Com uma certa liberdade interpretativa, digamos que "paddywhackery", em português, poderia traduzir-se por "saloiice irlandesa". E remeteria para o termo que, desde o início do século XIX, foi usado para, mais acintosamente, descrever uma pessoa facilmente irritável, em particular, um "irlandês arruaceiro". Charles e Andrew Hendy, motor e alma estética dos Mary Wallopers, ao terceiro álbum, não se limitam a designá-lo por Paddywhackery, como, em entrevista à "Mojo", reivindicam essa palavra enquanto vernacular arma de combate: "A música folk ganhou a fama de ser algo insípida. Tornou-se inofensiva, o que detestamos, as canções folk não são assim. As canções são todas sobre foder, beber, enforcar senhorios e matar aqueles cabrões. São canções políticas, e até as canções de amor podem ser macabras". Alargando a esfera de acção - "É preciso haver uma voz que devolva às pessoas o lado rebelde do folk" - e invocando os padroeiros da causa, declaram: "É para isso que serve a música folk. Foi o Woody Guthrie quem o disse, são os blues, é o punk, é o hip-hop. É uma forma de expressão de pessoas que não estão satisfeitas com o que a vida lhes reservou e que percebem que isso não é justo. O mundo não é justo e não é justo porque as pessoas não querem que seja justo. Sabes, os políticos e aqueles cabrões ricos de merda, são todos uns filhos da mãe. Na verdade, deviam ser todos mortos!". (daqui; segue)
"Talking Heads - Girlfriend Is Better" (from Stop Making Sense)
(sequência daqui) Também Stop Making Sense, filmado em 1983 no Pantages Theatre, em Hollywood, durante a digressão de Speaking in Tongues, ultrapassa largamente o registo de um concerto dos Talking Heads. Realizado por Jonathan Demme, transforma o palco num espaço cinematográfico onde música, movimento e imagem se fundem. David Byrne entra sozinho em cena e, aos poucos, a banda cresce à sua volta. No centro está Byrne, inquieto, excêntrico e magnético. O célebre “Grande Fato”, usado em "Girlfriend Is Better'" tornou-se uma das imagens mais icónicas da cultura pop.
Os restantes três filmes — A Hard Day’s Night (1964), Summer of Soul (1969) e Purple Rain (1984) —, embora importantes nas carreiras dos seus protagonistas, não se equiparam verdadeiramente aos exemplos anteriores. O crítico do "Village Voice" que chamou ao filme de Richard Lester com os Beatles “the Citizen Kane of jukebox musicals” poupou milhares de palavras a muitos colegas de ofício. A verdade, porém, é que A Hard Day’s Night fica historicamente a considerável distância dos exemplos, bem mais interessantes, de surrealismo naïf de Magical Mystery Tour (1967) e Yellow Submarine (1968). Summer of Soul é um documentário escorreito sobre o Harlem Cultural Festival de 1969, o chamado “Woodstock Negro”, celebrado como momento de afirmação da cultura, da música afro-americana e do orgulho negro. Durante seis semanas, no Mount Morris Park, em Nova Iorque, passaram pelo festival nomes como Stevie Wonder, Nina Simone, Sly and the Family Stone e B.B. King. As cerca de 40 horas de filmagens originais permaneceram arquivadas até serem recuperadas pelo realizador Ahmir Khalib Thompson e lançadas oficialmente em 2021, no Festival de Sundance. Meter as mãos na massa do género musical, porém, não é para todos. E se, mesmo sem ir além do patamar de Mamma Mia!, se pode construir uma bela obra, Purple Rain (1984) — que multidões de fãs de Prince continuarão a exaltar — arruma-se melhor na prateleira das telenovelas glorificadas.
Bob Dylan & The Band – "Forever Young" | The Last Waltz (1976)
(sequência daqui) The Last Waltz parte de uma premissa diferente, mas igualmente ambiciosa. A música da Band exigia ser escutada e analisada sob o vasto pano de fundo da História americana — não por acaso, foi Martin Scorsese quem realizou o filme. A música do grupo era feita da mesma matéria das ficções do realizador. Desde as suas origens, no final dos anos 50, quando quatro canadianos e um americano se reuniram sob o nome The Hawks para acompanhar o rock’n’roller do Arkansas, Ronnie Hawkins, transportavam consigo “os blues, o jazz, o country & western e uma multidão de verdadeiros heróis do rock’n’roll que haviam absorvido ao longo das estradas americanas”, como escreveu Greil Marcus. O filme regista o concerto realizado a 25 de novembro de 1976 no Winterland Ballroom, em São Francisco, anunciado como a despedida da Band. Perante cerca de 5000 espectadores, o grupo partilhou o palco com convidados como Bob Dylan (com quem convivera durante a gravação das célebres Basement Tapes, 1975), Joni Mitchell, Van Morrison e Neil Young, entre outros. Scorsese transformou as filmagens num documentário de 116 minutos que é muito mais do que o registo de um concerto: é um retrato da Band e, através dela, de uma América musical, cultural e histórica. (segue para aqui)
Dylan/Don't Look Back - trailer with D.A. Pennebaker commentary
(sequência daqui) A importância fundadora de Don’t Look Back não termina aí. Articulando procedimentos do cinéma vérité com o acompanhamento quase quotidiano de uma das maiores figuras da cultura pop, foi o primeiro grande documentário pop/rock, antecedendo outros trabalhos de Pennebaker, como Monterey Pop (1968). O filme reúne ainda uma sucessão de momentos memoráveis: as arrasadoras sessões de humilhação de jornalistas, as sequências dos concertos, o achincalhamento de Donovan, então promovido a “novo Bob Dylan”, e momentos privados, como Joan Baez interpretando "Percy’s Song" e "Love Is Just a Four Letter Word" enquanto Dylan escreve concentradamente à máquina.
Na versão comentada do DVD de Don’t Look Back, Pennebaker explica os propósitos que o orientaram: “Não queria um simples concert-film. Cada concerto foi filmado com uma única câmara, sem preocupação em obter material para posterior montagem, e por vezes a película chegava ao fim a meio de uma canção". O realizador queria que o público pudesse “ver para lá da música”. Por isso, acompanhou Dylan nos vários momentos do dia que antecediam os concertos, procurando mostrar também “o responsável por ela”. (segue para aqui)