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10 November 2024

"Child Of Mine"
 
(sequência daqui) Há ruidos domésticos deliberadamente não eliminados, interlúdios instrumentais mas, de um modo geral, uma estrutura musical purificada na qual, quase insensivelmente, se infiltram os subtilíssimos arranjos de cordas (de Rob Moose) que se esquivam à gravidade e deixam estas onze peças a pairar na memória. Laura Marling ensaia uma síntese possível: "Tendo os 34 anos que, agora, tenho, 15 anos de carreira e 8 álbuns, não consigo fugir à sensação de que cada álbum constituiu como que um capítulo da minha vida (apesar de alguns serem realmente premonitórios). E eis-me aqui, após uma juventude tentando desesperadamente compreender o que é ser uma mulher, no topo da colina, com uma perspectiva enorme e inteiramente nova à minha volta. Um dos grandes privilégios da minha vida é, porque comecei muito cedo, ter agora a possibilidade de abrandar. Há até uma parte de mim que pergunta 'e se eu desaparecesse?' Talvez fosse bom esconder-me, fugir dos holofotes. Como a Kate Bush".

24 January 2023

 
(sequência daqui) E, confessando ser, desde sempre, apaixonada por histórias “de dragões, castelos encantados e bruxas más”, conta que devorou tudo, de contos de fadas clássicos a Ursula Le Guin: “Vivi toda a minha infância, numa ininterrupta fantasia de heróis épicos em paisagens mágicas, nas margens da Water Of Leith, perto de Edimburgo”. Reparemos também agora no espectro de Angela Carter que por aqui. paira, tal como (em "Frequencies To Victory") o de Hedy Lamarr – cintilante beldade de Hollywood mas, igualmente, cientista inventora de um dispositivo capaz de alterar as frequências dos sinais de rádio impedindo os radares nazis de descodificarem mensagens durante a Segunda Guerra Mundial –, fertilizando 15 canções que, em La Bête Blanche, deambulam entre a folk, estridências punk, Kate Bush, Steeleye Span ou a memória dos imperdoavelmente ignotos Spriguns. Todas, de forma diversa e sob ângulos vários, retratando apenas as mais aptas a passar num critério de avaliação: “She’s a witch, she’s a witch, from her tail to her tits”.
, uma espécie de sistema de comunicações secreto que

15 November 2022

FRICÇÃO
Na listinha longamente cogitada das piores coisas que ardentemente desejamos aos maiores inimigos, encontram-se, de certeza, conflitos identitários e existenciais como o que é a história da vida de Liraz Charhi: filha de pais judeus sefarditas iranianos nascida em 1978, em Israel, para onde a família, anos antes da Revolução Islâmica, emigrara – “Começaram a aperceber-se do caminho que o Irâo iria seguir. Sairam na altura certa”, diria Liraz a “The Telegraph” –, transformar-se-ia no símbolo vivo da co-existência entre ferozes inimigos políticos, religiosos e culturais. Proibida desde 1979 – ano da tomada do poder em Teerão pelos aiatolas –, na qualidade de cidadã israelita, de visitar o Irão, seria, em Westwood, Los Angeles (onde ensaiaria uma experiência no cinema), que, na zona de Tehrangeles (ou Little Persia), local de concentração de emigrantes iranianos, redescobriria, os sinais da sua cultura de origem sob a forma de instrumentos musicais e dezenas de vinis de artistas persas como Googoosh ou Hayedeh. Mas também de Kate Bush, Blondie e Tori Amos. (daqui; segue para aqui)
"Roya"

19 October 2022

"My Blood"

(sequência daqui) “Para mim, é tudo exactamente igual a quando Alan Lomax andava por todo o mundo a descobrir as músicas locais. As canções estão aí para ser colhidas”, dizia ela à WNYC. Isto, enquanto, com Greg Ahee e Michael Wallace, alimentava a fogueira dos Bloodslide, trio pós-punk de incandescências elétricas. Agora, em Dirt! Soda!, continuando rodeada de gente dos círculos privados de Bill Laswell, Julia Holter, Yves Tumor e Joan As Policewoman, à excepção de "Strings of Nashville", dos Pavement, e "Broken Hearted Wine", dos Codeine (fundidas numa liga metálica única), e de "Then You Can Tell Me Goodbye", de The Casinos, AJ assina todos os outros temas. E o que se escuta é coisa hipnótica de essência medularmente lynchiana, traduzida e expandida para o vocabulário já antes, em várias tonalidades, ensaiado por Julee Cruise, PJ Harvey, Nick Cave, Kate Bush ou Chrysta Bell.

03 June 2020

A ESTÉTICA DA RAPIDINHA


“Então, também está em quarentena?...” são as primeiras palavras que Stephin Merritt me dirige, a 5 400 quilómetros de distância, algures em Nova Iorque. Quilómetros a mais, aparentemente, para a rede telefónica que, após alguns minutos de tentativas frustradas de continuar um diálogo em termos inteligíveis, obrigará a prossegui-lo via e-mail. Ainda de viva voz, explicar-me-á que, para o novo álbum dos Magnetic Fields, Quickies – 28 canções com durações entre 17” e 2’30” – o conceito de “rapidinhas” só surgiu a meio caminho: “Raramente, se é que alguma vez isso aconteceu, decido fazer um álbum sem ter pelo menos algumas canções já escritas. Na verdade, 23 das canções de 69 Love Songs eram suficientemente curtas para poderem ter sido incluídas em Quickies. Creio que já tinha escrito ‘Bathroom Quickie’ e pus-me a imaginar como poderia ser um álbum em que ela encaixasse bem ou pudesse mesmo ser a peça central”


Pergunto-lhe se a atmosfera musical de caixa de música distorcida que atravessa todo o álbum terá algo a ver com aquilo que o "press release" revela – ele terá andado a ouvir muita música barroca francesa para cravo – e, primeiro, dá-me um bom conselho (“Nunca acreditar numa só palavra do que se lê num press release”), para, a seguir, confirmar: “É verdade que, no carro, tenho escutado bastante música para cravo de Rameau e da família Couperin. É perfeita porque não se deixa abafar pelo ruído do motor. Daí ter começado também a apreciar o som de um único instrumento, não usando a força mas a persuasão, e sem precisar de exagerar nos registos graves. Mas, de facto, tenho várias caixas de música e, um dia, ainda hei-de escrever alguma coisa para elas”. E remata com uma máxima digna de Leonard Bernstein: “Suponho que sou o tipo de pessoa que gosta desse tipo de sonoridade e exprimir aquilo de que gostamos em música é o primeiro e único propósito da música”. Todas as miniaturas de Quickies são povoadas por personagens peculiares, excêntricas, bizarras... ficcionais ou inspiradas em figuras e situações reais? “A maioria é imaginária embora "When the Brat Upstairs Got a Drum Kit" siga de muito perto algo que aconteceu com a Claudia Gonson e "I Wish I Were a Prostitute Again" registe e exagere discursos que ouvi a dois amigos meus que foram trabalhadores sexuais. "The Boy In The Corner" sou eu, sem dúvida, até ao ponto em que ele é atingido por um raio. Como figura contrastante, imaginei um amigo particularmente extrovertido que sempre que entra numa sala nunca passa despercebido. E nunca foi atingido por nenhum raio”.

Mas, numa gravação em que os temas recorrentes são “a morte súbita (por vezes, em escala massiva); os alemães; cientistas que fazem coisas estranhas com animais; conspirações; e o verdadeiro amor”, algumas merecem especial atenção: a rapariga de "The Biggest Tits In History”, o cientista louco de "Castle Down a Dirty Road", a criatura fantástica de "I WishI Had Fangs And A Tail", pretextos para divagações com consequências teológicas: “Qualquer pessoa que tenha aprendido a programar um sintetizador deve ter reparado como isso é semelhante a ser um cientista louco: ficar a pé, noite fora, a mexer em botões indecifráveis para fazer algo que os meros mortais nunca entenderiam nem que isso destruísse o mundo à volta!... Os desejos em ‘I Wish I Had Fangs And A Tail’ não são necessariamente cumulativos, o bigode garboso e as garras, por exemplo, podem anular-se. Tal como as qualidades de Deus se contradizem: é impossível ser, simultaneamente, omnisciente e omnipotente. A omnisciência implica conhecer o futuro mas, se o futuro já existe, não pode ser mudado, logo, não é omnipotente”.


O que, à boleia de "I’ve Got a Date With Jesus" e "You’ve Got a Friend in Beelzebub", o autoriza a concluir: “Acho a religião uma coisa completamente idiota, não entendo como pode ser levada tão a sério. A encarnação do mal costumava ser uma serpente mas, agora, tem asas de morcego e cascos fendidos. Pobre tipo! É o que dá desejar ter garras e cauda. Ser omnipotente? Nãããooo!...” Apresente-se, então o alter-ego de Bakunin moderno de Stephin Merritt, tal como é exposto nos dois manifestos radicais "The Day The Politicians Died" (todos! sem excepção!) e o feminista "Kill a Man A Week". São para levar à letra? “O desejo da eliminação dos políticos não é porque pense que devam ser destruidos individualmente por um raio de Zeus, ainda que isso fosse agradável. Mas não deveriam existir enquanto classe. As relações de poder entre pais e filhos são um mal necessário que, apenas décadas depois, pode ser vingado. Todas as outras relações de poder são males desnecessários. ‘Kill A Man A Week’ resolveria, sem dúvida, muitos problemas embora não de um modo tão eficiente como o extermínio dos políticos. Mas não me parece que, actualmente, pudesse existir um Bakunin, as armas nucleares deram cabo dessa possibilidade”.


Problemas de índole laboral e existencial abundam, como os do protagonista de "I Wish I Were A Prostitute Again", sonhando com um El Dorado irremediavelmente perdido (“A verdade é que ele pode sempre arregaçar as mangas e voltar a trabalhar como prostituto. Muito mais tristes são os desejos irrealizáveis daquele pobre diabo que quer pertencer a um 'biker gang' e nunca será suficientemente 'cool' para o fazer”), mas que, no que à trama narrativa respeita, poderiam passar de mão em mão, entre todas as personagens: “Lola, a ornitologista, despe a bata do laboratório e revela ter garras e cauda. Mas está também na comissão de planeamento da aldeia e é atingida por um raio no momento em que se preparava para atacar o ‘rock’n’roll guy’ com as suas mamas gigantes. E pode fazer-se o mesmo com as personagens de qualquer álbum: ‘Lucy in the sky’ ‘is leaving home’, despede-se do emprego como ‘meter maid’ e junta-se à Sgt Pepper’s Lonely Hearts Club Band que vai dar um concerto no Albert Hall (depois de taparem os buracos) porque o exército inglês acabou de vencer a guerra (como se tal coisa fosse possível! é sempre a marinha que ganha)”.

Ainda que todas brevíssimas, canções como "Bathroom Quickie", "Song Of The Ant", "Death Pact", "She Says Hello" e "Castles Of America", com um segundo a menos de respiração, evaporar-se-iam. O objectivo último é inventar o haiku pop? “Bem, elas rimam, para haikus, são ainda grandes demais, e falta-lhes uma relação entre a natureza e as estações do ano. Não diria que não a essa ideia mas alguém já o deve ter feito (e não me apetece ir procurar ao Google)”. Para o imprevisível futuro dos outros alter-egos de Merritt - The 6ths, Gothic Archies e Future Bible Heroes –, porém, é necessário que estejam reunidas algumas condições: “Ainda só passaram 7 anos desde o último álbum dos Future Bible Heroes. Da última vez, foram 12 o que é uma frequência tipo Kraftwerk ou Kate Bush. Os 6ths andam mais por um interregno à escala dos My Bloody Valentine, é melhor começar a pensar em gravar qualquer coisa. Os Gothic Archies deram há pouco um concerto o que significa que, mais década, menos década, haverá um álbum. Estamos à espera que a situação mundial se torne muito, muito negra. Ainda não está suficientemente negra”. Não há-de tardar muito.

05 May 2020

SAIR DE CASA


Em 14 de Outubro do ano passado, Zelda Hallman, a "house-mate" de Fiona Apple, publicou no YouTube um video de 1 minuto no qual esta, qual Martha Graham doméstica, ensaia, no chão da sala, uma coreografia com a cadela Mercy – uma possante "boxer-pitbull" – que a arrasta impiedosamente por entre um piano e várias cadeiras enquanto ela, na medida do fisicamente possível, vai improvisando movimentos e poses. Nada de extravagante, afinal – apenas um passatempo de um dia normal na casa de Venice Beach, em Los Angeles, de onde, há anos, Fiona só muito raramente sai. Na verdade, muito antes de palavras como “quarentena” e “confinamento” se terem tornado omnipresentes, já esse era o seu modo de vida habitual o que teria, aliás, consequências na produção musical: entre a explosiva estreia, Tidal (1996), e When The Pawn... (por extenso, When the Pawn Hits the Conflicts He Thinks Like a King What He Knows Throws the Blows When He Goes to the Fight and He'll Win the Whole Thing 'fore He Enters the Ring There's No Body to Batter When Your Mind Is Your Might So When You Go Solo, You Hold Your Own Hand and Remember That Depth Is the Greatest of Heights and If You Know Where You Stand, Then You Know Where to Land and If You Fall It Won't Matter, Cuz You'll Know That You're Right) decorreriam três anos; desse para Extraordinary Machine seriam precisos seis; The Idler Wheel... (isto é, The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do) exigiria sete; e, para chegar ao actual Fetch The Bolt Cutters, necessitaria de oito. Além de que, com muitíssimo poucas excepções, desde 2012, não pisa um palco. 



Quase poderia antecipar-se todo este percurso quando, nos MTV Video Music Awards de 1997 (nos quais, aos 19 anos, conquistaria o galardão de Best New Artist pela canção "Sleep To Dream"), ao aceitar o prémio, declarou: “Não preparei um discurso e ainda bem porque não irei fazê-lo da mesma forma que toda a gente. Que todas as pessoas a quem deveria agradecer me peedoem mas tenho de aproveitar o tempo que me é concedido. A Maya Angelou diz que, enquanto seres humanos no seu melhor, apenas podemos criar oportunidades. Vou, então, usar esta oportunidade do modo que entendo. Por isso, o que quero dizer – estão a ver, todos vocês, estão a ver este nundo? – é que este mundo é uma merda. E que vocês não deverão tomá-lo como exemplo para a vossa vida, não deverão seguir aquilo que pensam que nós imaginamos ser cool, o que vestimos, o que dizemos e tudo o resto. Sigam o vosso próprio caminho”



Exactamente aquilo que, ainda que pagando um elevadíssimo preço na sua vida pessoal e artística, Fiona Apple fez e que, há semanas, no “Guardian”, reconfigurando-a na condição de “perfect artist for a time of crisis”, se apresentava em seis pontos: 1) não foge a temas difíceis (sempre falou dos problemas de depressão, ataques de pànico e transtorno obssessivo-compulsivo de que sofre e nunca escondeu ter sido violada aos 12 anos); 2) conta a melhor história acerca do que fazer para se libertar da cocaína (“Experimentem ir ao cinema com o Quentin Tarantino e o Paul Thomas Anderson a snifarem coca e nunca mais vos voltará a apetecer”); 3) pode ensinar-nos uma ou duas coisas sobre auto-isolamento (pouco sai de casa a não ser para passear a cadela em Venice Beach); 4) aprendeu a viver com mais juizo (a antiga consumidora de uma garrafa de vodka por dia, é, agora, abstémia e vegan); 5) não é politicamente desatenta (no Verão passado, ofereceu o valor das "royalties" de dois anos da canção "Criminal" a um fundo que presta apoio legal a imigrantes; compôs "Tiny Hands", acerca de Donald Trump – “We don’t want your tiny hands, anywhere near our underpants” –, para a Marcha das Mulheres, de Janeiro de 2017, em Washington; "For Her", do último álbum, foi escrita num acesso de fúria após a nomeação de Brett Kavanaugh para o Supremo Tribunal de Justiça); 6) não tem dúvidas quanto a prioridades (no final de 2012, cancelou uma digressão pela América do Sul devido ao agravamento do estado de saúde da sua anterior pitbull, Janet). 



Foi, justamente, em 2012, que as primeiras moléculas de Fetch The Bolt Cutters começaram a juntar-se, num ainda vago conceito em torno da casa de Venice Beach, a que chamou “House Music”. Mas a primeira canção, "On I Go", inspirar-se-ia num cântico de meditação Vipassana que, colando fragmentos de textos antigos e novos, lançou para o caldeirão de ferventes "jam sessions" com o baixista Sebastian Steinberg (Soul Coughing), a baterista Amy Aileen Wood, e o guitarrista David Garza. Ferventes mas não propriamente, convencionais: todo o tipo de objectos potencialmente percutíveis – baldes, vasilhas, pedaços de metal e de madeira, mesas, paredes, palmas, utensílios de cozinha, as ossadas da cadela Janet que Fiona guarda num estojo –, cânticos, arquejos, gritos, miados (cortesia da actriz Cara Delevingne), latidos de cinco cães (Mercy, Maddie, Leo, Little, e Alfie, devidamente creditados), foram utilizados numa orquestra de matriz waitsiana. “A Fiona queria começar do chão para cima e, para ela, o chão é o ritmo. Parecia mais a criação de uma escultura”, contou Garza à “New Yorker”, ou como acrescentava Steinberg, “Tocámos do modo que os miúdos brincam ou que os pássaros cantam”. Em "I Want You To Love Me", Apple é totalmente explícita: “Blast the music, bang it, bite it, bruise it!”



Uma versão anterior – que os então presentes consideram ainda o seu mais extraordinário desempenho vocal – tivera lugar numa cadeia do Texas quando, em 2012, Fiona havia sido presa por posse de haxixe “Cantei-a durante a noite para me acalmar. Enquanto estávamos todos na sala de espera, eu cantava, estupidamente, de uma forma arrogante, para a câmara de vigilância. Não é, realmente, boa ideia ser sarcástico quando se está lidar com a polícia. Por muito que me custe, aprendi a lição”. Mas, nas condições ideais de temperatura e pressão, é esse precisamente o espírito ideal – bruto e cru – capaz de conferir tensão e perfurante intenção a treze canções de confronto e ajuste de contas. Em "For Her" (a tal incendiada pelo caso Kavanaugh), um coral ofegante e ritmicamente martelado salta de “Sniff white off a starlet's breast, treating his wife like less than a guest, getting his girl to clean up his mess” para o implacável “Good mornin’, good mornin’, you raped me in the same bed your daughter was born in”; "Relay", apontada a um objecto de desprezo (“I resent you presenting your life like a fucking propaganda brochure”), explode numa definição impiedosamente repetida (“Evil is a relay sport, when the one you burn turns to pass the torch”); e, na faixa-título, sobre moldura instrumental em processo de liquefacção, invoca Kate Bush (“I grew up in the shoes they told me I could fill, shoes that were not made for running up that hill, and I need to run up that hill, I need to run up that hill, I will, I will, I will, I will, I will”) para concluir com “Fetch the bolt cutters, I’ve been here too long”. Não por acaso, o pedido da detective Stella Gibson (interpretada por Gillian Anderson), num episódio da série de televisão The Fall, quando necessita de um alicate para libertar do cárcere uma mulher que o "serial-killer" Paul Spector sequestrara e torturara. Como se, agora, quando o mundo inteiro vive em prisão domiciliária, esse fosse o instante certo para Fiona Apple sair de casa.

16 April 2019

DECAPITADA

  
Tanto na capa do anterior The Voyager (2014) como na do novo On The Line, Jenny Lewis aparece decapitada. Isto é, uma e outra são fotografias – ambas de Autumn De Wilde – em plano médio que a enquadram da cintura para cima mas nas quais a cabeça está ausente. Com uma diferença importante, porém: se, em The Voyager, ela vestia um "rainbow suit" razoavelmente discreto inspirado no estilo de Gram Parsons, agora, enverga um "jumpsuit" de cetim azul generosamente decotado, numa foto quase tridimensional. Embora possa ser (e já foi) encarada como uma provocação muito politicamente incorrecta em tempos de #MeToo – mas isso não a impediu de se solidarizar com as mulheres que denunciaram o comportamento abusivo de Ryan Adams com quem colaborou nesses dois álbuns –, na verdade, o "glamming up" é apenas uma homenagem à problemática mãe, heroinómana de longo curso e lounge singer em Las Vegas, onde usava esse tipo de roupa desenhada por Bob Mackie. Morta em 2017 – momento em que, após duas décadas de afastamento, se reconciliariam –, a imagem é, em simultâneo, uma metáfora para o luto e uma extensão dessa sombra que, desde o início com os belíssimos Rilo Kiley, nunca a abandonaria: a cabeça poderá estar invisível mas os demónios que a habitam permanecem. 


Se, no primeiro álbum a solo (Rabbit Fur Coat, 2006), cantava “Where my ma is now, I don’t know, she was living in her car, I was living on the road and I hear she’s putting that stuff up her nose” e, ainda nos Rilo Kiley, olhava-se ao espelho e só via um reflexo (“It's bad news, baby, I'm just bad news, cause you're just damage control for a walking corpse like me”), em On The Line, “concebido como uma peça de teatro que conta a história do fim para o princípio”, as personagens, reais ou ficcionadas, não se afogam em muito maior felicidade: seja a “girl in a black Corvette, getting head in the shadows” que se vê como “a beatle floating in a bottle of red, I was a party clown”, a outra (ou a mesma) que viaja para Norte “in a borrowed convertible red Porsche with a narcoleptic poet from Duluth, and we disagreed about everything, from Elliott Smith to Grenadine” ou aquela que confessa “there's nothing we can do but screw and booze and amphetamines”. Com Beck, Jim Keltner, Don Was, Ringo Starr e Benmont Tench a lapidarem um requintado classicismo pop algures entre Aimee Mann, Costello e, por vezes, Kate Bush, desde o início, os dados ficam lançados: “After all is said and done, we'll all be skulls, heads gonna roll”.

01 October 2015

ESCUTAR COMO SE VÊ UM FILME


“Sou uma diletante, escolho e retiro elementos de todas as áreas musicais, não sou uma académica concentrada e circunspecta”, é como Julia Holter se auto-define. E dificilmente o poderia fazer melhor: personagem tão apta a surgir na capa da “Wire” ao lado de praticantes do mais esotérico experimentalismo como de publicar o recente Have You In My Wilderness – recolha de canções sumptuosamente orquestradas –, ao quarto volume da sua discografia, começa a ser obrigatório prestar-lhe a devida atenção.

Nos seus álbuns anteriores, recorria sistematicamente a referências literárias: Tragedy (2011) alimentava-se do “Hipólito”, de Eurípides, bem como de outras tragédias gregas; em Ekstasis (2012), citava Frank O’Hara e Virgínia Woolf; Loud City Song (2013) inspirava-se na “Gigi”, de Colette. Agora, em Have You In My Wilderness, parece ter acedido a uma outra fase em que muito mais claramente se concentra no formato clássico da canção como entidade autónoma.
De certo modo, sim, mas não completamente. Neste álbum, três ou quatro canções também se desenvolveram a partir de personagens de livros que ia lendo. Escrevi "How Long" quando, durante uma visita a Berlim, andava a ler as “Berlin Stories”, do Chistopher Isherwood, e "Lucette Stranded On The Island" surgiu a partir de “Chance Acquaintances”, outra vez de Colette. Mas trata-se, no entanto, apenas de canções independentes e não interrelacionadas por um tema único. Concebi este álbum como uma colecção de canções e baladas prestando muito mais atenção à globalidade do som. Foi gravado, durante um ano, em diversos momentos e contextos. Há uma certa unidade do ponto de vista sonoro mas cada canção tem uma personalidade própria.

Li que a sua intenção era que todos os álbuns pudessem ser apreciados do mesmo modo que assistimos a um filme... 
Sim, o meu desejo é que possam ser escutados como se vê um filme, serem uma espécie de audiofilme. No entanto, não diria que Have You In My Wilderness seja esse tipo de disco. O que mais se aproximou disso foi Tragedy

Este seria, então, talvez, mais como uma colecção de videoclips? 
Exactamente. 

É curioso porque, em vários dos seus videoclips, as imagens parecem conter uma narrativa paralela à da canção...
Nunca sou eu quem realiza os vídeos e dou toda a liberdade aos realizadores mas, na verdade, embora exista, necessariamente, uma relação entre música e imagens, cada uma conta a sua história.



Tal como St. Vincent, Shara Worden (dos My Brightest Diamond) ou os gémeos Dessner (dos National), entre vários outros, a Julia faz parte de uma geração de músicos com formação académica clássica que acabaram por, de certa forma, renegá-la e optar por uma linguagem mais “profana”...
O universo académico tende a ser demasiado limitador o que conduz algumas pessoas a procurarem desbravar o seu caminho fora do espaço dos departamentos de música universitários, dos conservatórios e das academias. Trabalhar nessa atmosfera clássica gera muitas vezes a ideia de que tudo poderá vir a tornar-se demasiado complexo e, claro, reage-se contra isso. 

Pode, então dizer-se que são os smart ones that got away?
Não quis dizer exactamente isso. Para alguns, esse mundo funciona muito bem e, no interior dele, são capazes de produzir óptimas obras. Mas os outros que não se adaptam a ele só têm como solução sair e descobrir a via em que se sentem mais à vontade. Não nego, no entanto, que tudo o que aprendi sobre teoria musical e musicologia foi muito útil e interessante.

Achei interessante que tenha confessado ao “Guardian” que se vê mais como "storyteller" do que como cantora, porque Laurie Anderson – com quem, por vezes, é comparada, bem como com Meredith Monk, Kate Bush, ou, diria eu, Judee Sill – afirmava, justamente o mesmo... 
Tenho de reconhecer que sou cantora... esses nomes que referiu começaram a compor e a criar muito antes de mim, seguramente foram uma influência importante para imensos músicos mas não ousaria comparar-me com elas porque cada uma foi absolutamente singular. Tenho consciência de que poderá haver pontos de contacto com o que faço, gosto muito delas, particularmente, de Kate Bush, mas também de Laurie Anderson. 




Não sei se já reparou mas, quando se escreve “Holter” no Google, a primeira referência que surge é o Monitor de Holter, um aparelho de electrocardiograma portátil que regista o ritmo cardíaco ao longo de 24 horas ou mais. Fiquei com a ideia que poderia ser uma metáfora útil para a sua música que, apesar de lidar com emoções, é muito precisa, cerebral, muito racionalmente escrita... 
Não sei... mas essa ideia é muito interessante. Não acho que tenha uma atitude robótica e que as minhas canções sejam desprovidas de emoção mas também não seria capaz de descartar esse seu ponto de vista. 

Já deu concertos tanto na Europa como nos EUA. Sente alguma diferença na reacção de americanos e europeus à sua música? Pergunto isto porque sempre me pareceu que os seus discos têm uma sensibilidade particularmente europeia... 
Não tenho a certeza. Nunca reparei que houvesse reacções distintas, Sou americana, sinto-me muito americana, mas a verdade é que já não é a primeira vez que me dizem isso. Tal como o contrário. A verdade é que, hoje, essas distinções são capazes de já não fazer grande sentido, vivemos numa sociedade definitivamente global.

06 February 2012

AMERICAN IDOL


Lana Del Rey - Born To Die

A lista de compras: Pabst Blue Ribbon, Diet Mountain Dew, Baccardi, um Bugatti Veyron, cocaína, um Pontiac branco, champanhe Cristal, vestido vermelho, óculos de sol em forma de coração, alojamento no Chateau Marmont, baton vermelho, Schnapps de cereja, gasolina da Chevron, verniz de unhas vermelho. Momentos poéticos-chave: “sometimes love is not enough and the road gets tough”; “the way I roll like a rolling stone”, “you made my eyes burn, it was like James Dean”; “you were sorta punk rock, I grew up on hip-hop”; “love hurts”; “heaven is a place on earth”; “you’re no good for me but baby I want you”; “heaven’s in your eyes”; “your face is like a melody”; “no one compares to you”; “then I saw your face and you blew my mind”; “take a walk on the wild side”; “I was lost but now I am found, I can see but once I was blind”. Personagens centrais: a menina boa e o rapaz mau e/ou a menina má e o rapaz mau. Autora: Lana Del Rey, aliás, Lizzy Grant, aliás (atenção: redundância!), “the gangsta Nancy Sinatra”, aliás, "torch singer" de um sonho húmido de David Lynch (considerar, em alternativa, Walt Disney), Lolita de série B, Rita Hayworth da era-YouTube, Jessica Rabbitt 3D, Peggy Lee ressuscitada para consumo adolescente.



Por que motivo, então, a propósito de Lana Del Rey (putativa "next big thing" em suposto figurino "noir") e Born To Die se precipitam, a galope, todos os clichés? Talvez – conferir em “lista de compras” e “momentos poéticos-chave” –, justamente, porque uma e outro não sejam mais do que um densíssimo concentrado de, como dizer?... clichés a que ninguém se deu ao trabalho de aplicar sequer um "spin" warholiano. Explicando melhor: o cliché é matéria-prima pop esssencial mas, para ser eficazmente processado, exige que, ao olharmos, por exemplo, para a representação de uma lata de sopa Campbell’s, o cérebro, sorrindo, nos dispare imediatamente a mensagem “ceci n’est pas une Campbell’s soup can”. E é por aí mesmo que (muito mais do que a questão de saber se Lizzy/Lana é coisa “genuína” ou fabricação industrial – polémica "unpop" por definição –, se pagou o imposto da vida pela tabela-Winehouse ou é "a rich daddy’s little pet") a construção desaba: o Pontiac é apenas um Pontiac, o “walk on the wild side” é só copianço, o Dean e a Hayworth descobrem-se sequestrados no casting para um "teenage drama" pateta, e, azar supremo, é pelos pesadelos e não pelos sonhos de Lynch que mais o veneramos. Não esquecendo (pormenor nada desprezível) que "name dropping" e "product placement" como combustível estético (não risível) para canções é território privativo de Lloyd Cole e Vincent Delerm.



Resulta, pois, romantismo kitsch e melodrama de cartoon, mas daqueles kitsch e cartoon embaraçosamente rudimentares que, aspirando a uma impossível bissectriz "low budget" entre Kate Bush, Portishead e Goldfrapp com fermento orquestral "mock"-épico, não destoariam em eliminatórias de festival da Eurovisão ou batendo-se bravamente por um lugar no pódium do American Idol. Não são o artifício e a manipulação que incomodam (venham sempre mais e, de preferência, em overdose generosa) mas sim o facto de os cordelinhos se verem claramente na imagem e a pose de ninfa trágica enfastiada ter cerca de metade da espessura shakespeareana de uma personagem de telenovela. Nada de grave, no entanto: se uma concha de bivalve sem molusco lá dentro é capaz de, a partir de uma Germanotta comum, gerar uma Lady Gaga pronta a competir no mercado, porque não há-de uma Lizzy banal ser o casulo de outra rentável Lana?

26 December 2011

SEM SE RIR


















Kate Bush - 50 Words For Snow

Antes de mais: ao contrário do que o largamente disseminado mito nos pretende fazer crer, os esquimós (isto é, os Inuit) não possuem 50 palavras distintas para nomear a neve. Ficam-se por um número equivalente, por exemplo, ao do Inglês contemporâneo. É uma lenda poeticamente simpática – criada, no início do século passado, pelo linguista e antropólogo, Franz Boas, que tenderia a reforçar a ideia segundo a qual é a linguagem que cria o real – mas, infelizmente, falsa. Não seria, no entanto, por esse motivo que o último álbum de Kate Bush e a faixa que lhe oferece o título (onde Bush, citando o mito esquimó, qual Jamie Lee Curtis perante o italiano de Kevin Kline em Um Peixe Chamado Wanda, desafia Stephen Fry a inventar termos ingleses para neve) seriam melhores ou piores.

O enorme problema deste opus ártico e invernal é deixar absolutamente evidente, de uma vez por todas, que, muito mais do que alegada ascendência estética de Tori Amos ou Goldfrapp, Kate Bush é a verdadeira mãe espiritual de Joanna Newsom: quem mais, sem se rir, seria capaz de nos contar histórias de flocos de neve falantes, encontros com o Yeti, espectros aquáticos que chamam pelo cãozinho de estimação perdido e – ponto culminante – "one night stands" com bonecos de neve que (sejamos justos, isso não acontece apenas com bonecos de neve e Kate não será a primeira a queixar-se) se derretem muito antes do momento desejável? Não reparando demasiado na participação de Elton John, o design sonoro até é muito agradavelmente não-bushiano, quero dizer, nada exibicionista e barroco mas, quase sempre, minimal e rarefeito, com os mui estimáveis Danny Thompson e Steve Gadd a participarem activamente na concepção da espaçosa tundra sonora de uma hora em que se alojam sete fantasias vagamente semelhantes a canções. Assaz embaraçosas.

(2011)

18 December 2011

1º CRITÉRIO DE SELECÇÃO: O(S) COMENTÁRIO(S) (I)

"Kate Bush.... As mad as a box of frogs, and 10 times hotter than the hottest girl you've ever known!!"


Kate Bush - "Babooshka"

(2011)

28 March 2010

SININHO HIPPIE



Joanna Newsom - Have One On Me

Estou perfeitamente disposto a admitir que o problema é meu. Até porque a explicação alternativa só poderia ir parar a uma teoria da conspiração à la Dan Brown, segundo a qual a Maçonaria, o Clube Bilderberg, a Trilateral, a Opus Dei e os Superiores Ocultos de Agartha, em coligação global, se teriam confabulado para que, em uníssono, todas as vozes críticas do universo, rendidas e deslumbradas, entoassem cânticos e louvores à sublime obra de Joanna Newsom. O que, à excepção de um ou outro "sniper", é exactamente o que está a acontecer. E, como se sabe, não é coisa apenas de agora: tanto The Milk Eyed Mender (2004) como Ys (2006) foram recebidos como a mais preciosa dádiva do "free/freak-folk" – o rótulo começa a entrar em desuso mas ainda ajuda a situar – à humanidade carente do Bom e do Belo e Joanna apresentada como a Sininho hippie por que todos esperávamos para lançar pó-de-estrelas sobre a pop.



O problema poderá ser meu mas, entretanto, darei luta. E direi que Have One On Me consegue ser três vezes pior que Ys: porque é um triplo CD; porque, no anterior, podíamos concentrar-nos nos fabulosos arranjos de Van Dyke Parks e, com algum esforço, ignorar a existência da Newsom (e, neste, isso não acontece); porque diminuir o teor “puético” de arcaísmos patetas para o substituir por platitudes do género de “Life can be difficult and lonely but we all need love” será, talvez, um início de carreira promissor na indústria da "self-help" mas não é, propriamente, um progresso. Fica, então, só uma cada vez mais pronunciada aproximação aos maneirismos vocais de gueixa mimada de Kate Bush agrafados aos agudos estridentes da Baez-diva-folk dos primórdios, alguns traços de personalidade de uma Kristin Hersh psicótica mas fofinha e um dilúvio de harpa. Se, nas próximas semanas, eu não voltar a escrever, enviem, por favor, este texto ao Dan Brown.

(2010)

23 August 2009

INDIE (DE "INDUSTRIAL")



Florence + The Machine - Lungs

Florence Welch tem, de facto, atrás de si, uma máquina. Que, mesmo nestes anos do estertor final da indústria discográfica dominada pelas majors tal como as conhecíamos (à indústria e às majors), continua a carburar de acordo com as antigas normas e ainda mantém o engenho suficientemente lubrificado para, aqui e ali, ir produzindo resultados. No caso de Florence, o design do projecto é absolutamente transparente: conceber um "ersatz" de estrela indie com motor turbo industrial. Calculado ao pormenor, diga-se. Primeiro, a biografia: filha de Evelyn Welch – historiadora de arte norte-americana e habituée do Studio 54 – e do publicitário Nick Welch, com infância e juventude protegidas mas apropriadamente "perturbadas" e passagem pelo Camberwell College of Art no currículo, o que fica sempre bem no retrato de uma "would-be-pop-star" com pedigree. Naturalmente, alguém cuja mãe-historiadora de arte baptizou como Florence só poderia ser devota da arte do Renascimento italiano e, em particular (oh quão popmente conveniente!), da Circuncisão de Cristo, de Mantegna. Ou assim os "spin doctors" discográficos nos pretendem fazer crer.



A composição da personagem pula, depois, sem grandes sobressaltos, para um registo pré-rafaelita destrambelhado com imprescindíveis laivos "góticos", referências dispersas a Edgar Allan Poe e Tim Burton e a informação adicional de que Miss Welch iniciou a carreira cantando em casamentos e funerais de família, "mas especialmente, funerais". Nada disto teria o mínimo problema – indústria é indústria e, de Tin Pan Alley aos ABBA, muito devemos à pop industrial – se Lungs fosse luva de dimensão adequada a esta mão e, como nos garantem, descendente directo de uma ilustre linhagem que incluiria Nick Cave, Tom Waits, Björk, Kate Bush e Siouxsie. A última, conceda-se, é marginalmente plausível: "Kiss With a Fist", o primeiro single, é uma tentativa, vá lá, decente, de cruzar os Banshees com os White Stripes. Bastante mais difícil é engolir que, de um composto de "riot grrrl" pop caricatural, garage rock com esteróides, soul-baunilha e os menos recomendáveis traços de uma Patti Smith de cartoon, todos cerzidos em canções com títulos como “Cosmic Love” ou “My Boy Builds Coffins”, possa resultar algo de vagamente associável ao quinteto supra mencionado e não apenas uma ruiva, giraça, de pernas até ao pescoço e com um vozeirão que berra histórias de lobisomens e corações em sangue.

(2009)

04 August 2009

NEIL HANNON PARA O CLUBE DISNEY



Patrick Wolf - The Bachelor

Patrick Wolf é um Elton John contemporâneo que escreve canções sobre minotauros, um Marc Almond que se deixa inspirar por conversas com satanistas em quartos de hotel, um Billy Corgan sinfónico que imagina que “over the top” é sinónimo de “less is more”, um "ersatz" do Bowie andrógino com queda para compor hinos de realismo-socialista com revolucionários apelos corais de “rise up!”, uma Kate Bush algo mais destrambelhada. Em The Bachelor, tudo isso acaba por se sintetizar numa versão um bocadinho peculiar de Neil Hannon-para-o-Clube-Disney, com pinceladas “célticas” (cortesia de Eliza Carthy”) e interpelações em spoken word da “voz da esperança” (Tilda Swinton). Sim, o moço (se esquecermos os satanistas) até sabe escolher as companhias mas, no que era suposto ser um duplo-álbum – afinal, o segundo tomo só será publicado no próximo ano – de despenteada maturidade (“I want to grow old disgracefully. I want to become more and more unconventional”), isso não é, de todo, suficiente. Sem querer ser excessivamente desagradável, dir-se-ia mesmo que The Bachelor até é bastante aborrecido.

(2009)

13 July 2009

SALVE REGINA!



Regina Spektor - Far

Não existe, hoje, ninguém a escrever canções como as que Regina Spektor assina. E – embora isso possa afugentar aqueles (oh quão previsíveis!) fãs da primeira hora que nunca verão com bons olhos que o seu secreto tesouro indie possa ter-se tornado património público – uma óptima notícia é que tão excelente songwriter (em especial, desde o último Begin To Hope, de 2006) tenha conquistado a visibilidade que, sem a obrigar a exercer a mais antiga e honrosa profissão do mundo, lhe permite alojamento temporário no genericamente mal frequentado espaço das tabelas de vendas. Até porque não seria, de todo, evidente que isso poderia acontecer: a esta “irmã” – mais nova e só um pouco menos inquietante – de Fiona Apple, descendente oblíqua de Joni Mitchell e Laura Nyro, com a indeterminação estética da Björk mais pop, a bizarria menos hippie de Kate Bush e o lirismo cirúrgico de Suzanne Vega, a esta alma russa-americana de outro e de nenhum século capaz de, sem hesitar, colocar, lado a lado, Madonna e Bob Dylan, como exemplos de quem admira "por estarem sempre em mudança", a esta estilista da auto-irrisão que alinha frases como "but sometimes I forget I got a perfect body cause my eyelashes catch my sweat", nada disto estava destinado.



Far é, então, puríssimo e requintado classicismo pop com suficientes pontas soltas para baralhar as hipóteses de leitura imediata, vestígios q.b. da primordial piano-punk com formação de conservatório, visões desconfortáveis do futuro ("And I'm downloaded daily, I am part of a composite, hooked into machine"), farrapos de filme ("I found a wallet, inside were pictures of your small family,you are so young, your hair dark brown, you had been born in 1953"), haikus envenenados ("Two birds on a wire, one tries to fly away and the other watches him close from that wire, he says he wants to as well, but he is a liar"). Tudo aparentemente cálido como uma aragem de Verão.

(2009)