Showing posts with label Belle And Sebastian. Show all posts
Showing posts with label Belle And Sebastian. Show all posts

16 September 2013

O INCOMPARÁVEL TALENTO 
BRITÂNICO PARA AS LÍNGUAS
 
Did you have any nickname at school?

Yes, Murdy, which wasn't very interesting, not until we started French lessons. Then it became Le Merde - The Shit (Stuart Murdoch/Belle & Sebastian à "Mojo")

26 October 2010

MALMEQUERES DE NANJING



Belle And Sebastian - Write About Love

Norah Jones em "Little Lou, Ugly Jack, Prophet John" e um sintetizador manhoso que se assemelha arrepiantemente a uma flauta de Pã em "Read the Blessed Pages". Só isto seria muito mais do que suficiente para condenar os Belle And Sebastian ao mais fofinho dos infernos onde, definitiva e eternamente, se veriam cercados de Hello Kitties que lhes serviriam copinhos de leite morno e lhes dariam beijinhos castos na testa. A coisa, porém, agrava-se substancialmente quando, depois de God Help The Girl e Dear Catastrophe Waitress, ficámos a saber que, no organismo de Stuart Murdoch, circulava um pouco mais de testosterona do que, inicialmente, se supunha. Houve mesmo um momento – o da publicação de God Help The Girl – em que chegou a ser possível imaginar que, ali, poderia encontrar-se um sucessor à altura para aquela vaga na linhagem pop que, de Phil Spector aos ABBA, embora com diversas candidaturas entregues, ainda não se encontra preenchida. Trágica ilusão: se eles, de facto, sempre foram adeptos daquele género de transcendência que se alcança a colher malmequeres ao lusco-fusco, agora, com Write About Love, desceram ao patamar inferior onde os únicos malmequeres disponíveis são de plástico, oriundo das melhores fábricas de Nanjing. Por outras palavras: são capazes de fazer muito melhor mas o pé foge-lhes, irremediavelmente, para este chinelo de escriturários deprimidos e místicos suburbanos que, olhando fixamente para o Sol, em vez de fritarem a retina, descobrem Deus. Espremendo a benevolência até à última molécula, haverá por aqui duas ou três hipóteses de um lugar naquela metade da tabela das eliminatórias para o festival da Eurovisão que dá acesso à final. Sonhar com mais do que isso não vale a pena.

(2010)

16 August 2009

A BORBOLETA SPECTOR



God Help The Girl - God Help The Girl

Já conhecíamos as bandas sonoras para filmes realmente existentes e as outras para filmes imaginários. Agora, com God Help The Girl, inicia-se o género das que foram compostas e publicadas para filmes que, se tudo correr bem e o financiamento surgir, lá para o ano que vem, serão rodados. O responsável pelo projecto – e este é um dos casos em que a palavra “projecto” adquire todo o seu verdadeiro sentido – é Stuart Murdoch, cultivador das florinhas de estufa Belle & Sebastian, aqui, assumindo as responsabilidades de compositor, argumentista, director de casting e, eventualmente, realizador. A epifania aconteceu, há cinco anos, durante uma sessão de jogging, em Sheffield, quando uma canção inteira “que nunca seria para os Belle & Sebastian” (“God Help The Girl”, o tema-título) lhe fez uma pirueta no cerebelo. Através de um anúncio de jornal, procurou cantoras para a gravação de um álbum “outonal”, avisando, no entanto, que “as candidatas a Celine Dion” escusavam de se incomodar. Da shortlist final, resultou um trio (que, observando com atenção no YouTube os mini-documentários que, acerca de todo o processo, Marisa Privitera – aliás, Mrs Murdoch – realizou, se diria não ter sido seleccionado exclusivamente segundo critérios de talento vocal...) constituído por Celia Garcia, Alexandra Klobouk e, principalmente, Catherine Ireton, a protagonista e indiscutível "rising star" de God Help The Girl.



É este, então, o momento de proclamar que o que já se pressentia em Dear Catastrophe Waitress (2003) – depositado nas tonificantes mãos de Trevor Horn – floresce, desta vez, em todo o seu esplendor: da crisálida anémica dos Belle, emergiu uma borboleta-Murdoch capaz de libertar o Phil Spector que trazia, oprimido, dentro de si! E ele não apenas descobriu uma legião de Ronettes e Shirelles inteiramente à disposição (para além do trio Garcia/Klobouk/Ireton, várias outras foram recrutadas), como, de entre elas, transformou umas em Petula Clark e outras em Sandie Shaw, deu livre curso à sua veia de “songwriter” para uma Motown escocesa virtual (o velho sonho da Postcard – “The Sound Of Young Scotland” – de Alan Horne) e, a espaços, se entregou ao devaneio de se ver como um Burt Bacharach que, num cotovelo do espaço-tempo, tivesse participado da “nouvelle vague”, ao lado de Truffaut ou Godard. O que, no fundo, não tem sido senão o que os diversos discípulos da academia B&S (Camera Obscura, Concretes, Lucky Soul, os She & Him de Zooey Deschanel e Matt Ward) têm vindo a fazer.



Se o argumento do “musical” em potência é murdochianamente previsível – Eve, jovem melancólica e perturbada, tropeça na música popular e por ela se perde – a atitude "life could be musical comedy/prop-like street lighting awaiting your swing” não podia ser mais ajustada: do quase-ABBA, “Musician, Please Take Heed”, ao requinte "über cool" do convidado Neil Hannon, em “Perfection As A Hipster”, às sumptuosas volutas orquestrais ou à transfiguração soul de “Funny Little Frog” pela voz de Brittany “Dusty Springfield” Stallings, tudo é puríssima perfeição pop. Que, mesmo que não voasse tão alto, se justificaria apenas pela revelação de Catherine Ireton, showtune girl no primeiro capítulo de uma longa e fulgurante biografia.

(2009)
GOD HELP THE GIRL - AN INTRODUCTION



(2009)

12 August 2009

11 August 2009

05 June 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (IV)



The Gentle Waves - The Green Fields Of Foreverland

Looper - Up A Tree

Pronto, já descobri. Levou tempo mas, finalmente, cheguei lá. Depois de muito reflectir acerca do que levaria tanta gente adulta e respeitável (?) a ajoelhar perante a música dos Belle & Sebastian, acabei por compreender. E a beleza da coisa é que o que me fez perceber tudo não foi voltar a escutar pela vigésima vez os álbuns deles (bom, sejamos honestos, também não os ouvi assim tanto, um homem não é de pau...) mas sim, numa linguagem de guerra, o contacto com os "danos colaterais" por eles produzidos. A saber, os projectos divergentes de Stuart David e Isobel Campbell, Looper e The Gentle Waves, cujos respectivos álbuns acabam de ser publicados. Pois bem, o busílis da questão que, daqui em diante, será designado como "efeito Enid Blyton", consiste no seguinte: eles (e os fãs deles) já são crescidinhos — sim, os fedelhos não lhes ligam peva — mas imaginam-se todos a viver eternamente no interior de uma aventura dos Famosos Cinco, a comer scones com compota que a tia lhes meteu na cestinha e a brincar com o velho cão, em busca de mais uma aventura inocente e, oh! tão excitante. Isto, claro, quando estão naquilo a que eles deverão chamar a sua "fase das drogas duras". Porque, no resto, são tudo prados verdejantes, vacas a pastar, ribeiros chilreantes e toutinegras nas árvores. O que se costuma designar como (e aqui estou a conter o vómito) "as delícias da vida no campo".
Como se suspeitaria, The Green Fields Of Foreverland (estão a ver, logo no título, o espírito da coisa?) é dedicado à "vovó Gallacher" e (parece que sou bruxo) "ao velho e muito amado cão". Não sei se a avózinha achará graça à companhia mas depois, tudo segue bucolicamente por aí fora naquela estética Laura Ashley muito florida e "naïve", cheia de "luas prateadas" e "lugares encantados", inanidades de adultos que nunca cresceram o que, convenhamos, é das coisas mais patéticas que existem. A música, não percamos demasiado tempo com ela, é perfeitamente a condizer, algures entre a Sœur Sourire e o Donovan hippie-betinho.
Os Looper também não andam muito longe daí (todo o enredo se centra numa paixão platónica entre um moço tímido e uma donzela idem, idem, que só se comunicam por carta — atenção, por carta, escrita à máquina, nada de e-mails, que aqui não são de modernices) mas, apesar de tudo, têm aquilo a que, se estivermos generosos e de bom humôr, se poderia chamar "uma ideia". É realmente só uma mas, nos tempos que correm já não é nada mau. E "a ideia", sinteticamente, é: o que fariam os Young Marble Giants se tivessem vivido na idade do trip hop? Eu acho que eles teriam feito algo um bocadinho melhor do que isto mas, atendendo às circunstâncias e aos protagonistas, já é melhor do que nada. Embora, como toda a gente sabe, melhor do que nada não seja coisa que se apresente. E, lá vamos nós outra vez, repararam no título, a casinha na árvore, as borboletas implícitas e o resto?
O que mais incomoda nem sequer é isso. É que, aqui pelo meio, há uma leitura transviada do terceiro álbum dos Velvet Underground. De onde só ficou "a ingenuidade" (e quanto não teríamos a dizer sobre "a ingenuidade", mas não temos tempo) e a perversão foi pelo cano abaixo. E a perversãozinha é, de facto, o que interessa. Ou não é? (1999)

29 May 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (III)



Belle And Sebastian - Dear Catastrophe Waitress

Aos Belle & Sebastian, possivelmente a banda pop mais xoninhas de sempre, ocorreu uma ideia: chamar Trevor Horn para os produzir. Uma coisa assim, como se Sharunas Bartas tivesse ido oferecer os seus serviços a Steven Spielberg. E saiu-lhes a sorte grande! Exactamente da mesma forma que faria um incomensurável bem a Bruce Springsteen, pela força das circunstâncias, ver-se obrigado a gravar para uma "indie" mixuruca, a eles o ofuscante brilho pop deu-lhes uma nova vida. Quero dizer, uma vida.



Vejamos: não serão ainda os ABC ou os Frankie Goes To Hollywood mas já há orquestrações pirosamente sinfónicas (isto é um elogio) que disfarçam a "sensitiveness" mariquinhas — os velhos hábitos custam a desaparecer —, "Step Into My Office, Baby" pirateia como deve "Good Vibrations", dos Beach Boys (haverá matéria para processo judicial?), "Piazza, New York Catcher" é quase (só quase) Magnetic Fields, "You Don't Send Me", por pouco chegava aos calcanhares de um feliz casamento Bacharach/Motown, "Roy Walker" e "Stay Loose" quase (já repararam no frequente uso da palavra "quase"?) têm testosterona. Claro que "Asleep On A Sunbeam" ainda é uma Alison Statton dos pobrezinhos, "I'm A Cuckoo" é só material "cross-referential" para contabilistas com pretensões literárias (mas com uma "middle section" de sopros agradavelmente de casino), "Wrapped In Books" só arranca quando a maldição McCartney é substituida pela benção Brian Wilson e "Lord Anthony" desperta intintos assassinos. Mas, "encore un effort" Belle & Sebastian, e, um dia, podereis vir a ser mesmo bons! (2003)

28 May 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (II)



Belle And Sebastian - Push Barman To Open Old Wounds

Vão-me desculpar mas não vejo melhor forma de dizer isto: há-de ser necessário ter uma vida muito próxima do estado vegetatativo — trabalhar como fiel-de-armazém em Trondheim, ser especialista em nutrição de hamsters siberianos, estar a preparar um mestrado acerca dos rituais de acasalamento das trilobites no Paleozóico — para achar que as canções dos Belle And Sebastian podem ser vagamente interessantes, imaginar que elas foram a maior oferenda dos céus àquela tribo de jovens intelectuais linfáticos que deprimem profundamente perante a devastadora visão do pacote de cornflakes vazio ou até — coloquemos as coisas mais claramente — supôr que se trata daquilo a que nos habituámos a chamar pop. Não, a música dos Belle And Sebastian é apenas o equivalente musical da "literatura" embaraçosa que habitualmente se aloja nas páginas dos diários privados e que, nos casos mais benignos, é rapidamente incinerada em auto-de-fé assim que o Clearasil começa a surtir efeito.



E, num casamento particularmente feliz de forma e conteúdo, vertida para o interior de uma morna canjinha sonora que, aparentemente, consola os corações sensíveis e apazigua os dói-dóis sentimentais. Push Barman To Open Old Wounds — a reunião em duplo CD de todos os EP da banda publicados entre 1997 e 2001 — é, assim, uma educativa excursão por esse delicado mundo de rendinhas emocionais e naperons de afectos não-me-toques que, num momento de comovente candura e sinceridade, em "This Is Just A Modern Rock Song", eles próprios fazem a fineza de explicar. Em três passos: 1º - "I'm not as sad as Dostoievsky, I'm not as clever as Mark Twain, I'll only buy a book for the way it looks, and then I stick it on the shelf again"; 2º - "This is just a modern rock song, this is just a sorry lament, we're four boys in corduroys, we're not terrific but we're competent"; 3º - "This is just a modern rock song, this is just a tender affair, I count 'three, four' and then we start to slow, because a song has got to stop somewhere". Dois CD demoram um tempo dos diabos até parar algures. (2005)

26 May 2007

DEPARTAMENTO "PEQUENOS ÓDIOS DE ESTIMAÇÃO" (I)



Belle And Sebastian - Tigermilk

O desaparecimento dos Smiths deixou tragicamente orfã aquela importante faixa de almas terminalmente sensíveis constituida por adolescentes, pós-adolescentes e adultos vítimas de uma adolescência retardada, capazes de, perante o mais banal pôr do sol, começarem automaticamente a escrever péssima poesia. Foi expressamente para eles e para preencher esse angustiante vazio que surgiram os Belle And Sebastian cujo primeiro álbum, Tigermilk (de 1996) — a pedido de várias jovens famílias suburbanas que acreditam que a crueldade do mundo pode ser redimida pela transcendência da arte —, foi agora reeditado. Quase não é preciso ir além da capa: uma menina, de tronco nu e relógio no pulso (reparem no subtilíssimo cruzamento dos sinais de paradisíaca inocência e modernidade escravizada pelo tempo), amamenta ternamente um tigre de peluche.
Ao espírito, ocorrem inevitavelmente - estamos no domínio do lugar comum, não é verdade? - as palavras candura, sensibilidade, fragilidade, ingenuidade e oh, so cute!. É exactamente assim, oh, so cute!, a música dos B&S, neste disco e nos que se seguiram dos quais, neste momento, por acaso, não me recordo dos nomes. Oh, so cute! mas, atenção, carregada de grande intensidade dramática.



Eles contam histórias pungentes de rapazinhos que acham apropriado escolher o dia do casamento da irmã para revelar à família que são gays e apresentar o namorado marinheiro, humaníssimos casos de mocinhas como a Lisa "who knows a girl who's been abused, it changed her philosophy in 82" ou da outra, anónima, que, coitadita, trabalha na secção de lingerie do Debenham's mas sonha ser artista. São coisas graves com que não se brinca e os Belle And Sebastian levam-se mesmo a sério. Para compensar, a música mergulha um bocadinho na estética água-de-rosas/chá-de-tília o que só lhe fica bem e alivia um pouco a tonalidade depressiva.



Algures lá pelo meio, há uma passagem ("Your obsessions get you known throughout the school for being strange, making lifesize models of the Velvet Underground in clay") que, se não estou muito enganado, seria suficiente para que Lou Reed e John Cale sentissem um irreprimível desejozinho de os estrangular mas, em última análise, há que dar o devido desconto pela tocante sinceridade com que, em "My Wandering Days Are Over", eles perguntam "You know my wandering days are over, does that mean that I'm getting boring?". Eu não queria ser antipático mas, francamente, já que perguntam, parece-me que sim... (1999)