
The Pains Of Being Pure At Heart - The Pains Of Being Pure At Heart
Eles são tão puros de coração que, quando pegam nas guitarras, nas baquetas e se debruçam sobre as teclas, nem se apercebem – tal é a candura do olhar que lançam sobre o mundo – que aquilo que criam, num "blindfold test", passaria facilmente por um qualquer "lost album" dos Jesus & Mary Chain ou por um dos primeiros ensaios dos My Bloody Valentine. Deve ser também por causa dessa transparência quase Zen através da qual encaram o universo que, num instante de satori, decidiram designar a sua editora privada como “Painbow,” uma contracção de “Paint a Rainbow", dos MBV. E apenas a quem, em cada manhã, é capaz de enxergar o nascer do sol como se fosse sempre o primeiro, está autorizada uma amnésia de Alzheimer terminal que – abençoados sejam! – os impede de reparar que, na famigerada cassete C86 do “New Musical Express”, muitos outros meninos e meninas mais velhos tinham já gravado (e continuariam a gravar) uma boa mão cheia de canções exactamente iguais às deles. Sim, a História não existe e, por isso, também não os há-de incomodar muito que, eles próprios, não venham a fazer parte dela. O que, na rica cena de Brooklyn actual, não terá a menor importância e ninguém, certamente, dará por isso.
(2009)