(sequência daqui) O modo como tudo isto, observado sob vários ângulos, acaba por estar presente em Home, Before and After (oitavo álbum de estúdio de Regina e o sucessor de Remember Us To Life, de 2016), concluído antes do início do morticínio ucraniano, é apenas mais um sinal de como, olhando para os detalhes do mundo, Regina Spektor tanto os amplia desmedidamente como os transpõe para a dimensão de quase aforismos virtualmente independentes de tempo e lugar: “The world began outside of time , some days it’s yours, some days it’s mine, some days it’s cruel, some days it’s kind, it just can’t stay the same”, é o pequeno engenho verbal que, à beira do final, desvenda o sentido de "Spacetime Fairytale" – o épico quase wagneriano de 9 minutos que Stephen Sondheim poderia ter sonhado num grandioso devaneio psicadélico interrompido por um "intermezzo" de "tap-dance"; "Becoming All Alone", retoma a peculiar teologia spektoriana iniciada em "Laughing With" (“God could be funny, when told he'll give you money if you just pray the right way, and when presented like a genie who does magic like Houdini”) no relato de como, ao cruzar da esquina, Deus, em paleio de engate, se lhe dirige (“Hey, let's grab a beer, it's awful late, we both right here") mas se esquiva a responder a “Why doesn't it get better with time?”; e, a encerrar, sobrevoando as cordas oceânicas da Skopje Studio Orchestra, um micro-drama indidual transforma-se no ponto de partida para que, em "Through a Door", um terrível e precário ponto de equilíbrio possa ser alcançado: “By tomorrow may it pass, like a shadow or a storm, without darkness, is there light? Without night, is there a morning?” Uma declaração de intenções? Ver, por exemplo, na “Vulture”: “Não crio arte universal. Não faço declarações universais. Não sou uma líder de opinião. Quem se compromete totalmente com um grupo acaba por perder a individualidade”.
01 September 2022
OS DETALHES DO MUNDO
Regina Spektor conhece bem aquilo de que fala: Home, Before and After. Nascida na Moscovo ainda soviética de 1980 com avós originários da Ucrânia, mal as primeiras frestas da “perestroika” se abriram autorizando a emigração de cidadãos judeus, a família Spektor – Ilya, o pai fotógrafo e violinista, Bella, a mãe professora de piano, Boruch, o irmão, e ela –, em 1989, voou para os EUA. Todas essas memórias deverão ter-lhe regressado a galope quando, no passado dia 24 de Fevereiro, em pleno início da invasão russa da Ucrânia, escreveu no Instagram: “Hoje dói-me o coração porque, por mais enormes obras de arte e de música que existam a denunciar os horrores da guerra (Guernica.... 'Masters Of War'... Vonnegut... Remarque... tantos filmes em tantas línguas...), novos senhores da guerra se vão erguendo em todas as nações, enviando novos jovens para se massacrarem mutuamente”. Mais recentemente, à “NPR”, confessaria: “É verdade, estou devastada. Não acredito que isto possa estar a acontecer. Os meus avós são da Ucrânia e combatemos todos juntos na Segunda Guerra Mundial. Cresci na Rússia soviética e não existia qualquer diferença entre os nossos familiares de Moscovo e os de Odessa. Era um lugar colectivo onde todos tínham sofrido horrores, todos tínham combatido os nazis e vivido o pesadelo de ver o nosso território invadido. Mas, agora, na Ucrânia, o que vemos são milhões de civis arrastados para uma guerra, cidades vibrantes cheias de famílias. Não consigo ver mais reportagens. Já chorei demais, já me enfureci demais. É aterrador”. (daqui segue para aqui)
"Up the Mountain"
04 September 2018
UM DISCO DO CORPO
Cinco anos depois de One Breath, Anna Calvi publica o terceiro álbum, Hunter. Um quase-manifesto“queer e feminista” acerca do qual afirmou tê-lo desejado “primitivo e belo, vulnerável e forte, o caçador e a presa”, uma arma “tranquilamente audaciosa e provocante” nas políticas de género. Com guitarras incendiárias e a participação de Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds).
Dos seus dois primeiros álbuns para este Hunter, sinto que existem diferenças mas, por enquanto, não sou capaz de as identificar exactamente. Pode dar-me uma ajuda?
Pretendi criar algo que fosse mais visceral, animal e selvagem e menos cerebral, textos mais imediatos e muito concentrados na ideia de conduzir até ao extremo o contraste entre as sensações de força e poder e de vulnerabilidade e intimidade. Provavelmente, de uma forma bastante mais deliberada do que, até aqui, tinha feito.
Numa entrevista recente, declarou que o que buscava era “a simplicidade, algo que fosse tranquilamente audacioso e tranquilamente provocante”... é isso?
Sim, embora, por vezes, não seja assim tão tranquilo mas mais livre e extrovertido... No entanto, por exemplo, numa canção como "Hunter", essa ideia que referiu aplica-se perfeitamente. Tudo isto, na verdade, já acontecia nos dois álbuns anteriores. Simplesmente, agora, desejei que tudo isso surgisse com uma muito maior definição.
A sua ideia de encarar cada canção como um mini-filme manteve-se em Hunter ou abdicou dela a favor dessa ambição de tornar tudo mais directo e incisivo?
Não, não foi por aí, nada disso se alterou. Apenas desejei alcançar a máxima nitidez possível.
Descreve Hunter como “um álbum queer e feminista” que lhe permitiu “exprimir-se livremente e sem se preocupar com o modo como poderá ser julgada acerca do que deveria fazer com o seu corpo”. Pode dizer-se, então que, no centro deste disco, existe uma agenda de políticas de género?
Não se trata de impôr uma agenda mas de fazer passar a ideia de que não devemos sentir-nos obrigadas a assumir os estereótipos femininos mas sim explorarmos tudo aquilo que uma mulher pode realmente ser em vez daquilo que nos dizem que ela deverá ser. A personagem de "Hunter", por exemplo, procura o prazer sem qualquer espécie de vergonha. A nossa cultura está impregnada de fantasmas de mulheres enquanto objectos de caça dos homens. Quis inverter os papéis: a mulher como caçadora que se apodera da sua presa, masculina ou feminina. Basta de tolerância em relação aos limites que, supostamente, definiriam como uma mulher se deve comportar. Por que motivo haveria de aceitá-los apenas por causa da minha anatomia?...
Tal como a St. Vincent/Annie Clarke, a Shara Worden (de My Brightest Diamond), a Regina Spektor ou a Julia Holter, a Anna faz parte de um grupo de músicas e "songwriters" contemporâneas que tiveram uma formação musical clássica: estudou violino e guitarra na Universidade de Southampton. Isso teve alguma influência determinante na música que viria a compor e tocar mais tarde?
Aquilo que estudar violino me fez, essencialmente, compreender é que é uma aprendizagem tão tremendamente dura que é indispensável uma dedicação total para que o resultado valha verdadeiramente a pena.
Mas, para além disso, contribuiu, de alguma forma para lhe proporcionar algum tipo de modelos musicais?
Não. Quando escrevo canções, nunca o faço de um ponto de vista racional ou teórico. É um processo puramente emocional. E, muito particularmente neste álbum, quis afastar-me por completo de uma atitude demasiado pensada: é muito mais um disco do corpo do que da cabeça.
Pode dizer-se que se esforçou deliberadamente por esquecer o que aprendeu na universidade?
Não foi um esforço deliberado. Mas o mais importante que guardei da minha passagem pela escola de música foi apenas a possibilidade de escutar tanta música diferente e a que, de outra forma, se calhar nunca poderia ter tido acesso.
No início, antes do seu primeiro álbum (2011), apareceu mais ou menos incluída naquilo que ficou conhecido como a cena "nu-folk" londrina da altura. Gravou com Johnny Flynn e com os Mumford & Sons e teve uma banda, Cheap Hotel. Foram passos importantes?
Se quer que lhe diga, são coisas em que, agora, nunca penso. Na altura, claro que foram experiências importantes através das quais aprendi uma série de coisas. Mas, depois, segui em frente e, nesta altura, não são muito mais do que memórias vagas.
Há quatro anos, quando co-escreveu uma canção – "Falling Back" – com Marianne Faithful para o álbum dela Give My Love To London, confessou que, sendo o processo de composição para si, uma coisa tão íntima e privada, nunca supôs que, desse encontro com ela em Paris, pudesse surgir alguma coisa... mas, em 20 minutos tinham a canção concluída!
É verdade, procuro sempre o máximo de solidão e de privacidade quando componho. Por isso, fiquei absolutamente espantada com o à vontade que a Marianne demonstrou para escrever uma canção na companhia de uma pessoa que não conhecia de lado nenhum e ser capaz de confiar nela. É, na verdade, uma mulher incrível.
Nick Cave e Brian Eno cobriram-na de elogios quando publicou o primeiro álbum, tendo Eno afirmado que era o acontecimento musical mais importante desde o aparecimento de Patti Smith. Esse tipo de comparações é-lhe desconfortável?
Suponho que o Brian Eno estava apenas a exprimir a sua admiração pelo meu trabalho e estou-lhe grata por isso. Quando se compara um artista com outro, penso que isso, realmente, não é importante, não o afecta. Compreendo que, por vezes, é necessário utilizar palavras e associações de ideias como referências para descrever uma música a quem ainda não a escutou . Não me incomoda nada.
A participação de Adrian Utley (Portishead) e Martin P. Casey (Bad Seeds) neste álbum obedeceu a algum objectivo especial?
Foi uma resposta a necessidades específicas e a aspectos particulares que me interessavam. Por exemplo, não desejava que se escutassem demasiados instrumentos de cordas reais. Os sintetizadores sempre me soaram como instrumentos orquestrais e acho que o que o Adrian consegue realizar com eles é muito interessante e exactamente aquilo que fazia falta às músicas. Desta vez, também precisava de um baixista e foi o Nick Launay (o produtor) que sugeriu o Martin que é um músico extraordinário.
Enquanto guitarrista, quem foram os seus modelos?
Sempre tive a maior admiração por Jimi Hendrix desde que vi e ouvi os registos dele no festival de Woodstock. Foi uma inspiração e um modelo que nunca mais me saiu da cabeça e a que, de uma forma ou de outra, acabo sempre por regressar.
Trocou o violino pela guitarra e nunca mais voltou a pegar nele como instrumento solista...
Não, ainda o toquei em alguns arranjos do primeiro álbum mas, como solista, nunca mais lhe peguei. É preciso estudar e praticar sem interrupções e, uma vez que se pare, é muito difícil recuperar o que, entretanto, se perdeu.
Um dos meus grandes sonhos seria poder vê-la, em concerto e/ou em disco, juntamente com a St. Vincent, outra fabulosa guitarrista actual... Há alguma hipótese?...
(risos) Nunca se sabe... tudo pode acontecer, embora não haja planos, de momento. Conheço a Annie, é uma óptima pessoa e uma música excelente... logo se verá.
E, de modo não inteiramente inesperado, a conversa prosseguiu com considerável insistência no facto de Remember Us To Life – publicado quatro anos após What We Saw From The Cheap Seats – ter sido composto e gravado durante e após a gravidez de Regina, mãe de infante (cujo nome não revela), desde Março de 2014... É verdade que, como ela também acrescenta, “é sempre importante contextualizar e conhecer o significado de determinados símbolos”. Não necessitamos, porém, de todo, de associar a gestação de uma criatura humana à de um álbum para podermos apreciar, uma vez mais, a requintada pop de Spektor. A progesterona e a prolactina poderão ter desempenhado algum papel mas, por muito orgânico que o labirinto criativo seja, não será, de certeza, por aí que descobriremos a raiz de jóias de síntese narrativa como "Bleeding Hearts" (“And you serve your time drinking all night long, staring at the walls of your jail-like home, listening to that song ‘cause it hurts just right ‘til everything is gone tonight”), das convulsões sonoras de "Tornadoland", da perfeição-mais-que-beatleana de "Older And Taller" ou da sinfónica ascenção aos céus de "Obsolete" (“Useless part, this useless heart, useless art”).
29 October 2016
VINTAGE (CCCXXIV)
Regina Spektor - "Consequence of Sounds"
19 July 2013
DULCE ET DECORUM
Em Hitch-22, Christopher Hitchens conta
como, quando universitário em Oxford, a decisão de se dedicar à escrita só foi
verdadeiramente incendiada no momento em que descobriu o seu “padrão-ouro”, ao
“embater contra o recife” da poesia de Wilfred Owen. Mais exactamente, o
devastador "Dulce Et Decorum Est", imprecação anti-militarista contra a
sanguinária selvajaria imperialista da Primeira Grande Guerra, espécie de
versão "gore" do "Dormeur du Val", de
Rimbaud. Não seria essa a última vez que o verso retirado das Odes, de
Horácio (“Dulce et decorum est pro patria
mori” – “é doce e honroso morrer pela pátria”), surgiria – ácido e
envenenado ou ironicamente brandido – como estandarte anti-guerra: ninguém
conseguirá uma noite de sono tranquilo depois de o ver projectado no genérico
final do intolerável pesadelo que é Johnny Got His Gun (Dalton Trumbo, 1971)
mas, sem descer a abismos tão profundos e escavando apenas a memória da música
popular, ele enfrenta-nos, sob modelo punk tardio, via-The Damned,em "In Dulce Decorum"(“Where I walk, where I
see the haunting flares where my friends bleed, I see the face of the enemy of
a man or boy who is just like me, and if I could ever sleep again, I know till
the end of time I'd hear their screams of pain, dulce dulce decorum”, 1987), na
voz de Regina Spektor (“After all the children being born into a time of
searching for some glory, and the lie's still repeating through the years,
dulce et decorum est pro patria mori”, em "Dulce Et Decorum Est Pro Patria
Mori", nunca editada em disco), ou, com “mori” pronunciado como “morai” para
rimar problematicamente com “tonight”, na "Drinking Song" dos Divine Comedy (“We
live in an age when no man need bother, except on the stage, with dulce et decorum est pro patria mori,
and definitely not tonight”, de Promenade). O que não impediu que a “old
lie”, como Owen a designava, continuasse a ser o lema de diversos monumentos e instituições
militares (nomeadamente da Academia Militar portuguesa).
Não sendo propriamente o género de
cometimento que esperaríamos de Ian McCulloch, Pro Patria Mori é agora também
o título de um dos volumes que constituem o duplo Holy Ghosts e,
simultaneamente, de uma das canções – épica, insistente, amargamente quase weilliana
– que tanto figura nesse como no outro que regista um concerto com secção de
cordas na Union Chapel de Londres. Se a atmosfera deste remete para os
empolgamentos orquestrais de Ocean Rain alargados a 15 temas do reportório
clássico dos Echo & The Bunnymen e algum de McCulloch a solo que os acolhem
sem quaisquer sintomas de rejeição (a música dos Bunnymen, mesmo nos momentos
mais rasgadamente eléctricos de Porcupine, teve sempre implícito um desejo de
grandiloquência), Pro Patria Mori, quarto álbum em nome individual, só num ou
noutro ponto deixa acreditar que, algum dia, a glória sonora dos Bunnymen
iniciais possa vir a ser recuperada apenas com uma das peças em actividade. Mas a genuflexão naïve de "Me And David Bowie" (“thanks
for all you showed me, how to smoke a cigarette better than anyone, how to wear
my overcoat so cool that I could freeze the sun”) tem muita piada.
Regina Spektor - "Dulce Et Decorum Est Pro Patria Mori"
After all, everything'd been said and done
I feel, I feel better now
Come away, lay your hands and rest and close your eyes
Say a prayer for those who've gone
It's hard, it's hard
It's hard, it's hard
To live, to live
To live, to live
It's hard, it's hard
It's hard, it's harder
Than it's ever been before
Things that used to comfort me
Don't comfort me anymore
After all, the children being born into
A time of searching for some glory
And the lie's still repeating through the years
Dulce et Decorum Est Pro Patria Mori
It's hard, it's hard...
But you can't spend your whole life
Waiting for God to kiss you
You can't spend your whole life
Waiting for God to kiss you
Can't spend your whole life
Waiting for God to kiss you back