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26 March 2026

Elvis Costello c/ Chet Baker - "Shipbuilding" (ver também aqui)
 
(sequência daqui) Antes disso (e concentrando-nos apenas na música), já inúmeras gentes haviam cultivado essa conjugação de esforços, de Woody Guthrie a Pete Seeger, Joan Baez, Bob Dylan ou Phil Ochs e inúmeros outros, até ao mui explícito Elvis Costello que, em 1989, “when England was the whore of the world and Margaret was her madam", lhe dedicaria "Tramp The Dirt Down"   (“There's one thing I know, I'd like to live long enough to savour, that's when they finally put you in the ground, I'll stand on your grave and tramp the dirt down”). Mais tarde, reflectindo sobre o assunto, justificar-se-ia: “A codificação das canções políticas que as tornou previsíveis obriga-nos a ser um pouco mais subtis. Podemos supor que uma canção contém algum potencial de mobilização mas isso pouco significa se estivermos a cantar para um grupo de pessoas que já comunga dos nossos pontos de vista. É a forma como o fazemos que importa". (segue para aqui)

16 February 2025


 
(sequência daqui) A Complete Unknown assume, então, um duplo carácter de filme musical - algumas dezenas de canções de Bob Dylan, Woody Guthrie, Pete Seeger, Joan Baez e vários outros , na totalidade ou em parte, são omnipresentes - e de documentário ficcionado. Interpretadas pelos próprios actores, Dylan/Chalamet chega a ser assombrosamente mimético, Edward Norton é um Pete Seeger totalmente convincente e Monica Barbaro apresenta uma versão vastamente melhorada de Joan Baez. Sob a figura tutelar (mas emudecida pela coreia de Huntington) de Woody Guthrie, no percurso de Bob Dylan entre a chegada a Nova Iorque em 1961 e o confronto com o fundamentalismo folk, na explosão eléctrica do Festival de Newport de 1965, importa muito pouco que o encontro entre Seeger e Dylan não tenha, de facto, tido lugar à beira da cama de hospital de Woody Guthrie onde Dylan lhe teria dado a ouvir "Song For Woody", que o insulto de "Judas!" lhe tenha sido lançado no Free Trade Hall, de Manchester, um ano depois, e não no palco de Newport, ou que, de forma aparentemente milagrosa, "Like A Rolling Stone" tenha descido dos céus por intervenção de Al Kooper sem necessitar das 20 "takes" que se preservam em The Cutting Edge 1965-1966: The Bootleg Series Volume 12 (2015). (segue para aqui)

14 February 2025

(sequência daqui) Justamente por nunca ter sido senão um total desconhecido, Todd Haynes, em I'm Not There (2007), dividiu-o em seis heterónimos: Arthur Rimbaud (narrador, comentador), Woody Guthrie (um miúdo negro que reune num só o jovem Dylan e Woody); Jack Rollins (Dylan “cantor de protesto” sobreposto ao simétrico cristão "born again"); Robbie Clark (protagonista de “Grain Of Sand”, um biopic ficcional sobre Jack Rollins), Jude Quinn (o assombroso Dylan em roda livre de Highway 61 a Blonde On Blonde); e Billy The Kid (o fora-da-lei em fuga do papel de “porta-voz de uma geração”). Já Rolling Thunder Revue: A Bob Dylan Story by Martin Scorsese (2019), o registo da digressão de Dylan de 1975, combinava desvairadamente material documental com delirante efabulação na qual nem Sharon Stone escapava de se ver retratada como "groupie/roadie" adolescente que desfrutara de favores vários de um Dylan em modo poeta errante. (segue para aqui)

14 May 2024

Julia Holter - "Meyou" (feat. Jenny Hval)
 
(sequência daqui) Toque então a campaínha para o início da aula da professora Holter: "Ok, pode ser isso. Mas podemos ver a questão sob vários aspectos. Basta pensarmos, por exemplo, em algumas canções de Bob Dylan... Ou nas canções do Woody Guthrie - que o meu pai Darryl Holter, [historiador do movimento operário norte-americano e "folk singer", que publicou o álbum Radio Songs: Woody Guthrie in Los Angeles 1937-1939] canta - que, sendo tão clássicas, tanto influenciaram o Dylan, sem que isso o tenha impedido de se aventurar em muitas outras direcções. No caso do Woody, aos textos é atribuido o primeiro plano e as considerações propriamente musicais ficam em segundo plano. Mas, se pensarmos na Alice Coltrane ou na Joni Mitchell, são tudo casos e circunstâncias únicos. Podemos sempre abordar a questão de modos diferentes, reflectirmos sobre os vários géneros, formas e estruturas musicais e como isso influencia o caracter da música. Há quem prefira trabalhar no interior de uma estrutura musical pré-estabelecida e quem procure uma total liberdade de movimentos. Mas, em qualquer dos casos, decisiva é a importância de permanecermos criativos, de nos divertirmos enquanto nos debruçamos sobre a música. Tenho consciência de todos estes aspectos mas, quando estou a trabalhar, não penso realmente neles. Encorajo também os meus alunos a reflectirem mas não a fazerem-no interminavelmente". Quase, quase em cima do toque de saída, uma última pergunta para a professora Julia: entre Aviary e Something in the Room She Moves, existe mais contraste ou continuidade? Previsivelmente, a resposta vem com TPC incluído: "Neste último álbum, encontro semelhanças com todos os meus discos anteriores, não penso que se trate de algo radicalmente diferente. Mas esse é exactamente o tipo de assunto que prefiro deixar nas mãos dos críticos de música". (risos)

12 September 2022

 
(sequência daqui) Como nos anteriores Dereconstructed (2014) e Youth Detention (Nail My Feet Down To The Southside Of Town (2017), em Old-Time Folks, Lee Bains + The Glory Fires não tentam sequer esquivar-se ao universo da história do Sul dos EUA, vivido e observado pelo ponto de vista de um branco que não ignora o rasto de sangue e violência racial que estrangula num nó cego o ar que se respira no Alabama. "Cowpunk" que se recorda bem de Woody Guthrie e escutou atentamente os Clash, oiçam-no em "(In Remembrance of the) 40-Hour Week": "Seems like lately we get up/to go work/get ready for work/we head to work/and we work/till we get off work/and we take it from the house from work/hit the kitchen and we get to work/we talk about work/we worry about work/we dream about it”.

18 July 2022

A ÚNICA BANDA QUE IMPORTA 

Ainda a invasão da Ucrânia pelos exércitos russos de Putin não tinha completado um mês e já Bohdan Hrynko, Oleg Hula e Andriy Zholob (o trio punk-hardcore ucraniano Beton) tinham corrido até um estúdio de Lviv para gravar a banda sonora e, logo a seguir, o vídeo do apelo à resistência e solidariedade anti-imperialistas. Qual cantiga seria essa arma? "London Calling" – canção-título do terceiro álbum de The Clash (1979), inspirada pelo indicativo da BBC nas emissões para a Europa acupada pelas tropas nazis durante a segunda guerra mundial – em versão adaptada às actuais circunstâncias e imediatamente abençoada pelos Clash sobreviventes: “Kyiv calling to the zombies of death, quit holding Putin up and draw another breath, Kyiv calling see we cannot retreat, we’re already home so Russia ships fuck you! Kyiv is rising, we live for resistance!” Zholob, o guitarrista, vocalista e ortopedista que, na frente de combate, se dedica ao tratamento de soldados feridos e vítimas civis, é, segundo ele, “apenas um entre muitos outros músicos que trocaram as guitarras pelas armas na defesa do território”. Não espanta, pois, que tenham optado por uma canção dos Clash que, tal como, décadas atrás, Woody Guthrie anunciava, sempre encararam as canções como armas de elevada precisão. (daqui; segue para aqui)

11 August 2021

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (LXIX)

(com a indispensável colaboração do R & R)


(clicar na imagem para ampliar) Errata: onde se lê "desapareceria para todo o sempre a 9 de Agosto de 1962", deverá ler-se "desapareceria para todo o sempre a 2 de Agosto de 1962"

23 July 2021

 
(sequência daqui) O jogo de máscaras e enganos transportar-se-ia para a Rolling Thunder Revue que, no Verão de 1975, na companhia de amigos vários – Roger McGuinn, Joan Baez, Joni Mitchell, Scarlet Rivera, Sam Shepard, Ramblin’ Jack Elliot, Mick Ronson, Ronee Blakley, Allen Ginsberg, T-Bone Burnett –, qual trupe de saltimbancos, se faria à estrada, e muito especialmente, no pseudo-documentário que, a partir daí, Martin Scorsese realizaria, repleto de falsas personagens e incidentes inventados que levariam Sam Shepard a interrogar-se: “Que estranho mundo assombrado é este que ele cria em palco, nos discos, nos filmes, em tudo aquilo que toca? Quem, afinal, é esta personagem?” Em I’m Not There, o realizador Todd Haynes responderia “Não é uma, são seis” e, em jeito de síntese, coloca na boca da última, Billy The Kid, duas afirmações que poderiam pôr fim a todas as dúvidas: “Aqui sou invisível, sou eu mesmo” e “Posso mudar durante o espaço de um dia. Quando acordo, sou uma pessoa, quando adormeço, tenho a certeza que sou já outra”.
O futuro confirmaria tudo: o Dylan que, no início, se moldara em torno da lenda militante de Woody Guthrie, a partir de 2015, durante dois álbuns simples e um triplo, deslocaria a reverência para o universo de Frank Sinatra e diversos outros "crooners" coevos; nos cerca de 100 programas da XM Radio, “Theme Time Radio Hour”, estruturado em torno de temas como o riso, a Lua, a sorte, o dinheiro, o sangue, a guerra, com intervenções de ouvintes maioritariamente "fake", ministraria um curso avançado de história da música popular; nas canções (em particular, no último álbum, Rough And Rowdy Ways), na autobiografia e mesmo no discurso de aceitação do Prémio Nobel de Literatura, não cessaria de se divertir disseminando, quais ovos de Páscoa, citações e apropriações de textos clássicos e contemporâneos, à espera de caçar quem mordesse o isco. Julian Barnes, concorrente de Bob Dylan na lista de candidatos ao Nobel no ano (2017) em que este o ganhou, muito dylanianamente, afirmou: “Se algum biógrafo me quiser biografar eu terei o poder de deixar pistas falsas”. Ao longo da vida inteira, Bob Dylan não tem feito outra coisa senão lançar-nos iscos envenenados. Mas, acerca de um ponto não deveremos nunca mais enganar-nos: a 24 de Maio, comemorou-se o 80º aniversário de Robert Allen Zimmerman. No próximo 2 de Agosto, celebram-se os 59 anos de Bob Dylan, nesse dia de 1962 registado numa conservatória de Nova Iorque. Só faltava que, na inauguração do Bob Dylan Center, em Tulsa, Dylan comparecesse à porta apenas para segredar ao ouvido dos visitantes “I’m not there”.

09 July 2021

 
(sequência daqui) Tudo fica um pouco mais claro quando recordamos o que, em 1964, escreveu em "My Back Pages”: “Ah, but I was so much older then, I'm younger than that now". De facto, nessa altura, Bob Dylan existia há apenas 5 anos. Surgira quando, em 1959, Robert Zimmerman, estudante irregular da universidade do Minnesota, em Minneapolis, tinha começado a frequentar os cafés da zona boémia de Dinkytown onde a folk music estava incluída na ementa (“Ainda em Hibbing, tinha ouvido um disco de Leadbelly, na Folkways. Ali mesmo, aquele disco mudou a minha vida. Transportou-me para um mundo de que ignorava tudo. Foi como uma explosão”). Apresentava-se como Bob Dylan pelo motivo que, em 2004, explicaria: “Acontece muitas vezes nascermos com o nome errado ou na família errada. Mas podemos escolher o nome que quisermos. Vivemos num país livre!”. A futura namorada, Suze Rotolo, ainda não o fizera ler Rimbaud mas algo lhe dizia já que “je est un autre” (quando, enfim, o leu, “Todas as campaínhas começaram a tocar. Aquelas palavras faziam perfeito sentido”).


Antes fora Elston Gunn (quando tocou piano num álbum de Bobby Vee) e, para o miúdo que, no liceu, fizera parte de bandas tão supremamente ignoradas como The Jokers, The Shadow Blasters, The Golden Chords e The Rock Boppers, e, no livro de curso, confessara a ambição de “tocar com Little Richard", tudo parecia no caminho certo. Na verdade, o único emprego que tivera após acabar o liceu fora o de empregado de mesa num restaurante, em Fargo, embora, mais tarde, contasse que sonhara ser militar (“Via-me muito mais a morrer numa batalha heróica do que na cama”). Porém, quando chegou a Nova Iorque, em 1961, estava já possuido pelo espírito de Woody Guthrie: andava, falava e cantava como ele, mimetizava-lhe o sotaque "okie", e até os tiques e espasmos musculares da coreia de Huntington que, em breve, poria fim à vida do autor de "This Land Is Your Land". Em Minneapolis, um" beatnik", David Whittaker, emprestara-lhe Bound For Glory, a auto-biografia semi-ficcional de Woody, Dylan – cada vez mais distante de um Zimmerman prestes a extinguir-se – apropriou-se dela (“The book sang out to me, like the radio”) e, segundo Rotolo, “desenvolveu a sua própria versão de um trovador errante, no molde de Guthrie”. O descendente de judeus russos e lituanos emigrados para os EUA no início do século XX, filho de uma família de pacatos pequenos comerciantes, saía de cena e cedia o lugar a uma personagem que faria de “I’m not there” o seu lema. (segue para aqui)

07 July 2021

JOGOS DE ESPELHOS


Para o concerto que, na sexta-feira 12 de abril de 1963, apresentaria no Town Hall de Nova Iorque, Bob Dylan fez imprimir no programa um poema, “My Life In A Stolen Minute”. Aí, referindo-se à pequena cidade do Minnesota onde crescera, dizia: “Hibbing’s a good ol’ town, I ran away from it when I was 10, 12, 13, 15, 151/2, 17 an’ 18, I been caught an’ brought back all but once.” É o ponto de partida para uma longa enumeração de proezas e infortúnios — prisões por suspeita de homicídio e roubo à mão armada, viagens em comboios de mercadorias e à boleia, entre o Texas, o Mississípi, a Califórnia, o Oregon, o Novo México, o Wisconsin e a Luisiana, noites ao relento, tareias por motivo nenhum — que desemboca numa explicação do que o conduzira aquele palco: “I started doing what I’m doing, I can’t tell you the influences ’cause there’s too many to mention an’ I might leave one out, an’ that wouldn’t be fair, Woody Guthrie, sure, Big Joe Williams, yeah, it’s easy to remember those names, but what about the faces you can’t find again, what about the curbs an’ corners an’ cut-offs that drop out a sight an’ fall behind, what about the records you hear but one time, what about the coyote’s call an’ the bulldog’s bark (…) Open up yer eyes an’ ears an’ yer influenced an’ there’s nothing you can do about it.”

 

Noutras ocasiões, relataria a sua história de pobre órfão do Novo México, obrigado a trabalhar em circos ambulantes e feiras como empregado de limpezas e responsável pela grande roda, e que, uma vez chegado a Nova Iorque, para alimentar uma dependência de heroína que lhe custava 25 dólares por dia, se vira forçado à condição de prostituto, ao serviço de clientes de todos os géneros e preferências. Essa seria, certamente, a biografia — uma das muitas biografias possíveis — de Bob Dylan. Mas não era, de todo, a de Robert Allen Zimmerman, nascido a 24 de maio de 1941, em Duluth, no Minnesota. (daqui; segue para aqui)

06 February 2021

 
(sequência daqui) Terá de haver algum motivo insondável para que a quase fadista Cristina Branco tenha escolhido incluir no seu reportório "A Case Of You" e "Cherokee Louise". Porque, do que a autora de ambas revela na preciosa conversa com Cameron Crowe – fã reverente, jornalista, cineasta, argumentista, produtor, actor – reproduzida nas 36 páginas do "booklet", dir-se-ia que só no “quase” se poderá encontrar, talvez, a explicação: interrogada sobre se, no trajecto da folk para o "songwriting" e, daí, para o jazz, para a colaboração com Charlie Mingus e para os trabalhos de orquestração, não poderia ver-se o dedo do destino, Mitchell responde sem hesitar “Não, não ligo nenhuma ao destino. Nem compreendo, de todo, o conceito de destino”. Não é a única vez que, ao longo da troca de ideias, ela é assim tão afirmativa. Pronta a reconhecer Buffy Sainte-Marie, Woody Guthrie, Tom Rush, o Kingston Trio, Judy Collins, Peter, Paul & Mary, Dave Van Ronk e Lambert, Hendricks & Ross (um trio de jazz vocal) como músicos que admirava e a influenciaram (“Tudo o que aprendi foi por admiração e osmose”), quando o nome de Joan Baez é pronunciado, e reacção é instantânea: “Não fui, de modo nenhum, influenciada por Joan Baez. Que isso fique bem claro”. Já a propósito de Leonard Cohen, tudo é bem diferente: “Ouvi-o no Newport Folk Festival. 'Suzanne’ foi uma canção que me impressionou muito. Foi o primeiro que, verdadeiramente, admirei. Deixou-me com a impressão de quão imaturas as minhas canções eram. Ele era um adulto. Era assim que os adultos escreviam” (segue para aqui).