Eddie Zinn, judeu austro-húngaro, conheceu Jenny Rabinowitz, judia siberiana de Irkutsk, na fábrica onde ambos, imigrantes nos EUA, trabalhavam. Mal o filho, Howard, entrou para a escola, cêntimo a cêntimo, juntaram o necessário para lhe oferecerem os 20 volumes das obras de Charles Dickens. A semente iria germinar e Howard Zinn que, após concluir o ensino secundário, trabalharia como estivador, só terminada a segunda guerra mundial haveria de se licenciar em História. Foi a participação na guerra e, em particular, no bombardeamento criminosamente desnecessário de civis em Royan, que o conduziu ao pacifismo e à oposição militante às guerras no Vietname e no Iraque, à luta contra a ocupação da Palestina e pelos direitos cívicos dos negros. Mas seria A People’s History of the United States (1980) – a História contada sob o ponto de vista dos povos indígenas, dos escravos, dos trabalhadores, das minorias raciais, das mulheres e da luta de todos eles contra o poder – que, de apenas “something of an anarchist, something of a socialist, maybe a democratic socialist”, transformaria o professor da universidade de Boston no mais notável representante dos que narram a História “vista de baixo e não de cima”.
Quarenta anos depois, os Gauche, uma banda oriunda da vibrante e politizada cena de Washington DC, intitularam o álbum de estreia A People’s History of Gauche. Não por acaso: “Desde a adolescência, simpatizei com a esquerda e com políticas radicais e o livro de Zinn era um texto seminal para muitos dos meus colegas. Mas, curiosamente, embora sempre o tivesse na lista de obras a ler, só o fiz quando procurávamos um título para o álbum. E pareceu-nos soar muito bem”, diz Daniele Yandel que, com Mary Jane Regalado, Adrienne CN Berry, Jason P. Barnett, Pearie Sol e Laurie Spector, constitui o grupo que, no nome, associa os conceitos de “esquerda” e “desajeitado”, coisa próxima do sentido original de “punk”. Em rigor, remetendo mais para o pós-punk radical e feminista – Slits, Raincoats, Delta 5, Bush Tetras, X-Ray Spex, ESG –, filão ainda rico de minério por extrair. Incluindo cinco canções regravadas de uma primordial cassete de apresentação (Get Away With Gauche, 2015) e seis novas, é um colorido carrocel de agit-prop (“Income, always think about payday, always waiting on wages, always think about systems”) e denúncia (“They see you on all kinds of screens, they want you not to disagree, they scan you for diseases”) vertiginosamente irado e dançável.
04 November 2019
O QUE UM PAÍS JULGAVA SER
É verdade que ele já tinha declarado ser “um génio muito estável” e que, no início deste ano, a então secretária de imprensa da Casa Branca, Sarah Huckabee Sanders – qual irmã Lúcia em relação a Salazar –, anunciara que “Deus quis que Donald Trump fosse presidente”. Mas, quando The Seduction of Kansas, segundo álbum dos Priests, foi gravado, Trump ainda não tinha revelado ao mundo o seu complexo de Messias tão explicitamente como em Agosto passado, ao declarar “I am the chosen one!”. Muito menos proclamara da forma que o fez a 7 de Outubro, a sua “imensa e inigualável sabedoria”. Não será, pois, exagero dizer que, em "Jesus’ Son", a banda de Washington DC, viu o futuro: “God came to me in a dream and told me that I'm Jesus' son, I know this world is mean, it's lucky I'm the chosen one, I sparkle like the setting sun, I think I wanna hurt someone, I'm young and dumb and full of cum”. Texto profético e tão rico de significados, que tanto poderia aludir a The Donald, a um qualquer pregador evangelista do Deep South, ou ao Travis Bickle, de Taxi Driver.
Já em 2017, a propósito do álbum de estreia Nothing Feels Natural, publicado logo após a tomada de posse de Trump mas concebido e escrito bastante antes, os petardos que disparava (“You want some new brutalism? You want something you can write home about, you want something to move away for, a reason to colonize”) foram entendidos enquanto antecipação da nova idade das trevas que se aproximava. Afinal, do mesmo modo que os vizinhos e camaradas Gauche (com quem partilham a baterista Daniele Yandel) se inspiraram em A People's History Of The United States, de Howard Zinn, eles partiram de What’s the Matter With Kansas? How Conservatives Won the Heart of America, de Thomas Frank (2004) – um estudo do Sunflower State como barómetro da política americana –, para a criação de uma metáfora cultural e política dos EUA onde “all the cowboys, they get ready for a drawn-out, charismatic parody of what a country thought it used to be”, um “little YouTube Sartre” decreta que "There's no way to overthrow the bourgeoisie except tossing a hand grenade into your society" e a Dorothy do Feiticeiro de Oz, activando a magia dos sapatinhos vermelhos e segura de que “There’s no place like home”, regressa, feliz, ao Kansas. Menos esquemático e musicalmente mais complexo – a guitarra de G.L. Jaguar!... – do que o (óptimo) panfletarismo dos Gauche, apetece muito escutar ambos em sequência. A ordem é arbitrária.
18 February 2020
Howard Zinn - A People's History Of The United States (VIII)
Cap. 22: The Unreported Resistance
Cap. 23: The Clinton Presidency And The Crisis Of Democracy
Cap. 24: The Coming Revolt Of The Guards
27 November 2019
Howard Zinn - A People's History Of The United States (V)
Cap. 13: The Socialist Challenge
Cap. 14: War is the Health of the State
Cap. 15: Self-help in Hard Times
08 October 2019
Howard Zinn - A People's History Of The United States (II)
Cap. 4: Tyranny is Tyranny
Cap. 5: A Kind of Revolution
Cap. 6: The Intimately Oppressed
03 October 2019
Howard Zinn - A People's History Of The United States (I)
Cap. 1: Columbus, The Indians, and Human Progress
Cap. 2: Drawing the Color Line
Cap. 3: Persons of Mean and Vile Condition
07 November 2019
Howard Zinn - A People's History Of The United States (IV)
Cap. 10: The Other Civil War
Cap. 11: Robber Barons And Rebels
Cap. 12: The Empire and the People
07 December 2019
Howard Zinn - A People's History Of The United States (VI)
Cap. 16: A Peoples War
Cap. 17: "Or Does It Explode?"
Cap. 18: The Impossible Victory: Vietnam
08 January 2020
Howard Zinn - A People's History Of The United States (VII)
Cap. 19: Surprises
Cap. 20: The Seventies, Under Control?
Cap. 21: Carter-Reagan-Bush: The Bipartisan Consensus
20 October 2019
Howard Zinn - A People's History Of The United States (III)
Cap. 7: As Long As Grass Grows Or Water Runs
Cap. 8: We Take Nothing by Conquest, Thank God
Cap. 9: Slavery Without Submission, Emancipation Without Freedom
16 May 2020
Readings from Howard Zinn’s Voices of a People’s History of the United States