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29 September 2026

 
 
(sequência daqui) Tanta e tão exaltada eloquência decorre do contacto próximo e permanente com um reportório com séculos de uma história de desigualdade e luta de classes a ressoar ainda profundamente nos dias de hoje. Da espécie de rockabilly countrificado de "The Juice" ao programa de acção - voz, bodhrán e tin whistle - de "Landlord's Demise" ("No landlord here in Ireland is the song that I will sing, run them out or burn them out, whatever is your thing, no time now for the wealthy ones who try to put us down, break the greedy structures built to keep the poor folk down"), ou à demolição dos estereótipos do "orgulho identitário" de "Crowns Of England" ("For all the crowns in England I couldn't quench my thirst, I wandered back to Dundalk town, the place that quenched it first"), Charles Hendy explica em detalhe ao "NME": "A canção fala de estar em Inglaterra e sentir-se um forasteiro no meio de todo aquele colonialismo. E fala dos irlandeses que se mudam para Londres e depois se deixam assimilar, tentando afastar-se da sua identidade irlandesa. A Inglaterra continua a ser um lugar arcaico em muitos aspectos. Ainda existe uma monarquia. Todos os pubs chamam-se 'The Crown'. Há bandeiras por todo o lado". (segue para aqui)

27 September 2026

LUTA DE CLASSES


Com uma certa liberdade interpretativa, digamos que "paddywhackery", em português, poderia traduzir-se por "saloiice irlandesa". E remeteria para o termo que, desde o início do século XIX, foi usado para, mais acintosamente, descrever uma pessoa facilmente irritável, em particular, um "irlandês arruaceiro". Charles e Andrew Hendy, motor e alma estética dos Mary Wallopers, ao terceiro álbum, não se limitam a designá-lo por Paddywhackery, como, em entrevista à "Mojo", reivindicam essa palavra enquanto vernacular arma de combate: "A música folk ganhou a fama de ser algo insípida. Tornou-se inofensiva, o que detestamos, as canções folk não são assim. As canções são todas sobre foder, beber, enforcar senhorios e matar aqueles cabrões. São canções políticas, e até as canções de amor podem ser macabras". Alargando a esfera de acção - "É preciso haver uma voz que devolva às pessoas o lado rebelde do folk" - e invocando os padroeiros da causa, declaram: "É para isso que serve a música folk. Foi o Woody Guthrie quem o disse, são os blues, é o punk, é o hip-hop. É uma forma de expressão de pessoas que não estão satisfeitas com o que a vida lhes reservou e que percebem que isso não é justo. O mundo não é justo e não é justo porque as pessoas não querem que seja justo. Sabes, os políticos e aqueles cabrões ricos de merda, são todos uns filhos da mãe. Na verdade, deviam ser todos mortos!". (daqui; segue para aqui)
 

18 September 2026

OLHAR PARA TRÁS (OUTRA VEZ) 

Durante os dois próximos fins de semana, o Grande Auditório da Fundação Gulbenkian acolherá um ciclo de cinema que, entre o documentário, o musical e o videoclip, ensaia diferentes formas de cruzar música, arte, cultura popular e vanguardas artísticas. Para o abrir, dificilmente haveria melhor exemplo do que Don’t Look Back (que também dá o título ao ciclo), o filme de D. A. Pennebaker sobre a digressão britânica de Bob Dylan, em 1965. Pennebaker, provavelmente sem sequer o suspeitar, faria história logo nos primeiros 2’10”: ao som de "Subterranean Homesick Blues", (ver aqui também) numa rua de edifícios em obras, Dylan exibe e deixa cair, um a um, cartões com palavras e fragmentos manuscritos retirados do texto da canção. Com década e meia de antecedência, a sequência contém já os rudimentos da estética do videoclip, forma autónoma de micronarrativa audiovisual que só se consolidaria em 1981, com a MTV. A canção surgira em 1965 em Bringing It All Back Home, o álbum “escandaloso” no qual Dylan, acompanhado por uma banda eléctrica, abalou a ortodoxia folk. (daqui; segue para aqui)

25 August 2026

"Pawcio"
 
(sequência daqui) O resultado é uma linguagem sonora que desafia convenções sem perder a ligação às origens. No álbum de estreia, Prymat, reinventam as danças tradicionais polacas, transportando-as para um universo de sintetizadores, batidas eletrónicas e texturas contemporâneas. É um disco vibrante, excêntrico. Mais do que uma proposta estética, o Tercet Imperial apresenta uma visão artística que afirma a importância do local e da memória cultural que encontra a sua principal fonte de inspiração nas tradições rurais da região de Radom, evocando o folclore das aldeias, florestas e campos do interior da Polónia. Ao mesmo tempo, rejeita a ideia de que a música ancestral só pode existir através de instrumentos históricos, entregando-a uma geometria altamente variável de timbres electro-acústicos que constroem uma ponte entre passado e futuro e recuperam toda a sua força ritual.

22 August 2026

PSICADÉLICO IMPERIAL
Jan Emil Młynarski e Piotr Zabrodzki, conhecidos pela actividade desenvolvida nos Oberkas Travel - quarteto de músicos da cena alternativa de Varsóvia (os dois anteriores mais Piotr Domagalski, Mateusz Niwiński) - juntaram-se à cantora Joanna Sztucka (discípula da lendária Maria Siwiec) para reimaginar a música tradicional polaca. Eles tocam oberkas, uma dança popular local e, agora que regressam com o Tercet Imperial, voltam a explorar esse universo e, desta vez, rompem com a instrumentação tradicional, preservando apenas o núcleo rítmico da dança. Młynarski ocupa-se da bateria eletrónica, enquanto Zabrodzki recria o papel do violino e do acordeão através de sintetizadores que cruzam timbres psicadélicos e electrónica experimental. Młynarski faz convergir influências que vão dos ritmos angolanos às músicas da América do Sul e ao jazz, enquanto Zabrodzki oscila entre a recriação fiel das melodias tradicionais e momentos de desmedida improvisação e abandono quase free. (daqui; segue para aqui)

"Lesie"

19 August 2026

"Gas Lights" / "Seanhamac Tube Station" / "Sailor’s Wife" / "Lovely Bann Water" 

(sequência daqui) O álbum de estreia da banda, Long Live Brown Wimpenny, começa, então, com uma versão de uma melodia de violino do início do século XIX chamada "Gas Lights", muito provavelmente composta para celebrar os primeiros candeeiros de rua a gás do mundo, instalados na Chapel Street, em Salford, em 1806, e, a seguir, "The Sheffield Grinder" remonta à década de 1860, quando as más condições de trabalho na indústria siderúrgica local levaram a uma série de protestos (os "Sheffield Outrages"), que acabaram por ser reprimidos por um inquérito governamental corrupto. Oriundos de diversas bandas de pós-punk e rock experimental, os Brown Wimpenny encontraram formas várias de experimentação sonora, testando os limites dos instrumentos que escolheram - banjo, violino, flauta, acordeão, eufónio ou contrabaixo - evocando, por vezes deliberadamente, o ruído de velha maquinaria ou o rangido de navios num porto.

17 August 2026

EM MEMÒRIA DO VELHO BROWN
Segundo conta Anna Korbel (bandolim, trompete e voz), foi tudo muito instintivo: "Perguntei simplesmente à minha irmã, Jess (que toca violino e eufónio), se não lhe apetecia formar uma banda folk e ela disse que sim. Isso foi em 2023". Sem grandes delongas, no domingo a seguir, juntaram-se-lhes Seth Lockwood (banjo tenor) e Archie Barker (bandolim). Voltaram a encontrar-se uma semana depois e, novamente, no domingo seguinte. A cada encontro, o número de participantes aumentava. "A certa altura, éramos 25", conta Korbel à "Songlines", rindo, incrédula. Na verdade, fixaram-se nos 11 actuais, tendo ido rebuscar o nome da banda ao tetra-avô de Lockwood, Brown Wimpenny: nascido em meados do século XIX, cresceu numa quinta no West Yorkshire e emigrou para os EUA, onde trabalharia como motorista em Brooklyn. Chris Bright (violino) acrescenta: "Manchester tem uma forte cultura folk, há uma grande diáspora irlandesa e muitas sessões nos pubs, uma das melhorees era no Peveril of the Peak. Estávamos sempre lá caídos". (daqui; segue para aqui)
 
"O’Keeffe’s" / "Farewell to Whalley Range" 

22 April 2026

"Foreign Land" 

(sequência daqui) Marichka Marczyk - música, médica militar no 3º batalhão de tanques das forças ucranianas, jornalista e etnomusicóloga - não seria capaz de se deixar imobilizar: recorrendo a um reportório de canções populares tradicionais e "de protesto" envolvidas em polifonias vocais e ensembles de cordas e ao apoio ocasional do vocabulário pop, jazz e tango, Songs of Stolen Children pelas Daughters of Donbas (isto é, Marichka e outras co-conspiradoras) é a extensão contemporânea dos vetustos kobzars (bardos itinerantes ucranianos que cantavam acompanhados por instrumentos de cordas, como a kobza ou a bandura, preservando a história através da canção, na qualidade de guardiões da memória colectiva). "Foi precisamente por dizerem a verdade que os kobzars foram quase exterminados pelos comunistas na década de 1930" declarou Marichka à "Songlines". "E é por isso que, às vezes, somos chamadas kobzars modernos. Porque levamos a verdade, sem censura, ao mundo".

14 April 2026

"Suçum Nedir"
 
(sequência daqui) Foi assim que a rica discografia de 5 álbuns, dos Altın Gün se foi constituindo e que, mesmo agora que, na banda, reduzida a quinteto, resta apenas um elemento de ascendência turca (na verdade, a maioria apenas cresceu nos bairros turcos de Amesterdão), ela continua a enriquecer-se. Até porque, desta vez, Garip ("estranho", em português) tem como fonte as canções do trovador folk ashik, Neşet Ertaş (1938–2012), cantadas com o acompanhamento de bağlama, um alaúde tradicional aqui electrificado. O perímetro sonoro Altın Gün fica assim delimitado pela ácida energia de "Neredesin Sen", o arabismo lounge de "Suçum Nedir", o chamamento de muezine lisérgico de "Zülüf Dökülmüş Yüze", o labiríntico e sepentino psicadelismo de bazar de "Gel Yanıma Gel" ou o quase Bollywood de "Gönül Dağı", cortesia da Stockholm Studio Orchestra.

02 April 2026

21 March 2026

Goblin Band: Folk Songs, Roman Ruins and Mudlarking in the City of London

19 March 2026

 
(sequência daqui) "). Daí, resultam maravilhosas recriações como, no álbum de estreia - A Loaf Of Wax (Live From MOTH Club) -, entre muitas outras, a de "The Bitter Withy" acerca de um Menino Jesus assassino a quem a Virgem Msria castiga chicoteando-o com uma chibata de salgueiro. Nada de mais para os Goblins: "A música folk é a nossa história. É a história do nosso país, da nossa terra, das nossas comunidades, de uma forma que está fora dos livros de história. Tudo o que é narrado na música folk é um reflexo de uma história política. As nossas vidas quotidianas estão constantemente ameaçadas pelo que está a acontecer na política. Tem sido assim para as pessoas desde sempre – pessoas queer, pessoas de cor. A ideia de que se pode separar a política do resto da vida é uma ilusão de privilegiados".

17 March 2026

Ashley Hutchings - "Monck's March"
(do álbum Son Of Morris On, na íntegra aqui; ver aqui e aqui)     

16 March 2026

EDUCATIVAS EPIFANIAS


Os goblins são diminutos seres grotescos de bastante mau feitio, habitantes de zonas subterrâneas que terão emergido na cultura popular europeia durante a Idade Média, deixando-se avistar ainda hoje em filmes como Labirinto (1986), Spider Man (2002) ou nos diversos episódios das sagas de Harry Potter e O Senhor Dos Anéis. Deles, a britânica Goblin Band herdou uma certa tendência para o culto da marginalidade deliberada optando por apresentar-se exclusivamente em espaços favoráveis à sua dupla qualidade de jovens músicos folk e cidadãos queer. Alice Beadle (violino e flauta de bisel), Gwena Harman (órgão de fole e bateria), Sonny Brazil (acordeão e concertina) e Rowan Gatherer (sanfona, e flauta de bisel), descobriram-se num percurso que, da música antiga e medieval, passando por John Playford e o Compleat Dancing Master, os conduziria a uma série de educativas epifanias tais que Martin Simpson, a Albion Band, os Watersons ou Martin Carthy (que, fã instantâneo, deles diria “Eles sabem tocar, sabem cantar e são destemidos. Atiram-se a versões que nós éramos demasiado pedantes para tocar e transformam-nas em furiosas desbundas"). (daqui; segue para aqui)
 
Goblin Band perform 15th century folk song 'The Bitter Withy'