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05 February 2026

"The Cute Things" (legendas disponíveis)
 
(sequência daqui) Entretenham-se, então com “alien offshoot mushroom, going the gym to get slim”; “my dream house is a negative space of rock”, “when I was a child I wanted to be a horse, eating onions, carrots, celery”, “pilgrimage, private life, mortality, deep shock felt in the body", "a shell fallen down and dead, curled, like a heavy downy baby goose”, que ela permanecerá "waiting inside a talcum powder box, for you to lift the lid and discover me and lift me gently into your palm". No plano de acção estética mantêm-se a concisa instrumentação pós-punk - guitarra, Tom Dowse; baixo, Lewis Maynard, bateria, Nick Buxton, e a recém-acolhida Cate Le Bon na missão de produtora - em paleta sonora rigidamente controlada, com a voz de Florence, plana e declarativa, enquanto eixo central: ela soa menos como uma observadora distanciada e mais como alguém que trata de documentar cautelosamente os pensamentos em tempo real, através da elaboração de listas, recolha de fragmentos e detalhes aparentemente mundanos. (segue para aqui)

02 February 2026

CERCADOS PELA LINGUAGEM
No "Guardian", Alexis Petridis encontrou aquela que é provavelmente a melhor forma de caracterizar o papel da voz de Florence Shaw nos Dry Cleaning: "É um pouco como dizia o Stuart Moxham dos Young Marble Giants acerca da Alison Statton: 'Ela canta distraidamente como se estivesse na paragem, à espera do autocarro". Na verdade, Florence mal chega a cantar: da colagem de cut-ups e spoken word a que quase apaticamente se entrega qual Laurie Anderson dadaísta, resulta o que, ao longo dos três álbuns publicados - New Long Leg (2021), Stumpwork (2022) e, agora, Secret Love (2026) - foi encarado como poesia post-punk, sismogramas beatnick e surreal excelência idiossincrática de poetas punk londrinos. Nada, porém, de estratégias furtivas, jogos de dissimulação ou evasão. Apenas uma questão de acreditar numa ética do trabalho peculiar: "I make sure there are hidden messages in my work”. E de se manter fiel ao método que assegura que "the ordinary is worth mining for the extraordinary". (daqui; segue para aqui)
 
"Cruise Ship Designer" (legendas disponíveis)

28 May 2022

Amber Coffman - "Run Run Run"
 
(sequência daqui) Seria, justamente, isso que, paralelamente ao preconceito que a lançaria para todo o sempre nas labaredas da Inquisição pop, a transformaria em farol das movimentações punk, pós-punk e new wave com discípulos e fãs confessos como Thurston Moore, Kim Gordon (Sonic Youth), B-52, Kathleen Hanna (Bikini Kill), Courtney Love, RZA ou todos os que viriam a participar nos álbuns de homenagem Every Man Has a Woman (1984) – Elvis Costello, Harry Nilson, Rosanne Cash, Roberta Flack –, Yes, I’m A Witch (2007) – Peaches, Le Tigre, DJ Spooky, Cat Power, Flaming Lips – e Mrs. Lennon - Canções de Yoko Ono (2010) – só com intérpretes brasileiras. Aos quais deverão acrescentar-se aqueles que, agora, sob a produção de Ben Gibbard (Death Cab For Cutie), em Ocean Child – Songs of Yoko Ono, a 18 de Fevereiro, lhe ofereceram este valioso presente pelo seu 89º aniversário. Muito em particular, David Byrne com os Yo La Tengo, Sudan Archives, Sharon Van Etten, Thao, U.S. Girls e Stephin Merritt mas também Flaming Lips, Amber Coffman e Deerhoof.

19 May 2021

 
(sequência daqui) Após dois óptimos EP de aquecimento, New Long Leg revela por inteiro a personagem de uma bibliotecária arquivista da banalidade quotidiana, operando sobre a realidade como o faria uma tesoura dadaísta a partir de matéria-prima-Beckett, em neutro registo "sprechgesang" a escorregar para "spoken-word", algo como um "morphing" vocal de Kim Gordon e Laurie Anderson. Ela diz "I've come here to make a ceramic shoe, and I've come to smash what you made, I've come to learn how to mingle, I've come to learn how to dance, I've come to join the knitting circle" e o trio masculino – comandado na sombra pelo ubíquo John Parish – oferece-lhe uma moldura de enérgico pós-punk, pele, osso e nervo. Ela pergunta “Would you choose a dentist with a messy back garden like that? I don’t think so” e Dowse quase inventa uma melodia. Em menos palavras: “Do everything and feel nothing”.

02 May 2020



Fazi - Dead Sea (álbum integral aqui; ver também aqui)

(com a colaboração do correspondente do PdC em Pequim)  

29 April 2020

OS BRAVOS DE DOKKUM

  
A Frísia situa-se no extremo norte da Holanda e Dokkum no extremo norte da Frísia. Sobre a Frísia podemos saber que o idioma local é a língua continental mais próxima do Old English medieval e que foi nela que a holandesa Nynke Laverman – natural de Leeuwarden, na Frísia – gravou dois álbuns de fado. Acerca de Dokkum, é esta a altura certa para travarmos conhecimento com os prodigiosos Elias Elgersma (guitarra), Jaap Van der Velde (baixo) e Erik Woudwijk (bateria), aliás, The Homesick, três dos 12 500 habitantes da cidade onde São Bonifácio, no século VIII, após ter tentado em vão converter os frísios ao cristianismo, por mais que, segundo a lenda, se defendesse brandindo uma Bíblia, não evitou ser assassinado. Seria infinitamente justo que, a partir de agora, o mundo, em vez do bonifacial episódio, passasse a recordar-se de Dokkum pelos bravos feitos de Elgersma, Van der Velde e Woudwijk: The Big Exercise – segundo álbum do trio depois da estreia, Youth Hunt (2017) – é o tipo de proeza musical ao alcance de muito poucos. 



Eles juram que não seriam o que são se não tivessem escutado Meredith Monk e Joan La Barbara e encaram o título do disco, retirado de uma passagem da biografia de Scott Walker, Deep Shade Of Blue, como uma vénia perante o mestre. Mas a verdade é que, neles, tudo soa muito mais a reinvenção e enérgica dilatação da veia sonora antes explorada pelos XTC, Wire, Animal Collective e Field Music: o microscópico trabalho de relojoaria das guinadas harmónicas, rítmicas e melódicas, o enlace e desenlace de nós cegos, da estridência para o pós-punk de câmara, as piruetas dos hoquetus vocais para os vertiginosos riffs em movimento circular, o pano de fundo tão barrocamente exuberante quanto disciplinadamente austero, o incansável dínamo da bateria de Woudwijk, tudo aponta nesse sentido. Ou, então, como eles dizem, será apenas uma questão de conduzir o experimentalismo tão longe quanto possível, camuflado sob a aparência de subordinação aos protocolos pop. Que continuem a fazê-lo por muito tempo.

04 February 2020

21 January 2020

DILETANTES GENIAIS

  
Faltava ainda quase uma década para que a Alemanha deixasse de estar dividida em Leste e Oeste mas, no início dos anos 80, com polos em Dusseldorf, Hamburgo, Colónia, Hagen e, naturalmente, Berlim, um desassossego subcultural agitava músicos, artistas, gente do cinema, da fotografia, da moda e do design, oxigenada pelas correntes de ar fresco que sopravam do pós-punk novaiorquino e britânico. Foi por essa altura – pouco depois de David Bowie ter gravado a “trilogia de Berlim” e em simultâneo com a chegada à cidade do Spree de Nick Cave e dos Birthday Party – que travámos conhecimento com Einstürzende Neubauten, Die Tödliche Doris, Sprung Aus Den Wolken, Der Plan, Freiwillige Selbstkontrolle (F.S.K.), Palais Schaumburg, Ornament & Verbrechen, e Deutsch Amerikanische Freundschaft (D.A.F.), praticantes de abalos sonoros que tanto se alimentavam do futurismo, dadaismo e situacionismo como dos Cabaret Voltaire, Throbbing Gristle, Glenn Branca e William Burroughs. 



O seu momento histórico ocorreria a 4 de Setembro de 1981, quando, no Tempodrom de Berlim Ocidental, teve lugar o festival “Geniale Dilletanten” (Diletantes Geniais), ponto de encontro de radicais livres, agitadores e provocadores vários e futura designação geracional do informal movimento. No interior dele, Gudrun Gut, Bettina Koster, Beate Bartel, Christine Hahn, Manon P. Duursma e Susanne Kuhnke, aliás, Malaria!, oriundas de incubadoras artísticas diversas mas absolutamente enxutas de qualquer sarro académico, foram um colectivo feminino de relativamente curta duração em cujo acelerador de partículas colidiam desgovernadamente o punk, techno, jazz, Kurt Weill, batida motorik, Bowie, disco e Nico. Compiled 2.0/Full Emotion – reeditado em vinil duplo – é uma preciosidade a (re)descobrir.

17 December 2019

A CRIATURA DENTRO DELE


Não é todos os dias que se tem oportunidade para conversar com alguém que afirma descender de “34 reis indianos”, dá pelo nome de Ganesh Seshadri (“Jovem Deus da Cabeça de Elefante, Cavaleiro da Serpente Cósmica”, jura ele ser a tradução exacta) e que, após uma cirurgia que o salvou de um aneurisma cerebral, confessa-se habitado por uma criatura que, praticamente sem qualquer intervenção voluntária dele, lhe escreve as canções. Eis, pois, Bid, fundador dos míticos Monochrome Set, luminárias eruditas do pós-punk britânico, agora recém-autor do belíssimo Fabula Mendax, supostamente inspirado num manuscrito medieval de Armande de Pange, uma seguidora de Joana D’Arc. Ou talvez não. 

    Tenho de lhe dizer que procurei por Armande de Pange e pelo seu manuscrito em todas as frinchas da Web e não consegui descobrir nada... 
(risos) Não é possível encontrá-los na Internet. As pessoas que os possuem não desejam que eles estejam acessíveis. São pessoas idosas que não se importam que eu escreva canções inspiradas nesses manuscritos mas não tencionam revelá-los publicamente. Entre muitas outras coisas extraordinariamente interessantes, limitam-se a passá-los de geração em geração, no interior da família. (risos) 

    Segundo a lenda, teve acesso a eles através da sua mulher, originária de Metz, na Lorena... 
É verdade. Ela é de uma das mais antigas famílias de Metz. Possuem imensos livros antigos e manuscritos que não pretendem partilhar com o mundo exterior. (risos) No Oriente, esta é uma atitude muito comum. A minha própria família, na Índia, não tem Internet. Descendo de 34 reis mas não desejamos que isso esteja presente na Internet (risos) Na verdade, a história de Armande de Pange não é uma narrativa sequencial, está misturada com imensos detalhes aborrecidos, registos pessoais, de propriedades... Armande de Pange não é uma figura destacada dessa época. Ela partiu de Metz, suponho que dirigindo-se a Itália, e, ao passar por Nancy, ouviu falar de Joana D’Arc o que a fez encaminhar-se para Oeste, e ver-se envolvida na guerra. 



    Fui investigar e, na verdade, existe na Lorena, uma aldeia com o nome de Pange onde vivem actualmente 877 pessoas... 
Sim, mas o nome dela é, seguramente, um pseudónimo. “Armande” provém do alemão e significa “guerreiro” e Pange não passava de um castelo já em ruinas muito antes de ela ter passado por lá. Foi um nome de que ela se apropriou após ter fugido de Metz e os manuscritos nunca revelam qual seria o verdadeiro. Deveria vir de uma família nobre e ter tido uma boa educação uma vez que fazia citações em latim. Pelo caminho, procurou sempre evitar cidades grandes até ter chegado a Domrémy, o local de onde Joana D’Arc era originária. (risos) 

    Acha que é possível acreditar numa fábula que se auto-qualifica como “mendax” (mendaz, mentirosa)? 
Mas isso está no próprio manuscrito escrito por ela!...

    Ah, pronto...
É uma citação que ela faz de um poeta romano contemporâneo de César – não me recordo agora do nome dele... –, também cita Celso... não em grego mas em latim. 

    As suas Joana D’Arc e Armande de Pange vê-as mais como figuras dos filmes de Carl Dreyer ou de Luc Besson (com Milla Jovovich)? 
A verdade é que, no álbum, só há uma canção sobre Joana D’Arc – "La Chanson de la Pucelle" –, todas as outras são sobre Armande. Quando lemos manuscritos antigos (risos), não aspiramos o odor dos filmes modernos. As personagens parecem-nos normais mas não são, Joana D’Arc é louca! É muito difícil escrever sobre ela. O David Byrne compôs uma ópera sobre Joana D’Arc que é sobre tudo menos sobre ela. É uma personalidade completamente extrema, totalmente obcecada, que se imagina santificada e é seguida por imensa gente. 

    Vem tocar a Coimbra que tem uma das mais antigas universidades europeias fundada no século XIII e que, provavelmente, a Armande de Pange gostaria de ter frequentado... 
(risos) Gosto muito de Portugal e da Galiza. Há até um escritor galego, Alfonso Castelao, com uma escrita simultaneamente muito negra e suave que não me canso de recomendar. Sempre que viajo para esses lados, apetece-me permanecer alguns dias mas acabam por me marcar os voos de ida e volta sem espaço para isso, o que é uma pena. 



    Depois de Platinum Coils, após ter sobrevivido a um aneurisma, declarou que as canções não eram escritas por si mas pareciam escrever-se a elas mesmas vindas de uma fonte subconsciente qualquer... 
O aneurisma, realmente, libertou-me. Agora, não consigo parar de escrever. Não vem do subconsciente, não tem nada a ver com a consciência mas com uma outra entidade diferente dentro de mim. Não tenho nenhuma comunicação directa com ela. Quando aprendemos a conduzir, quando praticamos um desporto ou nos tornamos militares, até certo ponto, essas coisas apossam-se de nós. Mas isto é diferente: essa criatura é uma entidade criativa diferente que emerge através daquela parte do cérebro que lida com o pensamento lateral. Essa coisa dentro de mim, é capaz de pensar serenamente enquanto, por fora, eu tremo. Como quando estamos cercados por uma matilha de lobos e há uma parte de nós que tem de imaginar uma forma de lhes escapar. Não é, de todo, uma atitude consciente. Claro que posso aprender a lidar melhor com as palavras, a tocar guitarra melhor, mas, essencialmente, permito que as coisas fluam e vejo-as acontecer, vejo-me a compor. 

    Do ponto de vista especificamente musical, também se apercebeu de alguma transformação? O que tudo, verdadeiramente, significou foi que, agora, sou capaz de identificar a presença da criatura e sei como a atrair em vez de a suprimir. A criatura sente-se muito feliz por saber que irá ser libertada. 
     
    Deu algum nome a essa criatura? 
A coisa. A coisa dentro de mim. 



    Em "Summer of the Demon", começa num registo muito próximo de Jacques Brel e, a certa altura, passa para o de David Bowie... Terá acontecido um curto-circuito na “coisa”?... 
(risos) É possível... A minha voz, especialmente, ao vivo, é boa e nunca sei para onde poderá dirigir-se, o que não é um problema. Mas o que se passa com os Monochrome Set é que as pessoas nunca estão à espera de que nos pareçamos com nada, estão habituadas a que nos vamos transformando, o que também não é algo em que percamos muito tempo a pensar. 

    Faz questão de escrever com uma caneta de tinta permanente. Sente que isso é uma influència positiva no processo? 
A escrita flui muito melhor, muito naturalmente, nem preciso de pensar nisso. Com qualquer outra caneta... tenho de me esforçar. Mas também é necessário dizer-lhe que uso diversos tipos de tinta e de várias cores. Por isso, talvez exista alguma influência em consequência de estar a escrever com tinta azul, verde, vermelha ou lilás... Em viagem, não levo comigo as canetas de tinta permanente e ter de escrever com esferográficas é logo um esforço enorme. 

    Tem uma caligrafia bonita? 
(risos) Se quiser, posso ter. Se não, tenho apenas uma caligrafia normal.

07 October 2019

ESQUERDA

  
Eddie Zinn, judeu austro-húngaro, conheceu Jenny Rabinowitz, judia siberiana de Irkutsk, na fábrica onde ambos, imigrantes nos EUA, trabalhavam. Mal o filho, Howard, entrou para a escola, cêntimo a cêntimo, juntaram o necessário para lhe oferecerem os 20 volumes das obras de Charles Dickens. A semente iria germinar e Howard Zinn que, após concluir o ensino secundário, trabalharia como estivador, só terminada a segunda guerra mundial haveria de se licenciar em História. Foi a participação na guerra e, em particular, no bombardeamento criminosamente desnecessário de civis em Royan, que o conduziu ao pacifismo e à oposição militante às guerras no Vietname e no Iraque, à luta contra a ocupação da Palestina e pelos direitos cívicos dos negros. Mas seria A People’s History of the United States (1980) – a História contada sob o ponto de vista dos povos indígenas, dos escravos, dos trabalhadores, das minorias raciais, das mulheres e da luta de todos eles contra o poder – que, de apenas “something of an anarchist, something of a socialist, maybe a democratic socialist”, transformaria o professor da universidade de Boston no mais notável representante dos que narram a História “vista de baixo e não de cima”



Quarenta anos depois, os Gauche, uma banda oriunda da vibrante e politizada cena de Washington DC, intitularam o álbum de estreia A People’s History of Gauche. Não por acaso: “Desde a adolescência, simpatizei com a esquerda e com políticas radicais e o livro de Zinn era um texto seminal para muitos dos meus colegas. Mas, curiosamente, embora sempre o tivesse na lista de obras a ler, só o fiz quando procurávamos um título para o álbum. E pareceu-nos soar muito bem”, diz Daniele Yandel que, com Mary Jane Regalado, Adrienne CN Berry, Jason P. Barnett, Pearie Sol e Laurie Spector, constitui o grupo que, no nome, associa os conceitos de “esquerda” e “desajeitado”, coisa próxima do sentido original de “punk”. Em rigor, remetendo mais para o pós-punk radical e feminista – Slits, Raincoats, Delta 5, Bush Tetras, X-Ray Spex, ESG –, filão ainda rico de minério por extrair. Incluindo cinco canções regravadas de uma primordial cassete de apresentação (Get Away With Gauche, 2015) e seis novas, é um colorido carrocel de agit-prop (“Income, always think about payday, always waiting on wages, always think about systems”) e denúncia (“They see you on all kinds of screens, they want you not to disagree, they scan you for diseases”) vertiginosamente irado e dançável.

10 September 2019

UMA GRANDE DESORDEM 



“Reina uma grande desordem debaixo dos céus” afirmou Mao Tsé-Tung, como igualmente o diriam milhares de outros, em todos os séculos e todas as latitudes, embora só ele tenha acrescentado a conclusão “e a situação é excelente”. Hoje, poucos discordarão que a situação é tudo menos excelente e, fechando um pouco o ângulo de visão – isto é, folheando o último número da “Wire” –, haverá até motivos para imaginar que, o primeiro verso do “Uivo” de Allen Ginsberg (“I saw the best minds of my generation destroyed by madness”) continua perfeitamente actual. Ou, pelo menos, uma inquietante desordem invadiu as suas mentes. Há 5 anos, o crítico de música e fundador da ZTT, Paul Morley, tivera uma revelação divina e anunciara ao mundo que “A pop é do século passado. O futuro é da música clássica!” Agora, num dossier da revista dedicada às “adventures in sound and music”, cujo tema é a “celebration of music’s love affair with excess, overload, lavishness and volume”, o habitualmente astuto Simon Reynolds denuncia os “preconceitos pós-punk” e entrega-se à reavaliação do “solo de guitarra”, confessando ter sucumbido ao seu “requinte ordinário”



Como atenuantes para o pecado original, alega uma juventude sujeita à doutrinação do "less is more" (“O minimalismo não era apenas uma preferência estética mas uma atitude moral e ideológica: um nivelamento igualitário, permitindo a entrada de amadores com uma mensagem urgente mas musicalmente incapazes”) e condicionada pela aversão à guitarra como símbolo fálico (“Se apoiávamos a revolução feminista no rock (...), tínhamos de nos opor a exibições de virtuosismo masturbatório. Os solos eram, se não abertamente fascistas, pelo menos, um retrocesso reaccionário em direcção ao machismo da guitarra-enquanto-arma”). E conta que terá sido ao escutar "Purple Haze", de Jimi Hendrix, e "Marquee Moon", dos Television, que as suas convicções começaram a vacilar: a partir daí, descobriria Neil Young, os Butthole Sufers, Dinosaur Jr, Meat Puppets, Royal Trux, e, “numa derradeira convergência”... os Queen e “o esplendor da guitarra de Brian May, uma ideia de beleza de um camponês ou de um ditador. Anti-punk até à medula, talvez a última e verdadeira emergência da rebeldia rock no show business”. Haverá alguma forma de fazer ver a Morley e Reynolds que, embora as oscilações do gosto façam tanto parte da história do mundo quanto a guerra e a paz, para renegar algo, não é absolutamente imprescindível abraçar o pior do seu contrário nem convocar para o combate dos tribalismos estéticos Bach vs Abba ou The Fall vs Soft Machine?

30 July 2019

FORA DA JAULA 


“O que é importante é preservarmos a nossa voz autêntica. Ser verdadeiros para com nós mesmos. Pôr de quarentena a expressão ‘apropriação cultural’. Se me apetecer fazer rap... claro que vou fazer rap. Posso vestir-me como um monge... ou um junkie... enquanto faço rap. A música é uma arte. Divirtamo-nos com ela. Não tolero que me venham dizer que não posso cantar de determinada maneira porque não nasci em Timbuktu. Temos de exprimir o que sentimos. Se somos camaleões, deixemos que as nossas cores mudem e brilhem. Incorporemos novas linguagens. O que quero dizer é que resistirei sempre à ideia de que não posso jogar com formas de expressão que não provenham da minha educação ou do meu ambiente próximo. O mundo é a nossa ostra e a arte é liberdade”, dizia Jesca Hoop, há três anos, à “Folk & Tumble”. Na altura, a propósito de Love Letter For Fire, uma colaboração com Sam Beam, Hoop falava apenas do esbatimento de fronteiras entre a folk e a pop ter-se transformado numa constante da sua música. 



Mas o assunto estende-se, inevitavelmente, ao larguíssimo espectro de proibições (musicais, literárias, iconográficas, étnicas, de género) com que as inquisições do tribalismo identitário, imaginando-se intrépidas combatentes contra a pilhagem cultural do Ocidente face ao resto do mundo, não fazem mais do que – como poucas semanas após a entrevista de Jesca Hoop, a escritora Lionel Shriver alertava numa conferência em Brisbane – “abraçando identidades de grupo estreitas, encerrar-nos nas próprias jaulas em que nos querem aprisionar”. Não falando dos 40 000 anos de “apropriação cultural” a que chamamos História da Música, recordemos só que muitos dedos acusadores se viraram, por exemplo, para Paul Simon, Talking Heads ou Vampire Weekend, e, agora, dificilmente deixarão de o fazer em relação às Trash Kit. Trio feminino com as Slits, Au Pairs, Raincoats e Talking Heads a correr-lhes nas veias e Thomas Mapfumo a comandar cada dedilhado da guitarra de Rachel Aggs, Horizon é um magnificamente hiperactivo exercício de telepatia – "We play in tune not touching, we play in time not listening" –, com o Zimbabwe e Soweto num canal e o pós-punk no outro. Dirigido (mas não em exclusivo) a “young, queer and mixed race people”, vitaminado pelas ferroadas do sax de Dan Leavers (The Comet Is Coming) e pela harpa de Serafina Steer, nas gloriosas descolagens afro-psych-e-tudo-à-volta de "Disco", "Coasting" e "Every Second", avança destemido para o inferno dos “apropriadores”.

02 July 2019

POSSIBILIDADES INFINITAS

  
As “clearance villages” foram aldeias das Highlands escocesas que, entre 1750 e 1860, se povoaram de camponeses expulsos das terras que habitavam pelos grandes proprietários rurais, ávidos de expandir as suas quintas. Inicialmente destinados a trabalhar nas indústrias mineira e piscatória, muitos ver-se-iam forçados a emigrar, o que a “fome da batata” de meados do século XIX acentuaria ainda mais. Badbea, um pedaço de terra agreste, íngreme e escarpada, debruçada sobre o Mar do Norte na costa leste de Sutherland, foi uma dessas aldeias: criada, por volta de 1800, por 12 famílias de Langwell desterradas por Sir John Sinclair, foi abandonada pelo último residente em 1911. Hoje, restam apenas ruinas, preservadas como atracção turística e um memorial das Highland Clearances. Mas, a 8 quilómetros dali, em Helmsdale, vive e trabalha Edwyn Collins, voluntariamente removido de Londres para a Escócia natal, onde, num terreno que pertenceu ao avô, edificou os Clashnarrow Studios, considerados, há dois anos, pela BBC “um dos 10 mais espantosos lugares do mundo para criar música”


Uma espécie de aplicação prática do lema “Rip It Up and Start Again”, a canção com que ele, em 1983, colocou os Orange Juice no mapa e, não por acaso, também um fundamental ensaio homónimo de Simon Reynolds sobre o pós-punk (2005). No quarto álbum a solo que publica após a tremenda hemorragia cerebral dupla que sofreu em 2005, Badbea está presente não apenas no título como na canção que o encerra: “Badbea, a ruined monument to life and death, Badbea, lean towards the wind, a fight for breath, hardship was the way in Badbea, desperate toil and hidden danger, tethered child, the rocks below, loss and heartbreak, never show”. Afinal, por muito que, em “Glasgow to London”, evoque o cinismo inicial – “Now I’m old I must admit I couldn’t give a fuck”, eco de ‘I Don’t Care’ (também presente em "Outside"), roubada aos Ramones nos primórdios –, a memória da “terra inóspita que a natureza devorou e por onde, em miúdo, costumava ir passear com o meu avô” não se extinguiu. A saborosa acidez cítrica de “All About You” (“The sun was a bright bikini yellow, the sky was a Wedgwood blue, the mood was unspeakably mellow, when you came and spoilt the view”) mantem-se igualmente mas, por todo o disco, paira ainda aquela espécie de optimismo mansamente desesperado de quando, há década e meia, despertou do coma e só conseguia balbuciar três palavras e uma frase: “yes”, “no”, “Grace” (o nome da mulher) e “the possibilities are endless”. Nunca serão verdadeiramente infinitas mas chegaram para mais um belo álbum acerca da ressurreição segundo Edwyn.