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02 April 2011

29 March 2009

RETOMANDO A "ARTE DA MENTIRA POLÍTICA"...

... John Arbuthnot - leitura obrigatória em ano de balanço e peleja eleitoral - derrama detalhada e utilíssima sabedoria sobre os praticantes da arte e, uma vez mais, demonstra a validade eterna do epigrama de Jean-Baptiste Alphonse Karr, "plus ça change, plus c'est la même chose":


John Arbuthnot

"Quanto às mentiras que se propalam no público para animar e encorajar o povo, vejamos por ora as regras que o Autor prescreve. Não devem tais mentiras, diz-nos ele, exceder os graus ordinários de verosimilhança; deverão ser variadas, não se insistindo com teimosia só numa delas. E quanto às que contêm promessas ou prognósticos, prudente não será fazer previsões a prazo breve; seria o mesmo que exporem-se à vergonha e ao transtorno de a breve trecho se verem impugnados e convictos de falsidade. (...) Quanto ao prodigioso, quer dizer, quanto às mentiras que anunciam prodígios, contenta-se o Autor, dirigindo-se aos que queiram inventá-las, com dar-lhes à laia de regras os seguintes conselhos:



que os Cometas, as Baleias e os Dragões sejam de tamanho razoável e proporcionado; e que a respeito das trovoadas, das tempestades e dos tremores de terra convém sempre pressupor e anunciar irem acontecer em comarcas que fiquem afastadas do sítio em que se esteja obra de pelo menos uma jornada a cavalo. (...) Já para o fim deste capítulo, dá como conselho aos chefes de partido que não creiam excessivamente nas suas próprias mentiras; e lhes propõe o exemplo do que tem sucedido nestes últimos anos, em que um partido sábio e uma sábia nação trataram de seus negócios com base em mentiras de sua própria invenção. Supõe ele que a causa disso deva ser atribuída a exagerado zelo, a um excesso na prática de tal arte, e bem assim a uma acalorada veemência nas conversas; zelo este, e excesso, e veemência, por via dos quais uns aos outros nos vamos convencendo de que aquilo que queremos e recitamos como verdadeiro, o é de facto".

(2009)

28 March 2009

SÓCRATES & SMITH & SWIFT & ARBUTHNOT



"'É corrupto'. É desta forma que Charles Smith fala de José Sócrates no DVD que é fundamental para a investigação do processo Freeport em Inglaterra. A TVI revelou, no Jornal Nacional desta sexta-feira, o som de uma conversa de 20 minutos em que é mencionado o nome do primeiro-ministro. A reunião juntou três pessoas: Charles Smith, já arguido em Portugal, João Cabral, ex-funcionário da Smith e Pedro, e Alan Perkins, administrador do Freeport, que sem conhecimento dos outros intervenientes no encontro, fez a gravação". (TVI)

Algumas considerações sobre a Arte da Mentira Política (atribuídas a Jonathan Swift mas, na realidade, da autoria de John Arbuthnot) onde se teoriza sobre o que é legítimo chegar ao conhecimento do povo e são dadas as primeiras instruções acerca do papel das "agências de comunicação e imagem":


John Arbuthnot

"Tenha-se pois em conta o povo dever esperar dos vizinhos que lhe digam a verdade em seus assuntos particulares; que cada qual também tem direito à verdade económica, podendo pois exigir que os parentes lhe contem a verdade para não ser enganado pela mulher, pelos filhos ou pelos criados; mas que à verdade política não tem ele direito algum, não tendo o povo direito a que lhe digam a verdade em matéria de governo, tal como não tem direito a possuir grandes fortunas, terras ou casas senhoriais. (...) O capítulo oitavo contém um projecto, o de reunir numa só corporação várias pequenas sociedades de embusteiros (...) O que nele há mais digno de nota é a prescrição de esta sociedade ser composta pelos chefes de cada partido; de nenhuma mentira ser posta a circular sem sua aprovação, por serem eles os melhores capacitados para avaliar aquilo que nas diferentes conjunturas mais interessa e para decidir que género e espécie de mentira convém utilizar numa e noutra ocasião; (...) que além das pessoas atrás mencionadas, a dita sociedade deve ser constituída por génios mui promissores que se possam seleccionar na urbe em grande número, especialmente nas tavernas. (...) A este género de pessoas caberá pôr a circular o que os outros forjarem e inventarem; pois não há quem recite e espalhe uma mentira com melhor vontade do que aquele que nela crê". (Arte da Mentira Política, John Arbuthnot, 1733)

(2009)