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07 June 2013
19 July 2010
ESPELHOS QUEBRADOS

Pop Dell’Arte - Contra Mundum

Abztraqt Sir Q - Extimolotion

Zelig - Joyce Alive!

Pop Dell’Arte - Contra Mundum

Abztraqt Sir Q - Extimolotion

Zelig - Joyce Alive!
Em 1983, Woody Allen criou a personagem Leonard Zelig, singular "camaleão humano" das décadas de 20 e 30 do século passado, capaz de, em virtude de uma incomum disfunção psíquica, involuntária e dolorosamente, mimetizar os traços de personalidade e os maneirismos sociais daqueles com que convivia. Começava a sua trajectória como freak circense e acabava na qualidade de herói de guerra mas – é da própria natureza das melhores histórias – não se ficaria pelas salas de cinema a sua peculiar condição. Exactamente da mesma forma que, dois anos depois, em outro filme de Allen, A Rosa Púrpura do Cairo, Jeff Daniels saltava do ecrã para o mundo real, o "síndroma de Zelig" - uma raríssima forma de perturbação cerebral – seria identificado, em 2007, por uma equipa de cientistas italianos dirigida por Giovannina Conchiglia. Não desistam de ler já: no quinto episódio da quarta temporada da série Dr. House (“Mirror, Mirror”), a um doente era diagnosticado o "síndroma de Giovannina", versão retorcidamente televisiva do Zelig original. E, por estes dias, há quem fale de um "síndroma de House", problema com que os médicos apenas humanos têm de lidar face à desconfiança dos doentes que não descobrem neles o poder dedutivo, sherlockianamente sobre-humano, do intratável figurão representado por Hugh Laurie. O qual (House, não Laurie), dizem as más línguas, sofrerá do "síndroma de Asperger". A arte imita a vida que imita a arte que imita a vida que imita a arte que imita a vida...
Para o que, agora, realmente, interessa, por diversos motivos, Zelig dá imenso jeito. Em primeiro lugar, porque uma das bandas portuguesas de que, aqui, se falará responde pelo nome de Zelig. E não inocentemente: são eles mesmos quem confessa que “a nossa música tem uma influência muito forte de muitos géneros diferentes. É uma música que se transfigura muito e passa por muitas mutações” e reivindicam Zelig-personagem como “metáfora da influência que as coisas exercem umas sobre as outras”. Depois, porque, tanto no caso deles como no dos Pop Dell’Arte e dos Abztraqt Sir Q, coexistem, em simultâneo, o impulso para a permanente transformação e a recusa de se deixarem indistinguir da atmosfera musical circundante. Por outras palavras, todos são Zeligs para si mesmos mas sobressaem, violentamente, no cenário, quais bizarras e inclassificáveis criaturas. Porque cometeram a proeza de reinventar a roda da gramática musical? Não, apenas porque, nesse toca-e-foge de mimetismo/antimimetismo, optaram pelo jogo de reflexos sobre espelhos quebrados e, sabiamente, recompuseram os estilhaços segundo as regras de uma (des)ordem muito pessoal e privada.
Prioridade, então, aos veteranos. Mas pela única razão de que, na circunstância, os Pop dell’Arte funcionam, de modo ideal, como precursores e elo de ligação – estético e ético – em relação aos outros dois grupos. Quixote romântico da segunda vaga do pop/rock luso, editor, com a independente Ama Romanta, de múltiplos embriões de muito e nada (Mler Ife Dada, Sei Miguel, Croix Sainte, Nuno Canavarro, Tó Zé Ferreira, Pascal Comelade, Mão Morta...), ao leme do "bateau-ivre" Pop Dell’Arte, João Peste inventou o equivalente musical de um jornal que somente é publicado quando tem, de facto, notícias relevantes para dar – de 1986 até hoje, pelo meio de singles, EP dispersos e compilações, apenas três álbuns: a memorável estreia de 1987, Free Pop (isso mesmo que o título insinua: a atitude libertária do free-jazz transposta, via Duchamp, Warhol e descendência para o universo-pop) e os quase nada menores Ready Made (1993) e Sex Symbol (1995). Pelo que, quinze anos depois, Contra Mundum seria sempre motivo de celebração. Acresce, entretanto, que não se trata, exclusivamente, de saudar o regresso do Pierrot Lunaire trágico da pop nacional: centrados no núcleo resistente Peste/José Pedro Moura, os Pop Dell’Arte que, de novo, escutamos reiniciam a jornada interrompida e voltam ao laboratório subterrâneo onde dão vida aos psicadelismos fadistas, às fanfarras eléctricas, aos arraiais weillianos e à poeticamente perversa candura de palavras e melodias estropiadas em bailado demente de que só eles conhecem o segredo.
É fácil relacionar os Pop Dell’Arte com os muitíssimo mais novos Abztraqt Sir Q. Desde logo, porque algum motivo terá havido para que João Peste (não propriamente uma guest star de serviço) tenha aparecido como convidado do seu óptimo álbum de estreia, Qorn Pop Garden, publicado no final de 2008. A afinidade que, então, já se pressentia – a costela teatral e operaticamente excessiva, os malabarismos linguísticos poliglotas, a veia experimentalista domesticada pelo vício pop – confirma-se integralmente mas, desta vez, em Extimolotion, aprofundando a morfologia ossuda das canções, o perfil esquinado das melodias e o solavanco rítmico como forma superior do riff, numa espécie de depuração última do pós-punk, filtrado através de trinta anos de história, alguma erudição e um prazer evidente em construir diagramas sonoros a três dimensões e bastante mais variantes cromáticas.
Os Zelig, enfim, são o improbabilíssimo lugar geométrico onde gente oriunda dos Ornatos Violeta, Pluto, Drumming, Dep, Electric Buttocks, Tchakare Kanyembe, Foge Foge Bandido e tropelias punk hardcore paralelas tropeça em Sun Ra, nos Naked City, em John Barry e Frank Zappa e, armada de marimbas, vibrafones, contrabaixo, flauta, teclados, percussões, serrote, guitarra e uma devastadora secção de sopros de faca nos dentes, capaz de passar a ferro uma seara, vai-se estatelar gloriosamente muito próximo da terra de ninguém onde, num hipotético momento de repouso, a Flat Earth Society de Peter Vermeersh e seus pacientes de Tourette associados recupera o fôlego, após mil refregas sonoras. António Serginho, Eduardo Silva, José Marrucho, Nico Tricot e Pedro Cardoso – muito conservatório, muito currículo de jazz, rock e ruídeira marginal afim – estão prontos para, caso seja necessário, operar como reserva estratégica da brigada de combate flamenga: as coordenadas do terreno conhecem-nas de cor e não têm a alma menos engarrafada de sonhos de Morricone em pagodes chineses, de surf bands flutuando em jangadas de juncos no Sahara, de James Bond correndo por entre semifusas numa animação musicada por Carl Stalling ou de cenas tórridas de Rita Hayworth nos braços de um mullah de Andrómeda. Não duvidem por um só segundo: com um máximo de prontidão, esse será sempre o mínimo que deles poderemos esperar.
(2010)
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29 December 2009
03 June 2009
UNIFICANDO OS ÚLTIMO E PENÚLTIMO POSTS
(sort of)

Modelo da "flat earth"
Flat Earth Society
(só um teaser): "In 1956, Samuel Shenton took over the Universal Zetetic Society and founded the Flat Earth Society. The organization took a hit when satellite images taken from outer space showed the Earth as a sphere rather than flat, but they were not fazed. Shenton remarked: 'It's easy to see how a photograph like that could fool the untrained eye'. The society also took the position that the Apollo Moon landings were a hoax, staged by Hollywood and based on a script by Arthur C. Clarke, a position also held by others not connected to the Flat Earth Society. On hearing this, Clarke sent a facetious letter to NASA's chief administrator: 'Dear Sir, on checking my records, I see that I have never received payment for this work. Could you please look into this matter with some urgency? Otherwise you will be hearing from my solicitors, Messrs Geldsnatch, Geldsnatch and Blubberclutch'".
(2009)
(sort of)

Modelo da "flat earth"
Flat Earth Society
(só um teaser): "In 1956, Samuel Shenton took over the Universal Zetetic Society and founded the Flat Earth Society. The organization took a hit when satellite images taken from outer space showed the Earth as a sphere rather than flat, but they were not fazed. Shenton remarked: 'It's easy to see how a photograph like that could fool the untrained eye'. The society also took the position that the Apollo Moon landings were a hoax, staged by Hollywood and based on a script by Arthur C. Clarke, a position also held by others not connected to the Flat Earth Society. On hearing this, Clarke sent a facetious letter to NASA's chief administrator: 'Dear Sir, on checking my records, I see that I have never received payment for this work. Could you please look into this matter with some urgency? Otherwise you will be hearing from my solicitors, Messrs Geldsnatch, Geldsnatch and Blubberclutch'".
(2009)
DETONAÇÃO EM DIRECTO

Flat Earth Society - Cheer Me, Perverts!
Muito dentro do espírito da coisa, convém esclarecer logo que Cheer Me, Perverts! é um anagrama do nome de Peter Vermeersch, líder da trupe belga de loucos com um instrumento musical nas mãos que, em determinadas condições de temperatura e pressão, responde pela designação de Flat Earth Society (eu, pelo menos, dou de barato que se trata, de facto, de um anagrama mas suponho que eles até levariam a mal que alguém se desse ao trabalho de ir verificar).
FES, Sines, Portugal, 2008
Na capa do CD está uma dezena e meia de figurões brandindo sopros vários (sax, trompete, euphonium, trombone, clarinete, tuba, flauta) mas há que acrescentar também guitarras, teclados, acordeão e bateria e, para fornecer um GPS estético mínimo, sugerir a audição dos anteriores Isms (2004) e Psychoscout (2006). Ainda que com toda essa preparação, o impacto produzido pelo que apenas se pode caracterizar como a detonação em directo de uma big-band tal como Duke Ellington (ou mesmo Sun Ra) nunca seriam capazes de a imaginar – membros decepados de Bernard Herrmann e Kurt Weill volteiam pelos ares, as palavras "erupção" e "cavalgada" escrevem-se sozinhas no teclado – poderá, sem dúvida, provocar danos sérios, irreparáveis e imensamente desejáveis.
(2009)

Flat Earth Society - Cheer Me, Perverts!
Muito dentro do espírito da coisa, convém esclarecer logo que Cheer Me, Perverts! é um anagrama do nome de Peter Vermeersch, líder da trupe belga de loucos com um instrumento musical nas mãos que, em determinadas condições de temperatura e pressão, responde pela designação de Flat Earth Society (eu, pelo menos, dou de barato que se trata, de facto, de um anagrama mas suponho que eles até levariam a mal que alguém se desse ao trabalho de ir verificar).
FES, Sines, Portugal, 2008
Na capa do CD está uma dezena e meia de figurões brandindo sopros vários (sax, trompete, euphonium, trombone, clarinete, tuba, flauta) mas há que acrescentar também guitarras, teclados, acordeão e bateria e, para fornecer um GPS estético mínimo, sugerir a audição dos anteriores Isms (2004) e Psychoscout (2006). Ainda que com toda essa preparação, o impacto produzido pelo que apenas se pode caracterizar como a detonação em directo de uma big-band tal como Duke Ellington (ou mesmo Sun Ra) nunca seriam capazes de a imaginar – membros decepados de Bernard Herrmann e Kurt Weill volteiam pelos ares, as palavras "erupção" e "cavalgada" escrevem-se sozinhas no teclado – poderá, sem dúvida, provocar danos sérios, irreparáveis e imensamente desejáveis.
(2009)
05 March 2008
SEGURANÇA NÃO GARANTIDA
Julian Curwin - The Tango Saloon
Flat Earth Society - Psychoscout
A Ipecac é uma daquelas editoras independentes que se comporta inteiramente à altura daquilo a que, por definição, o estatuto de independência deveria obrigar sempre: publicar música que, de outra forma — isto é, entregue ao negócio de charcutaria das "majors" —, dificilmente, alguma vez, teria oportunidade de ser escutada; nessa área delimitada, garimpar incansavelmente com uma peneira de malha muito fina, de modo a que apenas as pepitas verdadeiramente preciosas ultrapassem o processo de selecção. Mike Patton baptizou-a com o nome de um medicamento emético — isto é, indutor do vómito — extraído da ipecacuanha e atrbuiu-lhe o lema "making people sick since 1999" mas isso foram apenas extravagâncias adjacentes que não impediram que, em 2004 e 2005 (num catálogo de luxo que inclui Bohren & Der Club Of Gore, Eyvind Kang, Isis, Mouse On Mars, Steroid Maximus/Jim Thirwell, Tomahawk ou Yoshimi & Yuka), tenha sido responsável por dois dos álbuns que deveriam ter encabeçado todos os balanços de fim de ano: Isms, da Flat Earth Society, e Crime And Dissonance, de Ennio Morricone.
The Tango Saloon é o candidato que se segue, daqui a três meses: Julian Curwin (guitarra, baixo e teclados) e uma extensa trupe de músicos do perímetro "experimental/música improvisada" australiano, armados de sopros, cordas, acordeão e percussões desenham o mapa integral de um território de ficção onde o tango fornica selvaticamente com as bandas sonoras dos "western spaghetti" e Piazzolla e Morricone se entregam a acrobáticos pugilatos coreográficos enquanto, à volta, num desordenado teatro de guerra, farrapos de country se convertem em petardos de free-jazz, este se fantasia de realejo de feira e, lá ao fundo, Weill, a Pantera Côr-de-Rosa, Sun Ra, Nino Rota, Thelonious Monk, Raymond Scott e Miles Davis praticam os rituais secretos de uma etnia virtual. É muito, muito bom e acaba de vez com a paciência para aturar música inferior.
(o resto aqui)
O que não é, de todo, o caso de Psychoscout, da Flat Earth Society, agora acolhida pela Crammed Discs, onde prossegue a exploração do novelo de labirintos sonoros a que havíamos sido apresentados em Isms (compilação dos quatro primeiros álbuns). A matriz é ainda a da "big band" mas os catorze elementos da brigada de demolição flamenga fundada em 1999 por Peter Vermeersch — currículo anterior: X-Legged Sally e Maximalist!, partituras para as companhias de dança de Anne Teresa De Keersmacker e Wim Vandekeybus, para o Arditti Quartet, Ensemble Musique Nouvelle, colaborações com Fred Frith, Uri Caine e Toots Thielemans — aprofundam aqui radicalmente a sua estética de pós-modernismo truculento, sarcástico e vertiginosamente eclético. Se, aos Lounge Lizards, ficou colada a categoria de "fake-jazz", a Flat Earth Society (caso se queira entrar no jogo fácil das etiquetas) tenderá antes para o "punk-jazz".

Mas ficar por aí seria só preguiça indesculpável: no turbulento caldeirão de Psychoscout, o histérico frenesim de John Zorn em modo-Naked City vive paredes meias com as surreais arquitecturas do Carl Stalling das Looney Tunes, a estridência orquestral de John Barry, a herança erudita europeia de Stravinsky a Bartók e estilhaços de refregas posteriores, os caleidoscópios esventrados de Zappa e Beefheart, o "lounge" felinamente enviezado de Mancini e Les Baxter, o flamenco ébrio e o jazz ("noir", delirantemente free e atonal, descendente de Mike Westbrook ou Coltrane ou ellingtonianamente acetinado). Na contracapa, encontra-se, talvez, uma boa definição do álbum (que também não assentaria nada mal a Tango Saloon...), sob a forma de reprodução de um anúncio classificado, de Oakview, na Califórnia: "Wanted: somebody to go back in time with me. This is not a joke. You'll get paid after we get back. Must bring your own weapons. Safety not guaranteed. I have only done this once before". (2006)
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03 March 2008
NUM CERTO SENTIDO

Flat Earth Society - Isms
O mundo é um lugar pouco saudável. De onde, provavelmente, só se pode sair incólume praticando uma variedade de loucura mansa que consiste em conduzir o sentido de humor até ao extremo absoluto do "nonsense" radical sem nunca perder a compostura. Isto é, interiorizar a atitude-Monty Python não como género de comédia mas enquanto procedimento normal do dia-a-dia. Há quem o pratique de modo habitual e corrente. Por exemplo, os animadores das diversas "Flat Earth Societies" que pululam pela Net. Todas dedicadas, evidentemente, a demonstrar que a Terra não é esférica mas sim plana, se uma atribui a responsabilidade do "grande embuste" que, há séculos, nos "é impingido" a um tal de "Grigori Efimovich que o resto do mundo mais tarde viria a conhecer como Cristóvão Colombo" (Grigori Efimovich era o nome de Rasputine mas isso, claro, não interessa), outra, "através da investigação patafísica, da pesquisa empírica e da troca de ideias", defende que "a Terra é plana e tem cinco lados, todos os locais no universo chamados Springfield não passam de portais para uma dimensão superior e todas as afirmações são verdadeiras em determinado sentido, falsas em certo sentido, sem qualquer sentido num outro sentido, verdadeiras e falsas em ainda outro sentido, verdadeiras e sem sentido num certo sentido, falsas e sem sentido em algum sentido e verdadeiras, falsas e sem sentido noutro sentido".
(aerial dancing no festival de jazz de Vancouver de 2006;
em fundo, a Flat Earth Society)
Ainda que isto (em certo sentido) possa evocar o espírito e a letra de algumas campanhas eleitorais, imagino que não fosse exactamente nisso que os militantes da "Flat Earth" estivessem a pensar. Mas só pode ter sido numa idêntica lógica Lewis Carroll-com-anfetaminas que Peter Vermeersh estava a pensar quando baptizou como Flat Eart Society a sua big-band de dementes furiosos e iconoclastas belgas. Tentem visualizar uma violenta batalha campal entre, de um lado, Morricone, Sun Ra, Captain Beefheart e Stravinsky, comandados por John Zorn, e, do outro, a No Smoking Band de Kusturica, Frank Zappa, Bela Bartok e John Barry, sob as ordens de Carl Stalling. A estética geral será a da colisão frontal de dois TGV em velocidade máxima, o cenário é o do "Apocalypse Now Casino" a inaugurar em breve numa galáxia perto de si e acredite que está tudo bem (não, não está sofrer de alucinações visuais/auditivas) se vir as silhuetas de Nick Cave, Louis Armstrong ou Charles Bronson com a sua harmónica, numa conga-line, à frente de um desfile do dragão chinês, embalado pelo Bolero de Ravel. Mike Patton compilou e publicou. Estou francamente convencido que, num certo sentido, o mínimo que se pode chamar a isto é genial. (2005)

Flat Earth Society - Isms
O mundo é um lugar pouco saudável. De onde, provavelmente, só se pode sair incólume praticando uma variedade de loucura mansa que consiste em conduzir o sentido de humor até ao extremo absoluto do "nonsense" radical sem nunca perder a compostura. Isto é, interiorizar a atitude-Monty Python não como género de comédia mas enquanto procedimento normal do dia-a-dia. Há quem o pratique de modo habitual e corrente. Por exemplo, os animadores das diversas "Flat Earth Societies" que pululam pela Net. Todas dedicadas, evidentemente, a demonstrar que a Terra não é esférica mas sim plana, se uma atribui a responsabilidade do "grande embuste" que, há séculos, nos "é impingido" a um tal de "Grigori Efimovich que o resto do mundo mais tarde viria a conhecer como Cristóvão Colombo" (Grigori Efimovich era o nome de Rasputine mas isso, claro, não interessa), outra, "através da investigação patafísica, da pesquisa empírica e da troca de ideias", defende que "a Terra é plana e tem cinco lados, todos os locais no universo chamados Springfield não passam de portais para uma dimensão superior e todas as afirmações são verdadeiras em determinado sentido, falsas em certo sentido, sem qualquer sentido num outro sentido, verdadeiras e falsas em ainda outro sentido, verdadeiras e sem sentido num certo sentido, falsas e sem sentido em algum sentido e verdadeiras, falsas e sem sentido noutro sentido".
(aerial dancing no festival de jazz de Vancouver de 2006;
em fundo, a Flat Earth Society)
Ainda que isto (em certo sentido) possa evocar o espírito e a letra de algumas campanhas eleitorais, imagino que não fosse exactamente nisso que os militantes da "Flat Earth" estivessem a pensar. Mas só pode ter sido numa idêntica lógica Lewis Carroll-com-anfetaminas que Peter Vermeersh estava a pensar quando baptizou como Flat Eart Society a sua big-band de dementes furiosos e iconoclastas belgas. Tentem visualizar uma violenta batalha campal entre, de um lado, Morricone, Sun Ra, Captain Beefheart e Stravinsky, comandados por John Zorn, e, do outro, a No Smoking Band de Kusturica, Frank Zappa, Bela Bartok e John Barry, sob as ordens de Carl Stalling. A estética geral será a da colisão frontal de dois TGV em velocidade máxima, o cenário é o do "Apocalypse Now Casino" a inaugurar em breve numa galáxia perto de si e acredite que está tudo bem (não, não está sofrer de alucinações visuais/auditivas) se vir as silhuetas de Nick Cave, Louis Armstrong ou Charles Bronson com a sua harmónica, numa conga-line, à frente de um desfile do dragão chinês, embalado pelo Bolero de Ravel. Mike Patton compilou e publicou. Estou francamente convencido que, num certo sentido, o mínimo que se pode chamar a isto é genial. (2005)
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