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11 February 2020

FILÓSOFO MUSICAL OBLÍQUO


Para além do "fish and chips", dos "scones", da "steak and kidney pie", e do "five o’clock tea", não existe produto mais vincadamente britânico do que o “British eccentric”. Podem ser importantes inventores como Alexander Graham Bell (que pretendia ensinar o cão a falar), o venerado poeta William Blake (no jardim da sua casa, em Lambeth, ele e a mulher, Catherine, declamavam o Paradise Lost, de Milton, em trajes de Adão e Eva), ou Lord Cornbury (nomeado pela rainha, em 1702, seu representante em Nova Iorque e New Jersey, fez questão de apresentar-se nas cerimónias oficiais com roupagens femininas), mas a todos une essa característica de inclassificáveis “one of a kind”. Ivor Cutler (1923-2006) – surrealista, sábio absurdista, poeta, professor, figura da rádio, piloto da Royal Air Force (dispensado por ser demasiado “sonhador”), e "songwriter" – definia-se como “filósofo musical oblíquo” e era uma espécie de Lewis Carroll arraçado de Samuel Beckett.



No Magical Mystery Tour, os Beatles ofereceram-lhe o papel de Buster Bloodvessel (o condutor do autocarro), Bertrand Russel, John Lydon, Jim O'Rourke, Elvis Costello, David Toop e os Monty Python eram fãs, Robert Wyatt convidou-o para Rock Bottom (1974) e, no EP Nothing Can Stop Us (1982), interpretaria a sua "Go And Sit Upon The Grass", e, apenas atrás dos Fall, foi o segundo mais frequente convidado do programa de John Peel, na BBC. Na verdade, podemos verificá-lo agora, não apenas esses mas diversos mais recentes como aqueles que se reuniram para o duplo álbum de homenagem, Return to Y'Hup: The World of Ivor Cutler, referência à imaginária ilha da sua psicogeografia privada. A saber, Citizen Bravo/Matt Brennan, Raymond MacDonald, Malcolm Benzie, e Andy Monaghan, núcleo em torno do qual orbitam Tracyanne Campbell (Camera Obscura), Alex Kapranos (Franz Ferdinand), Stuart Braithwaite (Mogwai), Stuart Murdoch (Belle & Sebastian), Emma Pollock (The Delgados), Karine Polwart, Wyatt e vários outros entregues à invejável missão de, sob múltiplos ângulos, declinar, estas 26 preciosas miniaturas. Pelo menos, "Women Of The World" (“Women of the world, take over, ‘cos if you don’t the world will come to an end, and we haven't got long”), merecia sucesso global instantâneo.

14 October 2010

O DIABO A SETE
(post convidado ontem no Delito de Opinião)


Gabriele Amorth: "Vade retro!!!..."

A 11 do passado mês de Março, o padre Gabriele Amorth – 85 anos de idade e 25 de experiência como exorcista-chefe do Vaticano –, do alto do seu currículo com cerca de 70 000 casos de possessão demoníaca, declarava que a onda de escândalos de pedofilia que se abatera sobre a Igreja Católica era prova claríssima de que “o Demónio está activo dentro do Vaticano”. E acrescentava que o que por lá mais existia eram “cardeais que não acreditam em Jesus e bispos que têm ligações com o Demónio”. Não seria, de todo, indispensável, possuir, como ele, o título de presidente honorário da Associação Internacional de Exorcistas para ter acesso a tal conhecimento. Há quinhentos anos, o santíssimo papa Leão X (1475 - 1521), já deixara esse assunto suficientemente esclarecido quando afirmou "Quantum nobis prodeste haec fabula Christi” ("Quão proveitosa nos tem sido esta fábula de Cristo"). Mas não desdenhemos da sapiência de Gabriele apesar de ser o próprio a confessar que “às vezes, o Demónio faz pouco de mim”. Até porque, pouco depois, a 8 de Julho, outro grande especialista, o padre católico espanhol José Fortea (autor do Tratado de Demonologia e Manual de Exorcistas, obra de referência sobre o assunto) nos informava de que “Deus e o Demónio conversam. Mas o Demónio não vai visitar Deus, está no Inferno. Só que por vezes eleva a sua voz a Deus. E Deus escuta-o. Mas Deus tem pouco a dizer ao Demónio e o Demónio não quer falar com Deus”.


Não é, de certeza, por acaso, que isto nos pode fazer pensar em ocorrências políticas locais e recentes. E que, irresistivelmente, nos empurra para a leitura da História Política do Diabo, de Daniel Defoe – sim, o mesmo do Robinson Crusoe, mas também comerciante de vinhos em Cadiz, Porto e Lisboa, jornalista (e alegado precursor do jornalismo económico), panfletarista político e agente secreto inglês na Escócia dos séculos XVII/XVIII –, acabado de publicar (ed. Guerra & Paz) na sua primeira tradução em português. E, logo no capítulo inicial, Defoe aborda a vexata quaestio: “Tem, de facto, sido sugerido que ele [o Diabo] terá mesmo tomado ordens e que um certo papa, famoso por ser um dos seus favoritos, lhe facilitou tanto a investidura como a instituição; só que, como disto não há registo algum (...) eu não posso afirmar o caso como verdadeiro, até porque não pretendo caluniar o Diabo”. Mas, mesmo assim, não resiste a insinuar que “ele foi muito íntimo de um santo padre, o papa Silvestre II, e alguns chegam mesmo a acusá-lo de ter duplicado o papa Hildebrando, o Infame, numa ocasião extraordinária em que o próprio Diabo se terá sentado na cadeira apostólica, defronte de toda a congregação reunida”. Mais importante ainda (e vamos apenas na página 16 de um total de saborosas e eruditas 400 e picos em que o tema será desenvolvido): “ficará claro que Satã teve muitas vezes parte no método, senão mesmo no desígnio, da propagação da fé cristã”.

William Blake - Satan, Sin, and Death: Satan Comes to the Gates of Hell (ilustração para o Paraíso Perdido de Milton, c. 1806)

Defoe sabe do que fala mas outros estudiosos, anteriores e posteriores, dissecaram o assunto ao pormenor. E, aqui chegados, ninguém se espantará que peritos como Johann Weyer (Pseudomonarchia Daemonum, 1563) e Collin de Plancy (Dictionnaire Infernal, 1818) tenham estabelecido que a corte infernal está estruturada e é dirigida como uma outra qualquer instituição humana. Constituída por 69 notáveis (“número curioso”, diria Mota Amaral), Belzebu é o chefe supremo e fundador da Ordem da Mosca; Satanaz é o líder do partido da oposição; Baalberith, o mestre das alianças; Nergal, o chefe da polícia secreta; Astharot, ministro das finanças, Baal, comandante-em-chefe dos exércitos, e por aí fora, numa extensa lista de embaixadores, juízes, chefes de cozinha, grandes escanções, mestres de cerimónias, chefes dos eunucos, directores de espectáculos e superintendentes das casas de jogo, onde nem sequer falta Nybbas, “grande parasita, vigarista e charlatão”. Afinal, vendo bem, tudo pessoal conhecido.

(2010)

07 July 2009

VADE RETRO, ESTEVES TRABALHO!!!
(um alerta que tardava)



Fui procurado dias desses por D. Conceição, assídua fiel dos cultos de domingo e mãe de três filhos, o mais velho dos quais já não via há algum tempo. Procurava-me justamente por conta desse. Segundo ela, o Lucas (o filho mais velho) estava indo por um mau caminho, e já não sabendo o que fazer procurou a minha pessoa em busca de orientação. Ocorre que o Lucas, já em seus vinte e poucos anos, não mais queria saber da mãe ou da família. Havia arranjado um bom emprego em uma empresa local, se mudado para uma casa em uma região boa da cidade e aparentava estar vivendo bem. Porém, por trás do aparente sucesso, D. Conceição disse que Lucas colecionava dívidas e mais dívidas, sendo necessário ajudá-lo financeiramente todos os meses, algo que se tornava cada vez mais difícil tendo em vista que também era necessário cuidar dos dois outros filhos. Apesar das dívidas, Lucas sempre andava bem vestido e com todos os aparelhos eletrônicos da moda.



Qual era então a explicação para tamanho infortúnio? Perguntei então, qual era a última vez que havia falado com Lucas. Ela disse que havia sido na última sexta-feira, e que o mesmo havia lhe pedido dinheiro para comprar um celular novo. Ela respondeu que ele havia acabado de comprar um celular novo há coisa de dois, três meses, e que não havia motivo para ele trocar de celular novamente. Irritado, Lucas então desligou o telefone. Indaguei então sobre a marca do aparelho. Do limitado conhecimento de D. Conceição, que o descreveu como um aparelho “inglês ou francês”, constatei que era da marca Apple, após ela descrever o logotipo, que era de uma maçã faltando um pedaço. Foi aí, então, que tudo começou a ficar mais claro para nós. A maçã, como bem sabem, foi o fruto do pecado original. Assim diz Gênesis 3:3: “Mas do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus: Não comereis dele, nem nele tocareis para que não morrais”. Comendo então do fruto proibido, instigados pela serpente, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Certamente o leitor reconhecerá a referência no logotipo do celular em questão, que reproduzo abaixo:



O fato de um pedaço estar faltando é evidência irrefutável que trata-se de uma referência ao pecado original. O que muita gente infelizmente não sabe, seja por ignorância, ou seja por obra do Satanás, é que a empresa em questão foi fundada às escondidas em 1945 por uma seita satânica nos Estados Unidos, mas apenas em 1976 se tornou pública, sendo assumida por Steve Jobs (Esteves Trabalho). Para conseguir poder econômico, lançam produtos eletrônicos consagrados ao Satanás com a referência à maçã do pecado. Assim, ao comprar um produto dessa empresa, é como se o comprador estivesse cometendo o mesmo pecado de Adão e Eva, ofendendo o Senhor Jesus Cristo, distanciando-se do paraíso e resignando-se a uma vida de eterno sofrimento. “E a Adão disse: Porquanto deste ouvidos à voz de tua mulher, e comeste da árvore de que te ordenei, dizendo: Não comerás dela, maldita é a terra por causa de ti; com dor comerás dela todos os dias da tua vida” (Gênesis 3:17).


A Queda de Satanás - Gustave Doré
para o
Paradise Lost, de Milton (1866)

Mais preocupante de tudo é o mal é tão suplantado que a pessoa se vicia nos produtos da tal forma a ponto de nunca estar satisfeita com o que tem e sempre precisar comprar os últimos lançamentos (que não são nada baratos, por sinal), chegando até mesmo a se endividar para sustentar o vício, como de fato foi o caso com Lucas. iPods, iPhones, iMacs, iXboxs. A letra ‘i’, abreviatura de Inferno. “Sejam vossos costumes sem avareza, contentando-vos com o que tendes; porque ele disse: Não te deixarei, nem te desampararei” (Hebreus 13:5). Sendo assim, aconselhei D. Conceição a se livrar de todos os produtos da marca possuídos por Lucas, além de não fornecer mais dinheiro algum para compra dos mesmos. Ofereci-me para tratar dos aparelhos pessoalmente, visto que ela não conhecia ninguém para fazer o trabalho e que trata-se de artefatos perigosos. Também recomendei trazer o Lucas urgentemente para que possamos proceder com o descarrego. Que o exemplo sirva de alerta aos caros leitores do blog. Caso possuam aparelhos da tal marca, ou conheçam algum parente ou amigo que os tenham, livrem-se deles imediatamente e os informem sobre a natureza deles e dessa empresa demoníaca. “Sabei que o SENHOR é Deus; foi ele que nos fez, e não nós a nós mesmos; somos povo seu e ovelhas do seu pasto” (Salmos 100:3). (aqui)

(2009)

27 November 2008

DAQUI NINGUÉM SAI VIVO


Nick Cave & The Bad Seeds - Murder Ballads

Anjo negro dos mundos subterrâneos ou príncipe "junkie" das trevas, Nick Cave nunca dissimulou a sua predilecção pelos temas de recorte gótico, de preferência com generosa exibição de lâminas afiadas e abundante derramamento de sangue. O palco podia situar-se nos assombrados pântanos do Sul americano ou nos corredores da morte mas o argumento que alimentava cada uma das suas canções era sempre o mesmo teatro do grotesco, excessivo e, às vezes, caricatural. A personagem-Nick Cave (amplificada por uma recente biografia onde o artista-enquanto-jovem é apresentado como um dostoievskiano psicótico, solitário, heroinómano e irrascível) estava suficientemente afirmada e, mesmo após a inflexão como "crooner" apocalíptico encenada a partir de The Good Son, parecia conter as doses convenientes de dramatismo e convicção. Faltava só conhecer a devastadora componente de feroz humor negro que, nos bastidores, ia arrasando o cenário cuidadosamente montado. Na verdade, ela estava lá, desde o início, mas, em Murder Ballads, uma colecção de dez canções há muito prometida e agora publicada, dedicada ao homicídio como uma das belas-artes, revela ser não apenas o motor narrativo de um óptimo disco como a essência de um cómico irresistível.



Escrever nas paredes com o sangue de uma seringa, investir, de cabeça, em palco, contra a bateria até ela ficar vermelha de hemoglobina ou autorizar os fãs a espetarem-lhe agulhas de vudú durante os espectáculos, terão sido tanto gestos de uma catarse desatinada como variações privadas sobre o modelo do "stand-up comedian". Murder Ballads, entretanto, não deixa muitas dúvidas quanto ao facto de privilegiar esta última dimensão. Numa gloriosa paródia contemporânea sobre aquela literatura popular de cordel que não sabe viver sem os temas de faca e alguidar (no caso, a tradição anglo-americana das "murder ballads"), exige que se encare cada canção como aquilo que, neste contexto, acima de tudo, ela é: um delirante exercício de estilo carregado de sarcasmo onde as personagens resultam sempre melhor quando desenhadas a traço negro e grosso.


É bastante educativa uma viagem "à vol d'oiseau" pelo roteiro. A quase beethoveniana "Song Of Joy" inicial abre, como se impõe, com as palavras "Have mercy on me, sir, allow me to impose on you, I have no place to stay and my bones are cold right through". Logo a seguir (após o extermínio gráfico de uma família inteira à sombra de citações do Paradise Lost, de Milton), o mítico Stagger Lee, garanhão da história dos blues, renasce numa encarnação em que confessa "I'll crawl over fifty good pussies just to get to one fat boy's asshole", em saborosa inversão da lenda. Três homicídios mais tarde (e depois de afogada Kylie Minogue no lodo para comprovar que "all beauty must die"), em "The Curse Of Millhaven", Lottie, uma loira criança com uma boquinha linda escondida pela espuma do ódio, degola os habitantes da aldeia natal, inspirada pelos piedosos ensinamentos bíblicos da mamã que lhe explicara que todas as criaturas de Deus têm de morrer. Carregada de remorsos, evidentemente, quando o longo braço da lei, finalmente, a detém: "There's so much more I could have done if they'd let me!" Segue-se uma lição de moral oferecida às meninas que ninguém advertiu acerca dos perigos de acompanhar estranhos e outra história de armas fumegantes, mas nada nos poderia preparar para os épicos treze minutos de "O'Malley's Bar": mil vezes mais sanguinolento do que qualquer filme de Tarantino e com um rol de vítimas inocentes infinitamente superior, sobre uma cavalgada heróica dos Bad Seeds, desenha em cinemascópio o rasto de sangue de um "serial killer" narcisista ("Ive been known to be quite handsome, from a certain angle and in a certain light").



Por entre pólvora e disparos trovejantes, há debates filosóficos em torno do livre arbítrio, casuais conversas de vizinhos, visões de Francisco de Assis e de S. Sebastião trespassado de flechas, cabeças e tripas voando sobre pilhas de pratos sujos e, no final, um grande plano do protagonista vaidoso contando pelos dedos o número de baixas por que foi responsável, enquanto os megafones da polícia sibilam. Consideravelmente melhor que qualquer Desperado e, visualmente (proeza de tomo numa canção), muito mais eloquente, é o ponto final antes do posfácio: uma versão de "Death Is Not The End", de Bob Dylan, admissão derradeira de que, por mais amaldiçoada que tenha sido a existência (preparai-vos, profetas do suicídio!), a morte não põe fim a tudo. Se calhar, depois dela, tudo será ainda pior!... É o momento para o grande final em que aparecem ou regressam todos os convidados ilustres desta fantástica banda-desenhada inscrita na tradição folk (PJ Harvey, mais-Cave-do-que-Cave em "Henry Lee", Shane MacGowan, Anita Lane e Kylie Minogue) de onde, pela mão de Nick Cave e dos Bad Seeds e sob o omnipresente espectro de um Leonard Cohen que tivesse vendido a alma ao Diabo, ninguém, rigorosamente ninguém, sai vivo. Comédia "gore" do ano.

(1996)