(sequência daqui) Long Wave Home, o seu 7º álbum, é, então, explica ela, uma aplicação prática do princípio "O que importa é garantir sempre a pessoa certa no lugar certo", um registo reduzido a voz, guitarra e arranjos minimalistas, que mostra a ex-nanny da descendência de Tom Waits e Kathleen Brennan pelo seu lado mais íntimo. A faixa que empresta o título ao álbum define o tom: numa espécie de Lego sonoro, um dedilhado circular rodopia sob a voz, que passa de um sussurro para algo quase áspero no espaço de uma única frase. Ela sempre foi uma cantora pouco convencional e, aqui, essa estranheza parece menos uma afectação e mais um imperativo — a única forma de transmitir estas canções que não domesticam as palavras ("If revolution can be sparked by a feeling, turn up the system, point the finger, send them reeling.” ("Signal To Noise") e, numa alusão ao inferno de Gaza e de todas as Gazas contemporâneas, se interroga "Are playgrounds for children, in them arises humanity, and so morality, to recognize a brutalizer, if rubble is playground, in all that their new eyes see, what kind of man becomes us?" ('Playground')
14 July 2026
"Os europeus querem juntar o seu knowledge aproveitando o know-how ucraniano" cacareja no pequeno ecrã uma académica criatura
Cumprida a missão histórica de resolver as "causas fracturantes", na verdade, só lhes resta aderir ao Livre, penetrar docemente o PS e fazer (em vão) olhinhos aos social-fachos
QUE TIPO DE HUMANO?
"Em 2025, muitas pessoas saíram da minha vida... como um autocarro a entrar numa estação. Algumas dessas relações eram muito importantes, por isso, tive muito com que me debater nestes textos. Gravar o álbum foi uma viagem e uma busca — eu e um disco rígido numa autocaravana, parando em estúdios por toda a Inglaterra, para recolher material. Recrutei engenheiros de som, chamei Jesse D Vernon para fazer os arranjos dos metais e da percussão afinada e Sam Amidon para tocar uma variedade de instrumentos de cordas. Ao longo de três semanas, dormi debaixo de viadutos e de velhos carvalhos, e acordei em pastagens cintilantes cobertas de orvalho. Com o disco rígido e o coração cheios, regressei a Manchester, onde organizámos as sessões de estúdio sobre a matéria-prima recolhida e construímos o álbum" explicou Jesca Hoop na Bandcamp. (daqui; segue para aqui)
(sequência daqui) Broken English percorre a história de vida de Faithfull, abordando a sua experiência boémia, as ligações aos Rolling Stones, a tentativa de suicídio em 1969, a longa amizade com Allen Ginsberg, a queda no vício da heroína, os inúmeros regressos, as colaborações com o produtor Hal Wilner e muito mais. Tilda Swinton e George McKay interpretam funcionários do "Ministério do Não Esquecimento", cuja missão é assegurar que o seu trabalho mais importante receba o devido reconhecimento. Aparentemente, isto significa destacar as suas credenciais feministas pioneiras e as suas conquistas artísticas mais subestimadas, ao mesmo tempo que se minimiza a mitologia repugnante dos media sensacionalistas. Este retrato entrelaça imagens de arquivo e reflexões pessoais , tratando os realizadores Iain Forsyth e Jane Pollard de abordar o legado de Faithfull de um ângulo indirecto, combinando novas entrevistas com material de arquivo - as cenas em que mantém um diálogo melancólico com a sua versão mais jovem são inevitavelmente comoventes -, articulado com actuações musicais de Marianne, e de um elenco de apoio de amigos e seguidores, incluindo Nick Cave, Warren Ellis, Courtney Love, Suki Waterhouse, Thurston Moore e outros. Filmado durante o período final de uma longa luta contra o enfisema, a pneumonia e a Covid, Marianne Faithfull nunca chegaria a assistir ao seu derradeiro legado.
"Religion, a mediaeval form of unreason,
when combined with modern weaponry becomes a real threat to our
freedoms. This religious totalitarianism has caused a deadly mutation in
the heart of Islam and we see the tragic consequences in Paris today. I
stand with Charlie Hebdo, as we all must, to defend the art of satire, which has always been a force for liberty and against tyranny, dishonesty and stupidity. ‘Respect for religion’ has become a code phrase meaning ‘fear of religion’. Religions, like all other ideas, deserve criticism, satire, and, yes, our fearless disrespect" (Salman Rushdie)
(sequência daqui) Quando, em 1993, se apresentou pela primeira vez em Portugal, o modo como recordava os seus primeiros passos tinha já muito pouco de nostálgico: “Nessa altura, em meados dos anos 60, eu tinha um tremendo desprezo pela música pop. Quando jovem, artisticamente, era uma enorme snob. Queria ser actriz, tinha uma excelente voz que me fazia pensar numa carreira na ópera, queria dedicar-me a qualquer coisa séria. E, não sei muito bem como, acabei por ser desviada (de certo modo, por engano) para a pop. Agora, sinto-me muito satisfeita e reconhecida por isso. Mas, na altura, o que cantava parecia-me puro lixo. Em certa medida, foi só quando comecei a entender o Andy Warhol que realmente compreendi que a pop também era arte. Até aí, não passava de matéria descartável, pronta para usar e deitar fora”. (segue para aqui)
Numa enraizadíssima tradição, eis um dos mais entusiasmantes momentos de vertigem no zoo
Não é surpresa nenhuma que a bola seja um covil de meliantes; mas ao ponto de já praticamente não ser escandaloso o Trampas andar por lá a chafurdar, é desavergonhadamente demais
Vestido como um detective de film noir - longo sobretudo cinzento e chapéu de feltro -, o "Record Officer" (na realidade, o actor George MacKay) chega a um centro de arquivos. Está nas instalações do Ministério do Não Esquecimento — uma instituição cinematográfica imaginária e vagamente orwelliana, onde a memória e a mitologia se atropelam. Aí irá conduzir uma entrevista com Marianne Faithfull, na qual lhe mostrará imagens dela própria num monitor e lhe fará diversas perguntas. Na verdade, uma apenas bastaria para a situar: "Acha que precisava assim tanto das trevas para ter sido uma grande artista?", pergunta ele à baronesa Erisso von Sacher-Masoch - da ilustre linhagem dos Habsburgos e sobrinha bisneta de Leopold von Sacher-Masoch - que alcançou a fama como uma angelical estrela pop loira de 17 anos e sofreu um rápido declínio para o alcoolismo, a dependência da heroína e a vida nas ruas pelos seus 20 anos. "Fuck, no!..", replica muito energicamente Faithfull. "Mas é um bom gancho para se pendurar as coisas, não acha?", acrescenta ela. (daqui; segue para aqui)
(sequência daqui) Há, porém, algo de paradoxal em Down Where the Willow and the Dogwood Grow. Apresentado como um novo tributo à obra de Tom Waits e Kathleen Brennan, o álbum não oferece uma única gravação inédita. Acaba, contudo, por funcionar como algo mais interessante: um reavaliador da extraordinária força das canções de Waits e Brennan num percurso que alterna entre baladas, blues andrajosos, canções de inspiração latina, gospel e peças quase faladas, reflectindo a impressionante diversidade do cancioneiro Waits/Brennan quando retirado da imensa sombra da sua personalidade. Ou como um espelho que, ao reflectir a obra através de vozes alheias - Solomon Burke, Bruce Springsteen, Willie Nelson, Lucinda Williams (que canta "Hang Down Your Head", a primeira canção oficialmente atribuída à parceria Waits-Brennan, publicada em Rain Dogs, 1985), Johnny Cash, Marianne Faithfull, Bob Seger, Diana Krall, John Hammond -, revela a qualidade rara de canções capazes de sobreviver a qualquer intérprete — inclusive ao seu criador. Afinal, um tanto ou quanto ironicamente, o título do álbum de homenagem haveria de ser extraído do texto de canção "Down There By The Train", o patinho feio inicial, em cuja primeira estrofe se lê: "There’s a place I know where the train goes slow, where the sinner can be washed in the blood of the lamb, there’s a river by the trestle down by sinner’s grove, down where the willow and the dogwood grow".