sequência daqui) "Ela salvou-me", confessou Waits ao "Guardian", em 2009. "Talvez eu também a tenha salvado. Ela é de ascendência católica-irlandesa. Estava destinada a ser freira. Pode dizer-se que a salvei do Senhor. Mas todos sabem que ela é o cérebro por trás do Papá. Eu sou apenas a figura de proa. É ela quem conduz o navio". Dylan uma vez comentou que, aos olhos de Waits, "todas as grandes coisas que surgiram em New Jersey não chegam aos calcanhares de Kathleen Brennan". Tom reforça a ideia: "Ela é como uma operadora de maquinaria pesada e uma clarividente — é raro encontrar essa combinação. Ela é extraordinária — podadora de árvores e ventríloqua, astronauta e detective particular. Estamos sempre à procura dessas duas coisas. Um jornalista e uma beldade de praia. É uma combinação que funciona para nós, porque muitas vezes estou num carrinho de bebé à espera de ser empurrado para o meio do trânsito. É ela que o faz". (segue para aqui)