07 May 2021

Kim Jong-un vs 
The Flying Coronavirus!
 
(sequência daqui) Não foi a única vez em que (se o conceito tem autorização para existir) a reapropriação cultural teve lugar. Deslocada para Memphis aos 19 anos e definitivamente dedicada â música, não apenas descobriu a Memphis Soul da Stax Records (de Aretha Franklin, Booker T. & The M.G.’s, Carla Thomas, Otis Redding e Rufus Thomas), mas também as branquíssimas bluegrass, folk, country, e a tradição musical das Appalaches, coisa à qual, por entre histórias e lendas de vadios e vagabundos moídas no almofariz transcultural e alimentadas a "lap-steel guitar", ukulele e banjo (“instrumento de origem africana”, sublinha), haveria de chamar "organic moonshine roots music". Sobre ela pairavam também Mississippi John Hurt, Memphis Minnie, Dolly Parton, Etta James e a Carter Family que iriam fertilizar o terreno onde a sua música cresceria: “No meio musical, quando se fala de ‘roots’, pensa-se em folk, blues, Americana... Eu prefiro pensar na minha música como uma planta: tem as raízes que lhe permitem crescer, florir e desenvolver-se em todas as direcções. Se começar a partir do solo, das raízes, e as estudar, acabarei por descobrir-me a mim mesma, crescerei e transformar-me-ei naquilo que daí haverá de surgir”.(segue)
 

05 May 2021

Edit (06/05/2021) - ... e estão por todo o lado!...
Eis mais um daqueles momentos em que esta doce melodia regressa à memória

A PARTIR DO SOLO
Pelo meio dos anos 90 do século passado, Valerie June Hockett era uma miúda negra adolescente, de Humboldt, no Tennessee, que fizera a aprendizagem musical na Church of Christ local, uma igreja “tão pura que, por tradição, proibia a utilização de instrumentos musicais. Por isso, tínhamos só vozes e toda a gente – velhos, jovens, afinados, desafinados – cantava. Não havia regras como ‘não sabes cantar, vais para a fila de trás’. Toda a gente cantava. Aos domingos, eram 500 pessoas a cantar em côro, a plenos pulmões”, conta ela à “Billboard”. Da santidade gospel, seguia para casa onde se deixava desviar para aquilo a que a mãe chamava “drug music”, com a cumplicidade do pai, Emerson Hockett, empresário da contrução civil e, em "part-time", promotor de concertos de Prince, Bobby Womack e vários outros músicos e bandas soul e R&B. Foi por essa altura que uma inversão inesperada dos trajectos habituais aconteceu: Ouvi a versão dos Nirvana para ‘Where Did You Sleep Last Night’, do Leadbelly. O rapaz branco conduziu-me até aos blues. Ali estava eu à procura das minhas raízes”. (daqui: segue)
 
"Call Me A Fool" (feat. Carla Thomas) - ver também aqui

04 May 2021

"(Não ajuda grande coisa) Andarem, agora, horas a fio pelas ruas e estradas de Odemira a ouvir gente a maldizer os imigrantes, quando eles estão lá há anos, a trabalhar num regime que roça a servidão e a viver em ruas e casarios que são verdadeiros guetos. Agora que não podem estar de esplanadas abertas já se queixam de quem faz um trabalho muito duro em condições terceiro-mundistas? Pena que tantos jornalistas não tivessem experimentado ir lá espreitar, antes da pandemia, os dois mundos completamente opostos de 'estrangeiros' que por lá vivem. É que a TSF, por exemplo, levou a manhã a reproduzir declarações sobre os 'estrangeiros infectados', mas não me parece que estivessem propriamente a falar de todos os estrangeiros, incluindo aqueles que nem querem os filhos nas escolas portuguesas, não vão apanhar algum contágio de pobreza. Sobre este evidente ataque de xenofobia e racismo (sim!), estou para ouvir as joacines deste jardim cheio de estufas à beira-mar plantadas" (aqui; ver também aqui)
 
Edit (20:16) - "Escravos do rio" (2017)
 
VINTAGE (DLXXV)

The Feelies - Crazy Rhythms

(álbum integral aqui)

(ver aqui)

03 May 2021


"(...) Para Pluckrose e Lindsay, as agendas pós-modernas nos estudos de raça, sexo, género, etc. não passam de 'pós-modernismo aplicado'. Elas são filhas daquilo, que de um modo simples, gosto de chamar 'tretas pós-modernas'. Tendo o pós-modernismo estagnado como filosofia, deixou como herança uma agenda política, uma agenda totalitária, pois os defensores dessas causas não admitem ser contrariados. Claro que os autores de Teorias Cínicas aceitam que existe racismo, machismo, colonialismo, etc.., isto é, há preconceito e opressão, mas pensam também que, nos seres humanos, há um balanço entre a realidade biológica e a construção social, não podendo a primeira ser ignorada (...)" (aqui)

Edit (12:46) - ver também aqui
O Tempo dos Operários (I e II)

02 May 2021


(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)
"Travelin’ Blues"
 
(sequência daqui) Antes, durante concertos episódicos em Camden (Londres), tinha-se deixado seduzir pela "slide guitar" bem como pelos vetustos blues de Skip James, Robert Johnson, e Blind Willie Johnson. Tinha-se transformado numa “rock kid obsessed with old music” que, no entanto, não se furtava a reparar como, por exemplo, os Led Zeppelin eram “notórios por pilharem os velhos músicos de blues sem lhes atribuir crédito”. Durante 5 meses, deambulou por metade dos estados norte-americanos, tocou e cantou em bares, cafés, clubes e quintais, em busca – ela, a impenitente nómada – da sua “identidade americana”. Como canta em "Travelin’ Blues", descobriu que “Onwards and upwards, well this path leads to nowhere, nowhere sounds lovely, well I’d sure like to go there”. É nesse lugar nenhum que, por entre delta blues, melodias das Apalaches e "ragtimes" revigorados, se ergue, paradoxalmente, o mais empolgante álbum de "americana" dos últimos anos.