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10 June 2026

Recorde para o "Guinness" de criaturas a cabecear perante lenga-lengas repletas dos chavões patriótico-camonianos do costume e uma ou outra "resiliência"... e nem uma referenciazinha à gloriosa tribo dos gebos do ludopédio que, em breve, partirá para oh quão terríveis refregas!... 

 “Apenas o mastro em que a bandeira é hasteada e o vento. Nenhuma bandeira”

01 December 2025

 

"Lover, You Should've Come Over"

(sequência daqui) Um dos eixos principais do documentário é justamente o relacionamento de Jeff com a mãe que desempenha um papel central de narradora ao longo do filme. As entrevistas de Guibert oferecem um olhar profundamente pessoal sobre os anos de formação de Buckley, revelando traços do seu caráter e do intenso mundo emocional que ele habitava e que o habitava. Já em 2000, quando, a propósito da publicação de Mistery White Boy (colecção de actuações as vivo), conversámos em Paris, era absolutamente notório que ela tinha assumido por inteiro o papel de ferocíssima guardiã do legado artístico do filho. Senão mesmo de guia espiritual que, superiormente, lhe orientara o percurso: "Quando ele tinha 3 ou 4 anos, dediquei-me ao estudo da metafísica. Daí que, sempre que ele me fazia o género de perguntas que as crianças fazem, lhe tenha procurado transmitir o conceito de que cada um de nós é uma partícula de deus, da mesma forma que uma gota de água faz parte do oceano e que o nosso objectivo consiste em gozar a vida na sua plenitude. Quando descobriu o poeta sufi, Rûmi, foi como se tivesse encontrado uma luz naqueles poemas". E, estabelecendo a relação entre todos esses fios de sentido, "Foi isso que o conduziu até Nusrat Fateh Ali Khan e ao modo de vida sufi que é completamente o oposto de uma atitude ascética e monástica de rejeição do mundo material: viver a vida, casar-se, ter filhos, trabalhar, e, ao mesmo tempo, cultivar o amor pela vida. É muito fácil descobrir a iluminação num mosteiro mas já não é tão fácil fazê-lo numa autoestrada". Berg combina essas reflexões com a narrativa mais ampla da vida de Buckley, mostrando como a sua sensibilidade e turbulência interiores desempenharam um papel crucial na formação de sua expressão artística. (segue para aqui)

19 July 2024

"Na Gul"
 
(sequência daqui) Em "Na Gul", apossando-se de um poema de Mah Laqa Bai Chanda, música indiana de Hyderabad e cortesã do século XVIII, Arooj coloca-a em diálogo com Chand Bibi, rainha de Ahmadnagar, do século XVI, que desagua num estuário de barroco oriental; "Aey Nehin" oferece um voluptuoso tapete de repuso harmónico; "Bolo Na" serpenteia por entre as profundas frequências do contrabaixo e e a melodia flutuante da voz; "Autumn Leaves" ("Les Feuilles Mortes", de Joseph Kosma) deixa-se extirpar de todos os clichés acumulados, mas, em contraluz, permanece fantasmaticamente reconhecível; "Last Night Reprise", sobre uma poesia de Rumi, hesita entre o enraizamento granítico e o voo desordenado; e "Whiskey" é a canção que um Tom Waits hindustânico deveria ter escrito para Rickie Lee Jones. Com os quais, como o título do álbum denuncia, Arooj partilha uma particular afeição pelas horas tardias ("Toda a gente parece melhor quando a noite cai. Não gosto de ver as pessoas à luz do dia. É do conhecimento universal que os músicos adoram a noite. A noite é nossa amiga, oferece-nos um abrigo no qual podemos mover-nos sem nos expormos tanto"). Mas, em qualquer dos casos, qual Bob Dylan pós-Newport, recusando sempre o papel de porta-voz de uma qualquer causa que lhe estaria supostamente atribuida: "Detesto ser rotulada. Não desejo transformar-me numa pessoa responsável pela defesa de uma qualquer tradição. Um artista é imensas coisas em simultâneo. Muita gente diz: 'Ela é uma cantora de ghazal (forma poética originária da Pérsia do século VII)'. Outras interrogam-me: 'Pode falar-me sobre aqueles textos secretos antigos que canta na sua música tradicional?' Por vezes, num concerto, no final da primeira canção, há já quem diga 'Ah... afinal, ela não é a deusa sufi que viemos escutar. Está a beber vinho tinto e a dizer palavrões ao microfone'. Só me apetece dizer-lhes: 'Não querem escrever um guia acerca de como eu deveria ser? Prometo que vou tentar segui-lo!'"

22 June 2023

SEM NUNCA NOS PERDERMOS 

 
Conhecemos Arooj Aftab aquando da publicação, em 2021, de Vulture Prince, precioso exercício de fusão molecular entre ghazals paquistaneses, a poesia de Rumi, guitarra acústica, harpa, trompete, sintetizadores, violino e contrabaixo, respondendo ao apelo da voz de sereia de Arooj. Ela nascera na Arábia Saudita mas, durante a adolescência, emigrara com a família – “progressistas, liberais, super cool” que, contou ela à “Songlines”, lhe deram a conhecer Stan Getz, Miles Davis, Billie Holiday e Ella Fitzgerald, em paralelo com a música clássica sufi de Abida Parveen - para o Paquistão. Daí, aos 19 anos, viajaria até Boston para estudar no Berklee College of Music, acabando por fixar-se em Brooklyn. A propósito do Grammy para Best Global Music Performance que, em 2022 lhe foi atribuído, diria: “Tenho raízes em tantos lugares diferentes. Passei os últimos 20 anos a viver e a crescer musicalmente em Nova Iorque. Por isso, não me vejo na qualidade de artista ‘world’ ou ‘global’. A minha música é o resultado das minhas experiências. Não quero ter nada a ver com esta tolice de me arrumarem numa caixa. Aprendi que as coisas que herdamos podem provir de onde quer que estejamos. É esse o motivo por que a música que faço vai além da tradição. É singular, minha, parte da minha vida”. (daqui; segue para aqui)

"To Remain/To Return"

08 September 2021

"Diya Hai"
 
(sequência daqui) Nascida na Arábia Saudita e deslocada para o Paquistão na adolescência, aos 19 anos Arooj viajou até Boston para estudar no Berklee College of Music, vivendo actualmente em Brooklyn. “Tenho raízes em tantos lugares diferentes. A minha única educação musical é sobre teoria do jazz. Adoro Terry Riley e viver em Nova Iorque. Herdei aquilo que absorvi de pessoas e lugares e de escutar atentamente imensas coisas diferentes”, disse a “The Creative Independent”. Em Vulture Prince, há os ghazals paquistaneses e a poesia de Rumi, a guitarra acústica de Gyan Riley e Badi Assad, a harpa de Maeve Gilchrist, o trompete de Nadje Noordhuis, o sopro dos sintetizadores de Shahzad Ismaily, o violino de Darian Donovan Thomas, e o contrabaixo de Petros Klampanis. Sobre todos eles, a voz de Arooj, qual Liz Fraser oriental.

21 January 2021

Maria McKee - "I Never Asked"

(daqui
 
Leonard Cohen evocava o poeta persa, Rumi, para falar da "intoxicação pelo amor, da ideia de me render como um ébrio perante o ser amado”. Maria McKee, após 13 anos de silêncio total, percorre o mesmo caminho pela mão de Dante e da espiritualidade erótica dos Fedeli d'Amore, com Blake, Shelley, Byron e Yeats no horizonte. Renascida como “a pansexual, polyamorous, gender-fluid dyke”, La Vita Nuova é uma arrebatadora elegia orquestral à beleza e ao desejo. (daqui)

03 November 2020

O TEMPO EM QUE VIVEMOS

 

Num momento, Elvis Costello estava num estúdio de Helsinquia, sozinho com a guitarra, a gravar os esboços de três canções, e, no momento seguinte, descobria-se de regresso a casa, em Vancouver, no Canadá. Tudo se passou entre o início do passado mês de Fevereiro e o meio de Março, quando o mundo que conhecíamos começou a desaparecer: “Depois de Helsinquia, fui a Paris onde trabalhei com o Steve Nieve e um grupo de óptimos músicos franceses que ele reuniu. Não tinha nenhuma música escrita, apenas as sequências de acordes. Eles tocaram maravilhosamente e avançámos imenso. Durante cerca de um mês não cheguei a ouvir o resultado final porque viajei para Liverpool onde ia começar uma digressão com os Imposters. Estava a correr tudo muito bem quando, de repente, por causa do vírus, as pessoas começaram a deixar de aparecer nos concertos e compreendi que estava na altura de cancelar tudo e voltar para o Canadá para ir ter com a minha família antes que fechassem as fronteiras”, conta ele, ao telefone, a partir da costa ocidental canadiana. “E ali estava eu, na ilha de Vancouver, a olhar para aquele imenso mar e a tentar perceber onde tudo isto iria parar...” 

Não ficou muito tempo assim. Poder ter todo o tempo para estar com a mulher, Diana Krall, e os filhos gémeos terá sido uma benção mas é difícil imaginá-lo parado. Estava já em curso a operação da iminente mega-republicação – em 9 vinis e muito outro “material de apoio” – de Armed Forces (1979) e o novo álbum, Hey Clockface, tinha ficado suspenso: “Foi nessa altura que o Michael Leonhart me enviou duas músicas que viriam a ser ‘Radio Is Everything’ e ‘Newspaper Pane’. Posso dizer que essas duas músicas foram o que me permitiu ter uma visão do que, poderia ser um álbum coerente. Apesar de ser um disco de enormes contrastes, a mistura do Sebastian Krys – com quem já tinha trabalhado em Look Now – não contribuiu para que as faixas soassem todas semelhantes mas para fazer sobressair a intensidade de cada uma delas: se ‘No Flag’ se situa num extremo e ‘Byline’ no outro, há também momentos de composição espontânea nas peças de 'spoken word' em que procurei descobrir atmosferas musicais que pudessem articular-se bem com aqueles textos. Desejei, realmente, experimentar coisas diferentes. Se não fosse assim, teria simplesmente ido com a minha banda para estúdio. O que foi também uma forma de tirar o melhor partido de uma situação que nunca teríamos sido capazes de imaginar”

A coerência estética e sonora estava assegurada e, para isso, não foi necessário nenhum tema recorrente, ainda que, para quem desejar escutá-lo à lupa, possam surgir pistas de investigação; “É sempre possível descobrir relações entre algumas canções mas não gosto de deixar as pontas soltas demasiado à vista. Só reparo nessas possíveis ligações depois de as ter gravado. Há certas ideias que podem destacar-se, a forma como observamos e comentamos pode ter uma raiz comum – ‘Newspaper Pane’ e ‘ Byline’, por exemplo, são ambas sobre a escrita jornalística –, se procurarmos, acabaremos sempre por encontrar alguma coisa. Mas isso não foi nada que eu tivesse planeado, não existiu uma matriz previamente pensada. Permiti apenas que as músicas se fossem acumulando. O momento em que procuramos encontrar uma estrutura para um álbum é quando pensamos na sequência das canções, como jogar com os contrastes entre textos, andamentos e tonalidades – podemos nem ter consciência de que duas canções estão no mesmo tom, mas, ao ouvi-las, sentimos isso –, há imensas razões para que as canções surjam numa determinada ordem e os temas emergem a partir desses contrastes”

“No Flag”, por exemplo, que a intriga crítica quis ver como uma “canção de protesto” – embora recorde muito mais um verso (“Apenas o mastro em que a bandeira é hasteada e o vento. Nenhuma bandeira”) do poeta persa medieval, Rumi, tão amado por Leonard Cohen – é, afinal, apenas um equívoco interpretativo de algo que comenta a fragilidade fundamental dos tribalismos identitários: “Nunca seria uma canção de protesto porque isso implica colocarmo-nos de um lado contra outro. O dia em que acordamos para o facto de que a lealdade a crenças ou a religiões não nos traz nenhum consolo é um dia difícil. Porque, se removemos as bandeiras, temos de nos confrontar com os valores essenciais. ‘We’re All Cowards Now’ é também acerca desse relexo de nos irarmos tanto com algumas coisas que vão acontecendo no mundo que tudo se torna conflitual. Apetece dizer: 'Pensas que és muito corajoso com essa arma na mão. Que tal se a atirasses ao chão? Serias exactamente igual a mim”. Escrevi-a há dois anos mas, pelo que vemos hoje à volta, só posso dizer que, desgraçadamente, tudo se confirmou. E, pelo título, pode reparar que não é uma canção de acusação, não excluo ninguém, incluo-me a mim mesmo. Ninguém está imune a ser sugado por este dilúvio de desinformação, estupidez e superstição. Não as vejo, de facto, como canções de protesto mas como reflexões acerca do tempo em que vivemos”

O que poderá servir como óptimo pretexto para reavaliar uma canção como "Tramp The Dirt Down" (1989), na qual Costello expelia fel sonhando com o dia em que o túmulo de Margaret Thatcher desceria, enfim, à terra: “Mesmo essa era muito mais acerca do que Margaret Thatcher representava, daquilo que personificava em matéria de filosofia e dogma político, do que sobre ela enquanto pessoa. Foi uma canção que, então, naquelas circunstâncias, eu escrevi, e estas são as canções que agora escrevo. Tento arrumar todas as canções que escrevi como reacção a alguma coisa num canto do cérebro onde não se transformem numa força estática. A vida e as circunstâncias mudam. Sou capaz de pensar no tipo de canção que poderia escrever acerca do nosso primeiro-ministro: seria uma canção cómica ou sonsa. É muito fácil escrever canções puramente confrontacionais. É possível que, dos tempos actuais, surjam canções que, no futuro, reconheceremos como marcas desta época. Mas não há nenhuma regra que diga que tenho de ser eu a escrevê-las”

A reedição de Armed Forces – que poderá ser ou não o início de um processo a estender a toda a restante discografia – acompanha a tendência crescente para o ressurgimento contemporâneo do vinil e também a revalorização do álbum face à molecularização do "streaming". Mas será algo para ficar ou somente uma moda temporária? “Todas as coisas são temporárias. Os meus três primeiros álbuns foram registados num gravador de 8 pistas. Mas a minha vida organizava-se à volta das cassetes: gravava as canções novas em cassetes e entregava-os a amigos ou a outros músicos para que as aprendessem e também as trocávamos com música gravada do vinil ou da rádio. Quando o digital se tornou dominante, o CD era aquela coisa mágica, praticamente indestrutível, que podia acolher imensa música. Com o tempo, fomos compreendendo que não era assim tão melhor. Finalmente, com o mp3 e o 'streaming', temos acesso a praticamente toda a música mas não temos aquele objecto, o disco. Nunca gostei de CD, o 'artwork' perdeu a dimensão indispensável. Mas não tenho poder para definir as regras. Se me perguntarem o que é um disco, eu respondo que é uma rodela de vinil de 12 polegadas. O CD deu-nos a possibilidade de termos música portátil que podíamos ouvir em qualquer lado, em casa ou no carro, o que é óptimo. O 'streaming', para mim, é como a rádio sem conversa, podemos escolher o que ouvir ou escutar aleatoriamente. O que não tem nada de mal, podemos tropeçar em meia dúzia de canções que nunca tínhamos ouvido antes. Não me apetece fazer um manual de instruções acerca de “como devemos ouvir música”, tudo é possível e nada é permanente. No futuro, outras coisas existirão”

Uma das coisas que, inexplicavelmente, continuam a existir é a OBE (Ordem do Império Britânico), condecoração atribuida pela rainha de Inglaterra a súbditos notáveis nas artes, ciências e actividades de caracter social. Que muitos recusam e Elvis Costello, surpreendentemente, aceitou. Na realidade, pelos melhores motivos: “Inicialmente, pensei recusá-la. A atribuição das OBE é como aquelas vendas por liquidação total... (risos) atribuiram-ma mas tenho a certeza de que nunca ouviram uma palavra das minhas canções!... O meu pai cantou em Buckingham, em 1958 e 1962, quando estava na Joe Loss Orchestra, para o pessoal do palácio. Desempenhou o papel de empregado dos empregados, cantou para os criados da rainha. Por isso, não entrou no palácio pelo portão principal. Sabe quem o fez? Eu!... (risos) Tudo aquilo que o império representa é, sem dúvida, absolutamente errado. Mas, na verdade, já não existe, literalmente, nenhum império nem eu preciso de qualquer certificação real acerca do valor daquilo que faço. No entanto, tinha curiosidade de, um dia, ali entrar e ver o que lá se passava. Afinal, desde há muito que pago impostos para sustentar a família que ali vive!”

10 June 2016



"Patriotism ... is a superstition artificially created and maintained through a network of lies and falsehoods; a superstition that robs man of his self-respect and dignity, and increases his arrogance and conceit" ― Emma Goldman

"In every age it has been the tyrant, the oppressor and the exploiter who has wrapped himself in the cloak of patriotism, or religion, or both to deceive and overawe the people" ― Eugene V. Debs

"Unhappy the land that is in need of heroes" ― Bertolt Brecht

"How does one hate a country, or love one?... I know people, I know towns, farms, hills and rivers and rocks, I know how the sun at sunset in autumn falls on the side of a certain plowland in the hills; but what is the sense of giving a boundary to all that, of giving a name and ceasing to love where the name ceases to apply? What is the love of one's country; is it hate of one's uncountry? Then it's not a good thing" ― Ursula K. Le Guin

"There has seldom if ever a shortage of eager young males prepared to kill and die to preserve the security, comfort and prejudices of their elders, and what you call heroism is just an expression of this simple fact; there is never a scarcity of idiots" ― Iain Banks

"I'm no more modern than ancient, no more French than Chinese, and the idea of a native country, that is to say, the imperative to live on one bit of ground marked red or blue on the map and to hate the other bits in green or black, has always seemed to me narrow-minded, blinkered and profoundly stupid" - Gustave Flaubert

"Man is the only patriot. He sets himself apart in his own country, under his own flag, and sneers at the other nations, and keeps multitudinous uniformed assassins on hand at heavy expense to grab slices of other people's countries, and keep them from grabbing slices of his. And in the intervals between campaigns, he washes the blood off his hands and works for the universal brotherhood of man, with his mouth” - Mark Twain


"Every miserable fool who has nothing at all of which he can be proud, adopts, as a last resource, pride in the nation to which he belongs; he is ready and glad to defend all its faults and follies tooth and nail, thus reimbursing himself for his own inferiority" – Arthur Schopenhauer

"Patriotism is the passion of fools and the most foolish of passions" – Arthur Schopenhauer

"Patriotism corrupts history" – Goethe

"Into the cultural and technological system of the modern world, the patriotic spirit fits like dust in the eyes and sand in the bearings. Its net contribution to the outcome is obscuration, distrust, and retardation at every point where it touches the fortunes of modern mankind" – Thorstein Veblen

"At the bottom of all patriotism is war: that is why I am no patriot" – Jules Renard

"He who joyfully marches to music rank and file has already earned my contempt. He has been given a large brain by mistake, since for him the spinal cord would surely suffice. This disgrace to civilization should be done away with at once. Heroism at command, senseless brutality, deplorable love-of-country stance and all the loathsome nonsense that goes by the name of patriotism – how passionately I hate them!" – Albert Einstein

"Patriotism is a kind of religion; it is the egg from which wars are hatched" – Guy de Maupassant

"God and Country are an unbeatable team; they break all records for oppression and bloodshed" – Luis Buñuel


"A patriot is a fool in every age" – Alexander Pope

"Patriotism is the last refuge of the scoundrel" – Samuel Johnson 

"In Dr. Johnson’s famous dictionary, patriotism is defined as the last resort of a scoundrel. With all due respect to an enlightened but inferior lexicographer, I beg to submit that it is the first" – Ambrose Bierce 

"Patriotism is as fierce as a fever, pitiless as the grave, blind as a stone, and irrational as a headless hen" – Ambrose Bierce

"That pernicious sentiment, 'Our country, right or wrong'" – James Russell Lowell 

"Patriotism is your conviction that this country is superior to all other countries because you were born in it" – George Bernard Shaw 

"Patriotism is the virtue of the vicious" – George Bernard Shaw 

"You’ll never have a quiet world till you knock the patriotism out of the human race" – George Bernard Shaw 

"Patriotism is a pernicious, psychopathic form of idiocy" – George Bernard Shaw 

"One of the great attractions of patriotism – it fulfills our worst wishes. In the person of our nation we are able, vicariously, to bully and cheat. Bully and cheat, what’s more, with a feeling that we are profoundly virtuous" – Aldous Huxley

13 January 2016

NENHUMA BANDEIRA


Não estará próximo de vir a tornar-se realidade mas não é proibido sonhar: uma comunidade da apreciadores de Monteverdi entre os Guarani do Brasil; uma rede oculta de praticantes de rockabilly no Conselho Geral da Opus Dei; uma célula clandestina de discípulos do pacifismo de Gandhi nos mais elevados escalões do Daesh; um nicho de fãs do "twerking" no interior da ordem sufi dos dervixes rodopiantes. Uma espécie de brigadas de guerrilha contracultural empenhadas no combate à ditadura dos estereótipos identitários (genuínas armas de destruição massiva, diria Amin Maalouf) e na oposição à obediência fiel às “tradições” da nação, da religião, da tribo, do partido e do clube, radicais livres do levantamento contra uniformes e emblemas que bem poderiam fazer seu o verso de Rûmi “Apenas o mastro em que a bandeira é hasteada e o vento. Nenhuma bandeira”. Não é, realmente, proibido sonhar e passar os olhos por alguma literatura será uma boa ajuda. Por exemplo, The Invention Of Tradition, coordenado por Eric Hobsbawm e Terence Ranger, ou Imagined Communities, de Benedict Anderson, exemplares desmontagens de várias ficções de carácter mais ou menos letal.


Entretanto, vale a pena ir prestando atenção a extraordinários pioneiros como aqueles que, no “Guardian”, as foto-reportagens de Frank Marshall e Paul Shiakallis têm dado a conhecer: a subcultura das bandas de heavy metal do Botswana, os "marok", seus fãs, e – publicadas no passado dia 25 – as imagens das “leather-clad rock queens of Botswana”, amazonas feministas do Kalahari, protagonistas do projecto de Shiakallis, Leathered Skins, Unchained Hearts, “um diálogo entre a fluidez da identidade e os seus imensos rostos, como ela se revela e esconde – a relação com os arquétipos da cultura africana e o modo pelo qual as 'marok queens' a reinventam”. No menos corrupto país africano (segundo a Transparency International, em igualdade com Portugal no ranking mundial, duvidosa honra para o campeão da democracia em África), inspiradas pela New Wave of British Heavy Metal do final dos anos 70, personagens que respondem por Dead Demon Rider, Coffinfeeder ou Ishmael Phantom Lord, filhos e netos não caucasianos dos Motörhead e Iron Maiden pouco dados a reverências perante o folclore local, magnificamente alheios às cartilhas da "apropriação cultural", quais Hell’s Angels da savana reconfigurados por Tarantino, imaginam um universo alternativo, com o centro em Gaborone e um raio de dimensão ainda por calcular.