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20 January 2021

 
"(...) Ter-se um gato, como companhia, o dia inteiro, é um presente dos deuses. O grande Dickens sabia isso, quando afirmava que “there is no greater gift than the love of a cat”. O gato é um animal bonito, elegantíssimo, inteligente e extremamente inventivo. Está sempre a ter ideias, embora muitas delas francamente turbulentas e algo destrutivas. E, ao contrário do que dizem os ignorantes (que nunca tiveram gatos ou os tiveram e não lhes prestaram a devida atenção), o gato, se bem tratado e acarinhado, torna-se não só nosso amigo, como se torna até um amigo fiel e assíduo, sendo de opinião que é mal empregado todo o tempo que lhe não dediquemos, embora ele necessite de algum tempo para retiro, meditação e soneca. De facto, ele só não está connosco, quando DECIDE que tem, ELE, de fazer coisas mais importantes, como, por exemplo, partir um prato ou um copo ou um bonito objecto de arte que seja frágil e esteja mesmo a pedi-las. Ou, como já dissemos, dormir. Um gato pode ser muito nosso amigo, mas recusará terminantemente ser nosso escravo: o seu orgulho felino nunca lhe permitiria esse abaixamento, que ele vê, com desprezo, praticado pelo cão, nunca elevado ao estatuto de deus, pelos egípcios. Mas não lhe passa pela cabeça que os humanos tenham o mesmo comportamento orgulhoso. Quando lhe apetece – ao gato – saltar-nos para o colo ou para as costas, dificilmente aceita que recusemos. Ele SABE quando quer estar sozinho, mas não aceita que nós queiramos estar sozinhos, quando a ELE lhe APETECE estar connosco. Isto pode parecer estranho a um humano, mas o gato percebe-o perfeitamente. O homem foi feito para servir o gato e não o gato para servir o homem: um deus manda e não é mandado! Isto está inscrito no ADN dos felinos de salão. (...) (Eugénio Lisboa aqui; tema já poeticamente abordado aqui))

16 September 2015

RUÍNAS 


“Como se faz o alinhamento de um concerto dos Apartments? Aceitam-se algumas sugestões. Pega-se numa tesoura. A seguir, cortam-se cuidadosamente os títulos e colocam-se todos num saco. Agita-se delicadamente. Retiram-se, então, um após outro. Copiam-se pela ordem em que saíram do saco. 'Et voilá', o alinhamento será a minha cara – um autor infinitamente original de encantadora sensibilidade, embora nem todos estejam de acordo (com pedido de desculpas a Tristan Tzara)”. É o género de post que é possível ler na conta de Facebook dos Apartments, isto é, de Peter Milton Walsh, que, algures, perante comentários de que nunca publica nada pessoal, responde “O que poderia ser mais pessoal do que uma canção?”, mas, cedendo, “vira uma página” e coloca uma fotografia do cão, Teddy, “ouvindo-me ler as críticas a No Song, No Spell, No Madrigal e a lista de datas da digressão francesa dos Apartments”. A primeira das quais será a 19 de Setembro, “em Saint-Lô, a ‘Capital das Ruínas’, como lhe chamou Beckett. Não é coincidência”.



Não é mesmo. Se o texto de Samuel Beckett lidava com a “humanidade em ruínas” que avistou na cidade da Normandia, arrasada pelos bombardeamentos da segunda guerra mundial, não é despropositado dizer que todas as canções de Peter Milton Walsh são o muito pouco que conseguiu salvar dos escombros da sua demasiado humana individualidade. Talvez por isso, em 37 anos, não tenha registado mais de oito álbuns e, à excepção de França e de meia dúzia de células clandestinas de admiradores dispersas pelo planeta, continue virtualmente inexistente. Em 2012, a meio de outra tournée francesa, aceitou o convite da Radio France para gravar sete canções, sessão de que, no Record Store Day do ano seguinte, a Talitres publicaria 449 cópias em vinil, rapidamente esgotadas. Acompanhado por Amanda Brown (ex-Go-Betweens), Nick Allum e Wayne Connolly, Seven Songs – "Things You'll Keep", "Thank You For Making Me Beg", "World of Liars", "On Every Corner", "Mr. Somewhere", "Everyday Will Be New" e "All You Wanted" – é, agora, reeditado em CD, pronto para, uma vez mais, nos fazer ajoelhar. Na contracapa, fotografada por Raymond Cauchetier nas filmagens de À Bout de Souffle, Jean Seberg, dá-nos o golpe de misericórdia.

19 August 2013

(O 3º ANO A SEGUIR AO) ANO DO TIGRE (C)

Uma espécie de Jean Seberg

22 January 2011

10 May 2008

A PROPÓSITO DE GODARD E TRUFFAUT



Greatest ending ever! Jean-Luc Godard's Breathless (À bout de Souffle). Godard's first feature-length film is one of the inaugural and best-known films of the French New Wave. He wrote it with fellow New Wave director, François Truffaut, and released it the year after Truffaut's The 400 Blows and Alain Resnais's Hiroshima, Mon Amour. Together the three films brought international acclaim to the New Wave.

Michel's death scene is one of the most iconic scenes in the film, but the film's final lines of dialogue are the source of some confusion for English-speaking audiences. In some translations, it is unclear whether Michel is condemning Patricia, or alternatively condemning the world in general.

As Patricia and Detective Vital catch up with the dying Michel, there is the following exchange, according to the transcript published in Dudley Andrew's book on the film:

MICHEL: C'est vraiment dégueulasse.
PATRICIA: Qu'est ce qu'il a dit?
VITAL: Il a dit que vous êtes "une dégueulasse".
PATRICIA: Qu'est ce que c'est "dégueulasse"?

In his book, Andrew translates the dialogue thus:

MICHEL: That's really disgusting.
PATRICIA: What did he say?
VITAL: He said, "You are really a bitch."
PATRICIA: What is "dégueulasse" [bitch]?



Andrew's translation obscures the point of the original French, which is that policeman Vital misquotes Michel. This could either be bad intention or due to a mishearing on part of Vital. A mishearing could stem in part from the similarity between Michel's first word, "C'est" ("It is/That is") and the word "T'es" ("You are"), which are hard to distinguish audibly. In this case, it could also stem from the ambiguity of the word "dégueulasse", which can either be an adjective ("disgusting"), or a noun ("disgusting thing", rendered as "bitch" by Andrew); however, even "vous êtes vraiment dégueulasse" ("you are really disgusting") would have had the same meaning, without any change of adjective and noun. By hearing "T'es", Vital may understand Michel's line as a condemnation of Patricia, but if, in fact, Michel says "C'est", he could be referring to his situation in general, and not specifically blaming Patricia.

Other translations have made Vital's misquotation more obvious. In the English captioning of the 2001 Fox-Lorber Region One DVD, "dégueulasse" is translated as "scumbag", producing the following dialogue:

MICHEL: It's a real scumbag.
PATRICIA: What did he say?
VITAL: He said, "You're a real scumbag".
PATRICIA: What's a scumbag?

The 2007 Criterion Collection Region One DVD uses a less literal translation that renders the French into a familiar American colloquialism:

MICHEL: Makes me want to puke.
PATRICIA: What did he say?
VITAL: He said you make him want to puke.
PATRICIA: What's that mean, "puke"?

(comentário de OzuKardozi no Youtube)

(2008)