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17 February 2008

BIG BROTHER IS NOT JUST WATCHING YOU,
HE'S MONITORING YOUR BRAIN TOO! (parte II)




"Dave, Dave, my mind is going. I can feel it. I can feel it. My mind is going. There is no question about it. I can feel it. I can feel it. I can feel it. I'm a... fraid"

"As chief scientist at market research company Neuroco of Weybridge, England, [David] Lewis conducts similar experiments for global players including Bridgestone, Hewlett-Packard, and some in the food, beverage, and cosmetics industries. The United Kingdom’s first agency built on the nascent science of neuromarketing, Neuroco is at the forefront of a new discipline being touted as the most important breakthrough in marketing research in a generation. The theory is certainly intriguing: by studying activity in the brain, neuromarketing combines the techniques of neuroscience and clinical psychology to develop insights into how we respond to products, brands, and advertisements. From this, marketers hope to understand the subtle nuances that distinguish a dud pitch from a successful campaign.

'There’s a lot to learn about consumer behavior by opening up the black box,' says Harvard University economics professor David Laibson. (...) A self-described embryo in the sprawling $358 billion global advertising industry, privately held Neuroco hopes to parlay its neuromarketing insights into riches. Because neuromarketing is so new — and so potentially creepy — Neuroco’s brandname clients are reluctant to talk about the research they’ve commissioned. (...) But Neuroco is off to a promising start; founded in March, the company has already signed up six multinational clients and established relationships with many of Britain’s largest advertising agencies. (...)



Take insurance — an industry not known for running unnecessary risks. Hired by Royal & SunAlliance, the second-largest U.K. insurance company, Lewis evaluated one of Royal’s 30-second television spots by wiring 60 volunteers with electrodes. Then, shot by shot, frame by frame, Lewis examined the subjects’ EEG readings as they watched the commercial.
He discovered that the viewers’ brains were most engaged during the ad’s dramatic action scene, but interest flagged significantly at the tagline, 'You’d better ring the Royal.'
'The results suggested that the catchphrase was unlikely to prove memorable,' Lewis concluded. Royal pulled the spot shortly after the experiment.

To dig out such secrets, Neuroco charges an average of $90,000 per study. And its list of services is growing: the firm will evaluate the subliminal power of colors, logos, or product features. It measures the mental might of music or jingles, the heft of celebrity endorsers, and the most brainwave-soothing designs for store layouts. (...)


'If you get the emotional impact of the message right, everything else will follow,' Lewis says."
(repescado daqui porque deverá mesmo ser lido)



"Este método de analisar o cérebro, desvendar as decisões dos consumidores e indicar a gestores e técnicos de marketing a melhor forma de falar com os clientes já é utilizada por empresas como a Procter & Gamble, Audi e Hewlett Packard. A 20th Century Fox também recorre a esta ferramenta para aumentar ou cortar cenas de filmes em função do seu impacto." (in Expresso/Economia de 16.02.08)

(2008)

16 February 2008

BIG BROTHER IS NOT JUST WATCHING YOU,
HE'S MONITORING YOUR BRAIN TOO! (parte I)



Dr. David Lewis

"Encontrar uma promoção pode disparar o ritmo cardíaco para 192 bpm, com efeitos semelhantes ao de uma paixão, indica um estudo liderado por David Lewis, neuropsicólogo especializaddo no comportamento dos consumidores. O trabalho realizado em Inglaterra, em Julho de 2007, com o objectivo de explorar os efeitos psicológicos e neurológicos das promoções no consumidor, concluiu também que a adrenalina causada equivale a um salto de paraquedas, mostrando que 'parece haver um caçador de promoções dentro de cada um'. (...) Neste estudo, David Lewis usou uma nova ferramenta desenvolvida pela Mind Lab International e pela Universidade de Sussex que permite criar instrumentos de pesquisa capazes de fornecer mais detalhes sobre o funcionamento da mente no que toca às suas motivações, preferências, ambições, expectativas e necessidades de consumo. (...) Em Portugal, a ferramenta será testada a 27 de Fevereiro, numa grande superfície do grupo SONAE. Logo de seguida, David Lewis explica a relação entre a neurociência e o marketing na II Conferência da QSP - Consultoria de Marketing, subordinada ao tema 'Como é que o marketing pode inovar?'" (in Expresso/Economia de 16.02.08)


NEUROMARKETING EM ACÇÃO



"An attractive Englishwoman in her early 20s wanders the mall with a set of electrodes affixed to her scalp, David Lewis sees the activity of her alpha and beta brain waves — 'the stuff of human thought' he calls it — splashing across his computer screen in a zigzagging mass of red and green. 'She’s alert but not engaged', he explains as his subject saunters into an upscale shoe store. Which is true, until she picks up a pair of pink stilettos. Suddenly a colorful explosion of activity cascades across Lewis’s screen. 'You can see that beta activity on the left side of the brain — the analytical side — falls away,' he explains. 'Look how quickly the purchase decision takes place!' And indeed, a few minutes later, the cash register rings and the woman strides back into the mall with the pair of heels in a bag."

(2008)

29 September 2007

UMA PRODIGIOSA SUCESSÃO DE ACONTECIMENTOS CONDUZIU-ME A RESSUSCITAR UMA MÃO-CHEIA DE "OFF-THE RECORDS", DE NOVO (plus ça change...), DESGRAÇADAMENTE PERTINENTES (II)


O MAIOR DEFEITO

Experimentemos juntar algumas pontas soltas de informação:

1) Segundo diversos relatos coincidentes, a edição deste ano do festival Lollapalooza — criado em 1991 por Perry Farrell como uma ostensiva e transgressora coligação de punk, rock hard e margens negras afins — que teve lugar no primeiro fim de semana de Agosto, em Chicago, caracterizou-se por uma significativa mudança de atitude na maioria das bandas presentes: prevaleceu um espírito de razoabilidade cívica muito "clean cut", sucederam-se os apelos ao "espírito comunitário", os rappers/hip-hoppers de serviço (Kanye West, Common, Blackalicious) distinguiram-se pelos temas de "pensamento positivo" e genérico afastamento da pose "gangsta" e "Deus" parece ter sido um tópico recorrente (Common terá até protagonizado um sermão no qual sublinhou que "todos temos em nós a luz divina") — o que, no "New York Times", Jon Pareles sintetizou assim: "Os teóricos da sociologia poderão afirmar que, cinco anos depois do início da guerra contra o terrorismo, as relações entre a cultura juvenil e a autoridade modificaram-se. (...) O Lollapalooza já não é rebelde. Mas, se virmos bem, também a pop não o é".

2) Em 1986, quando o ex-guevarista e então conselheiro de Mitterrand, Régis Debray, declarava que "os blue jeans e o rock'n'roll têm mais poder do que todo o Exército Vermelho", não fazia senão repetir as utópicas profecias de Charles Reich em The Greening of America (uma das bíblias da "contracultura" dos anos 70), manifesto que anunciava a nova era de uma "Consciência III" de paz, amor e liberdade, exemplificando como os jeans simbolizavam "uma relação significativamente nova entre o homem e a tecnologia", proporcionando um bem de consumo barato e que não hierarquizava grupos sociais. No recentemente publicado Jeans - A Cultural History Of An American Icon, James Sullivan lança a última pazada de terra sobre tão piedosas ideias, demonstrando como aquilo que começou por ser um par de calças de trabalho de mineiros se converteu em "status symbol" de marca, objecto de agressivas campanhas de marketing e, definitivamente, tudo menos uma bandeira do igualitarismo social.

3) No seu actual espectáculo, Trio: Songs And Stories, Laurie Anderson ressuscita o ensaio de 1978, de George W. S. Trow, Within The Context Of No Context, uma outra profecia de sentido oposto à de Charles Reich: os media (em especial, a televisão) degradariam, condicionariam e reestruturariam a percepção do real, instituindo "o contexto de nenhum contexto" e mergulhando as massas numa atmosfera de apático hedonismo reles, ignaro e irremediavelmente destituído de valores culturais. Também Trow, no fundo, adiantava muito pouco aquilo que, quarenta e três anos antes, o fascista e sinarquista francês, Jean Coutrot, sugeria: "Nesta altura, não seria impossível com o que aprendemos com as leis da psicologia colectiva, especificar uma técnica moderna de revolução... Um revolucionário metódico tem como seu objectivo preciso a transmutação da estrutura social do seu país, a modificação até certo ponto, das mentes e dos corações dos seus cidadãos e a sua conversão à sua própria opinião. Conhecemos o extraordinário desenvolvimento das técnicas de persuasão — educação, propaganda, imprensa, livros, revistas, cinema, o gramofone, a rádio e a televisão — que acompanham o indivíduo a toda a hora e na maior parte do seu domicílio, afectando o desenvolvimento da sua personalidade. A maior parte dos nossos contemporâneos recebe todos os seus factos, os seus sentimentos, as suas ideias, desta maneira; é possível esvaziar os homens a partir do seu interior, como se escava o interior de um melão, substituindo as pevides insípidas por um aromático vinho do Porto e introduzir neles, sem perigo nem desperdício, os conteúdos psicológicos escolhidos".

4) Machado de Assis, no capítulo LXXI de Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), coloca na pena do seu defunto protagonista as palavras: "O livro é enfadonho, cheira a sepulcro, traz certa contracção cadavérica, vício grave, e aliás ínfimo, porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer e o livro anda devagar; tu amas a narrativa direita e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...".

Entre inúmeras outras conclusões possíveis e (talvez bastante mais) necessárias *, ensaiemos uma, certamente menor mas esclarecedora: numa atmosfera global "clean cut", socialmente anestesiada e cientificamente "esvaziada a partir do interior", o que poderá existir senão uma imensa massa de "maiores defeitos" para acolher um álbum como, por exemplo, The Drift, de Scott Walker, que exala o odor da peste, urra, gargalha, guina à esquerda e à direita, ameaça o céu e nos enfia o horror do mundo pelos olhos dentro?

* (concentrem-se, agora, nessas, sff)

(2006)

15 July 2007

O MUNDO ABSTRACTO



Laurie Anderson atende-me no quarto 206 de um hotel de Oldenburg, no Norte da Alemanha e, a certa altura, pareceu-me ser meu dever informá-la de que, aquela cidade, foi, em 1667, devastada pela peste. Não se tratava tanto de ampliar os seus conhecimentos de História como de fazer a ponte entre o tipo de peste de que ela, acabara de me falar e a outra que eu pretendia introduzir a seguir. Por um motivo bastante evidente: Homeland (designação da actual tournée e também do próximo álbum anunciado para 2008), ao voltar a investigar a natureza do mal americano, não é, no fundo, substancialmente distinto da peste eterna que evoca Plague Songs (o álbum-consequência do projecto "Margate Exodus" em que Anderson participou), aludindo, em simultâneo, às "dez pragas do Egipto" do Antigo Testamento e à emigração contemporânea.

Aparentemente, esta sua digressão que intitulou Homeland volta a centrar-se em Within The Context Of No Context, o livro de George W. S. Trow, que já funcionava como estímulo para Trio: Songs And Stories que apresentou em Montemor, no ano passado. Quais as diferenças entre um e outro?
Há apenas uma ou duas coisas em comum. São cerca de dezassete canções e é um espectáculo completamente diferente em que também improvisamos bastante. Várias das canções são muito políticas, outras são mais pessoais e lidam com o universo da sensualidade, aponta para diversas direcções. Continuo a achar que o George Trow é um escritor muito interessante mas, neste momento, já não constitui o tema central.

The End Of The Moon – que trouxe ao Porto, em 2005 – era a segunda parte de uma trilogia que iniciou com Happiness. Homeland é a terceira?
Homeland é uma oportunidade para fazer um pouco mais de música do que o habitual. Happiness e The End Of The Moon eram poemas realmente extensos. Talvez no próximo ano volte a pegar na trilogia e a conclua. Mas andava a sentir muito a falta de fazer música, quase já me tinha esquecido de como se compõe... fiz um filme, instalações, publiquei um livro, tudo coisas de que a música era pouco mais do que a banda sonora. Este projecto assenta muito mais no violino e no trabalho sobre a harmonia e as cordas do que em “samplers” e teclados. Mas continua a haver bastante electrónica, é um trabalho transparente e que, embora não o pareça – é isso que desejo –, é muito complexo.



Homeland, o álbum anunciado para 2008, terá, portanto, mais ou menos, a estrutura destes concertos?
Exacto. Destas peças, seleccionarei umas quantas a que juntarei algumas outras sobre as quais ainda estou a trabalhar. Parece-me a melhor forma de gravar um disco, construí-lo gradualmente, em vez de gravar primeiro uma série de canções e, só depois, as apresentar ao vivo.

De qualquer forma, nunca se descreveu exactamente como "música" mas como “storyteller”, o seu único álbum realmente “de canções” foi Strange Angels...
É verdade. Seguia bastante o padrão convencional de estrofe-refrão. Mas era mesmo de fazer música que andava a sentir saudades, de tocar com outros executantes de cordas num pequeno ensemble. Já tinha tocado com uma orquestra mas nunca deste modo. É um prazer sentir como a música se pode abrir assim, neste formato.

Começou com United States I-IV. Depois, publicou Home Of The Brave. Agora, Homeland. O seu país obceca-a?
Nestes últimos três anos, tantas coisas mudaram que decidi espreitá-lo mais uma vez. É tão terrivelmente estranho e tão perturbantemente familiar que tentei descrevê-lo como o vi. Sob muitos aspectos, está a tornar-se muito abstracta a relação que estabelecemos com um lugar, com uma terra. Apesar de continuarmos em guerra no Iraque, 60% dos americanos ignora em que continente ele se situa.



Talvez até o próprio Bush...
(risos) Oh sim... provavelmente ainda não faz nenhuma ideia... o nível de abstracção é muito elevado. Tal como a luta contra o terrorismo se trava contra fantasmas, não podemos ir até à terra-do-terror, identificar-lhe as fronteiras. Mesmo nas coisas mais simples: por exemplo, em Nova Iorque, só resta meia dúzia de lojas de discos, toda a gente faz “downloads”. Muitas estruturas que nos habituámos a ver nas cidades, como os balcões dos bancos, também estão a desaparecer. Tudo isso transforma não só a paisagem como a mentalidade.

É como se o mundo estivesse a tornar-se definitivamente platónico...
(risos) Ultimamente, parece, de facto, caminhar nessa direcção. Claro que continuamos a precisar de comer. Mesmo que sejam alimentos geneticamente modificados... Por outro lado, nos EUA, há muito pouco diálogo político. E, ainda que votássemos noutro partido, sabemos que ele também não poderia por fim à guerra no Iraque quando nos apercebemos de que... oops! não é o governo quem conduz a guerra!... É o que acontece quando o que, essencialmente, conta é o dinheiro, quando os grandes conglomerados empresariais tomam as rédeas do espectáculo. Há dez ou doze anos, nos EUA, havia cerca de 300 mil presos. Desde que as prisões foram privatizadas, há 3 milhões. Este triunfo do capitalismo deixa muito pouco espaço para o pensamento: cada pessoa sonha apenas com o novo modelo de automóvel, o novo laptop, o novo iPod...



Já que estamos a falar acerca de uma praga dos tempos modernos – a propósito, não sei se sabe que Oldenburg, a cidade onde agora mesmo está a conversar comigo, foi devastada pela peste, em 1667...
A sério?!!!... Céus... Oldenburg?...

(risos) É verdade... mas ia perguntar-lhe como foi o seu envolvimento com o projecto “Margate Exodus” que deu origem ao álbum Plague Songs...
O Michael Morris disse-me que, em Margate, iriam reencenar o êxodo dos hebreus do Egipto o que era uma das coisas mais estranhas que já tinha ouvido e, evidentemente, quis participar. Das dez pragas, fiquei com a da morte do gado. Como poderia eu pegar naquele tema? Para começar, a ira de Deus e os tormentos que ele infligiria às pessoas não é algo em que acredite ou me interesse muito... passei algum tempo num rancho, no Texas, mas o que me inspirou foi o trabalho de Temple Grandin, uma artista que se especializou em gado e que concebeu instalações destinadas a diminuir o sofrimento dos animais durante o processo de abate. Acabou por ser contratada pela McDonald’s para trabalhar nos matadouros deles porque, segundo parece, se os animais forem abatidos com grande sofrimento e medo, a carne fica menos tenra. Li vários livros dela e achei-os fascinantes.



É, então, uma especialista em eutanásia animal...
Exacto. O “Margate Exodus” incidia sobre as políticas de imigração que autorizam os africanos a entrar em Inglaterra mas que, depois, não lhes permitem o acesso a uma vida normal. São transportados para o Norte de Inglaterra e praticamente encarcerados em instalações onde não lhes é possível integrar-se, trabalhar, relacionar-se com as pessoas locais.

Portanto, muito logicamente, decidiu escrever sobre... touradas...
(risos) A tourada pareceu-me a forma mais crua de exprimir o que pretendia, essa sensação de horror e fascínio. Levaram-me a assistir a uma (não que eu o desejasse fazer) e, não consegui deixar de ver, era tão primitivo, um homem e um touro, quase me esqueci de que ali estava. Embora não possa dizer que tenha gostado – não gosto de ver o sofrimento dos animais – consegui compreender porque existem, é como uma imensa ópera sanguinária. (2007)

19 March 2007

SONHOS, TUMORES E SOMBRAS

Em 1978, George W. S. Trow viu o futuro e ele era aterrador. Um mundo onde os media (e a televisão, em particular), lenta mas inexoravelmente, haviam corroído o humano e o social tal como, até aí, os conhecíamos, tinham degradado ao nível do cavernícola a cultura e a ideia que dela fazíamos, e, entre a "grelha do indívíduo" e a "grelha dos media", submetido ao que designava como "the aesthetics of the hit", o trabalho da televisão consistia em condicionar e alterar a percepção do real "estabelecendo falsos contextos e redigindo a crónica da decifração dos contextos existentes para, finalmente, instituir o contexto de nenhum contexto e a ele se dedicar". Quase trinta anos depois, a profecia de Within The Context Of No Context é o mundo em que vivemos, do qual a maioria do sapiens sapiens até, aparentemente, aprendeu a gostar e só muito dificilmente abdica. Trio: Songs And Stories, de Laurie Anderson, começa por citar George W. S. Trow — o qual, de certo modo, acaba por servir de conceito-oculto de todo o espectáculo — e, naquela forma casualmente informal (mas milimetricamente estruturada) que é habitual nos seus concertos/performances de "spoken word", deambula em zig-zag por entre uma rede de associações livres, saltos mortais entre sonhos e memória e choques frontais com o mundo-em-bruto.


Quando o castelo de Montemor-o-Velho foi edificado, no século X, Portugal ainda não existia. Quando, no passado sábado, Laurie Anderson nele entrou (pela Porta da Peste, na barbacã?), trazia para nos contar uma história acerca de bandos de pássaros que voavam em círculos sobre o vazio, quando nem sequer o espaço nem o tempo existiam. E como um deles, ao aperceber-se que não havia terra onde sepultar o pai, o enterrou na própria nuca, assim dando origem à memória. Sonho? Como o do flautista que, no estúdio, tocava completamente despido e coberto de insectos que eram, afinal, apenas minúsculos microfones? Ou como o dos colossais Underwear Gods que descem das paredes dos edifícios urbanos e caminham, como Godzilla, pelo meio das cidades? Ou memória?


Para The Waters Reglitterized (exposição de desenhos, gravuras e video de alta-definição inaugurada em Setembro do ano passado na Sean Kelly Gallery de Nova Iorque), Laurie conta como sentiu o desejo de começar a desenhar os sonhos e a familiarizar-se com a sua linguagem: "Sonhamos para recordar ou para esquecer? E para quê sonhar se quase sempre esquecemos os sonhos logo a seguir?". E, depois de citar Henry Miller ("Podemos olhar para as coisas durante toda a vida sem realmente as ver. Este 'ver' é, muitas vezes, uma forma de 'não ver'. Se formos vendados, podemos desenvolver os sentidos do tacto, olfactivo e auditivo e, assim, ver, pela primeira vez"), apresenta o seu projecto pessoal de reprogramação: "Reinventar o que já vimos, recriar a sua energia sensual animal. E reconhecê-lo como a ilusão que, na verdade, é. O meu objectivo secreto é começar a ver desta forma não apenas os sonhos mas também aquilo que penso quando estou acordada".Só é difícil no princípio. Por isso, recupera um elo de ligação com o anterior The End Of The Moon ("It's like stuttering. You're only afraid at the beginning. That's where the fear is. So you only st-st-stutter at the beginning of a word. When it's st-starting. I mean, nobody ever stutters at the end, there's no stuttering-ing-ing-ing-ing. Because by then it's too late to be afraid. By then there are only the regrets") e, pela mão de Trow, "life on a string", caminha sobre o arame, que começou a desenhar, desde a Institutional Dream Series dos anos 70 ("Tudo começou pelo facto de eu adormecer nas aulas de História de Arte. Nos sonhos, misturava a minha vida pessoal com a História de Arte. Passei, então, a ir para locais diferentes, como as sessões noturnas de um tribunal, um barco que estava atracado no porto de South Street, uma casa de banho de mulheres ou a biblioteca da universidade de Columbia e adormecia. Escrevia os sonhos e as associações que neles fazia com a instituição onde aconteciam. Era muito interessante. Especialmente os do tribunal. Era quase como olhar para uma história fotográfica") até The Waters Reglitterized e Trio.


E martela lugares-comuns até os desfazer em pó ("Only an expert can see the problem. And only an expert can deal with the problem. Sometimes an expert is part of the problem. But only an expert can deal with the problem"), dirige faróis de nevoeiro contra o mundo-fantasma dos zombies dos media, recoloca dois ou três pontos nos "i" ("Most of the time, when we say 'Hey America!', it's a small group we have in mind") e, eventualmente, tropeça na mesma precária conclusão a que já chegara em The End Of The Moon: "Maybe the answer is that life itself is just bad art". Skuli Sverrison (baixo), Peter Scherer (teclados) e os cantos guturais e as cordas dos Chirgilchin siberianos (assim como o violino, teclados e projecção de imagens de Laurie Anderson) foram apenas os adereços mínimos indispensáveis para um bloco operatório de sombras onde se tratava somente de extraír o mais profundamente alojado dos tumores: "And then, at the bottom of the heap, there's your subconscious. And it's always trying to communicate but the problem is it can't use words. And so it shows you things. See this blue? What does this remind you of? And you can spend years trying to figure this kind of thing out". (2006)