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17 June 2015

TUDO SERÁ POSSÍVEL 

Sofka Dolgorouky

A 16 Julho de 1918, o governo bolchevique executou os Romanov em Yekaterinburg. Menos de um ano depois, um numeroso grupo de aristocratas acompanhava a imperatriz Maria Feodorovna, mãe do czar fuzilado, na fuga para o exílio em Londres, a partir da Crimeia. Entre eles, estava a princesa Sofka Dolgorouky, então com 12 anos, descendente de Catarina, a Grande. As curvas da História são maravilhosamente sinuosas e, cerca de duas décadas mais tarde, a aristocrata russa, após ter sido presa pela Gestapo em França e haver contribuído para a salvação de centenas de judeus, transformar-se-ia numa fogosa militante comunista, feminista desenvolta (“Ao longo dos anos, fui alegremente para a cama com quem me parecesse simpático e divertido. Era um passatempo agradável, um bom exercício, e nunca lhe atribuí enorme importância, durasse uma semana ou duas, um dia ou dois, ou apenas uma noite”) e propagandista da contracepção, em 2010 condecorada postumamente enquanto British Hero of the Holocaust. Na verdade, não lhe devemos apenas isso: foi também mãe de Peter Zinovieff (o pai, Leo Zinovieff, era igualmente um aristocrata russo exilado), inventor – com David Cockerell e Tristram Cary – do sintetizador VCS3, no final dos anos 60. 


As experimentações electrónicas de pioneiros como Léon Theremin, Louis e Bebe Barron, Raymond Scott ou Robert Moog tinham lançado as sementes mas seriam Zinovieff, Cary e Cockerell quem, através da EMS (Electronic Music Studios), operaria a revolução nas práticas sonoras da música do século XX com a criação do primeiro sintetizador portátil, acessível a um mercado de massas. Stockhausen, passou pelo estúdio doméstico de Zinovieff, em Putney, e aí, ou adquirido comercialmente, o VCS3 infiltrar-se-ia na obra de inúmeros músicos e bandas – Pink Floyd, Who, Kraftwerk, Roxy Music (via Brian Eno), King Crimson, Gong, David Bowie, Tangerine Dream, Ice-T, Portishead, Aphex Twin, LCD Soundsystem – que fariam sua a máxima de Zinovieff: “Pensa num som e, a seguir, cria-o. Qualquer som ou combinação de sons é, a partir de agora, possível”. Uma compilação das suas composições, Electronic Calendar: The EMS Tapes, será, finalmente, publicada no próximo dia 22 mas podem ir fazendo os TPC preparatórios espreitando no YouTube o documentário What the Future Sounded Like.

22 March 2015

Daevid Allen (1938 – 2015)



"There’s a million ways to laugh. Sometimes absurdism can be subversive. Sometimes it’s necessary to look further, beyond the Pot-Head Pixies and Flying Teapots and see what’s on the other side. In a sense Daevid Allen is no longer with us, in another he’ll always be here so long as we play the records, he’s just evolved to another form, transmuted into the music. This sounds frivolous. It’s not. It’s part of the magic he deals with, part illusory, part dexterity. Jazzer Sun Ra claimed to be from Saturn. His cosmic philosophy was ludicrous, his avant-garde improvisations could be breathtaking. When Christopher David Allen (as he was then) fetched up in Dover, from his native Australia, via a stint at 9 Rue Git-le-Coeur, the Paris ‘Beat Hotel’, he was listening to the endless pulse of Sun Ra. This was around 1961, and jazz was the cool underground. The drummer in Daevid’s first free-Bop trio was a young Robert Wyatt, with Hugh Hopper on bass. When the group eventually evolved into Soft Machine it took its name from the ‘Beat’ junk-mythologies of William S Burroughs too. Daevid had discovered the Beats back home in Melbourne while working a scuffed bookshop. Poetry can be spontaneous Bop jazzetry. It takes your head into places straight ‘serious’ art cannot. It can be the jolt that tips you over into altered states. All this was alchemy for the soul. From Charlie Mingus to Robert Graves. Accident, chance and serendipity were part of its strategy. So when, after playing Côte d’Azur dates with the Softs, Daevid was refused re-entry to the UK due to visa problems, he gravitates to Paris in time for ‘les évènements’, which was the place to be. ‘Egalité! Liberté! Sexualité!’ is another mythic-layer occupying the zone between prankster insurgency and subtle brain-games. He recites Beatnik poetry in fractured Franglaise which is also an assault on the senses (...)" (daqui; + aqui)

04 March 2013

HÉROUVILLE, 1971
(sequência daqui)


José Mário Branco conheceu José Afonso numa noite de 1969, em Paris. Um, emigrado político, cantava numa colectividade dos subúrbios, o outro, recém-chegado de Portugal, actuava no auditório do Foyer International des Étudiantes, no número 93, do Boulevard Saint Michel. Mas Branco não ousou desperdiçar a oportunidade de se encontrar com aquele que era já o nome maior da música popular portuguesa e uma das figuras da oposição ao Estado Novo. Contudo, embora, a partir daí, Afonso tenha passado a actuar como mensageiro entre José Mário e a editora Sassetti, através da qual Mudam-se Os Tempos, Mudam-se As Vontades acabaria por ser publicado, só dois anos mais tarde a colaboração musical entre ambos se estabeleceria: José Mário Branco produziria Cantigas do Maio que, entre 11 de Outubro e 4 de Novembro de 1971, seria gravado nos Strawberry Studios do Chateau d’Hérouville, a 30 quilómetros de Paris, lugar com "pedigree": castelo do século XVIII, construído pelo arquitecto da escola de Roma, Gaudot, na proximidade dos campos onde Van Gogh pintou algumas das suas últimas obras, tinha sido comprado pelo compositor Michel Magne que o convertera em estúdio. Viria a ser utilizado pelos Pink Floyd, Grateful Dead, Gong, Jethro Tull, MC5, David Bowie e Iggy Pop e, nesse ano, por José Afonso que, ali, registaria um dos discos-chave da música portuguesa.


"Grândola Vila Morena" seria a quinta faixa do álbum. Quando Zeca apresentou a José Mário Branco, como costumava dizer, “uma coisa que inventei”, este sugeriu-lhe realizar não exactamente um arranjo mas antes uma encenação sonora, um exercício de estilo sobre o canto alentejano. Uma vez que a melodia se assemelhava a uma toada do Alto Alentejo (menos pesadas na letra e na música do que as do Baixo Alentejo), ela seria concretizada desse modo, para o que seria necessário trabalhar a letra no sentido de lhe impor as inversões de versos que lhe são típicas. A estrutura coral característica com o alto, o ponto (ambos cantados por José Afonso) e o côro (Zeca, Zé Mário, Francisco Fanhais e Carlos Correia/Boris) a responder, estabeleceria a forma final. Foi também proposta de José Mário Branco a inclusão da sonoridade dos passos (gravados pelos quatro, sobre a gravilha, no local das antigas cavalariças), replicando o que tinha visto, enquanto jovem, em Peroguarda, quando os camponeses vinham da monda, pela estrada, abraçados, arrastando um pé e pousando, um tipo de cadência de cantar, andando. Pelo meio, "Grândola" perderia uma quadra ("Capital da cortesia, não se teme de oferecer, quem for a Grândola um dia, muita coisa há-de trazer"), ganharia outra ("À sombra de uma azinheira, que já não sabia a idade, jurei ter por companheira, Grândola, a tua vontade") mas, acima de tudo, adquiriria o estatuto de ícone sonoro de um momento irrepetível.

04 October 2009

THE CANTERBURY SCENE: DAEVID ALLEN,
STEVE HILLAGE & ROBERT WYATT






(2009)
ESTRANHOS NUMA TERRA ESTRANHA



Gong - 2032

Impedido de entrar em Inglaterra porque o seu visto de residência expirara, expulso de França devido a uma intervenção demasiado entusiástica nos tumultos do Maio de 68, acabado de regressar de Maiorca a Paris, quando a atmosfera política já serenara, que faz o australiano Daevid Allen, sem um tecto para dormir? Evidentemente, pega na lista telefónica local, abre-a ao acaso e liga para o primeiro número onde lhe poisam os olhos. E, sim, o senhor Reynard que o atende do outro lado, responde-lhe que até tem uma casa para alugar, vazia desde há trinta anos, no meio de uma floresta. Aqui começava a segunda encarnação dos Gong. Antes disso, Allen já vivera, no início da década de 60, no Beat Hotel, também em Paris, onde conhecera William Burroughs e Terry Riley, traficara haxixe e flirtara com a vanguarda Fluxus, fizera parte da primeira formação dos Soft Machine (que abandonou quando os Beatles, os Stones, os Pink Floyd e os Who começaram a aparecer nos concertos da banda, o que lhe pareceu demasiado "mainstream"), e, por sugestão de Robert Wyatt, no rescaldo dos sarilhos de Maio, refugiara-se na comuna artística maiorquina de Deià, na qual conviveu com o poeta Robert Graves, escritores, músicos e místicos sufi, e descobriu o saxofonista Didier Malherbe que, naturalmente – depois de ter estudado flauta de bambu, na Índia, e sopros norte-africanos, na Tunísia -, vivia na caverna de um pastor de cabras.



Do núcleo inicial dos Gong, sobrara a companheira Gilli Smyth, alucinada académica britânica e professora da Sorbonne, cúmplice de aventuras sonoras que envolviam “space whispering”, flautas, guitarra eléctrica e um estojo de instrumentos de cirurgia ginecológica do século XIX. Alimentados a uma dieta de músicas orientais, free-jazz, LSD, Situacionismo, rock, Alfred Jarry, "tape-loops", absurdismo, patafísica e sci-fi demente, na imprescindível trilogia Flying Teapot, Angel’s Egg (ambos de 1973) e You (1974), entraram em contacto com o Planeta Gong, atribuíram o verdadeiro sentido ao termo psicadelismo e empenharam-se na preparação dos humanos para a chegada dos extra-terrestres.



Mil e uma peripécias, trips sem regresso, separações e reuniões mais tarde, no seu 40º aniversário, anunciam-nos que devemos preparar-nos para acolher a benigna invasão em 2032 e, com o guitarrista Steve Hillage no comando (às vezes, excessivamente presente...) das operações, são uns Gong amansados por um funk redondo mas ainda desejável e irrecuperavelmente lunáticos (e Allen e Smyth são já septuagenários) que reencontramos, por entre danças com gnomos, “Robo Warriors” e “Yoni Poems” – eternamente “strangers in a strange land”. Haverá por aqui uma moral? Há, sim: lida a História de trás para a frente, Devendra Banhart e seita psych afim não passam de betos tenrinhos armados em freaks de fim-de-semana.

(2009)

30 January 2008

A IMAGEM NO ESPELHO
(V - uma série exumada a partir daqui)



Acid Mothers Temple & The Melting Paraiso U.F.O. - La Nòvia




The Silver Mt Zion Memorial Orchestra & Tra-la-la Band - Born Into Trouble As The Sparks Fly Upward

O rock "underground" (o que quer que isso queira dizer), hoje, é tão só a imagem reflectida num espelho do seu correspondente "overground". Isto é, tradicionalista, conservador, reaccionário.* E se — numa tentativa possível de delimitação de categorias — se aplicar, por exemplo, a etiqueta "underground" aos grupos que têm livre acesso às páginas da "Wire", alegadamente dedicadas a documentar as "adventures in modern music", então os japoneses Acid Mothers Temple e os canadianos A Silver Mt. Zion adaptam-se perfeitamente à definição. Porque o que uns e outros praticam não é muito mais do que a infinita regurgitação daquilo que, um dia, há já muito tempo, foi inovador mas que, agora, consiste apenas de um interminável e fatigante exercício de "rewind" onde apenas se tropeça nos despojos da memória mais longínqua.



Os Acid Mothers são (e nem sequer o escondem) uma espécie de fóssil oriundo das pedradíssimas trips sonoras dos anos 70, descendentes dos Gong, Hawkwind, Amon Düül e outras luminárias do género, acrescentados da dimensão "mindfuck" dos Blue Cheer ou Black Sabbath. E o enorme problema é que, sendo isso (o que já era um problema suficientemente grande), são só isso. A discografia já é considerável mas, mesmo este La Nòvia — baseado em melodias tradicionais da...Occitânia, dizem eles e nós esforçamo-nos por acreditar — nada mais é do que uma aborrecidíssima sucessão de intermináveis "jams" guitarrosas (no início, com "throat singing" incorporado) para as quais o adjectivo "pointless" foi expressamente inventado.


Os A Silver Mt. Zion (derivação lateral dos Godspeed You Black Emperor!), entretanto, se no anterior He Has Left Us Alone... ainda exibiam um certo espírito de aventura na articulação da música "concreta" com algum minimalismo e sinfonismo, em Born Into Trouble As The Sparks Fly Upward, converteram-se em mero Philip Glass/Steve Reich/Glenn Branca "by numbers". Num panfleto incluído na capa, aplicam-se numa abstrusa teorização pateticamente adolescente sobre "ruined dreams" e demais tragédias perpetradas pelo "sistema". Mas, até isso, já foi feito, mil vezes melhor em incontáveis manifestos anteriores. Consultem, se vos apetecer, e comparem, a Arte de Viver Para A Geração Nova **, de Raoul Vaneigem. É de 1967.

* (começam a ver a lógica da série exumada?)

** (na versão inglesa, The Revolution Of Everyday Life)
(2001)