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21 December 2025

LIMPAR O PÓ AOS ARQUIVOS (C
 
(com a indispensável colaboração do R & R

(clicar na imagem para ampliar)
 
(Lonely Is An Eyesore, na íntegra aqui)
Womad - Talking Book Volume Three: An Introduction To Europe, na íntegra aqui)

22 April 2021

SEGREDOS, SONHOS E MEDOS

Quando, em 1980, Ivo Watts-Russell e Peter Kent fundaram a 4AD, o plano era manter-se em actividade durante 10 anos e, no último dia de 1990, fechar as portas. Ainda esse dia estava longe de chegar e já Watts-Russell – o mais novo de oito irmãos de uma linhagem aristocrática arruinada –, na segunda metade dos anos 80, confessava ser incapaz de virar costas às bandas (Cocteau Twins, This Mortal Coil, Dead Can Dance, Clan of Xymox, Bauhaus, Modern English, Birthday Party, Xmal Deutschland, Colourbox, The Wofgang Press, Momus/The Happy Family...) que haviam transformado a editora num dos mais luminosos faróis da cena "indie" britânica. Segundo Martin Aston, autor de Facing The Other Way: The Story Of 4AD (2013), o sucesso da 4AD assentou no desprendimento comercial de Ivo Watts-Russell – que, logo em 1981, ficaria sozinho à frente da editora – e numa inclinação estética que privilegiava “sentimentos e segredos ocultos, sonhos ansiosos e medos sufocados, esperança e raiva, criados por uma trupe de 'beautiful freaks' que não desejavam ser vistos”.

O horizonte alargar-se-ia até à outra margem do Atlântico onde iriam descobrir os Pixies, Throwing Muses e Breeders mas, em 1999, Ivo venderia a sua quota da editora à Beggars Banquet – para a qual, desde o início, a 4AD fora pensada como incubadora de novas bandas – e exilar-se-ia até hoje no deserto do Novo México. A partir de 2007 com Simon Halliday no comando das operações, sem abdicar significativamente do perfil original, o catálogo foi-se diversificando e alargando (Mountain Goats, TV On The Radio, The National, Scott Walker, Beirut, Bon Iver, Tune-Yards, St. Vincent, Efterklang, Grimes, Future Islands, U.S. Girls, Holly Herndon, Aldous Harding, Big Thief), chegando, agora, o momento de celebrar quatro décadas de existência com a publicação de Bills & Aches & Blues (primeiro verso de "Cherry-Coloured Funk", dos Cocteau Twins) uma espécie de recuperação actualizada do conceito This Mortal Coil no qual bandas actuais revisitam temas dos “clássicos” 4AD. (daqui; segue para aqui)

02 June 2017

SOMBRIA E ASSUSTADORA



Angelo Badalamenti deverá estar eternamente grato a Ivo Watts-Russell, o patrão da 4AD, por, sem sequer se ter apercebido disso, lhe ter proporcionado a oportunidade de tornar-se o compositor às ordens de David Lynch. Na verdade, em Blue Velvet (1986), Lynch desejava muito ter na banda sonora não apenas "Song To The Siren" (de Tim Buckley), na interpretação dos Cocteau Twins para It’ll End In Tears (1984) – o álbum do colectivo multi-artistas da 4AD, This Mortal Coil –, como pretendia que os próprios Robin Guthrie e Elizabeth Fraser figurassem no filme. Watts-Russell, porém, não foi pobre a pedir pelo licenciamento e essa hipótese foi abandonada (seria finalmente concretizada em Lost Highway, 1997, embora sem Robin e Liz no ecrã), abrindo a porta a Badalamenti.



Recrutado como "coach" vocal de Isabella Rossellini e responsável pela totalidade da BSO – que incluiria também "In Dreams", de Roy Orbison’, "Love Letters", de Ketty Lester’, e "Blue Velvet", de Bobby Vinton –, para ela, em substituição de "Song To The Siren", escreveria "Mysteries Of Love" (com texto de Lynch) e a restante música que, segundo a vontade do realizador, deveria ser “inspirada em Shostakovich, muito russa, o mais bela possível, mas, ao mesmo tempo, sombria e assustadora”. Rossellini acabaria por desistir de cantar e seria Julee Cruise, um vozeirão da Broadway devidamente domesticado e anestesiado por Badalamenti, a interpretá-la. O trio funcionou tão bem que, sem pausa, daria origem ao primeiro álbum de Julee Cruise, Floating Into The Night (1989), matriz tanto do "musical" experimental Industrial Symphony No. 1: The Dream of the Broken Hearted (1990), apresentado por duas vezes na Brooklyn Academy Of Music de Nova Iorque, como, sobretudo, da memorável banda sonora da série Twin Peaks para cuja atmosfera "noir"-narcótica contribuiu com "Falling", "Rockin' Back Inside My Heart", "Into the Night", "The Nightingale" e "The World Spins". Já na longa metragem Twin Peaks: Fire Walk With Me (1992), o triângulo Lynch/Badalamenti/Cruise apenas regressaria num tema, "Questions in a World of Blue".