19 October 2018

 
... mas não tinha ficado já assente 
que a culpa é do mafarrico?
O adjuntivo, poeta/"diseur"


“...!?´´´´----------(...)???? ...!!!!``````/////\\\\\)” (Luís Marques Mendes, no Jornal da Noite, SIC, todos os domingos)

"Há uma injustiça de que é vítima todas as semanas o comentador Marques Mendes que eu gostaria de reparar: as suas palavras proferidas no laboratório televisivo das 20h de domingo são largamente citadas nos jornais do dia seguinte, mas o mais importante nunca é o que ele disse por palavras, mas antes a vivacidade espiritual da prosódia: as articulações não sintácticas, o staccato do seu débito verbal, o expressionismo das acentuações, os altos e baixos, as mudanças de tom, as habilidades miméticas que ora nos fazem pensar numa mosca lasciva, ora introduzem o tom grave do orador nos grandes momentos da vida, a gestualidade enfática. O expressionismo de Marques Mendes é uma poesia que está toda na prosódia e que só poderia ser citada por meio de sinais de acentuação, se houvesse, como há para a música, um código para a transcrição prosódica. O comentário político torna-se assim um exercício de elevado teor artístico, entre o livro sobre nada de Flaubert e a 'nada-logia' de Balzac, isto é, a sublime 'rienologie' que este escritor viu no jornalismo do seu tempo" (AG)
Tens uma licenciatura em Educação Física e és professor do 2º ciclo do Ensino Básico? Já estás farto de aturar os fedelhos? Então, inscreve-te no PSD (ou no PS, ou noutro qualquer, tanto faz) e, de vereador municipal a deputado da nação, com jeitinho, podes chegar a um cargo catita como, sei lá, presidente do Turismo do Porto e Norte!

18 October 2018

Shred The Love - The Director's Cut
(sequência daqui)

O LIVRO TEM UM NOVO CAPÍTULO


Não estaríamos todos muito conscientes disso mas, já lá vai quase uma década, o tipo que escreveu "Everyday I Write The Book" ameaçou colocar-lhe o ponto final. Tinha acabado de publicar National Ransom – uma negríssima visão de um mundo onde “unusual suspects shake down various dubious characters” – e decidira que, no futuro, os palcos seriam o seu único canal de comunicação. Fiquemos, pois, eternamente gratos à última digressão que Elvis Costello realizou com os Imposters que lhe fez ver que uma tão excelente banda merecia regressar com um tão óptimo álbum como Look Now.

    Desde que, há 8 anos, publicou National Ransom, a versão oficial era que, daí em diante, se dedicaria exclusivamente aos concertos e que voltar a gravar álbuns a solo era “um livro definitivamente fechado”...

É verdade. Pensava que a forma mais útil de tirar partido do meu tempo seria interpretar as canções em palco. Foi exactamente o que fiz durante os últimos 8 anos. Isso permitiu-me chamar a atenção para algumas canções que, em disco, terão passado despercebidas e, ao mesmo tempo, continuar a cantar aquelas que as pessoas desejavam ouvir. O que é um enorme elogio: 30 ou 40 anos depois, haver quem ainda continue interessado em escutar essas músicas. Não planeei nada mas surgiram duas oportunidades para gravar: Wise Up Ghost, com os Roots, e um convite para participar em Lost On The River: The New Basement Tapes. No entanto, até ao ano passado, mantinha a ideia de que não voltaria a publicar um álbum a solo. Foi no final da digressão com os Imposters que me apercebi de que, embora tivéssemos gravado em conjunto muitas e excelentes canções, nenhum disco conseguia sequer dar uma ideia do potencial que a banda, actualmente, tem. Nesse instante, decidi que teríamos de voltar aos estúdios.


    A decisão de não voltar a gravar a solo devia-se a não existir quem estivesse interessado em publicar a sua música ou a sentir que já não tinha mais canções para escrever?

Foi uma decisão que teve a ver com a forma como desejava utilizar o meu tempo e não uma questão de inpiração, continuei a escrever dezenas de canções. Nessa altura, optar por dedicar-me exclusivamente aos concertos foi a decisão certa. É preciso saber dividir o tempo disponível pelas diferentes ocupações e responsabilidades. Não podia deixar de continuar no centro da minha família: somos pais já não jovens com filhos pequenos. De certo modo, ainda bem que pude dispor deste grande intervalo entre gravações que me permitiu avaliar melhor o que é realmente importante numa gravação.

    Na apresentação escrita que fez de Look Now, apresenta-o como algo que deve ser encarado no ponto de intersecção entre Imperial Bedroom (1982) e Painted From Memory, o álbum de 1998 que compôs a quatro mãos com Burt Bacharach que, aliás, também reaparece neste...

Não atribua demasiada importância ao facto de eu ter dito isso. Antes de alguém ter ouvido a música, pediram-me que desse uma ideia daquilo que se poderia esperar. E essa foi a melhor descrição que, na altura, me ocorreu. Os discos não são uma máquina do tempo na qual possamos entrar e recuar até ao momento em que gravámos Imperial Bedroom e Painted From Memory. Mas, do ponto de vista das orquestrações, da sensibilidade ao ritmo e à harmonia, assim como o alcance emocional que ambicionavam, esses dois tinham muitos pontos em comum. Poderia ter dito que soa como My Aim Is True ou Blood And Chocolate... qualquer par de discos meus anteriores poderia ter servido mas não daria uma ideia tão aproximada. Na verdade, soa ao que pode ser um disco meu. Não acredito que outro músico qualquer que não eu o pudesse ter gravado. Mas cada um poderá ter uma ideia muito diferente daquilo que a minha música é... se, por exemplo, for à Coreia, dir-lhe-ão que eu sou o tipo que canta "She"... (risos)


    Numa outra versão da história, terá enviado umas dezenas de canções ao baterista Pete Thomas e ter-lhe-á dito que andava com Dusty In Memphis (1969), de Dusty Springfield, na cabeça, tendo ele feito um alinhamento provisório das suas canções que procurava seguir, mais ou menos à letra, o do álbum da Dusty... Não foi esse o alinhamento definitivo, pois não?

Não. Da mesma forma que usei essa comparação com Imperial Bedroom e Painted From Memory, tive de ir dando indicações à banda acerca do que ia escrevendo. O mais significativo nesse disco da Dusty Springfield é que combina uma secção rítmica muito forte com harmonias bastante sofisticadas, por exemplo, em canções como "Just One Smile", "In The Land Of Make Believe" ou "No Easy Way Down". Não é obrigatório contentarmo-nos sempre com os mesmos três acordes. O Pete Thomas e o Davey Faragher ensaiaram exaustivamente as partes da secção rítmica de modo que, quando entrámos em estúdio, tinham adquirido uma dureza de aço sobre a qual era possível desenvolcer as canções harmonicamente, fazendo que tudo soasse como se tivesse sido fácil.

    Todas as canções deste álbum são em torno de personagens ficcionais (algumas recuperadas de gravações anteriores) mas a de "I Let The Sun Go Down" lamenta-se amargamente acerca da queda do império onde “o Sol nunca se punha”. É uma alusão aos impulsos que terão conduzido ao Brexit? 

Houve quem tivesse entendido essa canção como se eu estivesse a desenhar um quadro nostálgico em torno da saudade do império britânico. Não sou, de todo, nacionalista, não saúdo reverentemente a bandeira. Mas encaro cada pessoa tal como ela é e há uma parte de mim que é capaz de entender quem se emociona com essa ideia de império, seja o império britânico ou o império romano. Mesmo que não compreenda esse tipo de pensamento, aceito que seja importante para quem vê as coisas sob esse ângulo. E não tem nada a ver com a actualidade – é, aliás, uma canção antiga que escrevi há cerca de 7 anos – ou com o debate que o Brexit desencadeou acerca de sermos ou não europeus. Claro que somos todos europeus, trata-se apenas de discutir os termos de uma aliança e, quer façamos parte dela ou não, continuamos a ter de ser capazes de pagar as contas e continuará a existir quem lucre com isso e quem seja empurrado para fora... mas eu nem sequer tento explicar nada disso, não é a minha missão: felizmente, não sou político, sou artista, limito-me a lidar com emoções que coloco na boca de personagens.

 
    Mas, ao longo da sua carreira, tem escrito e interpretado canções abertamente políticas como "Oliver’s Army" ou "Tramp The Dirt Down" em que sonhava com o momento no qual o caixão de Margaret Thatcher desceria à terra...

São políticas na medida em que exprimem reacções emocionais relativamente a coisas que vi ou vivi e que tiveram um determinado significado. "Oliver’s Army" foi uma resposta imediata a eu ter ido a Belfast pela primeira vez e ter visto rapazes da minha idade na altura, de metralhadora nas mãos, em plena rua, tal como poderia acontecer nas ruas da minha cidade. "Tramp The Dirt Down" é uma daquelas canções que mais vale serem escritas do que guardarmos aqueles terríveis sentimentos dentro de nós. Poderia também dizer o mesmo acerca de "Bedlam", uma canção mais recente, que serviu para expulsar de dentro de mim aquilo que, se não o tivesse feito, facilmente se tornaria numa ira perigosamente irracional. Temos de escrever apaixonadamente sobre as coisas que nos são caras mas há uma forma certa para o fazer de modo a que possam exercer alguma influência no modo como as pessoas pensam, diferentemente da lábia enganadora utilizada pelos políticos: são eles que põem a circular slogans insensatos, são eles que mentem, que enchem os bolsos, corrompem e se deixam corromper. Todos eles, independentemente das bandeiras que empunham.

    Mesmo que apenas subconscientemente, a energia que reencontrou para a gravação deste álbum poderá também ter alguma coisa a ver com o facto de, a meio do processo, lhe ter sido diagnosticado um problema oncológico que, sendo precocemente detectado, foi resolvido com sucesso?

Apesar de, ao contrário do que eu desejava, os tablóides teram noticiado esse assunto de uma forma estupidamente melodramática, felizmente, recuperei por completo. Claro que isso pode ter-me influenciado no sentido de procurar fazer tudo o melhor possível, de me assegurar que este álbum deveria ser algo de que me deveria orgulhar. Mas a verdade é que nunca entrei em estúdrrrrrio com outra atitude que não essa.

16 October 2018

Oh, o inebriante aroma da liberdade numa "assistência com 'statements' uns atrás dos outros"!... (ou seria do vinho verde?)
O QUE SABEMOS AGORA

   
“Quando fazemos alguma coisa durante bastante tempo, é fácil acabarmos a discutir com o nosso próprio passado. Não tinha nenhum interesse em gravar um álbum cujo lema fosse: 'Lembram-se deste tipo? Este disco irá recordar-vos de quando gostavam dele'. Não é essa a vida que vivo. Queria gravar um álbum que, anteriormente, não pudéssemos ter gravado. Acerca do que sabemos agora, de como agora nos sentimos e do que amanhã faremos”. Há, obviamente, algo seriamente errado no hipotético lema que Elvis Costello refere no texto de apresentação de Look Now: não apenas o tempo de conjugação do verbo “gostar” não é correcto – onde está escrito que, de um momento para o outro, se tenha deixado de “gostar” dele? – mas, apesar dos 8 anos de ausência desde o óptimo National Ransom, ele não esteve propriamente "missing in action". Ouvimo-lo em Wise Up Ghost (2013) com The Roots, na reconstrução arqueológica (não magnificamente sucedida, é verdade) dos textos inéditos de Bob Dylan em Lost On The River: The New Basement Tapes (2014), lemos vorazmente a autobiografia Unfaithful Music & Disappearing Ink (2015) e, durante todo esse período, quem peregrinou até aos palcos a que ele subia – as tournées “The Return Of The Spectacular Spinning Songbook” (2011), “Detour” (2015/2016) e “Imperial Bedroom & Other Chambers Tour” (2016/2017) – teve oportunidade de testemunhar a óptima forma de Costello & The Imposters, particularmente evidente na avassaladora interpretação de "The Future", de Leonard Cohen (cada vez mais tragicamente actual), no Memorial Tribute a Cohen, de 6 de Novembro de 2017, em Montreal. 



Não é, pois, de espantar que, perante tantas provas de intensíssima vida, Costello se tenha deixado convencer que, ao contrário do que havia decidido, ainda era demasiado cedo para desistir dos estúdios. Look Now remove as últimas dúvidas que pudessem existir: com três novas belíssimas canções escritas a quatro mãos com Burt Bacharach e uma saborosa “antiguidade” com Carole King, a totalidade do álbum é uma exuberante demonstração da vitalidade do idioma pop clássico – aquele que começa no Brill Building, é reconfigurado pelo rock e pelo punk e, pelo caminho, vai mudando inúmeras vezes de pele – quando entregue aos cuidados dos melhores mestres. Daqueles que promovem felicíssimos casamentos de melodia e harmonia capazes de acolher palavras como “I see you looking at me, looking at how you’re looking at me”.

14 October 2018

Feed Your Head, Food for Thought, sim senhor, mas não esquecer que "head" e "thoughts" agradecem ser também alimentados por saborosa e xenófila via oral, a saber: