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14 October 2020

HEMORRAGIA LENTA


Na lista das experiências formativas essenciais, Tom Waits inclui ter sido empregado de mesa, em San Diego, na Napoleone's Pizza House: “O que San Diego tinha de bom era haver muitas lojas de tatuagens. Tenho o mapa da Ilha de Páscoa nas costas. E o menu completo da Napoleone's Pizza House na barriga. Quando lá trabalhava, a partir de certa altura, desistiram de imprimir os menus. Eu ia até às mesas e levantava a camisa”. Matt Berninger não anda muito longe disso quando recorda como, nos anos 80, era entregador de pizzas, em Cincinnati: “Fazia pouco mais do que viajar pela cidade, fumando e ouvindo uma estação de rádio, a 97X, Foi o emprego mais musical que tive”. E, à “Uncut”, acrescenta: “Depois, trabalhei num campo de golfe, como cortador de relva, e ouvia os Smiths, enquanto aqueles imbecis ricos tentavam acertar-me com as bolas. Foi a minha educação musical”.
 

Após 20 anos a bordo dos National, publica, agora, o primeiro álbum a solo – Serpentine Prison – e anuncia que se trata de uma nova etapa na aprendizagem de escrita de canções. Tudo terá começado com a adaptação do Cyrano de Bergerac, por Erica Schmidt, para o Daryl Roth Theatre, de Nova Iorque (“Metade escrita de canções e metade paraquedismo”, explicaria Berninger) mas, concluída a experiência de “entrar na cabeça das personagens e exprimir as suas emoções”, pareceu-lhe que era altura de “voltar a chafurdar no meu próprio lixo e isto foi a primeira coisa que daí saiu”. Na verdade, houve uma tentativa anterior de um álbum de versões (Velvet Underground, The Cure, Morphine e Beastie Boys faziam filinha para o abate) que o produtor convidado, Booker T “Green Onions” Jones, desencorajou ao escutar os originais de Berninger co-escritos com Scott Devendorf, Andrew Bird, Walter Martin (Walkmen), Mickey Raphael e Gail Ann Dorsey. E fez muito bem: no mesmo registo acolchoadamente (des)confortável que, desde há dois álbuns, é o dos National, Serpentine Prison é melancolia outonal, hemorragia lenta e quase feliz, um afago resignado antes de encarar o precipício.

22 April 2015

UNIVERSO PERPENDICULAR 


A catedral de Winchester, no Hampshire (dedicada a St. Swithun, grande especialista do muito apreciado milagre rural da reconstituição de cestas de ovos partidos), teve origem num velho mosteiro do século VII mas a sua estrutura e configuração definitivas – possui a nave mais longa e o maior comprimento total de qualquer catedral gótica da Europa – só cerca de 1528 seriam atingidas, descontando reparações e ampliações menores posteriores. Kate Stables agarra-se à História e argumenta que “a grande arte precisa de tempo: Winchester, o lugar onde nasci, costuma ser definido como uma cidade medieval romano-saxónica. A catedral começou a ser construída há mais de mil anos e, desde então, têm continuado a trabalhar nela”. O intuito é, afinal, justificar o motivo pelo qual This Is The Kit, banda surgida em 2006, só agora publica o terceiro álbum, Bashed Out, e apresentar atenuantes para o facto de os anteriores (Krulle Bol, 2008, e Wriggle Out the Restless, 2012) terem passado praticamente indetectados pela maioria dos radares. 



Tenha sido ou não importante o grande escultor de Yourcenar, realmente decisivo foi o apadrinhamento de Aaron Dessner, dos National, na qualidade de produtor, que, para Bashed Out, além da geometria mais ou menos variável dos TITK – Stables, compositora, voz, banjo e guitarra; Jesse D Vernon, baixo, guitarra e violino; Jamie Whitby-Coles, bateria; Rozi Plain, voz e guitarra –, cuidou de recorrer a doadores sonoros oriundos dos Walkmen e Beirut, e ao irmão, Bryce. A presença dos gémeos Dessner e acólitos poderá, sem dúvida, contribuir para a sensação de estarmos perante o que, num universo perpendicular, seria um (óptimo) álbum dos National em declive folk: tela impressionista atravessada por rastos líquidos de guitarra, delicados remoinhos de joalharia electroacústica, estojos de sopros e cordas resguardando melodias astrais, algo como uma tapeçaria de lullabies lunares em fio de seda, murmúrio de fundo para a aproximação de silenciosas tempestades (“we’ve been getting most mightily filthy, mud marks up to our necks”). Ou, então, se calhar, apenas o eco distante de uma Sandy Denny wittgensteiniana que, do fundo da ábside de uma catedral, fosse capaz de clarissimamente enunciar “blessed are those who see and are silent”.

19 August 2014

O TODO E AS PARTES 


A ideia atribuída a Aristóteles segundo a qual o todo é superior à soma das partes poderá entusiasmar os adeptos das sinergias mas é bastante provável que até o velho trácio concordasse que a sua aplicação ao caso de uma banda como The Walkmen não é fácil. Não se discute que a óptima discografia do grupo de Hamilton Leithauser, Paul Maroon, Walter Martin, Peter Matthew Bauer e Matt Barrick tenha resultado da particular alquimia em acção no interior do sexteto sem a qual (ou com outra composição de reagentes estéticos) tudo teria resultado seguramente diferente. Porém – para chamar à conversa um exemplo de manual –, ao contrário do que aconteceu com os Beatles, da separação no final do ano passado, até agora, não emergiram personalidades individuais que façam sentir saudades da glória colectiva mas três belíssimos álbuns, bem distintos e a estimular o apetite para o que virá a seguir.


Já abordado Black Hours, de Leithauser, preste-se, então, atenção a We’re All Young Together, de Walter Martin, e a Liberation!, de Peter Matthew Bauer. Capítulo mais recente do género musical em formação “cool songs for cool kids” de que The Tragic Treasury, de Stephin Merritt/Gothic Archies (2006), e Leave Your Sleep, de Natalie Merchant (2010) foram antecessores directos, o álbum de Martin é o género de brinquedo que se oferece aos infantes mas com o qual os adultos também se divertem. Serviu de pretexto para colocar Matt Berninger (The National) a cantar "We Like The Zoo (Cause We’re Animals Too)", para convencer Karen O (Yeah Yeah Yeahs) a não insistir no perfil de felina neo-gótica e revelar uma faceta folk bem mais saborosa e, de um modo geral, pôr alguma da nata indie nova iorquina – Leithauser incluído – a folgar valentemente com canções sobre tigres, cascavéis e Beatles.


Peter Bauer, o discreto baixista/teclista, demonstra igualmente como, sob o quase anonimato do "line up" dos Walkmen, se escondia um excelente "songwriter" capaz de dedicar uma gravação completa aos combates com a fé nas suas várias e venenosas manifestações, num registo confessadamente influenciado por Roberto Bolaño e Elvis Presley (sim, isso mesmo), algures entre Tom Petty, Costello e Dylan, e que autoriza o diálogo com Richard Dawkins e Jorge Luís Borges (não, não é gralha).

16 July 2014

CELEBRAÇÃO


Tivesse Lisbon (2010), penúltimo álbum dos Walkmen, sido um sucesso estrondoso e, muito provavelmente, por esta altura, estariam ao rubro as negociações entre, por um lado, Câmara Municipal de Lisboa e Secretaria de Estado do Turismo e, por outro, Woody Allen e a banda de Hamilton Leithauser, com o objectivo de alcançar o "jackpot" de um filme rodado à beira Tejo com banda sonora da mais pura extracção indie norte-americana. Porém, nem, aparentemente, Allen se deixa seduzir pelo património imaterial da UNESCO e pelos Grammies Latinos nem os Walkmen, com Lisbon ou com o derradeiro Heaven (2012), lograram ir além do habitual aplauso crítico que, contudo, não chega para provocar abalos sísmicos nas tabelas de vendas. Tanto assim foi que, após 13 anos e sete álbuns, optaram por declarar-se em “extreme hiatus” e ir cada um à sua vida. 



Do que, a avaliar pelas consequências, não terá resultado nenhuma irreparável perda: o baixista Peter Matthew Bauer publicou Liberation!, o teclista Walter Martin decidiu-se por um álbum de canções infantis, We’re All Young Together (com Matt Berninger, dos National e gente dos Yeah Yeah Yeahs, Clap Your Hands Say Yeah ou dos próprios Walkmen), e, para o que, agora, interessa, Hamilton Leithauser, confessadamente inspirado por In The Wee Small Hours e September Of My Years, de Frank Sinatra, propõe Black Hours. Deverá, entretanto, dizer-se que o factor-Sinatra apenas actuou, de forma magnífica, nas sumptuosamente orquestrais "5 AM", "The Silent Orchestra", "St. Mary’s County" e ‘Self Pity’. Porque, no momento em que Rostam Batmanglij, dos Vampire Weekend, na qualidade de co-compositor e produtor informal, entrou em cena, juntamente com Amber Coffman (Dirty Projectors), Morgan Henderson (Fleet Foxes), Paul Maroon (Walkmen) e Richard Swift (The Shins), reconfigurou o plano original, convertendo Black Hours numa gloriosa e vibrantemente detalhada celebração de pop/rock que, sem abdicar de tiradas "à la" Casablanca“I retired from my fight, I retired from my war, no one knows what I was fighting for”, de "I Retired", por exemplo –, terá sido, porventura, aquilo que os Walkmen, afinal, sempre perseguiram. Prémio de consolação para olisiponenses militantes: "The Smallest Splinter", primeira canção a ser composta para o álbum, nasceu ainda em Lisboa.

12 June 2012

07 June 2012

O PARAÍSO IMPERFEITO
(sequência daqui)

Depois de Lisbon, o paraíso. Não que os Walkmen se estejam a fazer a qualquer campanha da (justamente falecida) brand, "Portugal - Europe's West Coast", nem a tentar apanhar a última carruagem do comboio de mercadorias que transporta o Património Imaterial da Humanidade. Até porque, se o sucessor de Lisbon (2010) se chama Heaven - sétimo álbum de estúdio dos Walkmen em dez anos de actividade - esta terra prometida, ainda que de atmosfera menos carregada do que tem sido norma com a banda, continua a não ser o género de cenário sobre o qual se cimentem gloriosas visões de paisagens por onde correm o leite e o mel. Hamilton Leithauser, alma algo mais apaziguada do que a que criou o inaugural Everyone Who Pretended To Like Is Gone (2002), nem por isso renegou Leonard Cohen, Johnny Cash ou Shane MacGowan como seus faróis inspiradores e, quando colocado perante o suposto estatuto de "elder statesman" da intelligentsia do rock indie literato, recua quase, quase apavorado.

Algures na net, alguém procurava caracterizar a vossa banda escrevendo que “ninguém vai comprar um álbum dos Walkmen à espera que ele o faça sentir-se a pessoa mais feliz do mundo; é para isso que Katrina & The Waves existem”. Isto ainda continua a ser verdade?

(risos) Não é que façamos de propósito... mas também não pode dizer-se que isso seja inteiramente verdade. Em particular, neste álbum.

Ao fim de dez anos, sentem que continuam a ser a mesma banda do início ou houve grandes transformações?

Quando começámos a banda andávamos todos por volta dos vinte e tais e queríamos deitar imediatamente cá para fora música em que acreditássemos realmente. No nosso primeiro álbum, incluímos todas as canções que tínhamos: escrevíamos uma ou duas e íamos logo a seguir gravá-las. Actualmente, trabalhamos de um modo muito mais individualista. Raramente nos encontramos para compor. Trocamos mails, telefonamo-nos. Para este disco, só me encontrei duas ou três vezes com o Paul [Maroon] e com o Walter [Martin]. Só quando sentimos que estava tudo pronto para entrarmos em estúdio é que o fizemos. Isto, visto de fora, pode parecer um bocado estranho mas acho que nunca, como agora, estivemos tão bem preparados para gravar um álbum.



Vivendo actualmente vários elementos do grupo espalhados pelo território norte-americano, pode ainda afirmar-se que os Walkmen são uma banda de Nova Iorque?

Eu nunca abandonei Nova Iorque. Foi aqui que tudo começou para nós, é uma cidade que, de uma forma ou de outra, sempre nos há-de correr nas veias. Não sei exactamente o que pensarão os outros mas essa é uma ligação extremamente forte que dificilmente alguma vez se dissolverá.

O Peter Bauer referiu-se ao produtor Phil Ek como alguém que, metaforicamente, de chicote na mão, vos pôs na linha, de uma vez por todas...

E é verdade. Ele tratou de estar atento a todos aqueles detalhes que nós temos tendência para ignorar, foi extremamente exigente e obrigou-nos a concentrar totalmente na tarefa de concluir as gravações dentro do período de tempo previsto. Mas isso também se deveu ao facto de nós, realmente, quando começámos a gravar, já termos tudo perfeitamente lubrificado. Por outro lado, ele teve também um papel importante do ponto de vista criativo, escutámos bastante as opiniões dele, coisa que, no passado (em especial, nos primeiros discos), nunca tinha acontecido.


A atmosfera de Heaven é, de facto, menos soturna que o habitual mas, ainda assim, em "We Can’t Be Beat", o apelo Give me a life that needs correction, nobody loves perfection”, parece indicar que esse paraíso só poderá ser imperfeito...

Exacto, é isso mesmo. Essa é, sem dúvida, a interpretação mais precisa. É justamente assim que eu o sinto. Escolhemos esse título por exprimir uma ideia forte e grande que se ajustava perfeitamente ao tipo de disco que é mas também porque representa muito bem o momento e o modo em que nos encontramos nas nossas vidas. Fartámo-nos de viajar com a banda (como, com todas, acontece) mas, agora, atingimos um ponto em que nos sentimos bem, temos família e filhos. Este ano realizámos até concertos comemorativos do décimo aniversário o que nos permitiu ter alguma perspectiva sobre o nosso percurso.

Por outro lado, em "Heartbreaker", quando canta “You know I'm hopeless, oh no, you're wrong, it's not the singer, it's the song”, parece querer fugir a interpretações demasiado autobiográficas…

Sim, é por aí. Mas, na verdade, o ponto de partida foi uma canção clássica dos Rolling Stones, "It’s The Singer, Not The Song", de que chegámos a pensar fazer uma versão. Acabámos por desistir mas eu quis preservar essa frase... invertendo-lhe o sentido.


Existe aquela ideia de que um escritor escreve e reescreve eternamente o mesmo livro. Com uma banda, após dez anos de existência, acontece o mesmo?

Quando escuto o nosso primeiro álbum fico com a ideia que foram pessoas muito diferentes das que nós somos hoje que o gravaram. Nunca voltaríamos a gravar um disco assim. Mas também, se não o tivéssemos realizado, nunca poderia ter aparecido algo semelhante a Heaven. Entre essa época e agora, houve, de certeza, uma enorme mudança de atitude em nós. Somos, evidentemente, as mesmas pessoas mas obrigamo-nos a gastar imenso tempo para nos mantermos interessantes e interessados. Porque não é fácil manter o interesse.

Uma outra tentativa de caracterização dos Walkmen actuais falava de vocês como “sardónicos cavalheiros maduros saboreando copos de vinho tinto com os National”. A luva serve?

(risos) Não gosto muito dessa descrição...

Porque vos apresenta como personagens demasiado respeitáveis?

“Too respectable, sir?...” (risos) Não por causa dos copos de vinho tinto que, na verdade, já bebemos em conjunto com os National. Mas não é imagem que nos assente bem.

05 June 2012

NADA ESTÁ PERDIDO
















The Walkmen - Heaven
   
Durante anos, Nick Cave – primeiro com os Birthday Party, depois nos Bad Seeds ­– expeliu sobre o universo bílis e abominações. Até que, de súbito, em 1990, The Good Son pareceu mostrá-lo como criatura renascida e purificada dos demónios que, desde o início, o haviam possuído e manobrado. Pareceu. Porque não é abusivo afirmar que se pode retirar alguém do Inferno mas nunca se remove o Inferno do seu interior. E não tardou que, periodicamente, as antigas atracções pelo abismo regressassem, com pico absoluto no grand guignol de Murder Ballads (1996). É que – e Leonard Cohen nunca fez outra coisa senão demonstrá-lo –, mesmo sob uma aparência de serenidade, é sempre relativamente fácil identificar o recanto onde germinam as flores do mal. 


Heaven, dos Walkmen, é a terceira peça de um tríptico que, antes, passou por You & Me (2008) e Lisbon (2010), pontos de um itinerário entre um encontro, um porto de abrigo e, agora, a celebração de algo infinitamente maior. E, naturalmente, inatingível: não é impunemente que se afirma “Give me a life that needs correction, nobody loves perfection”. Se, por definição, “o paraíso” é um lugar de suprema perfeição, então, na verdade, aquilo de que Hamilton Leithauser e cúmplices nos falam é do velho purgatório que não chegaram, realmente, a abandonar mas que, hoje, até lhes parece estranhamente habitável. É, provavelmente, a isto que se chama “maturidade”. E só temos de nos alegrar por a dos Walkmen ainda não se ter deixado anestesiar em demasia: há instantes de talvez excessivo conforto e pastoralidade mas a besta demente e eléctrica que não expulsaram das entranhas e que lateja em "Heartbreaker", "The Witch" ou "The Love You Love" permanece viva. Nada está perdido.

19 March 2012

O MUNDO DO AVESSO


















Alex Winston - King Con


















Birdy - Birdy


















Sharon Van Etten - Tramp

Na edição do “Guardian” de domingo passado, Alexis Petridis, genuinamente admirado por ainda existirem nacos da história pop por desenterrar, dava notícia da sua descoberta do blog online, Women's Liberation Music Archive, baú de tesouros ignorados esclarecedoramente subintitulado “Feminist Music-Making in the UK and Ireland, 1970-1990”. E o que aí se encontra são (inúmeros) documentos escritos e audiovisuais de duas décadas que parecem, agora, incrivelmente longínquas, bem exemplificados pelo manifesto da Northern Women’s Liberation Rock Band“uma coligação de feministas de diferentes classes, origens étnicas e pontos de vista políticos – maoístas, libertárias, lésbicas, heterossexuais e uma transsexual” – que, ao dar-se conta de que, embora se empenhassem em múltiplas áreas de actividade, “continuavam a dançar ao som dos Stones”, decidiram organizar-se contra “o gang de parasitas masculinos ávidos de lucros que controla a música” e “transformá-la numa força dirigida contra eles”. A coisa respirará muito o espírito da época mas convirá recordar que, na altura, a presença das mulheres no cenário pop/rock – à excepção dos "girl-groups" da Motown, de algumas heroínas soul, de uma ou outra flor na lapela de bandas masculinas e de meia dúzia de "singer-sonwriters" – estava bastante longe de poder proporcionar a oportunidade de – como aconteceu na minha selecção dos melhores de 2011 – surgir um top-10 onde apenas um álbum tinha assinatura masculina.


Bush Tetras - "Cold Turkey"

Não foi necessária a introdução de quotas para modificar a situação mas bandas e personagens do punk, pós-punk e áreas adjacentes, como Lydia Lunch, The Slits, Patti Smith, The Raincoats, Bush Tetras e Laurie Anderson ou activistas militantes “com uma causa” do género das Bikini Kill – Kathleen Hanna publicaria, em 1991, o “Riot Grrrl Manifesto” – não só virariam o mundo pop do avesso como também permitiriam que três inevitáveis consequências daí decorressem: o conceito “girl power”, recuperado e convertido em marca comercial, passou a significar investimento com retorno garantido (Spice Girls, lembram-se delas?); o crescente número de mulheres na pop tornou-se um dado adquirido; descendências particularmente radicais (como as russas, Pussy Riot, actualmente ameaçadas com uma pena de sete anos de cadeia por terem ousado uma performance-relâmpago anti-Putin na Catedral do Cristo Salvador, em Moscovo) são encaradas enquanto radicais e não especialmente pelo facto de se tratar de mulheres. Mas também, naturalmente, ao abandonar o estatuto de espécie “protegida” em região demarcada, a fêmea pop (em particular, na subespécie indie) ficou vulnerável aos males que afectam a restante fauna.



Alex Winston é um óptimo exemplo disto: movendo-se num terreno que não se entende bem se é "mainstream" ansiando desesperadamente por ser visto como “alternativo” ou o seu inverso, na estreia, King Con, aplica-se na normalização daquela (suposta) excentricidade de que Kate Bush e a sua apóstola, Joanna Newsom, registaram a patente – e cujos timbre e maneirismos vocais Winston, diligentemente, mimetiza. Não se enganou quem já a classificou como “the sugary sound of weirdness”: o produto contém ingredientes tão peculiares como a poligamia, a observação entomológica dos traumas provocados por uma adolescência vivida em habitat Amish ou o desenvolvimento de relações românticas com objectos inanimados, mas todos incluídos numa sorridente ementa "à la carte" em que é possível optar por tempero folk, synth-pop ou exótico ainda que o foguetório eufórico dos refrães seja inegociável.



Birdy, entretanto, é o que só se pode designar por "case study" a manter sob rigorosa vigilância: revelada num concurso de talentos – o Open Mic UK, de 2008 – quando tinha doze anos, miraculosamente, Jasmine van den Bogaerde, de seu verdadeiro nome (e sobrinha-neta do actor Dirk Bogard), teve a sorte de, com sábio aconselhamento ou por iniciativa própria, optar por um reportório que autoriza a esperança de que, deste casulo, não sairá uma Joss Stone: canções dos National, Fleet Foxes, Phoenix, Bon Iver, The Postal Service, The xx ou (pronto, ninguém, muito menos aos quinze anos, é perfeito) James Taylor não são nenhuma nódoa em início de currículo embora a fórmula, quase única, de piano e voz (virtuosamente poderosa, logo, indesejável factor de risco futuro) tenda a esgotar-se rapidamente e a única peça da autoria de Birdy, "Without A Word", não seja exactamente transcendente.



Sharon Van Etten, finalmente, é outra demonstração dos imensos benefícios a colher quando se frequenta gente de confiança: "singer-songwriter", algures entre os abalos emocionais de Kristin Hersh e Nina Nastasia, mas que faz questão de manter Patti Smith e John Cale no radar, nos álbuns anteriores (“Because I Was In Love”, 2009, e “Epic”, 2010), mesmo recebendo os louvores de alegados pares do reino (Justin Vernon, Dave Alvin e os National fizeram releituras da sua "Love More"), deixara sinais de poder escorregar com alguma facilidade para os terrenos alagados do confessionalismo embaraçosamente autobiográfico. Agora, em Tramp, se não se afasta drasticamente daí, fá-lo, porém, com uma espinha vertebral sonora assaz mais consistente. Aaron Dessner (National) tomou conta da produção e, acompanhada pelo mano Bryce Dessner, Zach Condon (Beirut), Matt Barrick (Walkmen) e outras notabilidades, a música não se limita ao papel de afago dos textos mas, algo cinematicamente, intervém sobre eles, comenta-os e transforma-os em combustível para canções tensas e inteiras.

(2012)

15 November 2010

LISHBUNA
(sequência daqui)


















The Walkmen - Lisbon

Não vale a pena enfunar demasiado a vela patriótica e alfacinha porque, se Hamilton Leithauser justifica o título do último álbum dos Walkmen com as inspiradoras memórias das colinas lisboetas e dos aromas do Tejo, a verdade é que, logo a seguir, esclarece que a maioria do disco foi gravado em Dallas e que uma outra hipótese de baptismo para o sexto registo da banda era South Dallas. Mas, não apenas Lisbon soa, de facto, francamente melhor, como “ninguém desejaria chamar 'South Dallas' a um álbum”. Sem dúvida. E ainda que na canção que lhe dá o nome as alusões a “thunderous nights” e “stormy skies” possam não fazer muito bem pelo turismo luso e, mesmo perscrutado à lupa, o texto não revele os mínimos indícios de sarjetas entupidas ou de silhuetas das Amoreiras, a melancolia morbidamente domesticada que atravessa estas onze canções poderia, facilmente, ter sido inalada num qualquer devaneio urbano sobre a calçada da arábica Lishbuna.



Isso e aqueles rapidamente sufocados arrebatamentos eléctricos que, aqui e ali, se incendeiam sobre a alegada matriz de um rock’n’roll primordial desmantelado e exausto (se quiserem, a magnífica "Stranded" poderia ser a mais plausível candidata ao que um Leithauser comum, pelas 5 da manhã, em Manhattan, imaginaria ser um fado que nunca ouviu), parente não excessivamente longínquo daquela outra teia-de-aranha emocional que captura avidamente os desabafos que Matt Berninger solta para o diário íntimo dos National. Sim, aqui também existe uma "Squalor Victoria" que se chama "Victory", uma "Mr. November" intitulada "Blue As Your Blood" e diversas "Apartment Story" e "Runaway" sob outros disfarces, no imenso cenário do mesmo "Fake Empire". Sem sombra de plágio.

(2010)

14 November 2010

UM AMERICANO EM LISBOA















Hamilton Leithauser é o género de personagem com quem apetece conversar. Não porque seja instantaneamente simpático e acolhedor: na verdade, não abusa do palavreado – as respostas telegráficas ocorrem com alguma frequência – nem se entrega a extensas explicações e especulações. Mas rapidamente nos apercebemos de que aquele interlocutor não se deixa facilmente acondicionar na embalagem do rocker prototípico, enclausurado no seu pequeno universo de referências e autoreferências e de frívolas lubrificações do ego. Leithauser e, com ele, a música dos Walkmen, possui aquilo que, com algum rigor, se deve designar como substância. Há coisas que não circulam, necessariamente, na cadeia do ADN mas é bem capaz de não se tratar também de um acaso que, sendo ele sobrinho do poeta e romancista Brad Leithauser, a banda tenha em mãos desde 2004, o "work in progress" de um romance colectivo (programado para 800 páginas!), John’s Journey. E que, quando interrogado acerca das suas leituras em curso, Leithauser responda sem pestanejar Arthur And George, de Julian Barnes (vénia), e God Is Not Great, de Christopher Hitchens (vénia, vénia, vénia). Mas o que começo por lhe perguntar – era inevitável, não era? – é qual o motivo real, verdadeiro, profundo, decisivo, para o último álbum dos Walkmen ter como título Lisbon. E ele responde-me “Porque não?...”


Vai ser, então, necessário exercer um pouco de pressão. Por isso, em vez do jogo sujo das justificações patrioteiro/geográficas óbvias, atiro-lhe com a suave chantagem pessoal de ter achado francamente encantador terem-se lembrado de baptizar o disco com o meu nome de família. E faço charme literário revelando-lhe que sou o primo lisboeta de Jack London. Já não é a primeira vez que o truque resulta. Hamilton ri-se e desenvolve: “Não que estivéssemos sempre a pensar na cidade enquanto escrevíamos as canções. É, na verdade, mais uma memória. Não sei bem por que motivo mas, quando esse título foi sugerido, todos concordámos com ele. Não posso dizer que Lisboa tenha tido uma influência directa sobre o disco. Mas, tendo estado aí duas vezes – e, ao contrário do que, frequentemente, acontece, não nos limitámos a ficar no hotel e a frequentar os bares: fomos ao castelo, conversámos com pessoas locais, experimentámos restaurantes, admirámos a arquitectura da cidade – durante a fase de concepção do álbum, foi, sem dúvida, uma memória motivadora importante”.



A motivação deve ter sido realmente poderosa: as onze canções que figuram no álbum tiveram de ser cesarianamente extraídas de um total de mais de trinta: “Foi um processo que nos ocupou dois anos até seleccionarmos aquilo que nos pareceu ser um passo em frente que valia a pena ser publicado. E isso acabou por ser um som de rock mais cru e despojado como os do Elvis Presley ou do Johnny Cash para a Sun Records. Quando o conseguimos, sentimos que tínhamos chegado onde, realmente, desejávamos. Toda a vida escutámos esse tipo de música. Mas, sempre que iniciamos o processo de um novo álbum, ensaiamos abordagens diferentes. E, muitas vezes, estamos à espera que as coisas sigam por um caminho e elas acabam por ir por outro completamente inesperado. Claro que nós gostamos da sonoridade que a banda tem e não nos passa pela cabeça dizer que, agora, soamos como o Elvis ou o Johnny Cash da Sun. Acho que esse esforço de contenção e de procurar ser mais sucinto não só foi divertido como nos fez muito bem”.



Na página dos Walkmen, no MySpace, a música da banda surge descrita como “melodramatic popular song”. Pergunto a Leithauser se está disposto a dar a sua bênção a essa definição: “Claro que não. Tínhamos que escolher uma opção e, evidentemente, decidimo-nos pela mais estúpida”. Naturalmente, não lhe peço a caracterização oficialmente aceite pelo grupo (essa pergunta deveria ser universalmente proibida, apenas me havia intrigado a que, aparentemente, eles próprios sugeriam) mas ouso pisar terreno mais movediço: será que não existe uma comparação que pode ser feita entre os percursos dos National e dos Walkmen, bandas novaiorquinas da mesma geração e com universos estéticos e temáticos afins, que, num caso (o dos National), extravasou já a mera condição de culto indie e, no outro, parece quase fazer gala de não o abandonar? Hamilton Leithauser não dá sinais de lhe ter tocado em nenhum ponto frágil e responde tranquilamente: “Há já alguns anos, fizemos diversos concertos juntos, conhecemo-nos, sempre nos demos bem, e existe alguma espécie de afinidade e de propósito comum às duas bandas. Se eles estão a ganhar dinheiro, fico muito feliz por isso. Mas também me sinto satisfeito com a nossa situação: penso que os nossos últimos dois álbuns foram os melhores que já gravámos e estamos prontos para gravar outros ainda melhores”. Fechando o círculo, peço-lhe para imaginar como será o momento em que, seguramente, virão tocar Lisbon em Lisboa: “Está a perguntar-me se isso poderá desencadear alguma centelha?...” Reformulo: não receia que o público local possa alimentar demasiadas expectativas relativamente a algum particular efeito mágico devido à suposta influência lisboeta das canções? “Não sei, não faço a mais pequena ideia de como irão reagir. Mas, se calhar, iremos ter de pensar em alguma coisa mais especial...”

(The Walkmen, hoje, em Lisboa, no Coliseu)

(2010)

20 December 2008

VÉNIA AOS CLÁSSICOS



The Walkmen - You & Me

Primeiro facto relevante: os Walkmen descendem, em linha directa, de uma daquelas bandas – Jonathan Fire*Eater – que, um dia, na história do rock’n’roll da marginália novaiorquina, haverá de ocupar mais do que uma nota de rodapé; segundo facto relevante: no início deste ano, para o site da Internet, Daytrotter, gravaram três versões de “The Old Revolution”, “Lady Midnight” e “Tonight Will Be Fine”, de Leonard Cohen, uma vénia há muito sonhada perante um “long time hero” privado; terceiro facto relevante: “The Rat”, a única canção dos Walkmen vagamente aspirante à condição de “hit” poderia facilmente (reparem: “You've got a nerve to be asking a favor, you've got a nerve to be calling my number,”) ser uma “outtake” de “Positively 4th Street”, de Dylan;



quarto facto relevante: o anterior álbum dos Walkmen, Pussy Cats (2006), era a revisão, faixa por faixa, do disco homónimo de Harry Nilsson, produzido por John Lennon, durante o famoso “lost weekend” de ambos. You & Me é, pois, um tanto previsivelmente, um belíssimo exercício de reverência perante os clássicos – afinal, algo como Dylan à frente dos Velvet Underground – cujo espírito (último facto relevante) não andará muito longe de Boxer, dos National.

(2008)